Os muitos nomes de Set
Set é uma das divindades mais difíceis de resumir do Egito Antigo. Seu nome aparece com grafias diferentes; seus títulos mudam de acordo com a região e o período; sua imagem oscila entre protetor e adversário; e, no Egito greco-romano, ele chega a ser reinterpretado por meio de equivalências com Tífon e fórmulas mágicas que misturam tradições egípcias, gregas, semíticas e judaicas.
Essa multiplicidade costuma produzir listas em que nomes históricos, epítetos, identificações sincréticas e títulos modernos aparecem lado a lado como se fossem equivalentes. Não são. Entender os “muitos nomes de Set” exige separar língua, culto, geografia, teologia e recepção posterior.
O resultado é mais interessante do que uma simples lista de apelidos: os nomes de Set funcionam como um mapa da própria história religiosa do Egito. Eles mostram como uma divindade ligada às margens — ao deserto, à tempestade, às terras estrangeiras e às forças difíceis de controlar — pôde ser simultaneamente temida, necessária, exaltada por faraós e, em épocas posteriores, demonizada.
A ideia central: Set não possui uma única identidade fixa. Seus nomes registram diferentes maneiras de compreender e utilizar uma potência divina considerada perigosa, mas também indispensável à manutenção da ordem.
1. POR QUE UM DEUS EGÍPCIO PODIA TER TANTOS NOMES?
No pensamento religioso egípcio, o nome não era apenas uma etiqueta. Nomear uma divindade podia indicar sua origem local, uma função, uma relação familiar, uma manifestação, um atributo ou uma circunstância ritual. Um mesmo deus podia ser chamado de modo diferente em dois templos, em dois períodos históricos ou em dois gêneros de texto.
Por isso, “nome”, “epíteto”, “título” e “identificação” não devem ser tratados como sinônimos. Set, Seth, Setekh, Sutekh e Suty pertencem ao problema da vocalização e das formas gráficas do nome. “Grande de Força” é um epíteto. “Filho de Nut” é uma designação genealógica. “Seth-Tífon” é uma identificação do ambiente greco-romano. Já expressões modernas como “Príncipe das Trevas” pertencem à recepção contemporânea e não ao vocabulário religioso do Egito faraônico.
Essa distinção é essencial para estudar Set sem transformar devoção moderna ou reconstruções esotéricas em evidência antiga.
2. SET, SETH, SETEKH, SUTEKH OU SUTY: COMO SE CHAMAVA O DEUS?
O nome do deus era escrito em egípcio antigo com um conjunto consonantal que os egiptólogos transliteram de formas próximas a stẖ. Como a escrita hieroglífica normalmente não registra as vogais da maneira que fazemos em português, não existe certeza absoluta sobre a pronúncia usada em todas as épocas.
Daí surgem formas convencionais como Set e Seth, além de leituras históricas e variantes como Setekh, Setesh, Sutekh e Suty. Estudos linguísticos mostram que essas formas não precisam ser imaginadas como nomes de deuses diferentes: elas refletem mudanças de escrita, pronúncia, região, cronologia e convenções de transliteração.
Para o leitor atual, “Set” é a forma mais curta e difundida em português. “Seth” é igualmente comum na bibliografia internacional. “Sutekh” ganhou especial importância no Novo Reino e em contextos do Delta e de contato com populações do Levante.
3. SET: O NOME QUE SOBREVIVEU ÀS TRANSFORMAÇÕES
Set é hoje a forma mais direta para designar a divindade. Ela se tornou especialmente útil porque evita confusão com o Seth bíblico, filho de Adão e Eva, personagem sem relação histórica com o deus egípcio.
O próprio nome de Set aparece associado, na escrita egípcia, a vocabulário ligado a perturbação, tempestade e violência. Isso combina com seus domínios tradicionais, mas não autoriza reduzi-lo a uma personificação simples do “mal”. O Egito antigo trabalhava com categorias mais complexas: a mesma força que ameaça a estabilidade podia ser mobilizada para defendê-la.
É exatamente esse paradoxo que acompanha Set por grande parte de sua história.
4. NUBTI: “AQUELE DE NUBT” E AS RAÍZES NO ALTO EGITO
Entre as designações mais antigas e importantes está Nubti, literalmente relacionado a Nubt, cidade do Alto Egito conhecida pelos gregos como Ombos e situada na região de Naqada. O local possuía um templo de Set e foi um de seus centros tradicionais de culto.
A associação de Nubt com o ouro ajuda a explicar por que o título às vezes é traduzido livremente como “o Dourado”. Porém, historicamente é mais preciso entender Nubti como “Aquele de Nubt” ou “o Ombita”: um título geográfico que liga Set a um território, a um santuário e às paisagens áridas próximas das rotas do deserto.
Esse detalhe é importante. Set não era apenas uma abstração do caos; ele era um deus situado em lugares concretos, venerado por comunidades concretas e relacionado às fronteiras entre o vale fértil e as regiões desérticas.
5. SUTEKH: SET NO DELTA, NAS FRONTEIRAS E NO MUNDO INTERNACIONAL
Sutekh é uma das formas mais reveladoras da história do deus. Durante o Segundo Período Intermediário e, sobretudo, no Novo Reino, Set foi intensamente relacionado ao nordeste do Delta e às regiões de contato com a Ásia Ocidental.
Os hicsos, governantes de origem levantina que controlaram parte do Egito, favoreceram o culto de uma divindade de tempestade identificada com Set. Mais tarde, durante a época raméssida, essa aproximação com o deus semítico Baal/Hadad continuou sendo produtiva. Objetos do Novo Reino mostram inclusive uma figura híbrida reconhecida pelos estudiosos como Seth-Baal.
Essa associação não significa que Set e Baal fossem “o mesmo deus” em todas as tradições. O que existiu foi um processo de equivalência e sincretismo: duas divindades com afinidades — tempestade, força, poder militar, regiões estrangeiras — puderam ser aproximadas dentro de um ambiente multicultural.
O nome Sutekh, portanto, evoca um Set de fronteira: militar, tempestuoso, internacional e particularmente importante para reis raméssidas.
6. BAAL SUTEKH: QUANDO O DEUS EGÍPCIO ENCONTRA O SENHOR DA TEMPESTADE
Baal não é originalmente um nome egípcio de Set. A palavra semítica baʿal significa “senhor” e podia funcionar como título para diferentes divindades. No Levante, tornou-se especialmente associada a deuses da tempestade, entre eles Baal/Hadad.
No Egito do Novo Reino, a aproximação de Set com Baal produziu imagens e fórmulas em que suas características se sobrepõem. Esse encontro religioso é um dos melhores exemplos de como o panteão egípcio não existia isolado: portos, guerras, migrações, diplomacia e comércio também modificavam a linguagem dos deuses.
Assim, “Baal Sutekh” pode ser entendido dentro do universo sincrético de contatos egípcio-levantinos, mas não deve ser projetado indiscriminadamente para os períodos mais antigos da religião egípcia.
7. “GRANDE DE FORÇA”: UM DOS EPÍTETOS MAIS IMPORTANTES DE SET
Entre os títulos historicamente bem documentados de Set está a ideia de que ele é “Grande de Força” ou “Grande em Poder”. O epíteto aparece em monumentos e inscrições do Novo Reino e combina com a imagem de uma divindade cuja potência física e cósmica podia ser concedida ao rei.
No período raméssida, essa qualidade era positiva. Um faraó precisava de força para derrotar inimigos, proteger as fronteiras e sustentar a ordem. A energia agressiva de Set, quando colocada a serviço do rei e de Rá, deixava de ser simples ameaça e se tornava instrumento de proteção.
Uma estela do Museu Britânico mostra Set recebendo adoração em Deir el-Medina, enquanto outros monumentos do período registram reis e indivíduos com nomes teóforos ligados ao deus. O próprio nome Seti significa, em essência, alguém “de Set” ou pertencente a Set.
8. FILHO DE NUT: O NOME QUE O INSERE NA GRANDE FAMÍLIA DIVINA
“Filho de Nut” é uma designação genealógica importante. Na tradição heliopolitana, Set pertence à geração formada pelos filhos de Geb, a terra, e Nut, o céu, ao lado de Osíris, Ísis e Néftis.
Essa filiação coloca Set dentro do núcleo do drama osiriano. Ele não é um invasor externo ao panteão: é parte da família divina que estrutura mitos sobre soberania, morte, herança e legitimidade.
Em épocas nas quais a escrita do nome ou a imagem do animal de Set se tornaram problemáticas, títulos indiretos como “Filho de Nut” também podiam servir para mencioná-lo sem destacar sua forma tradicional.
9. SENHOR DO DESERTO, DAS TERRAS VERMELHAS E DOS PAÍSES ESTRANGEIROS
A oposição entre a “Terra Negra” fértil do Nilo e a “Terra Vermelha” desértica é fundamental para compreender Set. O deserto era espaço de risco, calor, tempestade, mineração, caça, rotas comerciais e entrada de povos estrangeiros. Não era um vazio: era uma fronteira carregada de possibilidades e ameaças.
Set tornou-se uma das potências religiosas associadas a esse espaço. Por isso, títulos modernos como “Senhor das Terras Vermelhas” sintetizam adequadamente um domínio antigo, ainda que seja preciso verificar caso a caso a forma exata de cada epíteto nas fontes hieroglíficas.
Seu vínculo com estrangeiros também não deve ser interpretado automaticamente como xenofobia religiosa. No Novo Reino, deuses estrangeiros como Anat e Astarte podiam ser integrados ao universo egípcio, e Set era uma figura particularmente adequada para mediar essas zonas de contato.
10. CAMPEÃO DE RÁ: O SET QUE SALVA A ORDEM CÓSMICA
A imagem de Set como assassino de Osíris é tão famosa que frequentemente apaga outra tradição igualmente decisiva: sua atuação como defensor da barca solar.
Durante a viagem noturna de Rá pelo mundo subterrâneo, a serpente Apófis representa uma ameaça radical à continuidade do ciclo solar. Em textos e imagens, Set pode aparecer como o combatente de força excepcional capaz de enfrentar essa serpente. O deus da desordem controlada é empregado contra uma forma ainda mais extrema de não-ordem.
Esse é o ponto que impede qualquer leitura simplista de Set como equivalente egípcio do diabo cristão. Ele pode perturbar, rivalizar e violentar, mas também pode defender a existência. Sua força é moralmente ambivalente e funcionalmente necessária.
O título moderno “Campeão de Rá” resume bem essa função protetora, embora, para fins acadêmicos, seja preferível falar nos epítetos e cenas específicos em que Set combate os inimigos da barca solar.
11. “AQUELE DIANTE DE QUEM O CÉU TREME”: SET E A TEMPESTADE
Set está ligado desde cedo a fenômenos atmosféricos violentos. Trovões, ventos, tempestades e perturbações do céu combinam com sua natureza: ele é uma força que rompe a normalidade.
Essa dimensão ajuda a explicar sua aproximação com divindades levantinas da tempestade e também a linguagem hiperbólica de seus epítetos. Dizer que o céu treme diante de uma divindade não é apenas descrevê-la como destrutiva; é afirmar uma potência cósmica que inspira temor.
Nos textos religiosos egípcios, temor e proteção não são categorias incompatíveis. A divindade perigosa pode ser justamente aquela cujo poder é mais útil quando direcionado contra um inimigo.
12. HORUS E SET: DUAS FORÇAS QUE PODEM SER UNIDAS
O conflito entre Hórus e Set é um dos grandes eixos da mitologia egípcia. Os dois disputam a realeza depois da morte de Osíris, e essa disputa foi reinterpretada durante séculos.
Entretanto, a tradição egípcia também conheceu imagens de reconciliação e união. Hórus e Set podem aparecer juntos coroando o rei, unindo as Duas Terras ou formando figuras compostas de duas cabeças. Existem textos funerários em que uma entidade apresenta simultaneamente faces de Hórus e Set.
Por isso, a expressão “Aquele de Duas Faces” precisa ser usada com precisão. A evidência sustenta a existência de figuras compostas Hórus-Set e de entidades descritas como possuidoras das duas faces; isso não significa automaticamente que “Aquele de Duas Faces” tenha sido um nome universal e independente de Set em todos os períodos.
A ideia, porém, é teologicamente poderosa: ordem e conflito não são simplesmente eliminados um pelo outro; podem ser reunidos para produzir totalidade e soberania.
13. ASH É OUTRO NOME DE SET?
Ash é uma divindade antiga relacionada às regiões desérticas e ocidentais. Em determinados contextos, sua iconografia e seus domínios se aproximam de Set, o que favoreceu associações entre ambos.
Mas classificá-lo simplesmente como “outro nome de Set” é excessivo. É mais seguro tratá-lo como uma divindade distinta que, em certos momentos, pôde ser assimilada ou interpretada à luz de Set. O sincretismo egípcio permitia que deuses permanecessem distintos e, ao mesmo tempo, compartilhassem características.
Essa cautela vale para várias listas modernas de nomes divinos: semelhança não é identidade total.
14. SETH-TÍFON: A RELEITURA GREGA DE SET
Quando autores e praticantes de língua grega passaram a interpretar a religião egípcia, Set foi identificado com Tífon, o gigantesco adversário de Zeus na mitologia grega. Essa equivalência ganhou força especialmente em períodos tardios.
A identificação fazia sentido para observadores gregos porque Tífon, como Set, estava ligado a violência, forças indomáveis e oposição. Plutarco foi um dos autores que ajudaram a consolidar uma leitura fortemente negativa dessa associação.
No entanto, Seth-Tífon é uma criação de interpretação intercultural. O Set das pirâmides do Reino Antigo não era “Tífon com outro nome”. A equivalência pertence a uma fase histórica específica, quando deuses egípcios e gregos passaram a ser traduzidos uns pelos outros.
Esse Seth-Tífon tornou-se especialmente importante nos Papiros Mágicos Gregos, produzidos no ambiente cosmopolita do Egito greco-romano.
15. SET NOS PAPIROS MÁGICOS: NOMES DE PODER E SINCRETISMO
Os Papiros Mágicos Gregos preservam práticas rituais nas quais nomes de diferentes tradições aparecem combinados. Divindades egípcias, gregas e nomes de origem judaica ou semítica podiam coexistir dentro da mesma fórmula.
Set/Tífon surge nesse universo como potência capaz de coagir, proteger, amaldiçoar ou realizar atos mágicos. Em alguns textos, a imagem do asno também se torna associada a Seth-Tífon. As chamadas voces magicae — sequências de nomes, sons e fórmulas consideradas poderosas — não funcionam como uma lista organizada de “nomes oficiais” de um deus no sentido faraônico.
Isso muda a maneira de ler designações como Iao Sabaoth quando aparecem próximas a Set. “Iao” e “Sabaoth” têm origem em tradições judaicas e foram amplamente reutilizados na magia greco-egípcia. Sua presença numa invocação relacionada a Seth não prova que “Iao Sabaoth” fosse um antigo epíteto egípcio de Set. Ela demonstra, isso sim, a intensa mistura religiosa da Antiguidade tardia.
A mesma prudência deve ser aplicada a Aberamentho. O nome aparece em tradições mágicas e gnósticas, inclusive associado a Jesus em fontes cristãs tardias. Atribuí-lo simplesmente a Set como “Senhor das Águas” é uma leitura discutível e não deve ser apresentada como consenso egiptológico.
16. O ASNO, O “CASCO FENDIDO” E A CONSTRUÇÃO DE UM SET DEMONIZADO
No Egito greco-romano, Set/Tífon passou a ser fortemente associado ao asno em determinadas tradições. Esse vínculo teve longa história de recepção e contribuiu para imagens posteriores cada vez mais negativas.
É preciso, porém, separar esse processo das expressões modernas. “Casco Fendido”, “Santo Jumento” e “Príncipe das Trevas”, presentes em correntes setianas contemporâneas, não são títulos faraônicos conhecidos. São releituras religiosas modernas, muitas vezes criadas conscientemente para ressignificar símbolos que tradições posteriores haviam demonizado.
Isso não torna essas expressões irrelevantes; apenas as coloca em outra categoria histórica. Elas pertencem à história da recepção de Set, e não à documentação do Egito antigo.
17. O “GRANDE VERMELHO”: UMA BOA IMAGEM, MAS É PRECISO INDICAR A ÉPOCA
A cor vermelha possui conexões antigas com o deserto, com perigos e com elementos ligados a Set. Por isso, “Grande Vermelho” ou “Senhor Vermelho” é uma forma expressiva de resumir sua associação com a Terra Vermelha.
Em textos contemporâneos de devoção, o título adquiriu vida própria. Para um artigo histórico, o mais responsável é apresentá-lo como uma designação moderna inspirada em associações egípcias autênticas, e não automaticamente como uma fórmula ritual padronizada usada durante toda a Antiguidade.
18. POR QUE A IMAGEM DE SET MUDOU TANTO?
A longa história do culto de Set explica suas aparentes contradições. Em certos períodos, sua força serviu diretamente à ideologia real. Os reis raméssidas possuíam vínculos explícitos com ele: Seti I traz o deus no próprio nome e dedicou oferendas a Set; objetos do período mostram a divindade integrada ao ambiente palaciano e militar.
Em séculos posteriores, principalmente no primeiro milênio a.C., a situação mudou. Conflitos políticos, novas interpretações do mito de Osíris e transformações religiosas intensificaram sua demonização. Imagens do animal de Set foram apagadas ou substituídas em monumentos, e sua presença podia ser evitada.
Essa transformação não ocorreu de uma só vez nem em todo o Egito da mesma maneira. Cultos locais sobreviveram e formas de Set continuaram sendo veneradas em regiões específicas, inclusive nos oásis.
Portanto, falar de Set exige sempre uma pergunta adicional: “em qual época e em qual lugar?”
19. O QUE OS MUITOS NOMES DE SET REALMENTE REVELAM?
Quando colocados em ordem histórica, os nomes deixam de parecer uma coleção aleatória. Nubti aponta para raízes territoriais no Alto Egito. Sutekh revela o Delta e o diálogo com o Levante. “Grande de Força” mostra o deus apropriado pela ideologia real. “Filho de Nut” o reinsere na genealogia do drama osiriano. Seth-Tífon mostra a tradução grega da religião egípcia. Os nomes mágicos da Antiguidade tardia revelam um mundo sincrético em que fronteiras religiosas se tornaram ainda mais permeáveis.
Até mesmo os títulos modernos são historicamente úteis quando identificados corretamente: eles mostram como Set continua sendo reinterpretado por ocultistas, neopagãos, setianos, escritores e cultura popular.
A verdadeira riqueza está justamente em não achatar essas camadas. O Set faraônico, o Sutekh raméssida, o Seth-Tífon greco-romano e o Set das tradições contemporâneas dialogam entre si, mas não são idênticos.
20. SET NÃO É O “SATANÁS EGÍPCIO”
Uma das comparações mais populares na internet é também uma das mais enganosas: chamar Set de “Satanás do Egito”. A analogia transporta para o Egito categorias religiosas desenvolvidas em contextos muito posteriores.
Set pode ser adversário, assassino, causador de tempestades e força de desordem. Mas também pode ser protetor do Sol, fonte de força real, senhor venerado em templos e patrono de comunidades e faraós. Essa combinação não corresponde ao papel teológico do diabo nas tradições cristãs.
Entender Set em seus próprios contextos torna sua figura mais complexa e, paradoxalmente, mais fascinante.
GUIA RÁPIDO: COMO CLASSIFICAR OS PRINCIPAIS NOMES E TÍTULOS
| FORMA | CLASSIFICAÇÃO MAIS SEGURA | OBSERVAÇÃO |
| Set / Seth | Nome convencional / variante de transliteração | Formas modernas mais comuns para o nome egípcio. |
| Setekh / Sutekh / Suty | Variantes históricas e de leitura | Relacionadas a mudanças gráficas, linguísticas e regionais. |
| Nubti | Epíteto geográfico | “Aquele de Nubt/Ombos”; ligado a um dos centros de culto de Set. |
| Grande de Força | Epíteto antigo documentado | Muito importante no Novo Reino e no ambiente raméssida. |
| Filho de Nut | Designação genealógica | Situa Set entre os filhos de Geb e Nut. |
| Baal / Seth-Baal | Identificação sincrética | Resultado do contato com deuses de tempestade do Levante. |
| Seth-Tífon | Identificação greco-romana | Equivalência desenvolvida em contexto helenístico e romano. |
| Iao Sabaoth | Nome mágico de origem judaica/semítica | Pode aparecer em fórmulas próximas a Seth, mas não é epíteto faraônico de Set. |
| Aberamentho | Vox magica / nome ritual tardio | Associações são complexas; não deve ser tratado como nome egípcio seguro de Set. |
| Ash | Divindade distinta com possíveis assimilações | Não é seguro reduzi-lo a mero “nome alternativo” de Set. |
| Grande Vermelho | Designação moderna inspirada em associações antigas | Útil na recepção contemporânea, mas deve ser identificada como tal. |
| Casco Fendido / Santo Jumento / Príncipe das Trevas | Títulos modernos | Pertencem a correntes contemporâneas e não ao culto faraônico. |
PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE OS NOMES DE SET
Qual é o verdadeiro nome do deus Set?
Não existe uma reconstrução absolutamente segura de todas as vogais da pronúncia antiga. Set, Seth, Setekh, Sutekh e Suty refletem diferentes convenções e formas históricas relacionadas ao nome escrito em egípcio.
Set e Seth são deuses diferentes?
Não. Em estudos de religião egípcia, Set e Seth normalmente designam a mesma divindade. O contexto é importante porque “Seth” também é um nome bíblico sem relação com o deus egípcio.
Sutekh é outro deus?
A pesquisa moderna tende a compreender Sutekh como uma forma do nome de Set, especialmente relevante em certos períodos e regiões, e não como uma divindade estrangeira independente posteriormente absorvida pelo Egito.
Set era o deus do caos?
Ele estava ligado a desordem, tempestades, violência, deserto e estrangeiros, mas “caos” pode simplificar demais sua função. Set também defendia a barca solar e podia ser uma potência protetora.
Set era mau?
A religião egípcia não o reduz a uma essência moral única. O mesmo deus que aparece como adversário de Osíris e Hórus também atua contra Apófis e recebe culto legítimo.
Set e Tífon são a mesma divindade?
Não originalmente. A identificação entre Set e Tífon é resultado da interpretação grega e se torna especialmente importante no Egito helenístico e romano.
Baal era um nome de Set?
Baal é um título semítico e nome associado a deuses levantinos. No Novo Reino, Set foi aproximado de Baal/Hadad, produzindo formas sincréticas como Seth-Baal.
Todos os nomes encontrados em listas modernas são antigos?
Não. Muitas listas misturam epítetos faraônicos, nomes mágicos tardios, identificações estrangeiras e títulos criados por tradições contemporâneas.
CONCLUSÃO: OS NOMES DE SET SÃO UMA HISTÓRIA DO PRÓPRIO EGITO
Estudar os muitos nomes de Set é acompanhar uma divindade atravessando milênios de transformação. Ele começa profundamente enraizado em paisagens e cultos locais do Egito, assume grande importância nas relações entre deserto e vale, torna-se um símbolo de força real e, no ambiente do Delta, dialoga com deuses de tempestade do Levante.
Mais tarde, a leitura osiriana e as mudanças políticas ampliam sua imagem de adversário. Gregos o traduzem como Tífon. Praticantes de magia combinam seu nome com fórmulas de diversas tradições. Séculos depois, novas religiões e movimentos esotéricos voltam a reinterpretá-lo.
Por isso, nenhum nome sozinho explica Set. “Nubti”, “Sutekh”, “Grande de Força”, “Filho de Nut” e “Seth-Tífon” são janelas abertas para épocas diferentes. Lidos em conjunto, revelam um deus que personifica aquilo que o Egito precisava aprender a controlar sem eliminar: a força das margens, a tempestade, o conflito, o estrangeiro e a energia perigosa que, quando corretamente direcionada, também podia proteger o cosmos.
É justamente essa ambivalência que mantém Set entre as figuras mais intrigantes de toda a mitologia egípcia.
FONTES E REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAMENTO
Graham, Lloyd D. “Magical Seth”. Prague Egyptological Studies XXVII (2021), 60–96.
Te Velde, Herman. Seth, God of Confusion: A Study of His Role in Egyptian Mythology and Religion. Brill.
Taylor, Ian Robert. Deconstructing the Iconography of Seth. Tese de doutorado, University of Birmingham.
UCL Digital Egypt. Registros sobre Nubt (Ombos/Naqada), o quinto nomo do Alto Egito e o templo de Seth.
British Museum, estela de Aapehty, EA35630, 19ª Dinastia.
The Metropolitan Museum of Art, Offering Table of Seti I (22.2.22) e Scarab with a Representation of Seth-Baal and Uraeus (1989.281.98).
Lucarelli, Rita. “The Donkey in the Graeco-Egyptian Papyri”. Edizioni Ca’ Foscari, 2017.
Cardoso, Patrícia Schlithler da Fonseca. A linguagem das invocações nos Papiros Gregos Mágicos. Tese, Universidade de São Paulo, 2023.
Fontes egípcias e greco-romanas citadas na bibliografia especializada: Textos das Pirâmides, Livro dos Mortos, Contendas de Hórus e Set, Papiros Mágicos Gregos e Plutarco, De Iside et Osiride.