Buer: o espírito da cura, da lógica e da luz oculta na Goetia
Entre os nomes da Ars Goetia, poucos causam tanta estranheza e fascínio quanto Buer. Isso acontece porque sua descrição rompe o imaginário simplista do “demônio” como pura destruição. Nas fontes clássicas, Buer surge como um grande presidente, mestre da filosofia moral e natural, da lógica e das virtudes de todas as ervas e plantas, além de ser descrito como aquele que cura os males do homem e concede bons espíritos familiares. Na tradição posterior, sua imagem se tornaria uma das mais memoráveis do ocultismo ocidental.
Sob uma leitura luciferiana, isso muda completamente o eixo da interpretação. Quando Lúcifer é entendido não como caricatura do mal absoluto, mas como entidade de Luz, portador da claridade intelectual e da chama do despertar, Buer deixa de ser apenas um nome “infernal” de catálogo e passa a ser visto como uma inteligência da iluminação prática: aquele que ensina, organiza, cura, esclarece e revela o conhecimento oculto da natureza. Nessa chave, Buer não é treva bruta; é uma luz disciplinada, medicinal e racional.

A origem histórica de Buer
Historicamente, Buer entra na tradição demonológica impressa por meio da Pseudomonarchia Daemonum, anexada em 1577 ao tratado De praestigiis daemonum do médico holandês Johann Weyer. Weyer ficou conhecido por combater a histeria das perseguições por bruxaria e por tratar muitos supostos casos de feitiçaria como problemas humanos e mentais, não como prova automática de pactos demoníacos. Mesmo assim, ele preservou e publicou catálogos de espíritos e seus “ofícios”, e é dessa matriz que Buer ganha forma textual no Ocidente moderno. Mais tarde, o material circula em inglês em The Discoverie of Witchcraft de Reginald Scot (1584), e, depois, reaparece expandido no Lemegeton, ou Lesser Key of Solomon, grimório conhecido em sua forma atual a partir do século XVII.
Isso é importante porque mostra que Buer não vem de um “mito único” e transparente. Ele é, antes, uma figura construída dentro da literatura grimoirial europeia, num ambiente em que teologia, magia, medicina, astrologia e demonologia ainda conversavam entre si. Por isso, ler Buer exige separar três camadas: a camada histórica, a camada iconográfica e a camada esotérica moderna.
O que significa a denominação “Grande Presidente”?
Na Ars Goetia, Buer é chamado de Great President. Esse não é um adjetivo solto: é um posto hierárquico dentro da classificação dos 72 espíritos, ao lado de reis, duques, príncipes, marqueses e outros títulos. A própria tradição goética lista Buer entre os espíritos do grau de Presidentes, o que indica função, autoridade e especialização dentro da hierarquia simbólica do grimório.
Mas Buer não é apresentado como senhor da guerra, da sedução ou do caos. Seu domínio é outro: o conhecimento aplicado. Ele ensina a pensar, a observar a natureza, a compreender os princípios morais e naturais, a conhecer as ervas, a restaurar o equilíbrio do corpo. Isso faz dele uma figura singular. Em linguagem luciferiana, Buer representa a luz que organiza. Não a luz abstrata do discurso vazio, mas a claridade que toma forma em método, raciocínio, diagnóstico e cura.
A descrição clássica de Buer
Na tradição da Goetia, Buer é o décimo espírito. O texto afirma que ele aparece em Sagitário, “quando o Sol está ali”, e ensina filosofia moral e natural, a arte lógica, as virtudes das ervas e plantas, cura os desequilíbrios do homem e governa 50 legiões de espíritos. Já a formulação preservada por Reginald Scot repete o núcleo da tradição: Buer é um grande presidente, ligado a esse signo, mestre de filosofia, lógica, ervas e cura, senhor de cinquenta legiões.
Esse detalhe de Sagitário merece atenção porque ele contradiz parte do material devocional moderno que circula na internet. Historicamente, a vinculação textual clássica é sagitariana. Isso talvez explique por que, em algumas leituras, Buer assume traços de figura híbrida e instrutiva, próxima do arqueiro, do centauro ou da inteligência que une instinto e razão. O curioso é que, justamente por ensinar filosofia e ervas, Buer também pode ser lido como ponte entre o céu simbólico e a terra medicinal.
A iconografia: estrela, roda e criatura que se move em todas as direções
Se o texto clássico tornou Buer famoso entre ocultistas, foi o Dictionnaire infernal de Jacques Collin de Plancy, em sua edição de 1863, que consolidou sua imagem mais famosa. Nessa obra, Buer aparece descrito como um demônio de segunda classe, presidente nos infernos, com a forma de estrela ou roda de cinco braços, avançando ao rolar sobre si mesmo. A ilustração de Louis Le Breton tornou-se a imagem mais reconhecível de Buer e, desde então, moldou o imaginário popular: uma cabeça bestial central cercada por membros que lhe permitem mover-se em qualquer direção.
Sob a ótica luciferiana, essa forma é poderosa em termos simbólicos. A roda não é apenas monstruosidade: ela é movimento total, inteligência que não fica presa a um único eixo. A estrela sugere radiação, expansão, emissão de força. Em vez de ver a imagem como grotesca, o luciferianismo pode lê-la como sinal de uma consciência que ilumina por múltiplos caminhos: razão, ervas, cura, disciplina mental e conhecimento da natureza.
E a etimologia de “Buer”?
Aqui é preciso honestidade intelectual: as fontes clássicas não explicam claramente a etimologia do nome Buer. Os grimórios simplesmente o apresentam com esse nome e passam imediatamente às suas funções. Em outras palavras, a tradição preservou o nome operativo, mas não nos entregou uma etimologia segura e consensual. Por isso, qualquer tentativa de derivação exata tende a cair na especulação. O dado sólido não está na origem filológica do vocábulo, mas no conjunto consistente de atributos que acompanha o nome ao longo das versões: filosofia, lógica, ervas, cura e autoridade.
Essa ausência de etimologia fixa, aliás, reforça a natureza iniciática de Buer. Em muitos nomes goéticos, o sentido não se revela por dicionário, mas pelo campo de força simbólico que o nome carrega. Buer vale menos pelo que “significaria” numa raiz linguística hipotética e mais pelo que encarna: medicina oculta, ordem intelectual e sabedoria aplicada.
Buer como inteligência luciferiana da cura
É aqui que a leitura luciferiana se torna mais fértil. Se Lúcifer é a luz que revela, então Buer é uma de suas expressões mais refinadas: a luz que cura pela compreensão. Ele ensina que a libertação não acontece apenas por rebeldia, mas também por discernimento. Não basta romper correntes; é preciso entender a anatomia delas. Não basta rejeitar dogmas; é preciso construir método. Não basta buscar poder; é preciso saber o que fazer com ele.
Por isso, Buer pode ser compreendido como um espírito de gnose terrestre. Sua sabedoria não é abstrata nem puramente celestial. Ela passa pelo corpo, pelas plantas, pelos ciclos, pela observação, pela lógica, pela moral entendida não como moralismo religioso, mas como ordem interior. Na perspectiva luciferiana, isso faz de Buer um mestre de refinamento da consciência: aquele que transforma luz em entendimento prático.
Como usar as correspondências modernas sem confundir história com tradição viva
O material que você trouxe é valioso, mas precisa ser enquadrado corretamente. Associações como 15–19 graus de Touro, 5–9 de maio, 6 de Ouros, vela azul-clara, aloe, Mercúrio, metal Mercúrio e elemento Terra pertencem a uma camada esotérica moderna, não ao núcleo textual clássico de Weyer, Scot ou da Goetia. Isso não as invalida; apenas mostra que são releituras posteriores. A ligação do 6 de Ouros ao segundo decanato de Touro existe em sistemas tarológicos e astrológicos contemporâneos, o que ajuda a entender por que Buer passou a ser relido nesse eixo em algumas correntes atuais.
Dentro dessa leitura moderna, a lógica simbólica faz sentido. Aloe aponta para cura e restauração. Mercúrio conversa com lógica, linguagem, inteligência analítica e transmissão de conhecimento. Terra fala das plantas, do corpo e do remédio. O azul-claro sugere serenidade mental e clareza. O 6 de Ouros remete a equilíbrio, distribuição, remediação, reparo. Até a noção de que Buer ajuda a combater excessos, inclusive o alcoolismo, pode ser compreendida como extensão do seu caráter curador e regulador. O ponto central é este: historicamente, Buer é sagitariano na Goetia; esotericamente, ele foi reinterpretado por sistemas posteriores.
Por que Buer continua fascinando?
Porque Buer une coisas que o imaginário popular costuma separar. Ele é chamado de espírito infernal, mas ensina filosofia. É catalogado como entidade demonológica, mas cura e revela as virtudes das ervas. É retratado como criatura estranha, quase antinatural, mas domina precisamente aquilo que reconduz o ser humano à ordem natural. Esse paradoxo é o que o torna tão atual.
Na visão luciferiana, esse paradoxo não é contradição: é revelação. A luz nem sempre vem vestida de santidade domesticada. Às vezes, ela surge na margem, no nome proibido, na figura mal compreendida, no saber condenado pelos dogmas de sua época. Buer permanece vivo no imaginário ocultista justamente porque encarna uma verdade desconfortável: há formas de luz que curam por meio do conhecimento que a tradição temeu.
Conclusão
Buer é uma das figuras mais ricas da Goetia porque ocupa um território raro: o da luz medicinal. Historicamente, ele nasce da tradição grimoirial moderna europeia, passa por Weyer, Scot e pelo Lemegeton, e recebe sua imagem mais célebre no século XIX com o Dictionnaire infernal. Esotericamente, ele atravessa o tempo e ganha novas correspondências. Spiritualmente, na ótica luciferiana, ele pode ser lido como um raio de Lúcifer voltado ao esclarecimento, ao corpo, à lógica e à cura.
Buer não é apenas um nome de grimório. É um símbolo da inteligência que ilumina o que adoece, corrige o que se desordena e ensina o iniciado a transformar conhecimento em poder consciente.
Base histórica consultada: Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, tradição inglesa preservada em The Discoverie of Witchcraft de Reginald Scot, Lesser Key of Solomon / Ars Goetia, e Dictionnaire infernal de Collin de Plancy.