Um Possível Mito de Criação Ombita: Set, Nubt e uma Cosmogonia Perdida do Egito Antigo
A religião do Egito Antigo nunca esteve limitada a uma única explicação sobre a origem do universo. Diferentes centros religiosos desenvolveram suas próprias cosmogonias, colocando determinadas divindades no centro do processo criador e utilizando imagens distintas para explicar como o mundo organizado teria surgido de um estado primordial. Heliópolis destacou Atum e a genealogia da Enéada; Hermópolis desenvolveu uma tradição baseada nas forças primordiais da Ogdóade; Mênfis atribuiu a Ptah um papel criador relacionado ao pensamento e à palavra. Em diferentes épocas, outras divindades também receberam funções cosmogônicas.
Dentro desse cenário plural, uma questão permanece particularmente intrigante: teria Nubt, antigo centro de culto de Set, desenvolvido sua própria concepção sobre a origem do mundo?
Não conhecemos atualmente um texto egípcio preservado que possa ser identificado com segurança como um “mito de criação ombita”. Por isso, qualquer tentativa de reconstruir uma narrativa desse tipo precisa ser apresentada como hipótese ou elaboração contemporânea, e não como tradução de uma tradição antiga descoberta. Entretanto, a associação histórica entre Nubt e Set, somada à diversidade das cosmogonias egípcias, permite formular uma investigação legítima sobre como uma teologia local centrada nessa divindade poderia ter compreendido o surgimento e a organização do cosmos.
É nesse ponto de encontro entre história das religiões, arqueologia, teologia egípcia e interpretação simbólica que podemos falar em um possível mito de criação ombita.
O que significa “ombita”?
O termo “ombita”, neste contexto, está relacionado a Ombos, nome pelo qual fontes gregas identificaram a antiga cidade egípcia de Nubt, situada na região da atual Naqada, no Alto Egito. Naqada tornou-se um dos sítios arqueológicos mais importantes para o estudo do período pré-dinástico, dando nome inclusive às diferentes fases da chamada Cultura de Naqada, fundamentais para compreender o processo de formação do Estado egípcio.
Nubt possuía uma ligação particularmente forte com Set. A divindade era cultuada na região e aparece associada ao local por meio de designações como Nubti, geralmente compreendida como “Aquele de Nubt” ou “o de Nubt”. Essa conexão territorial demonstra que Set não era apenas uma figura mitológica abstrata, mas uma divindade vinculada a uma geografia, a comunidades específicas e a tradições religiosas locais.
É importante também evitar uma confusão comum. A Nubt relacionada à antiga Naqada não deve ser confundida com Kom Ombo, outro importante centro religioso egípcio que também aparece associado ao nome Ombos em determinadas fontes. Quando falamos aqui em uma possível tradição ombita ligada a Set, estamos nos referindo especificamente à antiga Nubt da região de Naqada.
Nubt e o antigo culto de Set
A localização de Nubt ajuda a compreender por que Set poderia ter adquirido tamanha importância religiosa nessa região. A cidade encontrava-se em uma área conectada tanto ao vale fértil do Nilo quanto às rotas que avançavam em direção aos desertos orientais. Esses territórios desérticos eram difíceis e perigosos, mas também possuíam enorme importância econômica devido à presença de minerais, pedras e especialmente ouro.
A relação de Set com o deserto, as tempestades, as fronteiras e os territórios estrangeiros combina de maneira significativa com esse ambiente. Para uma população localizada entre o mundo agrícola do vale e as extensões áridas além dele, o deserto não representava apenas ameaça. Ele também oferecia recursos, comunicação, comércio e riquezas inacessíveis nas áreas cultivadas.
Essa ambivalência é essencial para compreender Set. O mesmo território que poderia provocar medo também fornecia riqueza. A mesma força capaz de destruir podia ser necessária para proteger. A fronteira separava, mas também permitia contato entre diferentes regiões.
Set tornou-se, portanto, uma divindade particularmente adequada para representar aquilo que existe nos limites da ordem estabelecida.
A antiguidade de Set
Set pertence às divindades mais antigas conhecidas da religião egípcia. Imagens predinásticas provenientes da região de Naqada foram relacionadas por diferentes pesquisadores ao chamado “animal de Set”, embora algumas dessas identificações continuem sendo discutidas pela arqueologia e pela história da arte.
Essa cautela é necessária porque estamos lidando com sociedades anteriores à grande documentação textual que caracteriza períodos posteriores do Egito faraônico. Objetos, cerâmicas e representações iconográficas podem preservar elementos religiosos muito antigos, mas nem sempre revelam claramente os nomes ou significados atribuídos por seus criadores.
Ainda assim, o conjunto das evidências mostra que a tradição posteriormente associada a Set possui raízes extremamente antigas. No período histórico, sua ligação com Nubt tornou-se suficientemente importante para que a própria cidade figurasse entre os principais centros relacionados ao deus.
Essa antiguidade torna ainda mais interessante a pergunta sobre o tipo de teologia que poderia ter se desenvolvido no local.
Os diferentes mitos de criação do Egito Antigo
Para compreender por que uma cosmogonia local de Nubt seria possível, precisamos abandonar a ideia de que os antigos egípcios possuíam apenas um mito oficial da criação.
Em Heliópolis, a tradição cosmogônica apresenta Atum emergindo do estado primordial e dando início à genealogia da Enéada. Shu e Tefnut aparecem como primeiros descendentes, seguidos por Geb e Nut, e posteriormente por Osíris, Ísis, Set e Néftis.
Em Hermópolis, a criação foi pensada a partir de forças primordiais representadas por oito divindades, a chamada Ogdóade. Essas forças estavam relacionadas a conceitos como águas primordiais, escuridão, infinitude e ocultamento, compondo uma imagem do universo antes de sua organização.
Na teologia menfita, Ptah recebe uma função particularmente elevada. O processo criador está relacionado ao coração, entendido como sede do pensamento, e à língua, responsável pela palavra. Nesse sistema, conceber e nomear possuem função criadora.
Esses modelos não precisam ser tratados como doutrinas que tentavam destruir umas às outras. A religião egípcia era capaz de trabalhar com diferentes explicações simultaneamente, reinterpretando divindades e combinando sistemas teológicos de acordo com o período, o templo e a necessidade ritual.
Por isso, a existência de diferentes cosmogonias torna perfeitamente legítima a pergunta sobre o que poderia ter sido ensinado em um importante centro de culto de Set.
Existiu realmente um mito de criação ombita?
Até onde a documentação atualmente conhecida permite afirmar, não possuímos um mito de criação completo proveniente de Nubt no qual Set apareça claramente como criador primordial.
Esse ponto precisa permanecer explícito.
A ausência de documentação não significa necessariamente que uma tradição desse tipo jamais tenha existido. Grande parte da produção religiosa da Antiguidade foi perdida. Textos desapareceram, templos foram reconstruídos ou destruídos, tradições locais deixaram de ser registradas e inúmeros documentos produzidos em materiais perecíveis simplesmente não sobreviveram.
Entretanto, ausência de evidência também não autoriza transformar uma possibilidade em fato histórico.
Por isso, o termo “possível” não deve ser visto como uma fraqueza do tema. Ele é precisamente aquilo que permite explorar a hipótese de maneira intelectualmente responsável.
Podemos investigar o que sabemos sobre Nubt e Set, observar como funcionavam outras cosmogonias egípcias e, a partir desses elementos, construir uma interpretação moderna sem atribuí-la falsamente aos antigos sacerdotes.
Set poderia desempenhar um papel criador?
À primeira vista, imaginar Set como uma divindade relacionada à criação pode parecer contraditório. A cultura popular moderna costuma apresentá-lo principalmente como adversário de Osíris e rival de Hórus, enfatizando seus aspectos de violência, conflito e ruptura.
A religião egípcia, porém, apresenta um Set muito mais complexo.
O deus podia representar forças perigosas e imprevisíveis, mas essas mesmas forças poderiam ser utilizadas em benefício da ordem cósmica. Em determinadas tradições, Set desempenha função protetora durante a jornada solar, usando sua força contra a serpente que ameaça o percurso de Rá.
Essa ambivalência impede que Set seja reduzido simplesmente à categoria de uma divindade maligna.
Sua força pode destruir, mas também defender.
Pode perturbar a ordem, mas também enfrentar aquilo que procura destruí-la completamente.
Se pensarmos a criação não como fabricação de matéria a partir do nada, mas como processo de diferenciação e organização de um estado primordial, surge uma possibilidade interessante: a ruptura pode ser parte necessária do próprio ato criador.
A criação como diferenciação
Muitas cosmogonias egípcias começam com uma realidade primordial indiferenciada. Antes do mundo organizado encontramos águas, escuridão, infinitude ou ausência de formas claramente estabelecidas.
A criação ocorre quando alguma distinção começa a existir.
A terra surge das águas.
O céu se separa da terra.
A luz distingue-se da escuridão.
Os deuses recebem nomes, funções e identidades.
O espaço passa a possuir direções.
Aquilo que antes estava unido torna-se múltiplo.
Sob essa perspectiva, criar significa também separar.
Essa ideia produz uma chave interpretativa particularmente fértil para uma possível cosmogonia centrada em Set. Uma divindade associada à ruptura, à fronteira e àquilo que existe fora da estabilidade poderia simbolicamente representar a força responsável por romper a uniformidade primordial e permitir o aparecimento da diferença.
Isso não significa afirmar que os sacerdotes de Nubt ensinavam exatamente essa doutrina. Trata-se de uma interpretação contemporânea construída a partir das características conhecidas de Set e da lógica presente em diferentes cosmogonias egípcias.
Set como força primordial de separação
Se imaginarmos uma cosmogonia ombita hipotética, talvez Set não precisasse ocupar exatamente o mesmo papel desempenhado por Atum em Heliópolis ou Ptah em Mênfis.
Sua natureza poderia sugerir outra forma de criação.
Set poderia representar o momento em que a unidade primordial deixa de permanecer indistinta.
Sua força não criaria necessariamente cada elemento particular do universo. Ela abriria espaço para que os diferentes elementos pudessem existir.
Nesse modelo simbólico, Set seria a força que estabelece a primeira distinção.
Onde antes havia apenas continuidade, surge uma fronteira.
Onde não havia direção, aparece um horizonte.
Onde tudo permanecia unido, surgem identidades separadas.
A criação não começaria necessariamente com serenidade, mas com um acontecimento capaz de quebrar a uniformidade primordial.
A primeira manifestação do cosmos seria, então, uma diferença.
A Terra Negra e a Terra Vermelha
O simbolismo egípcio oferece uma imagem particularmente adequada para compreender essa oposição.
O vale fértil do Nilo era associado à Terra Negra, expressão relacionada ao solo escuro depositado pelas águas e essencial à agricultura. O deserto podia ser associado à Terra Vermelha, região árida localizada além das áreas cultivadas.
Essa divisão não significava simplesmente uma oposição entre bem e mal.
A Terra Negra sustentava a agricultura, as cidades e a continuidade da vida. A Terra Vermelha podia ser perigosa, mas também continha minerais, pedras, ouro e rotas importantes para comércio e comunicação.
O mundo egípcio precisava de ambos.
O limite entre essas duas realidades pode ser compreendido como uma imagem profundamente setiana. Set encontra-se simbolicamente ligado ao espaço exterior, ao deserto e à fronteira. Entretanto, aquilo que está fora da ordem central não é necessariamente inútil. Muitas vezes contém recursos que a própria ordem necessita.
Uma possível cosmogonia de Nubt poderia ter encontrado justamente nessa tensão uma linguagem para explicar o funcionamento do universo.
Set, ordem e desordem
A religião egípcia atribuía enorme importância ao conceito de Ma’at, relacionado à ordem, verdade, equilíbrio e regularidade que tornam possível a continuidade do cosmos.
Seu contrário frequentemente é relacionado ao conceito de isfet, associado à desordem, injustiça e ruptura destrutiva.
Seria simples colocar Set integralmente do lado de isfet. Entretanto, essa interpretação não consegue explicar todas as funções atribuídas ao deus ao longo da história egípcia.
Set pode atuar de forma destrutiva, mas também pode combater ameaças à ordem. Sua força é perigosa justamente porque possui capacidade de romper estruturas. Quando essa potência é direcionada contra algo que ameaça destruir o cosmos, ela se torna protetora.
Essa dualidade permite desenvolver uma interpretação mais sofisticada.
Uma cosmogonia setiana não precisaria celebrar desordem ilimitada. Poderia apresentar Set como uma força necessária de transformação cuja potência precisa receber direção.
A ruptura absoluta destruiria o mundo.
A ausência absoluta de ruptura impediria qualquer transformação.
Entre os dois extremos existe o movimento.
Uma possível cosmogonia de Nubt
A partir deste ponto, entramos deliberadamente no campo da reconstrução simbólica contemporânea.
O texto a seguir não é tradução de um papiro egípcio, não pertence a um templo conhecido e não deve ser atribuído aos antigos sacerdotes de Nubt. Trata-se de uma composição autoral construída a partir de elementos históricos e simbólicos relacionados a Set, à paisagem de Nubt e às diferentes concepções egípcias sobre a criação.
Sua função é explorar como uma cosmogonia centrada em Set poderia ser imaginada de maneira coerente sem falsificar a documentação histórica.
Antes das fronteiras
Antes que houvesse céu, terra, rio ou deserto, o universo permanecia sem distinções. Nada possuía uma forma própria porque nenhuma coisa estava separada das demais. Não existiam margens, horizontes ou direções. Tudo aquilo que um dia se tornaria múltiplo permanecia oculto dentro de uma realidade sem limites definidos.
Esse estado primordial não era inexistência absoluta. Nele estavam contidas todas as possibilidades, mas nenhuma delas possuía ainda identidade própria.
Então surgiu movimento.
Aquilo que permanecia imóvel foi atravessado por uma força que não aceitava permanecer indiferenciada.
Essa força era Set.
A primeira separação
Set atravessou o estado primordial e estabeleceu a primeira diferença.
Onde antes não existia direção, passaram a existir acima e abaixo. A terra separou-se das águas. O horizonte surgiu entre regiões anteriormente indistinguíveis. O interior tornou-se diferente do exterior.
A criação começou quando uma fronteira tornou possível reconhecer aquilo que existia de cada lado.
Set não precisou fabricar todas as coisas. Sua primeira ação foi permitir que elas deixassem de ser indistintas.
A separação tornou possível a identidade.
E a identidade tornou possível a multiplicidade.
O nascimento do deserto
Quando o mundo adquiriu limites, algumas regiões receberam água e fertilidade. Outras permaneceram secas.
Set caminhou pelas terras áridas, onde a vida precisava desenvolver outras formas de resistência.
O deserto tornou-se território de perigo, mas também de riquezas ocultas.
Pedras, metais e ouro permaneciam escondidos onde poucos ousavam entrar.
Aquilo que parecia estéril possuía valor.
A criação mostrava, assim, que nem tudo aquilo que sustenta a existência nasce em lugares confortáveis.
Algumas riquezas permanecem justamente além das fronteiras conhecidas.
O limite da própria força
Set compreendeu, entretanto, que a mesma força que separa também pode destruir.
Se nada permanecer unido, não existe mundo.
Se nada puder ser dividido, também não existe transformação.
A fronteira precisa estabelecer diferença sem produzir dissolução completa.
Por isso, Set tornou-se guardião das extremidades.
Sua força permaneceu presente onde a ordem encontra aquilo que existe além dela.
Não para eliminar todas as fronteiras, mas para impedir que se tornem absolutas.
O mundo precisava ser suficientemente estável para permanecer e suficientemente aberto para continuar mudando.
A multiplicidade do cosmos
Depois da primeira diferenciação, cada elemento pôde receber identidade.
O Sol encontrou o horizonte.
O rio recebeu margens.
O deserto tornou-se distinto da terra cultivada.
Os deuses receberam nomes.
Os seres humanos passaram a ocupar seu próprio lugar dentro da criação.
A multiplicidade nasceu da diferença.
Aquilo que antes permanecia unido tornou-se capaz de manifestar diferentes formas de existência.
Assim, a criação não ocorreu apenas porque alguma coisa surgiu.
Ela ocorreu porque cada coisa pôde deixar de ser todas as outras.
O guardião da diferença
Com o surgimento das formas surgiu também a possibilidade de destruí-las.
Aquilo que possui limite pode ser dissolvido.
Aquilo que possui nome pode ser esquecido.
Aquilo que possui identidade pode retornar à indiferenciação.
A força de Set tornou-se, então, necessária novamente.
A mesma potência que havia estabelecido a primeira fronteira passou a defendê-la contra aquilo que procurava dissolver todas as distinções.
Sua violência permaneceu perigosa.
Mas quando dirigida contra a completa dissolução do mundo, essa mesma violência transformou-se em proteção.
Nesse possível mito ombita, Set não seria apenas aquele que rompe.
Seria aquele que torna possível a existência da diferença.
O sentido filosófico de uma criação setiana
Essa reconstrução apresenta uma visão particular sobre o ato criador.
A criação deixa de ser simplesmente a produção de objetos e passa a representar o surgimento da individualidade.
Existir significa possuir limites.
Uma coisa precisa ser diferente de outra para que ambas possam ser reconhecidas.
O próprio conhecimento depende dessa separação. Só percebemos uma forma porque ela possui contornos. Só distinguimos uma identidade porque ela não se confunde completamente com todas as demais.
Nesse sentido, uma interpretação contemporânea de Set como potência de diferenciação encontra uma base filosófica interessante.
A força setiana não seria criadora porque produzisse serenamente todas as formas do universo, mas porque impediria que elas permanecessem dissolvidas numa unidade indiferenciada.
A ruptura inicial produziria possibilidade.
A fronteira como espaço sagrado
A ideia de fronteira ocupa lugar central nessa interpretação.
Uma fronteira não é apenas uma linha que separa.
Ela também conecta.
O limite entre o vale e o deserto marca a diferença entre dois ambientes, mas também é exatamente onde esses ambientes se encontram.
A margem de um rio separa a água da terra, mas é também o espaço onde ambas entram em contato.
Sob essa perspectiva, Set pode ser compreendido simbolicamente como uma divindade do território liminar.
Ele não pertence exclusivamente ao mundo organizado nem à completa dissolução da ordem.
Sua força aparece justamente na região onde os dois se encontram.
Essa posição explica parte de sua ambivalência.
O limite pode proteger.
Mas também pode ser atravessado.
Pode organizar.
Mas também pode mudar.
Set representa o perigo e a possibilidade existentes nesse encontro.
Uma cosmogonia das margens
Se uma antiga teologia de Nubt realmente colocou Set no centro da criação, talvez ela tenha refletido a própria experiência geográfica de seu povo.
Nubt encontrava-se entre a fertilidade do vale e as rotas desérticas.
A ordem agrícola dependia da regularidade do Nilo, mas parte de sua riqueza vinha das regiões exteriores.
A cidade precisava reconhecer os perigos do deserto e, ao mesmo tempo, atravessá-lo.
Essa realidade poderia produzir uma compreensão do cosmos muito diferente daquela desenvolvida em outros centros.
Em vez de imaginar a criação exclusivamente como surgimento da estabilidade, uma teologia ombita poderia ter atribuído importância ao momento em que os limites foram estabelecidos.
A ordem surgiria não apesar da diferença, mas justamente porque a diferença passou a existir.
Essa possibilidade torna a hipótese de uma cosmogonia setiana intelectualmente interessante mesmo quando reconhecemos que o texto original dessa tradição, caso tenha existido, não chegou até nós.
Por que a palavra “possível” é fundamental
Uma abordagem responsável da religião egípcia exige separar três níveis de análise: aquilo que está documentado, aquilo que pode ser inferido e aquilo que construímos simbolicamente no presente.
Sabemos que Nubt foi um importante centro relacionado a Set.
Sabemos que diferentes cidades egípcias desenvolveram sistemas cosmogônicos próprios.
Sabemos que Set possuía características relacionadas a fronteiras, deserto, força e ruptura, além de desempenhar funções protetoras em determinadas tradições.
Não sabemos exatamente como os sacerdotes de Nubt explicavam a origem do universo.
É nesse espaço que começa a hipótese.
Manter essa distinção não enfraquece o estudo. Pelo contrário, aumenta sua credibilidade.
Transformar uma narrativa moderna em suposta descoberta antiga produziria uma história mais sensacionalista, mas menos valiosa.
Reconhecer os limites das evidências permite uma reflexão muito mais profunda.
Set como criador e destruidor
Uma das ideias mais interessantes que emerge dessa reconstrução é a possibilidade de compreender criação e destruição não como forças absolutamente separadas.
Toda transformação contém algum grau de ruptura.
O nascimento de uma nova condição implica o fim da anterior.
Criar um caminho exige modificar um espaço.
Produzir uma identidade exige estabelecer um limite.
Nesse sentido, a força destrutiva pode adquirir função criadora quando aquilo que ela rompe é precisamente o que impedia o surgimento de uma nova forma.
Essa interpretação não pretende justificar destruição indiscriminada.
Ela aponta para uma realidade mais complexa: estabilidade absoluta significaria ausência completa de transformação.
Um cosmos vivo precisa preservar sua ordem sem perder a capacidade de mudar.
Uma leitura setiana da criação poderia encontrar exatamente nesse equilíbrio uma de suas ideias centrais.
O possível legado de Nubt
Mesmo que jamais seja encontrado um texto completo descrevendo uma cosmogonia própria de Nubt, investigar essa possibilidade revela muito sobre a natureza da religião egípcia.
Os antigos egípcios não possuíam um panteão imóvel. Divindades mudavam de importância, recebiam novos títulos, eram relacionadas a outras divindades e participavam de sistemas teológicos diferentes conforme lugar e período.
Uma cidade podia contemplar o cosmos a partir de seu próprio deus sem necessariamente negar as tradições de outro centro religioso.
Essa flexibilidade foi uma das características que permitiram à religião egípcia atravessar milênios.
Por isso, perguntar como os habitantes de Nubt poderiam compreender a criação não significa procurar uma única verdade perdida.
Significa explorar uma das muitas perspectivas que podem ter existido dentro de uma tradição religiosa extraordinariamente diversa.
Considerações finais
Um possível mito de criação ombita permanece necessariamente no território da hipótese. Não conhecemos um texto antigo preservado que apresente Set como criador primordial de uma cosmogonia própria de Nubt, e qualquer reconstrução detalhada precisa reconhecer esse limite.
Entretanto, a pergunta permanece válida e produtiva.
Nubt foi um centro profundamente associado a Set. O Egito Antigo conheceu diferentes sistemas cosmogônicos. A própria natureza simbólica de Set — relacionada à força, ruptura, fronteira, deserto e proteção — oferece possibilidades interessantes para pensar uma criação baseada não apenas no surgimento da matéria, mas no nascimento da diferença.
Nesse modelo, a criação começa quando aquilo que permanecia indiferenciado recebe limites.
Céu e terra podem existir porque não são a mesma coisa.
Rio e deserto possuem identidade porque ocupam espaços diferentes.
Ordem e aquilo que existe além dela tornam-se reconhecíveis porque uma fronteira foi estabelecida.
Uma cosmogonia setiana poderia, portanto, colocar no centro não a serenidade absoluta, mas o poder de produzir distinção.
Set não precisaria ser imaginado como o artesão de cada elemento do universo.
Sua função primordial poderia ser ainda mais fundamental: tornar possível que cada coisa adquirisse identidade própria.
Essa não é uma doutrina que possamos atribuir com segurança aos antigos sacerdotes de Nubt.
É uma reconstrução contemporânea.
Mas é justamente ao declarar essa diferença que podemos explorar toda a força simbólica da hipótese sem transformar imaginação em falsa história.
Talvez nunca saibamos exatamente o que os sacerdotes de Nubt ensinavam sobre o princípio do mundo.
Ainda assim, uma possibilidade permanece intelectualmente fascinante: talvez, em uma cosmogonia construída sob o olhar de Set, o primeiro acontecimento da criação não tenha sido simplesmente o nascimento de alguma coisa, mas o momento em que o universo aprendeu a ser diferente.
Perguntas frequentes sobre o possível mito de criação ombita
O que é um mito de criação ombita?
É a hipótese de uma cosmogonia relacionada a Nubt, também conhecida como Ombos, antigo centro de culto de Set na região da atual Naqada. Nenhum texto completo dessa suposta cosmogonia é conhecido atualmente.
Nubt e Naqada são o mesmo lugar?
Nubt era uma antiga cidade localizada na região da atual Naqada, no Alto Egito. Naqada tornou-se particularmente importante para a arqueologia por sua relação com o período pré-dinástico e com as culturas que antecederam a formação do Estado egípcio.
Nubt é a mesma cidade que Kom Ombo?
Não. Embora nomes como Nubt e Ombos apareçam relacionados a diferentes localidades em fontes antigas, a Nubt associada ao antigo culto de Set e à região de Naqada não corresponde ao conhecido sítio de Kom Ombo.
Set era considerado um deus criador?
Não existe evidência suficiente para afirmar que Set fosse universalmente considerado um criador primordial comparável a Atum, Ptah ou outras divindades com funções cosmogônicas bem documentadas. A hipótese de uma cosmogonia especificamente setiana em Nubt permanece especulativa.
Por que Set poderia ser associado à criação?
Em uma interpretação contemporânea, suas características relacionadas à ruptura, às fronteiras e à diferenciação permitem imaginá-lo como uma força que transforma um estado primordial indiferenciado em um universo composto por elementos distintos. Essa interpretação não deve ser apresentada como uma doutrina egípcia comprovada.
A narrativa apresentada neste artigo é um mito egípcio original?
Não. A reconstrução apresentada neste estudo é uma composição contemporânea e autoral baseada em elementos históricos e simbólicos da religião egípcia. Ela não pretende ser tradução de um papiro ou reconstrução literal de um texto antigo perdido.