Ipos — História, Simbolismo E Tradição Do 22º Espírito Da Ars Goetia

Ipos é uma das figuras mais peculiares da tradição demonológica posteriormente organizada na Ars Goetia. Ocupando a posição de número 22 no catálogo goético, ele reúne duas dignidades hierárquicas — Conde e Príncipe — e possui uma aparência híbrida que combina características angélicas, leoninas e animais.
Sua representação tradicional é composta por elementos aparentemente incompatíveis: uma forma descrita como angelical, cabeça de leão, pés de ganso e cauda de lebre. Essa combinação produz uma das iconografias mais particulares entre os espíritos apresentados nessa parte do Lemegeton.
Suas atribuições também diferenciam Ipos de muitas outras figuras do catálogo.
Ele aparece relacionado ao conhecimento de acontecimentos passados e futuros e à capacidade de tornar uma pessoa mais perspicaz, intelectualmente ágil e ousada. Em determinadas edições posteriores, sua capacidade temporal é apresentada de maneira ainda mais abrangente, incluindo passado, presente e futuro.
A história textual de Ipos, entretanto, começa antes da organização conhecida da Ars Goetia.
Johann Weyer já registrava uma figura praticamente equivalente no século XVI sob o nome Ipes, acompanhado da variante Ayperos. Posteriormente, Reginald Scot transmitiria o nome como Ipos, acrescentando outra variante, Ayporos.
Outros manuscritos preservaram formas adicionais.
Essa diversidade permite acompanhar um fenômeno que aparece repetidamente ao longo da tradição goética: a identidade geral de uma entidade pode permanecer relativamente estável enquanto seu nome, sua posição e pequenos detalhes de sua descrição se transformam através das cópias.
Por esse motivo, Ipos deve ser estudado não apenas como uma figura do ocultismo, mas também como resultado de séculos de transmissão manuscrita e editorial.
QUEM É IPOS NA ARS GOETIA?
Na Ars Goetia, Ipos ocupa a posição de 22º espírito.
Ele recebe simultaneamente os títulos de Conde e Poderoso Príncipe.
Sua aparência combina uma forma aproximadamente angelical com elementos animais. O rosto ou cabeça é leonino, os pés são associados ao ganso e a cauda pertence à lebre.
O conjunto produz uma criatura híbrida difícil de enquadrar em uma categoria simples.
Suas funções estão principalmente ligadas ao conhecimento e às qualidades pessoais.
O texto lhe atribui capacidade de conhecer acontecimentos que ocorreram e acontecimentos ainda por vir. Também afirma que sua influência estaria relacionada ao desenvolvimento de inteligência rápida, engenhosidade e coragem.
Ipos governa 36 legiões de espíritos.
Esses elementos constituem o núcleo histórico de sua descrição dentro da tradição goética.
IPOS, IPES, AYPEROS OU AYPOROS?
Ipos possui uma quantidade considerável de variantes nominais.
As fontes históricas registram principalmente as formas:
Ipos, Ipes, Ayperos e Ayporos.
Outras tradições manuscritas apresentam ainda grafias próximas, como Vipos e Aypeoros.
Essas diferenças precisam ser compreendidas dentro da realidade material dos grimórios.
Durante grande parte da história desses textos, os documentos eram copiados manualmente.
Um nome incomum podia ser interpretado incorretamente.
Uma letra podia ser confundida com outra.
O copista podia tentar corrigir uma palavra que lhe parecia estranha.
Uma tradução entre latim e inglês podia introduzir outra forma.
Depois de algumas gerações de cópias, diferentes versões do mesmo nome passavam a circular paralelamente.
Ipos oferece um excelente exemplo desse processo.
Não existe necessidade de transformar cada grafia em uma entidade independente.
A comparação das descrições demonstra continuidade suficiente para reconhecer uma mesma tradição textual.
IPES NA PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM
Antes de ser Ipos nº 22 da Goetia, a entidade já aparece na obra de Johann Weyer.
Na Pseudomonarchia Daemonum, sua forma principal é Ipes, acompanhada da variante Ayperos.
Nessa organização, ele ocupa a posição de número 16.
A diferença em relação à Goetia é importante.
Na lista posterior, Ipos aparece como número 22.
Sua posição, portanto, mudou significativamente durante a reorganização do catálogo.
Apesar disso, quase todos os elementos fundamentais foram preservados.
Weyer apresenta Ipes como conde e príncipe.
Também registra sua aparência híbrida, o conhecimento do passado e do futuro, a capacidade de conferir qualidades relacionadas ao intelecto e à ousadia e o governo de 36 legiões.
Isso demonstra uma continuidade textual bastante forte.
A ordem foi alterada.
O nome sofreu mudanças.
O personagem, entretanto, permaneceu reconhecível.
JOHANN WEYER E O CONTEXTO DO SÉCULO XVI
Johann Weyer foi um médico e autor profundamente envolvido nos debates europeus sobre bruxaria, demonologia e superstição.
Sua principal obra, De Praestigiis Daemonum, apareceu originalmente em 1563 e recebeu sucessivas ampliações.
Em 1577, uma edição ampliada incorporou o catálogo conhecido como Pseudomonarchia Daemonum.
Nesse catálogo encontra-se Ipes.
O contexto é importante porque Weyer não publicou o material simplesmente como propaganda das práticas descritas.
Seu objetivo mais amplo envolvia uma crítica a determinados aspectos das perseguições por bruxaria e às interpretações que atribuíam poderes extraordinários a pessoas acusadas de feitiçaria.
Weyer ainda compartilhava muitas concepções religiosas e demonológicas próprias de seu século.
Ele não deve ser transformado anacronicamente em um cético moderno.
Entretanto, sua abordagem demonstra que os catálogos demonológicos podiam circular dentro de obras críticas e polêmicas, e não apenas em manuais voltados à prática mágica.
Essa distinção ajuda a compreender como materiais semelhantes sobreviveram e foram reutilizados por autores posteriores.
O ANTIGO LIVRO DOS OFÍCIOS DOS ESPÍRITOS
Weyer indicou que o catálogo utilizado por ele estava relacionado a uma tradição conhecida como livro dos ofícios dos espíritos.
Essa informação é particularmente relevante para compreender Ipos.
Ela demonstra que nem Weyer necessariamente inventou a entidade, nem a Goetia foi o primeiro texto a registrá-la.
Existiam materiais anteriores circulando na Europa.
Alguns desses documentos sobreviveram em diferentes versões.
Outros provavelmente desapareceram.
A transmissão dessas listas era instável.
Os nomes podiam variar.
A ordem podia ser reorganizada.
Determinados personagens podiam desaparecer de uma versão e reaparecer em outra.
Assim, a primeira ocorrência atualmente conhecida de um nome não precisa representar necessariamente sua origem absoluta.
No caso de Ipos, é mais prudente falar em documentação histórica conhecida do que em uma data exata de criação da entidade.
REGINALD SCOT E A FORMA IPOS
Uma etapa decisiva na transformação de Ipes em Ipos aparece na obra de Reginald Scot.
Em 1584, Scot publicou The Discoverie of Witchcraft.
O livro é fundamental para compreender a história da literatura mágica inglesa porque preservou diversos materiais relacionados a magia, conjuração e demonologia ao mesmo tempo em que os submetia a uma crítica severa.
Entre esses materiais estava uma versão inglesa do catálogo de Weyer.
É nessa transmissão que encontramos Ipos, acompanhado da variante Ayporos.
A diferença parece pequena.
Entretanto, ela é historicamente importante porque a primeira parte do Lemegeton apresenta forte proximidade textual com essa tradição inglesa.
A forma que se tornou dominante na Goetia parece estar ligada justamente a essa etapa de transmissão.
Assim, podemos observar uma sequência aproximada:
Ipes e Ayperos na tradição latina associada a Weyer;
Ipos e Ayporos na tradição inglesa ligada a Scot;
Ipos na organização posterior da Ars Goetia.
A transformação do nome ocorre diante de nossos olhos quando os documentos são comparados.
IPOS Nº 16 E IPOS Nº 22
Talvez a diferença mais clara entre Weyer e a Goetia seja a posição ocupada pela entidade.
Na Pseudomonarchia Daemonum, Ipes aparece como número 16.
Na Ars Goetia, Ipos aparece como número 22.
Essa mudança demonstra que a numeração atualmente associada aos chamados 72 espíritos não deve ser projetada automaticamente sobre documentos anteriores.
O número 22 pertence à organização goética posterior.
Ele não constitui uma identificação universal e imutável da entidade em todas as fontes.
O mesmo fenômeno aparece em diversos outros personagens.
Purson, por exemplo, também ocupa posições bastante diferentes em Weyer e no Lemegeton.
Morax sofre deslocamento semelhante.
Outras figuras mudam ainda mais drasticamente.
A sequência dos espíritos, portanto, possui história.
POR QUE A ORDEM DOS ESPÍRITOS MUDOU?
Não existe uma explicação única e definitivamente comprovada para todas as alterações.
A comparação das fontes, entretanto, demonstra que a Goetia deriva de uma tradição textual que passou por reorganização.
Traduções, manuscritos intermediários e cópias diferentes podem ter contribuído para isso.
Também existe a possibilidade de que os compiladores tenham deliberadamente reorganizado parte do catálogo ao construir o sistema de 72 espíritos.
O importante é não imaginar a sequência moderna como uma lista intacta transmitida desde uma antiguidade remota.
As próprias fontes contradizem essa visão.
Ipos fornece uma evidência simples e concreta.
Ele era o décimo sexto em Weyer.
Tornou-se o vigésimo segundo na Goetia.
IPOS NO LEMEGETON
O Lemegeton Clavicula Salomonis, conhecido posteriormente como The Lesser Key of Solomon, constitui uma compilação formada por diferentes tratados de magia cerimonial.
A Ars Goetia ocupa sua primeira parte.
Os manuscritos conhecidos pertencem à tradição moderna europeia e são muito posteriores ao rei bíblico Salomão.
A atribuição a Salomão faz parte de um gênero literário mais amplo no qual obras mágicas buscavam autoridade através da associação com personagens reconhecidos por sua sabedoria.
Não existe evidência histórica de que o Salomão bíblico tenha escrito pessoalmente a Ars Goetia.
Ipos deve, portanto, ser situado dentro dessa tradição pseudo-salomônica posterior.
Sua história documentável encontra-se nos catálogos europeus e não no período da antiga monarquia israelita.
O MANUSCRITO SLOANE 3825
Uma das fontes particularmente importantes para a reconstrução moderna da Goetia é o manuscrito conhecido como Sloane MS 3825.
A transcrição crítica desse material registra Ipos na posição 22.
O texto apresenta os elementos fundamentais conhecidos através da tradição anterior.
Ipos continua sendo conde e príncipe.
Continua possuindo a forma híbrida.
Continua relacionado ao conhecimento temporal.
Continua associado à inteligência e à ousadia.
E continua governando 36 legiões.
Existe, entretanto, um detalhe interessante relacionado à descrição de seu conhecimento.
O manuscrito menciona especificamente aquilo que aconteceu e aquilo que acontecerá.
A ideia explícita de conhecimento do presente aparece com maior clareza em determinadas edições posteriores.
Essa pequena diferença demonstra por que é importante distinguir manuscrito de edição.
PASSADO, PRESENTE E FUTURO?
Muitos textos modernos afirmam que Ipos conhece passado, presente e futuro.
Essa formulação pode ser encontrada na conhecida edição impressa associada a S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley.
Entretanto, quando retornamos à tradição textual anterior, encontramos uma formulação ligeiramente diferente.
Weyer fala essencialmente do passado e do futuro.
O Sloane MS 3825 também conserva essa estrutura.
A inclusão explícita do presente tornou-se especialmente conhecida através da edição moderna.
A diferença não transforma completamente a função de Ipos.
Conhecer passado e futuro já pressupõe um amplo caráter divinatório.
Mas, do ponto de vista histórico, registrar a variação é mais preciso do que fundir todas as versões em uma única frase.
A EDIÇÃO DE MATHERS E CROWLEY
No início do século XX, a publicação da Goetia associada a S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley teve enorme influência sobre a recepção moderna dos 72 espíritos.
Para muitos leitores contemporâneos, essa edição tornou-se praticamente sinônimo da própria Ars Goetia.
Entretanto, ela representa uma etapa editorial específica.
Não é idêntica a todos os manuscritos anteriores.
Grafias foram padronizadas.
Algumas escolhas editoriais influenciaram descrições posteriores.
A formulação de Ipos como conhecedor de passado, presente e futuro é um exemplo útil de como uma edição moderna pode tornar determinada leitura mais conhecida do que a variante manuscrita mais antiga.
Por isso, uma análise histórica deve utilizar a edição sem tratá-la como testemunho único.
A APARÊNCIA DE IPOS
A iconografia de Ipos é particularmente incomum.
A tradição combina quatro componentes:
uma estrutura ou aparência angelical;
uma cabeça leonina;
pés associados ao ganso;
uma cauda de lebre.
O resultado não corresponde a nenhum animal natural.
Também não corresponde simplesmente à imagem tradicional de um anjo cristão.
É uma figura composta.
Criaturas híbridas aparecem frequentemente na literatura religiosa, mitológica e mágica.
Elas permitem representar seres que não pertencem integralmente ao mundo humano nem ao mundo animal comum.
No caso de Ipos, essa construção torna-se ainda mais interessante porque a base angelical convive com elementos muito diferentes entre si.
O QUE SIGNIFICA “FORMA DE ANJO”?
A descrição de Ipos como possuidor de forma angelical não deve ser interpretada automaticamente através da imagem popular moderna de um ser humano belo com grandes asas brancas.
A iconografia dos anjos variou enormemente ao longo da história.
Além disso, a própria descrição acrescenta imediatamente elementos que afastam Ipos de uma representação humana convencional.
A cabeça é de leão.
Os pés são de ganso.
A cauda é de lebre.
Assim, a expressão parece funcionar mais como indicação geral de forma ou presença do que como descrição de um anjo perfeitamente humanoide.
Weyer ainda utiliza uma formulação que torna a manifestação mais ambígua e menos idealizada.
Essa tensão entre aparência angelical e características animais é um dos componentes mais interessantes de Ipos.
IPOS É UM ANJO CAÍDO?
A documentação antiga apresentada nesses catálogos não oferece uma narrativa individual detalhada da queda de Ipos.
Essa distinção é importante.
A demonologia cristã desenvolveu amplamente a ideia de anjos caídos.
Por isso, interpretações posteriores frequentemente classificaram todos os espíritos goéticos automaticamente dessa maneira.
Entretanto, dizer que Ipos aparece em um catálogo demonológico não equivale a possuir uma biografia documental demonstrando quem ele seria antes de uma suposta queda.
A tradição pode ser interpretada teologicamente através do modelo dos anjos caídos.
Mas essa interpretação não deve ser apresentada como se a Pseudomonarchia Daemonum fornecesse uma história completa da origem celestial de Ipos.
Não fornece.
A CABEÇA DE LEÃO
O leão é provavelmente o componente mais visualmente poderoso da aparência de Ipos.
Ao longo de diferentes tradições do Mediterrâneo, Oriente Próximo e Europa, o animal foi relacionado a ideias como força, autoridade, coragem e soberania.
Essas associações tornam especialmente tentador relacionar sua cabeça leonina à capacidade atribuída a Ipos de tornar uma pessoa mais ousada.
Essa interpretação possui certa coerência simbólica.
Contudo, precisamos manter a distinção entre associação e prova.
O grimório não apresenta uma explicação afirmando que Ipos concede coragem porque possui cabeça de leão.
Essa conexão é construída pelo intérprete moderno.
Historicamente, sabemos apenas que os dois elementos aparecem juntos na descrição.
O GANSO NA APARÊNCIA DE IPOS
Os pés de ganso tornam a figura ainda mais incomum.
Diferentemente do leão, que aparece frequentemente em representações de autoridade, o ganso produz uma associação visual menos óbvia.
Aves aquáticas ocupam posições variadas em mitologias e tradições simbólicas.
Dependendo da cultura, podem aparecer relacionadas a vigilância, migração, água, céu ou proteção.
Entretanto, não há base documental suficiente para atribuir automaticamente qualquer um desses significados específicos aos pés de Ipos.
O detalhe precisa primeiro ser respeitado como característica da fonte.
A interpretação simbólica vem depois.
Essa cautela evita um problema frequente em conteúdos esotéricos modernos: escolher arbitrariamente um significado de dicionário de símbolos e apresentá-lo como intenção histórica do grimório.
A CAUDA DE LEBRE
O terceiro elemento animal é a lebre.
Novamente encontramos um símbolo com significados culturais muito variados.
Lebres foram associadas, em diferentes períodos e sociedades, a velocidade, reprodução, ciclos naturais e outros temas.
Mas nada disso prova qual significado os compiladores pretendiam atribuir à cauda de Ipos.
É possível até mesmo que determinados componentes da aparência tenham sobrevivido de uma tradição cuja explicação original se perdeu.
Também é possível que a própria estranheza fosse funcional.
Uma entidade formada por características incompatíveis é visualmente memorável.
Dentro de um catálogo repleto de criaturas extraordinárias, esse tipo de composição ajuda a individualizar cada personagem.
POR QUE A GOETIA POSSUI TANTAS CRIATURAS HÍBRIDAS?
A resposta provavelmente envolve diferentes tradições culturais.
Seres híbridos possuem uma história muito mais antiga que os grimórios europeus.
Esfinges, querubins, dragões, grifos e diversas criaturas mitológicas combinam partes de diferentes espécies.
Esse recurso permite representar aquilo que ultrapassa as categorias ordinárias da natureza.
A literatura demonológica herdou e continuou esse imaginário.
Entretanto, isso não significa que cada espírito goético derive diretamente de uma criatura específica da Antiguidade.
Sem documentação ligando duas figuras, semelhança não é genealogia.
Ipos é uma criatura híbrida.
Isso é demonstrável.
Identificá-lo diretamente com uma divindade ou monstro antigo exigiria evidência adicional.
IPOS COMO CONDE E PRÍNCIPE
Ipos possui dois títulos simultâneos.
Ele é Conde e Príncipe.
Essa dupla classificação não é única na Goetia.
Outros personagens também acumulam diferentes dignidades.
A estrutura hierárquica da obra utiliza categorias políticas e aristocráticas familiares aos leitores europeus.
Reis, duques, marqueses, condes, príncipes, presidentes e cavaleiros aparecem como diferentes níveis de autoridade.
Esses títulos não devem ser tratados automaticamente como descrição verificável de uma administração sobrenatural objetiva.
Do ponto de vista histórico, eles revelam a maneira como os compiladores organizaram conceitualmente seu universo espiritual.
A sociedade celeste ou infernal era frequentemente imaginada através de analogias com hierarquias humanas.
O QUE SIGNIFICAVA SER CONDE?
O título de conde possui origem e desenvolvimento históricos complexos no mundo europeu.
Nos grimórios, contudo, não devemos esperar correspondência perfeita entre determinada função política e as responsabilidades do espírito que recebe o título.
A categoria funciona principalmente como classificação hierárquica.
Ipos compartilha a dignidade de conde com outras figuras do catálogo.
Por possuir simultaneamente o título de príncipe, ocupa uma condição híbrida dentro da própria organização goética.
Essa combinação torna difícil encaixá-lo em apenas uma das classes tradicionais.
O TÍTULO DE PRÍNCIPE
“Príncipe” também possui uma longa história política e linguística.
O termo deriva de ideias relacionadas a primazia e posição de destaque.
Nos sistemas demonológicos, torna-se um dos títulos utilizados para indicar autoridade.
Na tradição goética, príncipe e prelado aparecem em determinadas classificações de maneira próxima ou intercambiável.
Ipos pertence a esse grupo ao mesmo tempo em que conserva o título de conde.
A dupla dignidade reforça sua importância dentro do catálogo, embora não possamos converter os títulos em uma escala matemática perfeitamente precisa de poder.
AS 36 LEGIÕES DE IPOS
Tanto Weyer quanto a tradição goética associam Ipos a 36 legiões.
Esse é um aspecto interessante porque, diferentemente da posição do personagem, o número permaneceu estável entre as principais fontes.
A palavra “legião” possui origem militar romana.
Na literatura religiosa e demonológica, passou a ser utilizada como expressão para grandes agrupamentos de seres espirituais.
Os catálogos de espíritos empregam repetidamente essa linguagem militar.
Uma entidade não aparece apenas individualmente.
Ela governa grupos subordinados.
Essa organização contribui para apresentar um universo espiritual hierarquizado.
Não existe necessidade histórica de converter as 36 legiões em um número literal de indivíduos.
O importante é compreender a função hierárquica da informação dentro do texto.
IPOS E O CONHECIMENTO DO TEMPO
Uma das características mais significativas de Ipos é sua associação ao conhecimento temporal.
Passado e futuro constituem o núcleo mais antigo dessa atribuição.
Em edições posteriores, o presente também aparece explicitamente.
A capacidade de revelar acontecimentos temporais aproxima Ipos de práticas divinatórias.
A preocupação humana com aquilo que ocorreu e aquilo que ainda ocorrerá é muito anterior aos grimórios.
Oráculos, astrologia, sortes, sonhos e inúmeras outras técnicas foram utilizadas historicamente para tentar obter informações inacessíveis pelos meios comuns.
A Goetia incorpora essa antiga preocupação em diversos personagens.
Ipos é um deles.
IPOS NÃO É O ÚNICO ESPÍRITO ASSOCIADO AO FUTURO
Várias entidades da tradição goética possuem atribuições parcialmente semelhantes.
Algumas revelam passado, presente ou futuro.
Outras respondem perguntas sobre assuntos secretos.
Outras localizam objetos ou tesouros.
Esse compartilhamento de funções demonstra que a Goetia não foi construída segundo um sistema moderno de especializações exclusivas.
Não existe apenas um “espírito do futuro”.
Existem múltiplas figuras relacionadas a conhecimentos semelhantes.
A identidade individual é construída pelo conjunto formado por nome, aparência, título, funções e posição.
IPOS E PURSON
Purson, número 20 na organização goética, oferece uma comparação interessante.
Purson possui atribuições temporais, mas sua esfera é consideravelmente mais ampla.
Ele aparece relacionado também a segredos, tesouros, questões cosmológicas e diferentes tipos de conhecimento oculto.
Ipos apresenta um perfil mais conciso.
Seu domínio temporal combina-se principalmente à transformação de determinadas qualidades intelectuais e comportamentais.
A comparação demonstra como duas entidades podem compartilhar uma função e, ainda assim, possuir identidades bastante distintas.
O QUE SIGNIFICA IPOS TORNAR UMA PESSOA “WITTY”?
Essa é uma questão importante porque traduções modernas podem produzir interpretações enganosas.
A palavra inglesa witty atualmente costuma ser associada a humor inteligente, respostas rápidas ou capacidade de fazer comentários espirituosos.
Historicamente, entretanto, o campo semântico de wit era mais amplo.
O termo estava fortemente relacionado à inteligência, ao entendimento e à capacidade mental.
Assim, quando uma fonte antiga afirma que Ipos torna uma pessoa witty, não precisamos limitar o sentido a “engraçado”.
Uma tradução contextual pode envolver ideias como:
perspicaz;
engenhoso;
mentalmente ágil;
inteligente;
rápido no raciocínio.
Isso torna a atribuição muito mais coerente com a linguagem intelectual da época.
INTELIGÊNCIA E RAPIDEZ DE RACIOCÍNIO
A qualidade atribuída a Ipos parece estar relacionada a uma inteligência ativa.
Não se trata necessariamente de conhecimento acadêmico formal, como ocorre com espíritos associados às artes liberais.
Morax, por exemplo, possui uma relação direta com disciplinas intelectuais.
Ipos apresenta outra modalidade.
Sua atribuição parece concentrar-se na qualidade da mente.
Capacidade de raciocinar rapidamente.
Perspicácia.
Engenhosidade.
Prontidão intelectual.
Essa diferença é importante.
Um espírito pode ser associado ao ensino de uma ciência.
Outro pode ser associado à capacidade mental necessária para lidar com situações complexas.
Ipos pertence mais claramente ao segundo grupo.
IPOS E A OUSADIA
A segunda qualidade pessoal atribuída a Ipos está relacionada à coragem ou ousadia.
A palavra utilizada na tradição inglesa é normalmente traduzida através de conceitos como audácia, coragem ou confiança diante de situações desafiadoras.
Essa característica combina de maneira interessante com a cabeça leonina.
Novamente, não podemos afirmar que uma tenha sido conscientemente criada para simbolizar a outra.
Mas a associação oferece material para interpretação.
O leão, frequentemente relacionado culturalmente à coragem, aparece justamente em uma figura que torna pessoas mais ousadas.
Essa coincidência simbólica provavelmente contribuiu para interpretações posteriores de Ipos como entidade relacionada à autoconfiança.
CORAGEM OU IMPRUDÊNCIA?
Existe uma distinção importante entre coragem e imprudência.
Os textos antigos utilizam uma formulação breve.
Eles não oferecem um tratado ético explicando como a ousadia deveria ser utilizada.
Interpretações modernas às vezes ampliam a característica para liderança, autoestima, autoconfiança ou capacidade de decisão.
Essas associações são possíveis como desenvolvimentos simbólicos.
Entretanto, não pertencem necessariamente ao conteúdo literal dos manuscritos.
A fonte é muito mais simples.
Ipos está relacionado a tornar uma pessoa intelectualmente mais viva e mais ousada.
Todo o restante deve ser identificado como interpretação.
CONHECIMENTO E CORAGEM NA MESMA FIGURA
A combinação entre inteligência e coragem é talvez o aspecto simbolicamente mais interessante de Ipos.
Conhecimento sem capacidade de agir pode permanecer inerte.
Coragem sem discernimento pode transformar-se em imprudência.
Ipos reúne as duas características.
Dentro de uma leitura contemporânea, essa combinação pode representar a integração entre compreender e agir.
Primeiro perceber.
Depois decidir.
Finalmente enfrentar.
Não temos evidência de que os autores antigos tenham desenvolvido conscientemente essa filosofia.
Mas a interpretação nasce de uma relação real entre as atribuições preservadas pelo texto.
IPOS COMO FIGURA DA DECISÃO
Se ampliarmos a análise simbólica, Ipos pode ser entendido como uma figura relacionada à decisão baseada em percepção.
Conhecer aquilo que aconteceu fornece experiência.
Antecipar aquilo que poderá acontecer permite planejamento.
Possuir agilidade mental favorece interpretação.
Ter coragem permite executar uma escolha.
Esses quatro elementos formam uma estrutura simbólica coerente.
Passado.
Futuro.
Intelecto.
Ousadia.
Nesse sentido, Ipos pode ser interpretado contemporaneamente como representação do indivíduo que observa informações, compreende possibilidades e possui coragem suficiente para tomar uma decisão.
Essa é uma interpretação moderna, não uma doutrina explicitamente escrita no grimório.
O PASSADO COMO CONHECIMENTO
A associação de Ipos ao passado possui um significado conceitualmente diferente da simples memória individual.
Dentro da narrativa do grimório, trata-se da capacidade de revelar aquilo que já aconteceu.
A informação pode ter sido perdida, escondida ou simplesmente desconhecida.
Esse tema é recorrente em práticas divinatórias e narrativas mágicas.
Conhecer o passado significa acessar fatos que não estão disponíveis ao observador comum.
Em uma leitura simbólica contemporânea, isso pode ser reinterpretado como investigação, compreensão das causas ou aprendizado através da experiência.
Novamente, essa camada moderna deve permanecer separada da descrição histórica.
O FUTURO E A INCERTEZA HUMANA
A tentativa de conhecer o futuro acompanha sociedades humanas desde a Antiguidade.
Decisões políticas, guerras, viagens, casamentos, colheitas e questões pessoais foram submetidas a diferentes formas de adivinhação.
Ipos aparece dentro desse vasto imaginário.
Seu conhecimento do futuro responde a uma das maiores fontes de ansiedade humana: a incerteza.
Não saber o que acontecerá torna decisões difíceis.
Por isso, personagens que supostamente revelavam o futuro possuíam grande importância na literatura mágica.
A função atribuída a Ipos precisa ser compreendida dentro desse contexto cultural amplo.
IPOS E A ADIVINHAÇÃO
Embora sua descrição seja breve, Ipos pertence claramente a um grupo de espíritos cujas funções possuem caráter divinatório.
Isso não significa que exista uma única técnica chamada “adivinhação de Ipos” documentada de maneira uniforme em todas as fontes.
A associação deriva de sua capacidade atribuída de revelar acontecimentos.
Os grimórios europeus trabalharam com diversos modelos de obtenção sobrenatural de informação.
Espíritos podiam responder perguntas.
Astrologia podia fornecer prognósticos.
Sonhos podiam ser interpretados.
Objetos podiam ser utilizados em práticas divinatórias.
Ipos integra esse ambiente cultural através de sua relação com o tempo.
O SELO DE IPOS
Na tradição da Ars Goetia, Ipos possui um selo ou caractere gráfico associado ao seu nome.
Os selos constituem uma das características visuais mais conhecidas das edições modernas da Goetia.
Entretanto, a história desses símbolos precisa ser tratada separadamente da história dos personagens.
Ipes já existia no catálogo de Weyer antes da forma goética posterior do selo.
Isso significa que a entidade textual é mais antiga que a configuração gráfica atualmente popularizada.
O selo pertence a uma etapa posterior da tradição.
Essa distinção é importante porque muitas representações contemporâneas identificam os espíritos quase exclusivamente através de seus sigilos.
Historicamente, a ordem foi inversa.
Primeiro encontramos o personagem e sua descrição.
Depois encontramos a tradição gráfica goética consolidada.
OS SELOS VARIAM ENTRE MANUSCRITOS?
Podem variar.
Desenhos transmitidos manualmente estão sujeitos aos mesmos problemas enfrentados pelas palavras.
Linhas podem ser omitidas.
Traços podem ser modificados.
Curvas podem ser interpretadas de maneira diferente.
Um símbolo aparentemente simples pode adquirir variações significativas após sucessivas cópias.
Por isso, não é apropriado pressupor que qualquer reprodução digital contemporânea seja necessariamente uma forma gráfica absolutamente original e imutável.
A crítica de manuscritos também precisa observar imagens.
IPOS NA HIERARQUIA DA GOETIA
A dupla dignidade de Ipos produz uma questão interessante nas classificações posteriores da Goetia.
Em algumas tabelas, os espíritos são organizados conforme seus títulos e associados a determinados metais ou categorias planetárias.
Ipos aparece simultaneamente entre os condes e entre os príncipes.
Isso cria uma natureza hierárquica mista.
O próprio sistema nem sempre oferece respostas perfeitamente consistentes para entidades que possuem dois títulos.
Esse detalhe é importante porque demonstra novamente que a Goetia não é necessariamente um sistema matematicamente uniforme.
Ela preserva irregularidades.
Essas irregularidades provavelmente refletem sua formação através de materiais provenientes de diferentes fontes.
A GOETIA NÃO É UM SISTEMA PERFEITAMENTE SIMÉTRICO
Leitores modernos frequentemente tentam organizar os 72 espíritos em sistemas extremamente rígidos.
Planetas.
Signos.
Decanatos.
Dias.
Horas.
Metais.
Cores.
Cartas.
Elementos.
Algumas dessas correspondências pertencem a tradições posteriores.
Outras são tentativas modernas de harmonização.
A documentação antiga, contudo, apresenta irregularidades.
Ipos possuir duas dignidades é uma delas.
Essas imperfeições não diminuem o interesse do texto.
Pelo contrário.
Elas revelam sua história editorial.
Um documento excessivamente regular poderia sugerir planejamento unitário.
Um documento repleto de pequenas inconsistências frequentemente revela crescimento através de múltiplas camadas.
IPOS E O GRAND GRIMOIRE
O nome de Ipos também possui desdobramentos em tradições mágicas posteriores.
Uma forma próxima, Ayperos, aparece em listas relacionadas ao chamado Grand Grimoire.
Isso demonstra que o personagem não permaneceu restrito ao Lemegeton.
Nomes pertencentes aos catálogos do século XVI foram reutilizados e reorganizados por outros sistemas.
As relações hierárquicas podiam mudar.
Os nomes podiam ser novamente modificados.
Novos sistemas podiam subordiná-los a personagens diferentes.
Esse processo demonstra como os grimórios formam uma rede de empréstimos e adaptações.
Não existe uma única tradição linear perfeitamente fechada.
IPOS NÃO É UMA FIGURA BÍBLICA
Ipos não aparece como personagem da Bíblia canônica.
Esse ponto deve ser enfatizado porque a expressão “demônio bíblico” é frequentemente utilizada de maneira imprecisa na internet.
A demonologia ocidental não deriva exclusivamente da Bíblia.
Ela foi construída através de textos religiosos, comentários teológicos, tradições judaicas e cristãs posteriores, folclore, literatura medieval, grimórios e compilações renascentistas.
Ipos pertence principalmente à tradição dos catálogos mágicos europeus.
Associá-lo diretamente a uma passagem bíblica específica sem documentação seria historicamente incorreto.
IPOS ERA UMA DIVINDADE ANTIGA?
Não existe evidência documental suficiente para afirmar que Ipos seja uma divindade antiga transformada posteriormente em demônio.
Esse tipo de afirmação aparece frequentemente em estudos esotéricos populares.
Em alguns casos históricos, relações entre figuras demonológicas e divindades anteriores podem realmente ser demonstradas.
Mas não é uma regra universal.
No caso de Ipos, uma cabeça de leão ou outras características animais não constituem prova de identidade com determinado deus antigo.
A semelhança visual pode produzir comparações interessantes.
Ela não estabelece filiação histórica.
A ETIMOLOGIA DO NOME IPOS
A origem linguística exata do nome Ipos permanece incerta.
As múltiplas variantes dificultam qualquer reconstrução segura.
Ipes.
Ipos.
Ayperos.
Ayporos.
Vipos.
Aypeoros.
Quando um nome passa por tantas transformações, reconstruir uma raiz original exige documentação filológica sólida.
Explicações modernas que atribuem traduções exatas ao nome devem, portanto, ser analisadas com cautela.
É melhor reconhecer uma etimologia incerta do que inventar um significado apenas para preencher uma lacuna.
Essa postura torna o estudo mais confiável.
IPOS NA DEMONOLOGIA CONTEMPORÂNEA
Durante os séculos XIX, XX e XXI, autores ocultistas reinterpretaram os espíritos goéticos em novos sistemas.
Ipos passou a receber associações adicionais relacionadas a autoconfiança, inteligência, coragem, comunicação, estratégia, percepção, adivinhação e desenvolvimento pessoal.
Algumas dessas interpretações possuem relação clara com o material histórico.
Inteligência e coragem, por exemplo, derivam diretamente de características antigas.
Outras associações são expansões modernas.
Elas podem possuir valor dentro dos sistemas que as utilizam.
Mas devem ser identificadas como posteriores.
A antiguidade aparente de uma ideia não pode ser estabelecida apenas pela quantidade de sites que a repetem.
O PROBLEMA DAS CÓPIAS DIGITAIS
A internet criou uma situação curiosa no estudo da Goetia.
Nunca foi tão fácil acessar transcrições de documentos antigos.
Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil multiplicar um erro.
Uma página publica determinada associação sem indicar fonte.
Outra copia.
Dez sites repetem.
Vídeos reproduzem.
Depois de alguns anos, aquela informação parece tradicional porque aparece em muitos lugares.
Mas quantidade de repetição não equivale a antiguidade documental.
O método mais seguro continua sendo retornar às fontes.
No caso de Ipos, isso significa comparar Weyer, Scot, os manuscritos do Lemegeton e as edições modernas.
COMO DIFERENCIAR IPOS HISTÓRICO DO IPOS MODERNO?
Uma distinção útil pode ser feita entre três camadas.
A primeira é documental.
Nela encontramos os nomes históricos, posição, aparência, títulos, funções e número de legiões.
A segunda é contextual.
Nela investigamos demonologia europeia, transmissão dos grimórios, linguagem do século XVI e organização hierárquica.
A terceira é interpretativa.
Nela surgem leituras psicológicas e simbólicas sobre coragem, decisão, inteligência e autoconhecimento.
As três podem ser estudadas.
O problema surge apenas quando a terceira camada é apresentada como se estivesse literalmente escrita na primeira.
INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DE IPOS
Separada da história documental, a imagem de Ipos oferece material bastante rico para interpretação.
A forma angelical pode sugerir uma dimensão elevada ou intermediária.
O leão pode representar força e coragem.
O ganso pode ser interpretado através de qualidades relacionadas à percepção ou movimento entre diferentes ambientes.
A lebre pode sugerir rapidez e agilidade.
O conhecimento do passado e futuro introduz consciência temporal.
A perspicácia representa inteligência.
A ousadia representa ação.
Quando esses elementos são combinados, surge uma possível leitura de Ipos como símbolo de percepção rápida acompanhada da coragem necessária para agir.
Essa interpretação é contemporânea.
Não deve ser atribuída diretamente aos autores dos grimórios.
O LEÃO, A LEBRE E A IDEIA DE AGILIDADE
Existe um contraste visual interessante entre o leão e a lebre.
Um é associado à força.
O outro, frequentemente, à velocidade.
A figura de Ipos reúne ambos.
Se adicionarmos sua atribuição intelectual, podemos interpretar simbolicamente essa combinação como força acompanhada de rapidez mental.
Outra vez, não possuímos uma explicação histórica dos compiladores confirmando essa intenção.
A importância da interpretação está justamente em assumir sua natureza interpretativa.
Um bom estudo simbólico não precisa fingir ser uma descoberta documental.
IPOS COMO SÍMBOLO DE INTELIGÊNCIA PRÁTICA
Morax está fortemente relacionado a disciplinas acadêmicas.
Purson aparece associado a segredos e conhecimentos abrangentes.
Ipos pode ser interpretado de maneira diferente.
Sua inteligência parece prática.
É a capacidade de compreender rapidamente.
Responder.
Antecipar.
Decidir.
Agir com coragem.
Essa distinção torna Ipos especialmente interessante em uma interpretação psicológica contemporânea.
Ele pode representar não apenas conhecimento acumulado, mas inteligência em movimento.
SABER O PASSADO PARA COMPREENDER O FUTURO
Outra interpretação possível surge da própria estrutura temporal das atribuições de Ipos.
Conhecer o passado significa compreender antecedentes.
Conhecer o futuro significa imaginar consequências.
Entre ambos encontra-se a decisão presente.
Mesmo que determinados manuscritos não mencionem explicitamente o presente, ele surge simbolicamente como o ponto de encontro entre memória e antecipação.
Essa leitura permite interpretar Ipos como representação do processo decisório.
O passado fornece experiência.
O futuro oferece possibilidades.
A mente avalia.
A coragem executa.
Novamente, trata-se de uma construção interpretativa moderna baseada nos atributos preservados pelas fontes.
IPOS E A CORAGEM INTELECTUAL
Existe ainda outra leitura possível.
A coragem não precisa ser compreendida apenas como bravura física.
Ela pode ser intelectual.
Questionar uma interpretação dominante.
Investigar um problema difícil.
Reconhecer um erro.
Mudar de opinião diante de evidências.
Assumir uma decisão incerta.
Nesse sentido, a combinação entre intelecto e ousadia atribuída a Ipos pode ser reinterpretada como coragem intelectual.
É uma leitura contemporânea especialmente coerente com o perfil da entidade.
Mas não deve ser retroprojetada para o século XVI como se Weyer tivesse utilizado exatamente esse conceito.
IPOS EXISTE?
Historicamente, existe uma resposta clara para uma parte dessa pergunta.
Existe uma tradição documental de Ipos.
Podemos localizar Ipes em Weyer.
Podemos encontrar Ipos em Scot.
Podemos observar Ipos no Lemegeton.
Podemos comparar variantes.
Podemos analisar a mudança de posição 16 para 22.
Podemos verificar as 36 legiões.
Podemos acompanhar as diferenças entre passado/futuro e passado/presente/futuro.
Tudo isso pertence ao campo da investigação histórica.
A existência objetiva de uma entidade sobrenatural correspondente a essas descrições pertence a outra categoria de questão.
Textos comprovam que uma tradição existiu.
Não funcionam, por si mesmos, como demonstração empírica da existência sobrenatural da entidade descrita.
POR QUE IPOS É IMPORTANTE PARA O ESTUDO DA GOETIA?
Ipos constitui um caso particularmente útil porque combina continuidade e transformação.
Sua aparência permanece amplamente reconhecível.
Seus títulos permanecem.
Suas funções fundamentais permanecem.
Seu número de legiões permanece.
Mas seu nome muda.
Sua posição muda.
Algumas formulações sobre suas capacidades também mudam.
Isso permite observar precisamente como uma tradição textual evolui.
Nem tudo é reescrito.
Nem tudo permanece igual.
A transmissão histórica acontece entre esses dois extremos.
IPOS EM WEYER E NA ARS GOETIA
A comparação pode ser resumida da seguinte maneira: em Weyer, a entidade aparece principalmente como Ipes, também chamada Ayperos, ocupando a posição 16. É apresentada como conde e príncipe, possui uma aparência angelical combinada com cabeça leonina, pés de ganso e cauda de lebre, conhece acontecimentos passados e futuros, relaciona-se à inteligência e à ousadia e governa 36 legiões.
Na tradição manuscrita da Ars Goetia, encontramos Ipos na posição 22. A dupla dignidade permanece, assim como a iconografia híbrida, o conhecimento temporal, a inteligência, a coragem e as 36 legiões.
Na edição Mathers/Crowley, a formulação temporal se torna especialmente conhecida como passado, presente e futuro.
O núcleo é estável.
A moldura textual se transforma.
FICHA HISTÓRICA DE IPOS
Nome mais conhecido: Ipos. Variantes históricas: Ipes, Ayperos, Ayporos e outras formas manuscritas próximas. Posição na Ars Goetia: 22º espírito. Posição na Pseudomonarchia Daemonum: 16º. Hierarquia: Conde e poderoso Príncipe. Aparência tradicional: forma angelical combinada com cabeça de leão, pés de ganso e cauda de lebre. Atribuição temporal nas fontes anteriores: conhecimento do passado e do futuro. Formulação popularizada em determinadas edições modernas: passado, presente e futuro. Outras atribuições: conferir perspicácia, engenhosidade ou rapidez intelectual e maior ousadia. Legiões: 36. Fonte renascentista fundamental: Pseudomonarchia Daemonum, de Johann Weyer. Etapa importante de transmissão: The Discoverie of Witchcraft, de Reginald Scot. Fonte goética: primeira parte do Lemegeton. Origem bíblica: não documentada.
PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE IPOS
Quem é Ipos na Ars Goetia?
Ipos é o vigésimo segundo espírito da Ars Goetia. É classificado como Conde e poderoso Príncipe e possui atribuições relacionadas ao conhecimento temporal, perspicácia intelectual e ousadia.
Ipos e Ipes são a mesma entidade?
Dentro da tradição textual estudada, sim. Ipes é uma forma registrada por Johann Weyer, enquanto Ipos se tornou predominante na tradição inglesa e na Goetia.
Quem é Ayperos?
Ayperos é uma variante antiga associada a Ipes. Reginald Scot registra uma forma próxima, Ayporos.
Qual é a posição de Ipos na Goetia?
Ipos ocupa a posição número 22.
Ipos sempre foi o número 22?
Não. Na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, Ipes aparece na posição 16.
Qual é a aparência de Ipos?
Sua representação tradicional combina uma forma angelical com cabeça de leão, pés de ganso e cauda de lebre.
Ipos possui asas?
A fonte descreve uma forma angelical, mas essa expressão não deve ser automaticamente transformada em uma descrição moderna de grandes asas. A iconografia efetivamente explicitada concentra-se principalmente na cabeça leonina, nos pés de ganso e na cauda de lebre.
Ipos conhece o futuro?
A tradição atribui a Ipos conhecimento sobre acontecimentos futuros.
Ipos conhece o passado?
Sim. O conhecimento de acontecimentos passados também aparece nas fontes antigas.
Ipos conhece o presente?
A conhecida edição Mathers/Crowley inclui explicitamente passado, presente e futuro. Contudo, fontes anteriores, como Weyer e o Sloane MS 3825, destacam passado e futuro. Essa diferença editorial merece ser preservada.
O que significa dizer que Ipos torna alguém “witty”?
No inglês histórico, witty possuía forte relação com inteligência e capacidade mental, além do sentido humorístico que se tornou muito familiar atualmente. No contexto da descrição de Ipos, ideias como perspicácia, engenhosidade e rapidez intelectual são traduções mais informativas.
Ipos concede coragem?
As fontes o relacionam a tornar uma pessoa mais ousada. Interpretações modernas frequentemente ampliam isso para coragem ou autoconfiança.
Quantas legiões Ipos governa?
As principais tradições analisadas atribuem a ele 36 legiões.
Ipos aparece na Bíblia?
Não. Ipos não é personagem da Bíblia canônica.
Ipos é um anjo caído?
Ele pertence a uma tradição demonológica e é descrito parcialmente em forma angelical, mas os catálogos antigos não fornecem uma biografia individual completa demonstrando sua suposta identidade anterior como anjo.
Ipos era originalmente um deus antigo?
Não existe evidência histórica suficiente para estabelecer essa afirmação.
Qual é a origem do nome Ipos?
A etimologia permanece incerta. As diversas variantes documentais tornam especialmente arriscado atribuir uma tradução precisa sem evidência filológica.
CONCLUSÃO
Ipos ocupa uma posição singular dentro da Ars Goetia.
Sua aparência reúne características que parecem pertencer a mundos diferentes: uma estrutura angelical, a cabeça poderosa de um leão, pés de ganso e a cauda rápida de uma lebre.
Suas funções apresentam contraste semelhante.
Ipos não é definido principalmente pela força física sugerida pela imagem leonina.
Seu domínio está profundamente relacionado à mente e ao tempo.
Ele conhece aquilo que aconteceu.
Conhece aquilo que ainda acontecerá.
Está associado à perspicácia.
E está associado à ousadia.
Essas características tornam sua figura especialmente rica para análise simbólica.
Entretanto, seu maior valor histórico surge quando diferentes documentos são comparados.
No século XVI, Johann Weyer registra Ipes ou Ayperos na posição 16 da Pseudomonarchia Daemonum.
Poucos anos depois, a tradição inglesa ligada a Reginald Scot apresenta Ipos e Ayporos.
Mais tarde, a Ars Goetia reorganiza o personagem como número 22.
A posição muda.
O nome muda.
Mas a maior parte de sua identidade permanece.
A aparência híbrida sobrevive.
Os títulos permanecem.
As 36 legiões permanecem.
A relação com passado e futuro permanece.
A inteligência e a ousadia permanecem.
Esse equilíbrio entre continuidade e transformação demonstra de maneira extremamente clara como os grimórios europeus foram formados.
Eles não surgiram completos em um único momento.
Foram transmitidos.
Copiados.
Traduzidos.
Reorganizados.
Interpretados.
E, eventualmente, transformados novamente pelas edições modernas.
Ipos também oferece uma lição metodológica importante.
Uma afirmação repetida muitas vezes na internet não é necessariamente uma afirmação antiga.
O exemplo do conhecimento do presente demonstra isso.
Uma leitura moderna muito conhecida pode se tornar tão popular que acaba sendo confundida com todas as versões históricas anteriores.
Somente a comparação documental revela a diferença.
Quando analisado dessa maneira, Ipos deixa de ser apenas o vigésimo segundo nome de um catálogo demonológico.
Ele se transforma em evidência da própria história da Goetia.
Sua trajetória conecta os catálogos renascentistas de espíritos à literatura inglesa de demonologia, aos manuscritos salomônicos posteriores e às edições ocultistas que moldaram a imagem contemporânea dos 72 espíritos.
Do ponto de vista simbólico, sua união entre percepção, inteligência e coragem também permanece especialmente expressiva.
O passado fornece experiência.
O futuro representa possibilidade.
A mente interpreta.
A coragem permite agir.
Essa leitura não precisa ser apresentada como doutrina secreta dos manuscritos para possuir valor.
Ela pode ser reconhecida pelo que realmente é: uma interpretação contemporânea construída sobre uma tradição histórica muito mais antiga.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E BIBLIOGRÁFICAS
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo demonológico incorporado à edição ampliada de 1577 de De Praestigiis Daemonum. Registra Ipes, também chamado Ayperos, na posição 16.
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. Londres, 1584. Preserva a importante transmissão inglesa do catálogo, utilizando formas como Ipos e Ayporos.
LEMEGETON CLAVICULA SALOMONIS. Tradição manuscrita da compilação posteriormente conhecida como The Lesser Key of Solomon, especialmente sua primeira divisão, Ars Goetia.
SLOANE MS 3825. Manuscrito fundamental para o estudo comparativo da tradição do Lemegeton e da descrição de Ipos como o 22º espírito.
MATHERS, S. L. MacGregor; CROWLEY, Aleister. The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King. Edição do início do século XX que exerceu enorme influência sobre a recepção moderna da Goetia.
PETERSON, Joseph H. Estudos e transcrições comparativas da Ars Goetia, da tradição dos Offices of Spirits, de Johann Weyer e de Reginald Scot, fundamentais para acompanhar variantes de nomes e reorganizações do catálo