Buer: história, origem e tradição do 10º espírito da Ars Goetia

Buer ocupa a décima posição na Ars Goetia e se tornou uma das figuras visualmente mais reconhecíveis de todo o catálogo dos 72 espíritos.
A imagem que domina a internet é difícil de esquecer: uma cabeça leonina central cercada por cinco pernas semelhantes às de um bode, formando uma espécie de roda viva capaz de girar sobre si mesma.
Essa representação tornou-se tão popular que frequentemente é apresentada como:
“a aparência original de Buer segundo a Goétia.”
Historicamente, porém, isso não é correto.
A tradição textual mais antiga conhecida apresenta uma história muito mais interessante.
Johann Weyer registra Buer como o sétimo espírito da Pseudomonarchia Daemonum. Ali ele é um Grande Presidente associado à filosofia moral e natural, lógica, virtudes das ervas, familiares e cura. Sua aparência é descrita de maneira extremamente breve como “na forma de uma estrela”.
Quando o material chega à Ars Goetia, Buer passa para a posição nº 10. O manuscrito Sloane 3825 registra que ele aparece em Sagitário, “quando o Sol está ali”. Joseph H. Peterson chama atenção precisamente para essa passagem e afirma que o tradutor parece ter entendido incorretamente a formulação latina anterior relacionada à imagem de uma estrela.
No século XIX, Jacques Collin de Plancy descreve Buer como uma estrela ou roda de cinco raios que se move girando sobre si própria. Na edição de 1863 do Dictionnaire Infernal, Louis Le Breton produz a célebre imagem leonina de cinco pernas que acabaria dominando a iconografia contemporânea.
Assim, aquilo que hoje parece uma imagem antiga e imutável é, na verdade, o resultado de várias etapas:
texto;
tradução;
interpretação;
recepção;
e arte.
Esse é precisamente o tipo de história que esta biblioteca procura recuperar.
Quem é Buer na Ars Goetia?
Na Ars Goetia, Buer é apresentado como um Grande Presidente e o décimo espírito do catálogo.
A entrada lhe atribui o ensino da filosofia moral e natural, da lógica e das propriedades ou virtudes das ervas e plantas. Também afirma que ele cura enfermidades humanas, concede bons familiares e governa cinquenta legiões de espíritos.
Esse é o núcleo goético.
Temos, portanto, quatro grandes campos historicamente documentados:
conhecimento filosófico;
lógica;
plantas e ervas;
e saúde ou cura dentro da cosmologia mágica da fonte.
A eles se acrescentam os familiares e as cinquenta legiões.
O que precisamos evitar é transformar esse núcleo relativamente específico numa entidade que “rege tudo relacionado à medicina, psicologia, veterinária, alquimia, química, biologia, farmacologia e cura energética”.
Essas expansões pertencem a sistemas modernos quando aparecem.
Buer antes da Ars Goetia
Buer já estava documentado antes do Lemegeton.
Na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, ocupa a posição nº 7.
Na Ars Goetia, torna-se nº 10. Peterson registra diretamente essa correspondência em sua comparação das duas listas.
Isso continua demonstrando aquilo que estamos verificando espírito por espírito:
a numeração da Goétia não é uma ordem imutável preservada desde a origem da tradição.
Buer não foi sempre o décimo.
A lista foi reorganizada.
Consequentemente, qualquer sistema numerológico contemporâneo baseado no “10 de Buer” deve reconhecer que essa posição é específica da organização posterior do Lemegeton.
O que Johann Weyer diz sobre Buer?
A descrição de Weyer é curta e extremamente clara.
Buer é um Grande Presidente.
Aparece na forma de uma estrela.
Ensina perfeitamente filosofia moral e natural.
Ensina lógica.
Conhece as virtudes das ervas.
Concede excelentes familiares.
É associado à cura de doenças, especialmente humanas.
E governa cinquenta legiões.
Observe algo importante.
Weyer não descreve:
cabeça de leão;
cinco pernas de bode;
barba;
chifres;
olhos flamejantes;
arco e flecha;
cor específica;
vestimentas;
ou corpo humano.
Sua descrição visual é apenas:
uma estrela.
Isso torna a história posterior da imagem ainda mais significativa.
Buer pode ter antecedentes anteriores a Weyer
Sim, embora seja necessário cuidado.
Jean-Patrice Boudet compara a Pseudomonarchia Daemonum com o chamado Livre des esperitz, preservado no manuscrito Cambridge Trinity College O.8.29.
Nesse catálogo aparece Gemer, que Boudet identifica como correspondente a Buer apesar da grande deformação nominal. Ele observa que alguns personagens dos diferentes catálogos podem ser reconhecidos principalmente pelos atributos, mesmo quando os nomes mudaram de maneira considerável.
Peterson também registra:
Trin. 13: Gemer
como paralelo de Buer.
Isso é importante porque significa que a história da figura provavelmente não começa simplesmente no momento em que Weyer imprime “Buer”.
Gemer é definitivamente Buer?
Existe forte relação textual reconhecida pelos pesquisadores que comparam esses catálogos.
Entretanto, seria excessivo afirmar que possuímos uma cadeia perfeita mostrando cada etapa da transformação:
Gemer → Buer.
Os nomes são bastante diferentes.
É o conjunto de posição relativa, tradição textual e atribuições que sustenta a correspondência.
Por isso, a formulação mais profissional é:
“Gemer, no Livre des esperitz, é identificado por Boudet e Peterson como uma figura correspondente ou antecedente textual de Buer.”
Isso é melhor que transformar hipótese filológica em certeza absoluta.
E quem é Centu?
Existe ainda outro testemunho interessante.
Peterson observa que a descrição de Buer em Weyer corresponde a uma figura chamada Centu no manuscrito conhecido como Coxe 25.
Centu é apresentado como Grande Presidente e está associado a campos como medicina, ética e lógica, criando uma forte aproximação funcional com o Buer posterior.
Esse tipo de variante demonstra novamente como instável podia ser a transmissão dos nomes.
Um mesmo complexo de atributos pode circular sob formas nominais surpreendentemente diferentes.
A origem do nome Buer
Não possuímos uma etimologia segura.
Esse é mais um caso em que a internet frequentemente oferece explicações muito confiantes sem base filológica suficiente.
O problema é agravado pelas formas relacionadas:
Buer;
Gemer;
Centu.
Se essas figuras realmente pertencem à mesma cadeia textual, a forma original do nome torna-se ainda mais difícil de reconstruir.
Também existe uma localidade chamada Buer na Alemanha, fato que às vezes é utilizado para produzir teorias sobre origem germânica.
Sem documentação intermediária, isso continua sendo coincidência geográfica, não etimologia demonstrada.
Portanto:
a origem do nome Buer permanece incerta.
Essa resposta é mais confiável que inventar uma tradução.
Buer é Presidente
O título permanece bastante estável.
Weyer chama Buer de Grande Presidente.
A Ars Goetia mantém a mesma dignidade.
Collin de Plancy continua classificando-o como Presidente no século XIX.
Dentro do catálogo goético, Presidente é uma das categorias utilizadas ao lado de Reis, Duques, Marqueses, Condes, Príncipes e do Cavaleiro Furcas.
Não devemos interpretar “Presidente” no sentido político contemporâneo.
É uma dignidade dentro da estrutura nobiliárquica e administrativa imaginada pelos textos.
Presidente é inferior a Rei?
A fonte apresenta hierarquia, mas não fornece uma escala matemática universal de poder.
Não podemos escrever:
Rei = 100;
Duque = 80;
Presidente = 60.
Esse tipo de classificação é criação moderna.
Buer ser Presidente informa sua categoria tradicional.
Não permite calcular exatamente sua “força” em comparação a outro espírito.
Cinquenta legiões
O número também possui grande estabilidade.
Weyer registra cinquenta legiões.
A Ars Goetia mantém cinquenta.
Collin de Plancy ainda preserva cinquenta no século XIX.
Isso faz do número um dos elementos mais seguros do perfil histórico.
Mesmo assim, o texto não informa quantos espíritos constituiriam exatamente uma legião.
Também não estabelece que cinquenta legiões equivalem a um nível específico de poder.
A verdadeira questão da aparência de Buer
Poucos espíritos demonstram tão claramente a diferença entre texto e iconografia.
A imagem contemporânea é tão famosa que parece impossível imaginar Buer de outra maneira.
Mas precisamos reconstruir a sequência histórica.
Weyer:
estrela.
Ars Goetia:
Sagitário quando o Sol se encontra ali.
Collin de Plancy:
estrela ou roda de cinco raios que se move girando.
Louis Le Breton:
a célebre figura leonina com cinco pernas distribuídas radialmente.
Cada etapa acrescenta alguma coisa.
Weyer diz que Buer é uma estrela
A tradução editada por Peterson registra Buer como aparecendo:
“in the form of a star.”
O latim está relacionado a conspicitur in signo seguido pelo símbolo de uma estrela.
Isso significa que a figura radial possui uma raiz textual real.
Mas ainda não temos o famoso corpo leonino de cinco pernas.
Existe uma diferença enorme entre:
estrela
e
leão de cinco pernas.
Como a estrela virou Sagitário?
Essa é uma das melhores descobertas do artigo.
O Sloane 3825 diz que Buer aparece em Sagitário e que essa é sua forma quando o Sol se encontra ali.
Peterson acrescenta imediatamente uma observação:
o tradutor de Scot parece ter entendido incorretamente o latim de Weyer, que simplesmente indicava Buer sendo observado na figura de uma estrela.
Isso sugere que a associação astrológica explícita com Sagitário pode ter nascido de um problema de interpretação textual.
Buer é realmente um espírito de Sagitário?
A resposta precisa separar tradição e origem textual.
Na Ars Goetia, a associação existe.
Portanto, ela é historicamente real dentro dessa etapa da tradição.
Mas não deveríamos afirmar:
“Desde Weyer, Buer aparece apenas quando o Sol entra em Sagitário.”
Weyer não diz isso da mesma maneira.
A ligação explícita Sol–Sagitário parece pertencer à transmissão posterior.
Uma corrente moderna pode trabalhar astrologicamente com essa associação.
Só não deve retroprojetá-la como se fosse parte indiscutível da forma original.
Buer era originalmente um centauro?
Também não temos base suficiente para isso.
Como Sagitário costuma ser representado por um arqueiro centauro, algumas edições e páginas modernas interpretaram Buer como figura centaurina.
Mas essa imagem depende da leitura astrológica posterior.
Weyer fala numa estrela.
Não num centauro.
Portanto:
Buer-centauro é uma interpretação derivada da associação posterior com Sagitário, não a descrição original de Weyer.
A roda de cinco raios
No Dictionnaire Infernal de 1863, Collin de Plancy descreve Buer como uma estrela ou roda de cinco raios que avança rolando sobre si própria.
Essa é uma etapa extremamente importante.
A estrela de Weyer ganha movimento.
Os raios tornam-se membros potenciais.
A figura começa a se aproximar daquilo que hoje reconhecemos imediatamente como Buer.
Louis Le Breton e a imagem definitiva de Buer
Na mesma edição de 1863, a ilustração atribuída a Louis Le Breton apresenta Buer com cabeça leonina central e cinco pernas distribuídas radialmente. O arquivo histórico identifica explicitamente a imagem como a representação de Buer feita por Le Breton para a sexta edição do Dictionnaire Infernal.
Essa imagem teve enorme influência.
Livros.
Sites.
Tatuagens.
Jogos.
Álbuns musicais.
Ilustrações contemporâneas.
Muitas representações atuais descendem direta ou indiretamente dessa gravura.
A cabeça de leão não está em Weyer
Esse ponto precisa ficar explícito.
A tradição anterior não descreve Buer com cabeça de leão.
Weyer não diz isso.
O Sloane 3825 também não apresenta esse detalhe no pequeno perfil textual.
A cabeça leonina é parte da iconografia posterior popularizada por Le Breton.
Isso não significa que a imagem seja “falsa”.
Ela é historicamente real como representação do século XIX.
O erro é apresentá-la como descrição do século XVI.
As cinco pernas também não aparecem em Weyer
Weyer fornece a estrela.
Collin de Plancy fornece a roda de cinco raios.
Le Breton transforma visualmente essa geometria em cinco pernas.
Portanto, existe continuidade criativa.
Mas existe também desenvolvimento.
Essa diferença precisa aparecer no artigo porque é justamente aquilo que torna Buer tão interessante para a história da demonologia visual.
A imagem não precisa ser literalmente o corpo da entidade
Uma tradição religiosa contemporânea pode acreditar que Le Breton captou uma manifestação verdadeira.
Outra pode considerar a imagem simbólica.
Outra pode utilizá-la apenas como iconografia histórica.
Essas são interpretações religiosas diferentes.
O que o método histórico consegue afirmar é:
a representação leonina radial aparece claramente na recepção do século XIX e tornou-se dominante depois.
Buer ensina filosofia moral
Essa atribuição está em Weyer e permanece na Goetia.
Mas “filosofia moral” não significa simplesmente:
“Buer ensina moralidade.”
Historicamente, filosofia moral era um campo intelectual dedicado a questões sobre:
virtude;
conduta;
caráter;
bem;
ação humana;
vida social.
Autores antigos e medievais desenvolveram extensamente essas questões.
Portanto, Buer possui uma associação textual significativa com o pensamento ético.
Isso é bastante diferente de transformá-lo em “entidade que decide universalmente o que é certo e errado”.
Moralidade e Luciferianismo
Dentro de uma interpretação contemporânea do Templo, essa atribuição oferece uma oportunidade importante.
Uma filosofia de autonomia não elimina ética.
Pelo contrário.
Se não existe obediência automática como única fonte de conduta, então cresce a responsabilidade de pensar:
por que considero determinada ação justa?
Quais são suas consequências?
Quem é afetado?
Que princípio estou aplicando?
Estou disposto a aplicar o mesmo critério quando a situação me desfavorece?
Nesse sentido, Buer pode representar simbolicamente uma ética refletida, não obediência mecânica.
Essa é uma interpretação contemporânea.
Buer ensina filosofia natural
A segunda grande área é a filosofia natural.
Esse termo é historicamente muito importante.
Antes da consolidação das ciências modernas em sua organização atual, “filosofia natural” abrangia grande parte do estudo racional da natureza.
Movimento.
Matéria.
Céus.
Corpo.
Animais.
Plantas.
Fenômenos naturais.
Autores que hoje consideraríamos importantes para a história da ciência muitas vezes descreviam suas investigações como filosofia natural.
Portanto, quando a tradição relaciona Buer a esse campo, não está simplesmente dizendo:
“ele ensina espiritualidade da natureza.”
Existe uma dimensão intelectual muito mais ampla.
Filosofia natural não é ciência moderna
Também não devemos cair no anacronismo oposto.
O fato de a expressão abranger investigação da natureza não significa que toda afirmação encontrada num grimório equivalha a conhecimento científico validado hoje.
A ciência moderna desenvolveu metodologias específicas de observação, experimentação, replicação, análise estatística e revisão.
Portanto:
Buer possui associação histórica com filosofia natural.
Isso não significa:
“Buer fornece conhecimento científico infalível.”
Buer e lógica
A lógica constitui o terceiro eixo intelectual.
Weyer afirma explicitamente que Buer a ensina.
A Goetia preserva essa função.
Essa talvez seja uma das atribuições mais apropriadas para uma interpretação luciferiana contemporânea centrada no conhecimento.
Lógica envolve analisar:
premissas;
inferências;
contradições;
validade;
relação entre argumentos.
Uma pessoa pode possuir enorme quantidade de informação e ainda raciocinar mal.
Conhecimento não depende apenas daquilo que sabemos.
Depende também da maneira como chegamos às conclusões.
Buer como figura do raciocínio
Dentro do Templo, podemos interpretar Buer como símbolo da seguinte disciplina:
não aceite uma conclusão apenas porque ela combina com aquilo que você deseja acreditar.
Pergunte:
qual é a premissa?
Existe evidência?
A conclusão realmente segue da premissa?
Existem explicações alternativas?
Uma fonte está sendo citada corretamente?
Essa interpretação nasce diretamente de uma atribuição textual real: lógica.
Não precisamos inventar “poderes quânticos” para tornar Buer relevante.
Buer e as ervas
Weyer diz que Buer conhece a virtude das ervas.
A Goetia amplia a formulação para as virtudes de todas as ervas e plantas.
A palavra “virtude” aqui não significa moralidade vegetal.
Historicamente, virtus e termos equivalentes podiam designar propriedade, potência ou efeito atribuído a uma substância.
Isso coloca Buer dentro de uma tradição antiga de conhecimento sobre plantas.
Ervas não significam automaticamente medicina científica
Precisamos novamente manter a cronologia.
Conhecimento histórico de plantas incluía:
observação empírica;
tradição popular;
medicina humoral;
botânica pré-moderna;
farmacopeias;
e também atribuições mágicas.
Essas categorias nem sempre eram separadas da maneira como fazemos hoje.
Por isso, não podemos simplesmente pegar uma lista moderna de “ervas de Buer” e apresentar como se Weyer a tivesse escrito.
Ele afirma que Buer conhece suas virtudes.
Não fornece naquela pequena entrada um catálogo botânico completo.
A cura em Buer
Esse é o tema que exige maior responsabilidade editorial.
Weyer afirma que Buer pode curar todas as doenças, especialmente as dos homens.
A Ars Goetia também afirma que ele cura as enfermidades humanas.
Collin de Plancy, no século XIX, diz que ele se vangloria de devolver saúde aos enfermos.
Portanto, não existe dúvida sobre a atribuição histórica.
Ela faz parte da tradição.
A questão é aquilo que fazemos com essa informação hoje.
Um grimório não é evidência clínica
O fato de um texto mágico atribuir cura a Buer não demonstra que práticas espirituais envolvendo seu nome tratem doenças.
Isso precisa ser colocado claramente.
Doença física ou mental deve ser avaliada por profissionais adequadamente qualificados.
Uma pessoa pode possuir crenças espirituais.
Pode realizar oração, ritual ou prática devocional se isso fizer sentido para sua religião.
Mas isso não deve substituir:
diagnóstico;
medicação prescrita;
cirurgia;
psicoterapia;
acompanhamento;
ou outras intervenções clínicas necessárias.
Essa distinção não enfraquece o estudo histórico.
Torna-o responsável.
Buer não deve ser vendido como tratamento médico garantido
Hoje existem páginas que oferecem Buer como entidade especializada em:
doenças crônicas;
transtornos mentais;
cura de animais;
aumento de vitalidade;
ou recuperação clínica.
Essas afirmações contemporâneas vão muito além daquilo que podemos estabelecer historicamente e não constituem evidência médica.
O Templo pode diferenciar-se exatamente aqui.
Não precisa negar que o grimório atribui cura.
Mas também não precisa transformar a atribuição em propaganda terapêutica.
Por que ervas e cura aparecem juntas?
A combinação é intelectualmente coerente dentro do contexto histórico.
Buer conhece propriedades das ervas.
Também é associado à cura.
Entretanto, a entrada não fornece uma teoria médica detalhada dizendo que ele cura exclusivamente através de plantas.
Não devemos preencher a lacuna automaticamente.
Podemos reconhecer a proximidade temática sem afirmar um mecanismo não documentado.
Buer como símbolo de investigação sobre saúde
Numa leitura contemporânea responsável, saúde pode ser utilizada como tema de cuidado informado.
Se algo está errado com o corpo, investigue.
Procure profissional competente.
Entenda o diagnóstico.
Conheça riscos e benefícios do tratamento.
Faça perguntas.
Aprenda sobre aquilo que está acontecendo.
Nesse sentido, a associação de Buer com lógica, filosofia natural e saúde produz uma leitura mais madura:
cuidar exige compreender.
Essa é interpretação.
Não promessa de cura espiritual.
Os bons familiares
Weyer afirma que Buer concede os melhores familiares.
A Goetia mantém a ideia de bons familiares.
Como já discutimos em Valefor e Paimon, “familiar” pertence a um universo histórico específico de espíritos auxiliares.
Não significa automaticamente:
animal de poder;
anjo da guarda;
pet espiritual;
ou guia psicológico interior.
Tradições contemporâneas podem reinterpretar a categoria.
Precisam apenas indicar que estão fazendo isso.
Buer possui uma ordem angelical anterior?
As pequenas entradas centrais de Weyer e da Ars Goetia não apresentam uma antiga ordem angelical específica para Buer.
Por isso, afirmações modernas como:
“Buer era um Querubim responsável pelas constelações”
ou:
“Buer caiu da ordem X junto de Lúcifer”
não devem ser colocadas como história sem outra fonte específica.
Elas circulam atualmente em compilações modernas, mas não pertencem ao núcleo documental que estamos examinando.
Buer participou da rebelião de Lúcifer?
A entrada não apresenta uma narrativa individual desse tipo.
Não informa:
como teria ocorrido sua queda;
que posição possuía no céu;
qual era seu antigo nome;
ou qual teria sido sua participação numa rebelião.
Uma corrente luciferiana contemporânea pode construir uma teologia sobre isso.
Não deve atribuí-la retroativamente a Weyer.
Buer possui relação explícita com Lúcifer?
Não como Paimon.
Isso é importante.
Paimon possui uma relação textual direta de obediência a Lúcifer.
Buer não recebe uma formulação semelhante em sua entrada fundamental.
Portanto, não devemos escrever:
“Buer é médico de Lúcifer”;
“Buer é filósofo pessoal de Lúcifer”;
ou:
“Buer foi enviado por Lúcifer para ensinar ervas.”
Esses títulos seriam criações posteriores.
O Luciferianismo moderno pode reinterpretar Buer sem inventar uma origem luciferiana documental que não está ali.
Buer no Grand Grimoire
Buer também aparece em outra tradição importante.
No Grand Grimoire, ele integra o grupo de dezoito espíritos inferiores subordinados aos seis grandes oficiais.
Nesse sistema, Agaliarept comanda Buer, Gusoyn e Botis.
Essa informação é muito útil porque novamente demonstra a diversidade das hierarquias demonológicas.
Na Ars Goetia:
Buer é Grande Presidente nº 10 e governa cinquenta legiões.
No Grand Grimoire:
Buer aparece subordinado a Agaliarept dentro de outro sistema.
As duas tradições não precisam ser harmonizadas artificialmente.
Buer é subordinado a Agaliarept?
Segundo o Grand Grimoire, sim.
Segundo a organização da Ars Goetia, essa relação não constitui a hierarquia principal apresentada.
Por isso, a frase sempre precisa da qualificação:
“No sistema do Grand Grimoire, Buer aparece sob Agaliarept.”
Esse padrão evita transformar vários grimórios diferentes numa única estrutura fictícia.
Buer no Dictionnaire Infernal
Collin de Plancy desempenha um papel enorme na recepção de Buer.
Em 1863 ele o apresenta como um demônio de segunda classe e Presidente.
Buer aparece como uma estrela ou roda de cinco raios, movendo-se ao rolar sobre si próprio.
Ensina filosofia e lógica.
Conhece virtudes das ervas medicinais.
Está associado à restauração da saúde.
E governa cinquenta legiões.
Observe a continuidade.
Filosofia permanece.
Lógica permanece.
Ervas permanecem.
Cura permanece.
Cinquenta legiões permanecem.
O grande desenvolvimento está na visualização da estrela como roda.
A transformação visual é quase tão importante quanto a textual
A estrela de Weyer não tinha necessariamente corpo animal.
Collin de Plancy fala numa estrela/roda.
Le Breton transforma essa geometria num organismo.
É um excelente exemplo de como ilustração pode influenciar posteriormente aquilo que acreditamos que o texto sempre disse.
Depois de vermos a imagem de Le Breton centenas de vezes, torna-se difícil ler “estrela” sem visualizar as cinco pernas.
Mas isso é efeito da recepção.
Buer e a cultura popular
A imagem de Buer tornou-se especialmente atraente para capas de discos, jogos e obras visuais porque sua estrutura radial é imediatamente reconhecível.
Esse uso contemporâneo constitui outra camada da história.
Ele não precisa ser rejeitado.
Apenas separado.
Uma representação artística atual pode utilizar:
cabeça de leão;
cinco pernas;
chifres;
fogo;
plantas;
estrelas;
símbolos astrológicos.
Isso é produção artística contemporânea.
Não reprodução arqueológica de um ser descrito em 1577.
O selo de Buer
A tradição da Ars Goetia associa um selo específico a Buer.
Esse sigilo acompanha o espírito dentro do sistema posterior do Lemegeton.
Weyer, entretanto, já registra Buer antes desse conjunto goético de selos.
E Boudet identifica ainda um correspondente anterior ou paralelo em Gemer.
Portanto:
a documentação da figura é anterior ao selo goético atualmente conhecido.
Esse princípio está se repetindo em praticamente toda a biblioteca.
O selo não é prova de antiguidade pré-cristã
Não existe base suficiente para chamar o selo de Buer de:
símbolo celta;
sigilo pagão antigo;
marca druídica;
símbolo medicinal da Antiguidade;
ou desenho pertencente ao Salomão histórico.
A documentação disponível o situa dentro da tradição posterior de magia salomônica.
Isso já basta para torná-lo historicamente importante.
Podemos interpretar o selo?
Sim, desde que assumamos a interpretação.
Não possuímos uma legenda original explicando cada curva do desenho.
Portanto:
“esta linha significa lógica”;
“este círculo representa cura”;
“este traço representa Mercúrio”;
precisariam de fontes específicas.
Sem elas, são leituras contemporâneas.
Buer e Aladiah
Sistemas posteriores relacionados à tradição de Thomas Rudd organizaram os 72 espíritos goéticos em correspondência ou oposição aos 72 anjos do Shem HaMephorash.
Nessa organização, Buer é relacionado a Aladiah.
Essa correspondência não aparece na pequena entrada de Weyer.
Também não constitui parte do perfil básico da Ars Goetia original.
Portanto, deve ser identificada claramente como camada posterior.
Planeta, signo, Tarô e elemento
Buer recebeu posteriormente inúmeras correspondências.
Mercúrio.
Sagitário.
Câncer.
Diferentes decanatos.
Cartas do Tarô.
Metais.
Cores.
Incensos.
Plantas específicas.
Alguns sistemas discordam.
Isso é esperado.
Eles foram construídos em épocas e escolas diferentes.
O próprio caso de Sagitário demonstra o risco de apresentar uma correspondência moderna ou uma leitura textual problemática como essência eterna da figura.
Por isso, a página-base não deveria possuir uma tabela sem fonte declarando simplesmente:
Planeta: X.
Elemento: Y.
Tarô: Z.
Primeiro precisamos saber quem criou cada correspondência.
Buer é um espírito de Sagitário?
A tradição goética posterior realmente diz isso.
Mas Peterson observa que a passagem parece nascer da interpretação equivocada da estrela de Weyer.
Portanto, Sagitário possui relevância histórica como desenvolvimento da tradição.
Não como certeza de sua forma mais antiga.
Esse detalhe deveria permanecer em destaque porque diferencia este artigo de praticamente todas as fichas genéricas de Buer encontradas online.
Buer era uma divindade antiga?
Não existe evidência histórica suficiente para identificá-lo com segurança como uma divindade antiga específica.
Não encontramos uma cadeia documental sólida que ligue Buer a:
um deus grego;
uma entidade egípcia;
uma divindade mesopotâmica;
um espírito celta;
ou uma figura germânica determinada.
A iconografia leonina posterior levou a diversas comparações.
Mas semelhança visual não produz genealogia.
Buer é Quíron?
A associação com Sagitário e conhecimento medicinal torna a comparação com o centauro Quíron atraente.
Ainda assim, não existe base suficiente para afirmar:
“Buer era originalmente Quíron demonizado.”
Para demonstrar isso precisaríamos de uma cadeia histórica entre as duas figuras.
Não apenas atributos semelhantes.
Uma corrente moderna pode compará-los simbolicamente.
A comparação não deve ser transformada em origem comprovada.
Buer aparece na Bíblia?
Não como a figura demonológica descrita por Weyer e pelo Lemegeton.
Não existe personagem bíblico chamado Buer com cinquenta legiões, filosofia, lógica e ervas.
A associação da Goetia ao rei Salomão pertence à tradição pseudo-salomônica posterior.
Isso não torna todos os seus personagens bíblicos.
Buer é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo.
Weyer escreve dentro de uma demonologia cristã.
O Lemegeton pertence à magia salomônica.
O Luciferianismo moderno possui outra história.
Uma corrente luciferiana pode incorporar Buer conscientemente.
Essa incorporação deve ser assumida como desenvolvimento religioso contemporâneo.
Não como prova de uma religião luciferiana antiga.
A interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer
Depois de reconstruir as fontes, Buer oferece um conjunto extraordinariamente coerente para uma interpretação contemporânea.
Filosofia moral.
Filosofia natural.
Lógica.
Plantas.
Saúde.
Esses atributos podem ser reunidos numa ideia:
conhecimento aplicado ao cuidado da vida.
Essa formulação é nossa.
Não está escrita dessa forma em Weyer.
Mas nasce de características realmente documentadas.
Buer e o pensamento crítico
A lógica pode ocupar uma posição central.
Uma filosofia de conhecimento não deveria perguntar apenas:
“Em que acredito?”
Também:
“Por que acredito?”
“Qual evidência possuo?”
“Minha conclusão realmente decorre dessa evidência?”
“Estou utilizando a mesma exigência para minhas próprias crenças que utilizo para criticar as crenças dos outros?”
Essas perguntas tornam Buer especialmente adequado a uma perspectiva luciferiana comprometida com investigação.
Filosofia moral e autonomia
Autonomia sem reflexão ética pode transformar-se apenas em justificativa para impulso.
“Faço porque quero.”
Isso não constitui uma filosofia completa.
Uma pessoa soberana continua precisando considerar:
consentimento;
consequências;
responsabilidade;
reciprocidade;
limites;
e coerência.
Nesse sentido, Buer pode representar uma pergunta fundamental:
que tipo de pessoa estamos nos tornando através das escolhas que repetimos?
Filosofia natural e realidade
A filosofia natural acrescenta outro princípio.
A realidade não precisa adaptar-se às nossas crenças.
Podemos acreditar intensamente que determinada erva cura uma doença.
Se não funciona, a intensidade da crença não modifica automaticamente o resultado clínico.
Podemos acreditar que determinado fenômeno possui causa espiritual.
Ainda precisamos investigar causas concretas.
Dentro do Templo, Buer pode simbolizar essa disposição:
olhar para a natureza como ela é, não apenas como gostaríamos que fosse.
Ervas e conhecimento responsável
O tema das plantas também pode ser reinterpretado com maturidade.
Plantas possuem propriedades reais.
Algumas produziram medicamentos extremamente importantes.
Outras são tóxicas.
Algumas interagem com medicamentos.
“Natural” não significa automaticamente seguro.
Portanto, uma abordagem de Buer baseada em conhecimento das ervas deveria incentivar estudo e cautela, não consumo indiscriminado.
Uma tradição interessada em natureza precisa respeitar tanto seus benefícios quanto seus riscos.
Buer e a cura como metáfora
Além da atribuição histórica literal do grimório, podemos trabalhar cura como símbolo.
Curar, nesse sentido metafórico, pode significar:
corrigir uma estrutura;
restaurar equilíbrio;
resolver um problema;
reparar algo danificado;
reorganizar hábitos;
aprender a tratar causas em vez de apenas sintomas.
Essa interpretação pode ser utilizada em contextos filosóficos sem transformá-la numa promessa de tratamento médico.
Conhecimento antes da intervenção
Aqui Buer se aproxima de Marbas, mas com uma diferença interessante.
Marbas combina segredo, mecanismo, doença e transformação.
Buer combina filosofia, lógica, natureza, plantas e cura.
Uma leitura contemporânea pode ver Buer como figura do cuidado informado.
Antes de intervir:
entenda.
Antes de recomendar:
estude.
Antes de prometer:
verifique.
Isso serve para espiritualidade tanto quanto para qualquer outro campo.
A roda como símbolo contemporâneo
A imagem de Le Breton pode receber interpretação contemporânea sem ser projetada sobre Weyer.
Cinco membros organizados radialmente permitem movimento em várias direções.
Podemos utilizar essa figura como símbolo de flexibilidade intelectual.
Uma pessoa pode mudar de direção quando encontra evidência melhor.
Não precisa permanecer presa a uma conclusão apenas porque já a defendeu publicamente.
Essa é uma interpretação moderna baseada na iconografia de 1863.
Girar não significa não possuir centro
A roda possui ainda um aspecto interessante.
Movimento acontece ao redor de um centro.
Dentro da nossa leitura, o centro pode representar princípios.
E as pernas, adaptação.
Uma pessoa intelectualmente madura não muda de opinião por qualquer pressão.
Muda quando existe motivo suficiente.
Flexibilidade sem princípio é instabilidade.
Princípio sem capacidade de revisão é dogmatismo.
Buer pode simbolizar o equilíbrio entre ambos.
A estrela antes da roda
Mas é importante lembrar:
antes da roda havia a estrela textual.
Isso permite outra interpretação contemporânea.
Uma estrela pode funcionar como orientação.
Navegação.
Ponto de referência.
Novamente, essa leitura é nossa.
Weyer não explica o símbolo dessa forma.
Mas é uma maneira mais honesta de utilizar material antigo:
não fingimos descobrir um “significado secreto”.
Construímos significado conscientemente.
Saúde, conhecimento e humildade
Talvez a maior lição contemporânea de Buer seja uma forma de humildade.
Quanto mais complexo o problema, mais precisamos reconhecer os limites daquilo que sabemos.
Medicina é complexa.
Psicologia é complexa.
Botânica é complexa.
Filosofia é complexa.
Religião é complexa.
Uma pessoa que possui respostas absolutas para tudo provavelmente possui menos conhecimento do que imagina.
A lógica atribuída a Buer pode simbolizar justamente a capacidade de dizer:
“não sei ainda.”
A luz luciferiana e Buer
Dentro da filosofia do Templo, Lúcifer pode ser compreendido como símbolo da luz do conhecimento.
Buer pode ser inserido nesse horizonte como uma figura da aplicação disciplinada dessa luz.
Conhecimento não apenas para acumular.
Conhecimento para compreender.
Avaliar.
Cuidar.
Decidir.
Corrigir.
E reconhecer limites.
Essa interpretação é luciferiana contemporânea.
Não atribuímos ao compilador da Pseudomonarchia ou do Lemegeton uma filosofia que eles não formularam.
Buer e a autoridade das fontes
A própria história de Buer oferece uma lição excelente.
Weyer diz estrela.
A tradução transforma a passagem em Sagitário.
Collin de Plancy desenvolve uma roda.
Le Breton cria a imagem de cinco pernas.
A internet olha para a gravura e afirma:
“é assim que a Goétia originalmente descreve Buer.”
Uma única comparação de fontes desmonta essa certeza.
Isso demonstra exatamente por que método importa.
O que sabemos com razoável segurança
Buer é documentado na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer como nº 7 e Grande Presidente.
Na Ars Goetia, torna-se nº 10.
Existe uma figura chamada Gemer no Livre des esperitz que pesquisadores relacionam textualmente a Buer, e Peterson registra ainda uma descrição paralela de Centu no manuscrito Coxe 25.
Weyer descreve Buer na forma de uma estrela.
A Goetia apresenta uma leitura relacionada a Sagitário e ao Sol, que Peterson considera provável resultado de interpretação equivocada da formulação anterior.
Buer ensina filosofia moral e natural.
Ensina lógica.
Conhece as propriedades das ervas.
Concede familiares.
Possui atribuição histórica relacionada à cura.
Governa cinquenta legiões.
Collin de Plancy, em 1863, desenvolve a imagem da estrela como roda de cinco raios.
Louis Le Breton cria a célebre representação leonina de cinco pernas.
No Grand Grimoire, Buer aparece em outra estrutura sob Agaliarept.
O que permanece incerto
Não conhecemos uma etimologia segura para Buer.
Não possuímos toda a cadeia entre Gemer, Centu e Buer.
Não sabemos o significado original pretendido da forma estrelada.
A relação inicial com Sagitário parece textualmente problemática.
A cabeça de leão e as cinco pernas pertencem à iconografia posterior e não à descrição de Weyer.
Não existe base suficiente para identificá-lo como antiga divindade específica.
Não possuímos uma ordem angelical anterior claramente definida em sua entrada fundamental.
Não conhecemos o significado original de cada detalhe de seu selo.
E as correspondências modernas com planeta, elemento, Tarô, metal, cor ou incenso dependem dos sistemas posteriores que as produziram.
Perguntas frequentes sobre Buer
Quem é Buer?
Buer é o décimo espírito da Ars Goetia e recebe o título de Grande Presidente. Está historicamente associado à filosofia moral e natural, lógica, propriedades das ervas, familiares e cura.
Buer aparece antes da Ars Goetia?
Sim. Em Weyer ocupa a posição nº 7.
Qual é sua posição na Ars Goetia?
Nº 10.
Existe um antecedente de Buer antes de Weyer?
O Livre des esperitz possui Gemer, que Boudet e Peterson relacionam a Buer. Peterson registra também uma descrição paralela de Centu em Coxe 25.
Qual é o título de Buer?
Grande Presidente.
Quantas legiões Buer governa?
Cinquenta.
A forma original de Buer possui cabeça de leão?
Não segundo Weyer. Sua entrada o apresenta na forma de uma estrela.
E as cinco pernas?
A forma de estrela ou roda de cinco raios é desenvolvida no Dictionnaire Infernal; a famosa figura leonina com cinco membros é a ilustração de Louis Le Breton de 1863.
A imagem de Louis Le Breton pertence à Ars Goetia?
Não. É uma representação do século XIX baseada na tradição demonológica anterior.
Buer aparece em Sagitário?
A Ars Goetia possui essa formulação, mas Peterson observa que ela parece resultar de uma interpretação equivocada do texto anterior de Weyer.
Buer é um centauro?
Essa é uma interpretação derivada de Sagitário, não a descrição de Weyer.
Buer ensina filosofia?
Sim. Filosofia moral e natural estão explicitamente presentes nas principais fontes.
Buer ensina lógica?
Sim.
Buer conhece ervas e plantas?
Essa é também uma atribuição central.
Buer cura doenças?
Os grimórios atribuem-lhe cura de enfermidades humanas. Essa é uma afirmação histórica da tradição, não evidência clínica de que práticas espirituais sejam tratamentos médicos.
Trabalho espiritual com Buer substitui tratamento médico?
Não. Doenças físicas ou mentais devem ser avaliadas e tratadas por profissionais de saúde qualificados.
Buer concede familiares?
Weyer e a Goetia atribuem-lhe bons familiares.
Buer era um anjo caído de qual ordem?
A pequena entrada fundamental não fornece uma antiga ordem angelical específica.
Buer era um Querubim?
Essa afirmação aparece em materiais modernos, mas não faz parte do núcleo documental de Weyer utilizado neste artigo.
Buer aparece no Grand Grimoire?
Sim. Naquela estrutura, aparece ao lado de Gusoyn e Botis sob a autoridade de Agaliarept.
Buer é subordinado a Agaliarept?
No sistema específico do Grand Grimoire, sim. A Ars Goetia apresenta outra estrutura.
Buer aparece na Bíblia?
Não como o espírito demonológico descrito nesses grimórios.
Buer era uma antiga divindade?
Não existe documentação suficiente para identificá-lo com segurança como uma divindade antiga específica.
Buer é Quíron?
Não existe evidência histórica suficiente para estabelecer essa identidade. A aproximação surge principalmente por associações posteriores com Sagitário, conhecimento e cura.
Qual é a origem do nome Buer?
Permanece incerta.
Qual é o planeta de Buer?
As principais entradas históricas não estabelecem uma única correspondência planetária universal.
Qual é a carta de Tarô de Buer?
Weyer e a descrição básica da Goetia não fornecem uma carta do Tarô.
Qual anjo é associado a Buer?
Em sistemas posteriores relacionados à tradição de Thomas Rudd, Buer é relacionado a Aladiah. Essa correspondência não pertence à entrada original de Weyer.
Buer é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo. O Luciferianismo moderno pode reinterpretá-lo dentro de sua própria filosofia, mas isso deve ser distinguido do contexto demonológico de Weyer e da magia salomônica.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Buer pode representar a união entre razão, natureza, ética e cuidado.
Essa leitura possui uma vantagem importante.
Não precisamos inventar atributos.
A própria tradição já fornece:
filosofia moral;
filosofia natural;
lógica;
ervas;
saúde.
A interpretação contemporânea surge justamente da relação entre eles.
Razão sem ética não basta
A lógica permite construir argumentos.
Mas uma pessoa pode raciocinar brilhantemente em favor de objetivos destrutivos.
Conhecimento técnico sozinho não produz ética.
Por isso, é significativo que Buer reúna:
lógica
e
filosofia moral.
Dentro da leitura do Templo, conhecimento precisa ser acompanhado por responsabilidade.
Ética sem conhecimento também pode falhar
Boas intenções não garantem bons resultados.
Uma pessoa pode querer ajudar e causar dano porque não compreendeu suficientemente a situação.
Pode recomendar uma planta perigosa acreditando estar ajudando.
Pode aconselhar alguém a abandonar tratamento acreditando em cura espiritual.
Pode espalhar desinformação com excelente intenção.
Assim, filosofia moral precisa dialogar com filosofia natural e lógica.
Esse conjunto torna Buer particularmente interessante.
Natureza sem romantização
Outra lição importante é não romantizar o natural.
A natureza não é apenas cura.
Ela também possui:
toxinas;
parasitas;
doenças;
venenos;
predação.
Uma visão madura da natureza não a transforma em paraíso moral.
Estuda aquilo que existe.
Esse é um princípio perfeitamente compatível com a filosofia natural atribuída a Buer.
Conhecimento das plantas exige método
A associação histórica às ervas pode ser reinterpretada como convite ao estudo sério.
Identificação correta da planta.
Dose.
Interação.
Toxicidade.
Evidência.
Contexto.
Esses fatores importam.
Um caminho espiritual que valoriza conhecimento deveria incentivar exatamente essa cautela.
A roda de Buer como imagem de revisão
A célebre imagem de cinco pernas pode também receber uma leitura contemporânea.
Uma roda consegue mudar de posição sem perder o centro.
Dentro do Templo, essa imagem pode representar a capacidade de revisar uma conclusão sem abandonar o compromisso com a verdade.
Mudar de opinião diante de evidência melhor não é fraqueza.
É disciplina intelectual.
A estrela como orientação
E antes da roda existe a estrela de Weyer.
Essa imagem pode representar orientação.
Mas não porque descobrimos algum “código secreto”.
É uma metáfora contemporânea assumida.
A filosofia de Buer pode ser resumida assim:
use conhecimento para orientar ação.
Não superstição para substituir conhecimento.
A principal lição simbólica de Buer
Talvez a melhor pergunta associada a Buer seja:
“Aquilo que eu acredito continua verdadeiro quando submetido a lógica, evidência e consequência?”
Se sim, a crença se fortalece.
Se não, existe oportunidade de revisão.
Essa atitude é compatível com uma espiritualidade que pretende fazer do conhecimento parte de sua identidade.
Conclusão
Buer demonstra de maneira extraordinária como uma figura demonológica pode mudar visualmente sem perder grande parte de seu núcleo funcional.
Em Johann Weyer, ele é nº 7.
Grande Presidente.
Aparece como estrela.
Ensina filosofia moral e natural.
Ensina lógica.
Conhece as virtudes das ervas.
Concede familiares.
É associado à cura.
Governa cinquenta legiões.
Na Ars Goetia, torna-se nº 10.
Os atributos intelectuais e medicinais permanecem.
Mas a estrela passa a ser interpretada através de Sagitário e do Sol — uma leitura que Peterson considera resultado provável de incompreensão da formulação anterior.
No século XIX, Collin de Plancy transforma a estrela numa roda de cinco raios.
Louis Le Breton produz então uma das imagens mais famosas de toda a demonologia: uma cabeça de leão cercada por cinco pernas, capaz de sugerir movimento em qualquer direção.
A cultura contemporânea olha para essa figura e frequentemente imagina que ela sempre esteve ali.
Não esteve.
Esse fato sozinho justifica a reconstrução histórica.
Mas Buer possui ainda outra dimensão particularmente importante.
Ele une campos que muitas vezes são separados:
razão;
ética;
natureza;
saúde.
Dentro da interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer, isso permite uma leitura de grande coerência.
Conhecimento não existe apenas para impressionar.
Serve para orientar escolhas.
A lógica ajuda a avaliar afirmações.
A filosofia moral pergunta o que devemos fazer com aquilo que sabemos.
A filosofia natural obriga a olhar para a realidade concreta.
E o tema da saúde lembra que conhecimento possui consequências humanas.
Por isso, a figura de Buer não precisa ser transformada em “médico sobrenatural infalível”.
Esse tipo de promessa enfraqueceria justamente aquilo que torna seu simbolismo mais interessante.
Uma filosofia séria não substitui medicina por crença.
Não transforma toda erva em remédio.
Não transforma toda tradição em evidência.
Não apresenta uma imagem de 1863 como se tivesse sido desenhada cinco séculos antes.
Ela pergunta.
Compara.
Verifica.
Corrige.
Dentro dessa perspectiva, Buer pode representar uma forma particularmente exigente da luz luciferiana:
aquela que não apenas ilumina uma ideia, mas a submete ao teste da razão, da realidade e das consequências.
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender um Presidente tradicionalmente associado à lógica, à filosofia, à natureza e ao cuidado:
pensar com clareza antes de agir — e ter coragem suficiente para mudar de direção quando a evidência mostra que estávamos errados.
Leituras relacionadas
Consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia para compreender o conjunto do catálogo.
Leia também Paimon: história, origem e tradição do 9º espírito da Ars Goetia, imediatamente anterior na sequência.
O próximo estudo da biblioteca será Gusion ou Gusoin: história, origem e tradição do 11º espírito da Ars Goetia.
Para compreender outra figura historicamente associada a doença e cura, consulte também Marbas: história, origem e tradição do 5º espírito da Ars Goetia.
Referências e leituras para aprofundamento
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Buer aparece como nº 7, Grande Presidente, associado à forma de uma estrela, filosofia moral e natural, lógica, propriedades das ervas, familiares, cura e cinquenta legiões.
PETERSON, Joseph H. (ed.). The Lesser Key of Solomon — Lemegeton Clavicula Salomonis. Fundamental para Buer nº 10 e para a observação de que a referência a Sagitário parece resultar de incompreensão da formulação anterior relacionada à estrela.
BOUDET, Jean-Patrice. “Les who’s who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux”. Compara o Livre des esperitz a Weyer e identifica Gemer como correspondente textual de Buer, contribuindo para recuar sua história para além da Pseudomonarchia.
COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed., 1863. Apresenta Buer como estrela ou roda de cinco raios, relacionado à filosofia, lógica, ervas medicinais, saúde e cinquenta legiões.
LE BRETON, Louis. Ilustração de Buer para a edição de 1863 do Dictionnaire Infernal. Essa imagem popularizou a representação leonina radial de cinco pernas que domina grande parte da iconografia moderna.
LE GRAND GRIMOIRE. Insere Buer numa estrutura demonológica distinta, sob a autoridade de Agaliarept junto de Gusoyn e Botis.
PETERSON, Joseph H. Goetia Spirit Variant Spellings. Registra Buer como nº 7 em Weyer e nº 10 na Goetia, além das variantes preservadas em outros testemunhos.