Sitri ou Sytry na Ars Goetia: Origem, História, Desejo, Poderes e Significado

Sitri, também registrado como Sytry, Bitru e Bitur, ocupa a décima segunda posição na Ars Goetia e tornou-se conhecido principalmente por sua associação ao desejo, à atração e à exposição daquilo que normalmente permanece privado.
A imagem mais difundida é igualmente marcante: uma figura com rosto de leopardo e asas de grifo que, posteriormente, assume uma forma humana descrita como extraordinariamente bela.
Essa representação realmente possui base histórica.
Mas ela não é a camada mais antiga que conseguimos recuperar.
Antes de Sitri nº 12 da Ars Goetia, Johann Weyer registra Sytry, alias Bitru, como nº 21 da Pseudomonarchia Daemonum. E antes da versão de Weyer, o Livre des esperitz preserva Bitur, um espírito relacionado textualmente à mesma tradição, mas com título, aparência, funções e quantidade de legiões diferentes.
Essa sequência é importante porque mostra que Sitri não surgiu pronto e imutável.
O personagem foi transformado durante a transmissão.
No Livre des esperitz, Bitur aparece como belo homem, recebe o título de Marquês e possui funções relacionadas ao amor de mulheres, destruição de cidades e castelos e perda de honras e dignidades.
Em Weyer, torna-se um Grande Príncipe, recebe rosto de leopardo e asas de grifo e passa a ser caracterizado principalmente pelo desejo entre homens e mulheres, pela revelação de segredos e pela nudez.
Na Ars Goetia, grande parte desse segundo perfil é mantida, mas alguns elementos de Weyer desaparecem novamente.
Por isso, Sitri é particularmente útil para compreender uma regra fundamental desta biblioteca:
não existe apenas “o que um Daemon faz”; existe também a história de como seus atributos foram sendo acrescentados, retirados e reinterpretados.
Sitri antes da Ars Goetia
A tradição pode ser recuada até Bitur, preservado no Livre des esperitz, manuscrito francês pertencente à mesma ampla família de catálogos demonológicos que antecedem Weyer e o Lemegeton. Jean-Patrice Boudet demonstrou que esses catálogos renascentistas preservam tradições textuais ainda mais antigas da magia ritual ocidental.
No manuscrito Trinity College Cambridge O.8.29, Bitur aparece entre os espíritos do catálogo.
Sua entrada apresenta uma figura bastante diferente daquela que atualmente reconhecemos como Sitri.
Bitur é um Grande Marquês.
Aparece na forma de um belo homem.
Concede o amor de mulheres.
Pode destruir cidades e castelos quando ordenado.
Pode retirar grandes honras e dignidades.
E governa 36 legiões.
Não há nessa pequena entrada:
rosto de leopardo;
asas de grifo;
revelação dos segredos de mulheres;
nudez;
ou sessenta legiões.
Esses elementos surgem claramente na tradição posterior de Weyer.
Essa diferença é uma das descobertas mais importantes para a página.
Bitur não era ainda o “Príncipe da luxúria”
Expressões como “Príncipe da Luxúria” ou “Daemon da paixão sexual” são muito comuns hoje.
Elas resumem razoavelmente parte da recepção posterior de Sitri, mas não deveriam ser apresentadas como seus títulos históricos originais.
Bitur, na tradição anterior, é formalmente um Marquês.
E seu perfil não está limitado ao desejo.
Ele também possui atribuições destrutivas e relacionadas a posição social.
Portanto, a especialização quase total de Sitri em sexualidade parece ter se tornado muito mais forte durante a evolução posterior da figura.
De Marquês para Príncipe
A mudança de título é importante.
No Livre des esperitz:
Bitur é Marquês.
Em Weyer:
Sytry/Bitru é Grande Príncipe.
Na Ars Goetia:
Sitri permanece Príncipe.
Isso significa que a hierarquia não permaneceu intacta.
Não seria correto escrever que Sitri “sempre foi Príncipe”.
Sua tradição anterior oferece outra dignidade.
A mudança também demonstra que as categorias goéticas não podem ser tratadas como se fossem cargos imutáveis registrados desde uma suposta Antiguidade.
Os textos mudaram.
As hierarquias também.
A posição também muda
Sitri ocupa a posição nº 12 na Ars Goetia.
Weyer, entretanto, registra Sytry como nº 21.
Peterson mostra diretamente a correspondência:
Weyer nº 21: Sytry alias Bitru.
Goetia nº 12: Sitri.
Assim, o número doze não constitui uma essência histórica permanente de Sitri.
É sua posição na organização específica do Lemegeton.
Qualquer interpretação numerológica moderna baseada no número 12 pode existir dentro de determinado sistema, mas não deveria ser apresentada como característica que sempre acompanhou a figura.
Sytry, Sitri, Bitru ou Bitur?
Todas essas formas pertencem à história textual.
O Livre des esperitz registra Bitur.
Weyer utiliza Sytry, alias Bitru.
Reginald Scot transmite Sitri, alias Bitru.
A tradição do Lemegeton consolida principalmente Sitri.
Peterson registra ainda Bitur no Trinity como correspondente do mesmo complexo textual.
Não existe razão suficiente para transformar automaticamente cada grafia numa entidade diferente.
O mais adequado é tratá-las como variantes e estágios de transmissão, salvo se determinada tradição religiosa contemporânea decidir conscientemente distingui-las.
A etimologia de Sitri permanece incerta
Circulam diferentes tentativas de explicar o nome.
Algumas procuram raízes hebraicas.
Outras latinas.
Outras relacionam Sitri a Set ou Seth do Egito.
Outras tentam derivar Bitru de línguas orientais.
Não encontrei uma cadeia filológica suficientemente sólida para considerar qualquer uma delas uma etimologia estabelecida.
A própria existência das formas:
Bitur;
Bitru;
Sytry;
Sitri
torna necessário explicar primeiro como uma forma teria se transformado na outra antes de atribuir ao nome moderno uma tradução definitiva.
Por isso, a posição editorial mais segura é:
a etimologia do nome Sitri permanece incerta.
Sitri não é comprovadamente o deus egípcio Set
Essa identificação aparece repetidamente em sites ocultistas contemporâneos.
Ela costuma basear-se principalmente em semelhança sonora e associações modernas com sexualidade, caos ou força.
Isso não é suficiente para demonstrar genealogia.
Set possui uma história religiosa egípcia própria, documentada muito antes dos catálogos demonológicos europeus.
Para afirmar que Sitri deriva historicamente de Set seria necessário mostrar uma cadeia de transmissão textual ou linguística entre essas tradições.
As fontes centrais aqui analisadas não fornecem essa cadeia.
Portanto:
comparar Sitri e Set simbolicamente é possível; afirmar que são historicamente a mesma entidade exige evidência que atualmente não temos.
A transformação de Bitur em Sytry
Quando chegamos a Johann Weyer, o perfil muda significativamente.
Na Pseudomonarchia Daemonum, Sytry ou Bitru é um Grande Príncipe.
Ele aparece com:
rosto de leopardo;
asas semelhantes às de um grifo;
e, quando assume forma humana, aparência extraordinariamente bela.
A tradição também o associa à intensificação do desejo entre homens e mulheres, à exposição de segredos atribuídos às mulheres e à nudez. Weyer lhe concede 60 legiões.
Essa é essencialmente a figura que se tornaria conhecida no ocultismo posterior.
Mas é importante perceber que ela representa uma transformação em relação a Bitur.
O rosto de leopardo
A iconografia felina possui base textual real.
Weyer utiliza explicitamente a imagem do leopardo.
A Ars Goetia mantém.
Collin de Plancy também preserva a forma leonina/felina de Sytry no século XIX.
Portanto, não estamos diante de uma invenção moderna.
A interpretação do animal, entretanto, é outra questão.
Weyer não explica que o leopardo signifique:
sexualidade;
predação;
magnetismo;
instinto;
desejo;
ou poder.
Essas são leituras que podem ser construídas posteriormente.
A fonte fornece a imagem, não uma legenda psicológica.
As asas de grifo
A mesma cautela vale para as asas.
Sytry possui asas comparadas às de um grifo.
Isso permanece na Goetia.
Não sabemos, entretanto, qual simbolismo específico o compilador pretendia atribuir a elas.
É possível desenvolver interpretações contemporâneas sobre:
elevação;
velocidade;
poder;
natureza híbrida;
ou liberdade.
Mas nenhuma delas deveria ser apresentada como o “significado original secreto” sem documentação.
A forma humana extremamente bela
A mudança para aparência humana é outra característica antiga.
Weyer afirma que, quando assume forma humana, Sytry parece extraordinariamente belo.
A Goetia conserva a ideia de uma forma humana “very beautiful”.
Esse contraste é uma das características visualmente mais interessantes da figura.
Primeiro:
leopardo e grifo.
Depois:
beleza humana.
Historicamente, o texto não fornece uma interpretação psicológica dessa transformação.
Contemporaneamente, porém, ela pode ser utilizada para refletir sobre a diferença entre:
desejo;
aparência;
projeção;
e aquilo que imaginamos existir por trás da atração.
Beleza não é prova de caráter
Essa é uma interpretação contemporânea particularmente útil.
Ser atraente não significa ser confiável.
O cérebro humano frequentemente atribui características positivas a pessoas simplesmente porque elas são belas, carismáticas ou socialmente desejáveis.
Dentro da leitura do Templo, a mudança de Sitri para uma aparência extremamente bela pode funcionar como símbolo de um princípio:
atração não deve substituir discernimento.
Essa não é uma afirmação de Weyer.
É uma leitura contemporânea baseada numa característica realmente presente na fonte.
Sitri e o desejo
O atributo mais famoso permanece historicamente documentado.
Weyer apresenta Sytry como capaz de inflamar um homem de desejo ou amor por uma mulher e provocar o movimento inverso.
A Goetia mantém praticamente a mesma função.
Mas precisamos observar o vocabulário.
A fonte pertence a outro período histórico e trabalha com uma formulação binária entre homens e mulheres.
Isso descreve o texto.
Não significa que uma interpretação contemporânea da sexualidade precise permanecer limitada a essa mesma estrutura.
Amor, desejo e luxúria não são exatamente a mesma coisa
Traduções e comentários modernos frequentemente misturam:
amor;
paixão;
desejo;
atração;
luxúria.
Esses conceitos podem se sobrepor, mas não são idênticos.
A entrada de Weyer utiliza linguagem que permite claramente reconhecer uma dimensão erótica.
A tradição posterior acentua ainda mais essa leitura.
Mesmo assim, chamar Sitri simplesmente de “Daemon do amor” pode ser tão impreciso quanto chamá-lo apenas de “Daemon da luxúria”.
Seu campo histórico é mais específico:
produzir ou intensificar desejo e atração entre pessoas.
O problema do consentimento
É aqui que um artigo contemporâneo precisa estabelecer uma distinção que o grimório histórico não estabelece.
Os textos descrevem poderes de influência sobre desejo alheio.
A lógica mágica do período não está organizada em torno da noção moderna de consentimento sexual e relacional.
Isso precisa ser reconhecido.
Mas registrar a fonte não significa que uma interpretação luciferiana contemporânea precise defender coerção.
Dentro do Templo, autonomia precisa valer também para o outro.
Se exigimos soberania sobre nosso próprio corpo e desejo, existe uma contradição em reivindicar o direito de eliminar a autonomia sexual ou afetiva de outra pessoa.
Desejo provocado não equivale a relação legítima
Mesmo deixando de lado a questão sobrenatural, existe um princípio concreto importante.
Atração não é consentimento.
Desejo não é compromisso.
Excitação não é autorização.
Interesse não é obrigação.
E nenhuma pessoa deveria ser tratada como objeto cuja vontade precisa ser “quebrada” para satisfazer o desejo de outra.
Uma leitura contemporânea de Sitri pode trabalhar com:
magnetismo pessoal;
autoconhecimento sexual;
expressão;
confiança;
e compreensão do próprio desejo,
sem transformar o outro em alvo de dominação.
Sitri e a nudez
A nudez aparece claramente na tradição.
No Sloane 3825, Sitri é descrito como capaz de fazer pessoas mostrarem-se nuas quando isso é desejado pelo operador.
Weyer preserva uma versão mais detalhada e mais incômoda, envolvendo exposição, zombaria e segredos das mulheres.
Essa diferença entre Weyer e a Goetia merece destaque.
A Goetia simplifica a passagem.
Ela mantém a nudez.
Mas não mantém da mesma forma a extensa referência aos segredos e ao escárnio.
Os “segredos das mulheres”
Weyer diz que Sytry revela segredos atribuídos às mulheres e os expõe de maneira zombeteira.
Essa formulação pertence a uma cultura demonológica produzida majoritariamente por homens e precisa ser lida dentro de seu contexto histórico.
Não existe razão para transformar isso numa doutrina contemporânea segundo a qual Sitri possui uma função especial de humilhar mulheres.
Muito menos para utilizar o texto como justificativa para exposição sexual, divulgação de intimidade ou violação de privacidade.
A passagem é um dado histórico.
Não uma ética.
A Goetia retira parte dessa crueldade textual
Esse é um pequeno detalhe editorial significativo.
A entrada do Sloane 3825 mantém:
atração;
forma bela;
nudez;
60 legiões.
Mas deixa de reproduzir diretamente a passagem mais longa de Weyer sobre revelar os segredos das mulheres e zombar delas.
Portanto, novamente vemos que a Ars Goetia não apenas copia Weyer.
Ela também abrevia e modifica.
Exposição como símbolo contemporâneo
A nudez pode receber uma interpretação contemporânea muito mais interessante que a mera sexualização.
Estar nu também pode funcionar simbolicamente como:
estar exposto;
não conseguir esconder algo;
ser visto sem a proteção da imagem social;
reconhecer desejos que preferíamos negar.
Essa leitura pertence ao Templo.
Não ao grimório.
Mas ela permite transformar um atributo historicamente problemático numa reflexão sobre vulnerabilidade e autenticidade sem apagar o texto antigo.
Nem toda “autenticidade” precisa ser pública
Existe ainda um limite importante.
Ser verdadeiro consigo mesmo não significa ser obrigado a revelar tudo a todos.
Privacidade também é autonomia.
Uma pessoa pode reconhecer determinado desejo e decidir não torná-lo público.
Pode possuir intimidade sem vergonha e ainda preservar limites.
Assim, uma leitura contemporânea de Sitri não precisa glorificar exposição.
Pode trabalhar com a capacidade de distinguir:
aquilo que escondemos de nós mesmos
de
aquilo que legitimamente escolhemos manter privado.
Sitri e os segredos
Esse tema permite outra interpretação.
O desejo frequentemente revela aspectos que nossa imagem racional preferiria não reconhecer.
Ciúme.
Carência.
Competição.
Fantasia.
Medo de rejeição.
Desejo de aprovação.
Necessidade de controle.
Dentro da perspectiva do Templo, Sitri pode simbolizar a investigação desses conteúdos sem transformá-los automaticamente em ordens que precisam ser obedecidas.
Sentir não significa precisar agir.
Desejo não é comando
Esse talvez seja um dos princípios mais importantes para a leitura contemporânea de Sitri.
Uma pessoa pode desejar algo intensamente.
Isso não significa que precise fazê-lo.
O desejo informa.
Não governa necessariamente.
A autonomia real inclui capacidade de perceber um impulso e ainda decidir de acordo com:
consequência;
ética;
consentimento;
objetivo;
e contexto.
Nesse sentido, dominar o desejo não significa reprimi-lo.
Significa conhecê-lo suficientemente para que ele não precise dominar você.
O desejo reprimido também possui riscos
O extremo contrário também merece crítica.
Uma filosofia madura não precisa tratar sexualidade como algo vergonhoso por definição.
Repressão absoluta pode gerar:
culpa;
negação;
hipocrisia;
projeção;
e conflitos internos.
Uma leitura luciferiana de Sitri pode, portanto, defender conhecimento do próprio desejo sem transformá-lo em autorização ilimitada.
Essa diferença é fundamental.
Liberdade sexual exige reciprocidade
Uma ética de autonomia aplicada à sexualidade precisa funcionar nos dois sentidos.
Eu possuo direito sobre meu corpo.
O outro possui direito sobre o dele.
Eu posso desejar.
O outro pode recusar.
Eu posso expressar interesse.
O outro pode não corresponder.
Liberdade sexual que reconhece apenas a própria vontade deixa de ser liberdade compartilhada e começa a aproximar-se de domínio.
Dentro da interpretação do Templo, Sitri pode representar justamente essa tensão.
A sexualidade como campo de autoconhecimento
A tradição histórica coloca Sitri diretamente no campo da atração.
Uma interpretação contemporânea pode ampliar isso para perguntas como:
O que realmente desejo?
O que busco através desse desejo?
É intimidade?
Validação?
Prazer?
Controle?
Afeto?
Novidade?
Reconhecimento?
Não existe uma resposta universal.
Mas aprender a distinguir essas motivações pode produzir muito mais autoconhecimento que simplesmente tentar intensificar desejo.
Bitur possuía uma dimensão destrutiva
Quando voltamos ao Livre des esperitz, encontramos algo que quase desapareceu da imagem moderna de Sitri.
Bitur pode destruir cidades e castelos e provocar a perda de grandes honras e dignidades. Governa 36 legiões.
Esses atributos não permanecem no perfil central de Weyer.
Isso demonstra que o processo de transmissão não foi apenas de acréscimo.
Também houve perda.
Algumas funções desapareceram enquanto outras ganharam destaque.
A destruição não deve ser reinserida arbitrariamente em Sitri
Esse cuidado é importante.
O fato de Bitur possuir uma função destrutiva numa tradição anterior não significa que devemos montar uma ficha moderna somando mecanicamente todos os atributos de todas as épocas:
amor;
luxúria;
nudez;
segredos;
destruição de cidades;
queda de dignidades;
sedução;
charme;
vingança;
e qualquer outro poder contemporâneo.
Uma página histórica deve mostrar quando cada atributo aparece.
Não simplesmente acumulá-los.
Trinta e seis, sessenta ou setenta legiões?
Sitri é outro exemplo de números que mudam.
No Livre des esperitz, Bitur governa 36 legiões.
Weyer atribui a Sytry 60 legiões.
A Ars Goetia mantém 60.
Collin de Plancy, entretanto, registra 70 legiões para Sytry em 1863.
Portanto, para a ficha da Ars Goetia, o número correto é:
60 legiões.
Para a história textual, entretanto, precisamos registrar as variações.
Collin de Plancy e Sytry
No Dictionnaire Infernal de 1863, Collin de Plancy registra Sytry ou Bitru como grande Príncipe.
Mantém o leopardo e as asas de grifo.
Mantém a transformação para uma bela forma humana.
Mantém a associação às paixões.
Mantém a revelação de segredos de mulheres e o aspecto de zombaria.
Mas atribui-lhe 70 legiões, divergindo dos 60 de Weyer e da Goetia.
Essa discrepância é importante.
Ela mostra novamente que uma obra posterior pode preservar grande parte de uma tradição e, ao mesmo tempo, modificar detalhes.
O Dictionnaire Infernal não é a fonte original
Collin de Plancy é extremamente importante para a recepção do século XIX.
Mas seu texto não deve ser utilizado para retroprojetar todas as características diretamente sobre Weyer ou sobre o Livre des esperitz.
A cronologia precisa permanecer:
Bitur.
Sytry/Bitru.
Sitri.
Sytry de Collin de Plancy.
Depois as inúmeras sistematizações ocultistas modernas.
O selo de Sitri
A tradição do Lemegeton associa um selo ao décimo segundo espírito.
Esse símbolo tornou-se hoje uma das formas mais reconhecíveis de Sitri.
Mas Bitur já está documentado antes.
Weyer também registra Sytry sem a conhecida série goética de selos.
A própria tradição manuscrita do Lemegeton possui variantes gráficas.
Portanto:
a história da figura é anterior ao selo goético atualmente popular.
O selo não é um símbolo egípcio antigo
Essa distinção torna-se especialmente importante porque algumas páginas identificam Sitri com Set.
Mesmo que uma corrente religiosa contemporânea considere as duas figuras relacionadas, isso não torna o sigilo da Goetia um antigo símbolo egípcio.
Não existe base histórica para apresentá-lo como hieróglifo ou selo utilizado por sacerdotes de Set.
O selo pertence à tradição goética posterior.
Sitri e Hahaiah
Num sistema posterior associado à tradição de Thomas Rudd, os 72 espíritos da Goetia foram colocados em correspondência com os 72 anjos do Shem HaMephorash.
Como Sitri ocupa a posição nº 12, ele é colocado em relação com Hahaiah, o décimo segundo nome angelical. Esse pareamento não faz parte da pequena entrada original de Sitri na Ars Goetia; é uma sistematização posterior que associa as duas listas posição por posição.
Portanto, a formulação adequada é:
“No sistema posterior associado a Rudd, Sitri é pareado com Hahaiah.”
Não:
“Hahaiah é o anjo original de Sitri.”
Correspondências astrológicas modernas
Sitri recebeu inúmeras correspondências posteriores.
Planetas diferentes.
Elementos diferentes.
Metais.
Cores.
Períodos zodiacais.
Cartas do Tarô.
Incensos.
Plantas.
“Enns” demonolátricos.
Grande parte disso não pertence a Weyer nem à pequena entrada fundamental do Lemegeton.
Uma página atual, por exemplo, apresenta Júpiter, Terra e estanho, enquanto outras tradições modernas fornecem arranjos distintos.
Essa divergência é suficiente para justificar nossa política editorial:
não existe motivo para apresentar uma única tabela contemporânea como se fosse a tradição original de Sitri.
O “enn” de Sitri é moderno
Também é importante distinguir os chamados enns utilizados em certas formas contemporâneas de Demonolatria.
Eles não aparecem nas entradas de Weyer ou na Ars Goetia.
Fontes contemporâneas atribuem sua circulação especialmente a sistemas demonolátricos modernos.
Portanto, um “enn de Sitri” pode pertencer a uma prática religiosa contemporânea.
Não deveria ser denominado “antiga invocação de Sitri” sem qualificação.
Sitri não é originalmente luciferiano
As principais entradas históricas analisadas não apresentam Sitri como personagem de uma religião denominada Luciferianismo no sentido moderno.
Isso não impede sua incorporação ao Luciferianismo contemporâneo.
Mas a incorporação precisa ser assumida como desenvolvimento atual.
Diferentemente de Paimon, cuja entrada estabelece explicitamente uma relação individual com Lúcifer, Sitri não recebe uma afirmação equivalente no pequeno perfil histórico fundamental.
Portanto, não precisamos inventar uma relação antiga para justificar sua presença no Templo.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Sitri pode representar o conhecimento consciente do desejo.
Essa formulação é deliberadamente diferente de:
“Príncipe da luxúria”.
Luxúria reduz a figura a excesso sexual.
Desejo é um conceito mais amplo.
Desejamos:
pessoas;
reconhecimento;
prazer;
aprovação;
intimidade;
novidade;
poder;
beleza;
experiências;
e pertencimento.
O desejo move grande parte da conduta humana.
Compreendê-lo é uma forma de autoconhecimento.
Desejar não significa obedecer ao desejo
Esse princípio precisa ocupar o centro da leitura.
A pessoa que simplesmente reprime todo desejo não é necessariamente livre.
Mas a pessoa que obedece a todo desejo também não.
Nos dois casos existe ausência de escolha consciente.
A autonomia começa quando conseguimos reconhecer:
“eu quero isso”
sem transformar automaticamente essa percepção em:
“portanto, preciso fazer isso.”
Sitri como espelho
A forma humana extraordinariamente bela pode funcionar como metáfora para projeção.
Muitas vezes não desejamos exatamente uma pessoa.
Desejamos aquilo que projetamos sobre ela.
Status.
Segurança.
Excitação.
Validação.
Uma fantasia sobre como nossa vida seria ao lado dela.
Quando a projeção cai, aquilo que parecia irresistível pode perder força.
Nesse sentido, Sitri pode representar um espelho:
o objeto do desejo revela também algo sobre quem deseja.
O leopardo e o impulso
Se utilizarmos a iconografia de maneira contemporânea, o leopardo pode representar uma dimensão mais instintiva do desejo.
A forma humana bela pode representar a maneira como esse desejo é racionalizado, socializado ou apresentado.
Mas essa é uma construção do Templo.
Não uma chave secreta deixada por Weyer.
A diferença precisa permanecer explícita.
As asas e o desejo que cresce
Desejo também possui tendência a amplificar-se através da imaginação.
Uma pequena atração pode tornar-se obsessão quando alimentada continuamente.
Fantasia aumenta aquilo que a realidade ainda não confirmou.
Nesse sentido, as asas podem ser utilizadas simbolicamente para representar a facilidade com que uma ideia erótica ou afetiva ganha proporções maiores que os fatos.
Novamente:
interpretação contemporânea.
Não tradução histórica.
Sitri e vulnerabilidade
A nudez também pode simbolizar vulnerabilidade.
Desejar alguém nos torna vulneráveis.
Existe possibilidade de:
rejeição;
exposição;
vergonha;
perda;
e frustração.
Muitas formas de manipulação afetiva funcionam exatamente porque exploram essa vulnerabilidade.
Compreender o próprio desejo significa também reconhecer onde ele nos torna mais fáceis de influenciar.
Carisma não é consentimento
Sitri é frequentemente reinterpretado hoje em termos de:
magnetismo;
charme;
sedução;
atração.
Uma abordagem responsável pode trabalhar o desenvolvimento de confiança e presença pessoal.
O limite precisa permanecer claro.
Tornar-se mais atraente não é o mesmo que adquirir direito sobre outra pessoa.
Carisma pode aumentar oportunidade.
Não elimina escolha alheia.
O desejo de ser desejado
Existe ainda uma camada menos óbvia.
Às vezes não desejamos verdadeiramente a outra pessoa.
Desejamos ser desejados por ela.
A distinção é profunda.
No primeiro caso, nosso foco é a relação.
No segundo, o outro torna-se principalmente um instrumento de validação.
A figura de Sitri pode ser utilizada para investigar essa diferença.
Você quer essa pessoa ou quer aquilo que a atenção dela faria você sentir sobre si mesmo?
Essa pergunta pode revelar muito mais que qualquer fórmula de sedução.
Exposição e reputação
Weyer une desejo, segredos, nudez e zombaria.
Embora essa formulação histórica seja problemática, ela também evidencia algo real sobre relações humanas:
intimidade produz informação sensível.
Aquilo que alguém revela numa relação pode posteriormente ser utilizado para constrangê-lo.
Hoje isso pode envolver:
mensagens;
fotos íntimas;
vídeos;
segredos;
histórico sexual.
Uma ética contemporânea séria precisa afirmar o oposto da humilhação descrita no texto antigo:
intimidade cria responsabilidade sobre aquilo que o outro confiou a você.
Privacidade é uma forma de soberania
Dentro do Templo, isso pode adquirir uma dimensão luciferiana clara.
Soberania não é apenas controlar aquilo que fazemos.
É também controlar aquilo que escolhemos revelar.
Ninguém possui direito automático aos nossos segredos apenas porque existe atração, relação ou intimidade.
E possuir informações íntimas de outra pessoa não concede direito de divulgá-las.
Isso transforma o tema de Sitri numa reflexão ética muito mais relevante para o presente.
Desejo e manipulação espiritual
Sitri também oferece uma oportunidade para conectar este artigo à nossa série sobre comunidades e manipulação.
Promessas de:
“trazer alguém de volta”;
“fazer determinada pessoa ficar obcecada”;
“quebrar a resistência”;
“garantir sexo”;
ou “dominar a vontade de alguém”
são frequentemente exploradas comercialmente em ambientes esotéricos.
Uma tradição séria não deveria transformar vulnerabilidade afetiva em mecanismo de pressão financeira.
Desejo intenso pode reduzir pensamento crítico.
É justamente nesse momento que discernimento se torna mais importante.
Nenhum ritual garante amor
Esse ponto deveria permanecer claro.
Um grimório pode atribuir a Sitri capacidade de influenciar amor ou desejo.
Isso é um fato textual.
Não significa que exista demonstração de que um ritual garanta:
uma relação;
retorno de ex-parceiro;
consentimento;
atração;
sexo;
ou compromisso.
Não devemos transformar literatura histórica em promessa comercial.
Sitri e a autonomia sexual
Uma leitura luciferiana madura pode fazer algo diferente.
Em vez de perguntar:
“Como faço outra pessoa me desejar?”
podemos perguntar:
“Como desenvolvo uma relação mais consciente com aquilo que eu desejo?”
Essa mudança preserva poder pessoal sem depender de violar a soberania do outro.
Pode envolver:
conhecer os próprios limites;
expressar desejo sem vergonha;
respeitar recusa;
desenvolver presença;
cuidar do corpo;
melhorar comunicação;
e distinguir atração de obsessão.
O que sabemos com razoável segurança
Sitri possui uma história anterior à Ars Goetia.
O Livre des esperitz registra Bitur, Grande Marquês em forma de belo homem, relacionado ao amor de mulheres, destruição de cidades e castelos, perda de honras e dignidades e 36 legiões.
Weyer registra Sytry alias Bitru como nº 21, agora Grande Príncipe com rosto de leopardo e asas de grifo. Em forma humana é extremamente belo e passa a ser associado sobretudo ao desejo entre homens e mulheres, à revelação de segredos, à nudez e a 60 legiões.
A Ars Goetia reorganiza a figura como Sitri nº 12, mantém o título de Príncipe, a aparência animal, a forma humana bela, a atração, a nudez e as 60 legiões, mas abrevia outros elementos presentes em Weyer.
Collin de Plancy preserva grande parte do perfil de Weyer no século XIX, mas altera a quantidade para 70 legiões.
O que permanece incerto
A etimologia de Sitri não está estabelecida com segurança.
Não existe base suficiente para identificá-lo historicamente com Set ou outra antiga divindade específica.
Não sabemos exatamente por que Bitur passou de Marquês para Príncipe.
Também não sabemos como e por que atributos relacionados à destruição de cidades e perda de dignidades desapareceram enquanto a sexualidade ganhou centralidade.
O selo pertence a uma tradição posterior ao antecedente Bitur.
Correspondências planetárias, zodiacais, tarotísticas, metálicas e demonolátricas precisam ser atribuídas às escolas que as criaram.
E a realidade sobrenatural das capacidades atribuídas ao espírito permanece uma questão religiosa, não conclusão que o método histórico possa resolver.
Perguntas frequentes sobre Sitri
Quem é Sitri?
Sitri é o décimo segundo espírito da Ars Goetia, apresentado como Grande Príncipe associado à atração, ao desejo e à exposição do corpo.
Sitri aparece antes da Ars Goetia?
Sim. Weyer registra Sytry/Bitru, e uma tradição ainda anterior ou paralela preserva Bitur no Livre des esperitz.
Qual é a posição de Sitri em Weyer?
Nº 21.
Qual é sua posição na Ars Goetia?
Nº 12.
Sitri e Bitru são a mesma figura?
Bitru aparece explicitamente como nome alternativo de Sytry em Weyer e Sitri em Scot.
E Bitur?
Bitur é um importante antecedente textual preservado no Livre des esperitz.
Bitur já tinha rosto de leopardo?
A entrada preservada no Livre des esperitz descreve-o como belo homem; a iconografia do leopardo e do grifo aparece claramente em Weyer.
Qual era o título de Bitur?
Grande Marquês.
Qual é o título de Sitri na Goetia?
Grande Príncipe.
Como Sitri aparece?
Na tradição de Weyer e da Goetia, inicialmente com rosto de leopardo e asas de grifo; depois assume forma humana extremamente bela.
Sitri é um espírito do amor?
A atração e o desejo possuem base histórica, mas “Daemon do amor” é uma simplificação moderna.
Sitri está ligado à luxúria?
A dimensão erótica é clara na tradição de Weyer e da Goetia. “Príncipe da Luxúria”, entretanto, não é seu título histórico formal.
Sitri faz pessoas se despirem?
Essa capacidade aparece na descrição histórica da Goetia. O artigo registra o conteúdo da fonte; isso não transforma coerção sexual em prática ética.
Sitri revela segredos?
Weyer especificamente associa Sytry à revelação de segredos atribuídos às mulheres. Essa passagem é abreviada na versão principal da Goetia.
Quantas legiões Sitri governa?
Na Ars Goetia, 60. Bitur possui 36 no Livre des esperitz, enquanto Collin de Plancy posteriormente atribui 70 a Sytry.
Sitri é Set do Egito?
Não existe atualmente cadeia documental suficiente para estabelecer essa identidade como fato histórico.
Qual é o significado do nome Sitri?
A etimologia permanece incerta.
Qual é o planeta de Sitri?
As entradas fundamentais de Weyer e da Goetia não apresentam uma única correspondência planetária definitiva. Sistemas posteriores acrescentaram diferentes tabelas.
Qual anjo é associado a Sitri?
No esquema posterior associado a Thomas Rudd, a posição nº 12 da Goetia é pareada com Hahaiah. Isso não pertence à pequena entrada original de Sitri.
Sitri é originalmente luciferiano?
Não no sentido religioso contemporâneo. Sua presença no Luciferianismo moderno constitui uma releitura posterior.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Sitri pode ser compreendido como uma figura do desejo tornado consciente.
Essa formulação permite preservar aquilo que existe nas fontes sem reproduzir automaticamente a ética coercitiva do grimório.
O desejo não é inimigo.
Também não precisa ser soberano.
Ele é informação.
Diz alguma coisa sobre:
aquilo que buscamos;
aquilo que sentimos falta;
aquilo que projetamos;
aquilo que tememos perder;
e aquilo que desejamos experimentar.
O problema começa quando confundimos desejo com direito.
Sitri e a luz luciferiana
Se a luz luciferiana representa consciência, então iluminar o desejo significa enxergá-lo sem maquiagem.
Não apenas:
“eu quero.”
Mas:
“por que quero?”
O que espero conseguir através disso?
Que necessidade existe por trás?
Quais consequências surgem se eu agir?
Existe reciprocidade?
Estou respeitando a autonomia de outra pessoa?
Essa investigação transforma desejo em autoconhecimento.
O princípio central de Sitri
Dentro da filosofia do Templo, poderíamos formular seu princípio assim:
conhecer o próprio desejo sem transformar o desejo em senhor da própria vontade.
Isso evita tanto repressão quanto compulsão.
Não é preciso sentir vergonha por desejar.
Também não é preciso agir sobre tudo aquilo que desejamos.
Existe uma terceira possibilidade:
consciência.
Beleza e projeção
A transformação de Sitri numa figura humana de grande beleza pode simbolizar ainda a capacidade do desejo de tornar seu objeto maior que a realidade.
Quando desejamos intensamente, podemos ignorar:
incompatibilidades;
sinais de alerta;
ausência de reciprocidade;
ou comportamentos que normalmente reconheceríamos como inadequados.
A beleza, nesse sentido, não é mentira.
Mas pode funcionar como distração.
Discernimento continua necessário.
Nudez e verdade
A nudez pode ser reinterpretada não como humilhação, mas como ausência de máscara.
A pergunta deixa de ser:
“Como exponho alguém?”
e passa a ser:
“O que eu mesmo evito reconhecer quando retiro minhas justificativas?”
Essa inversão transforma um atributo antigo de controle sobre terceiros numa prática contemporânea de autoconhecimento.
Segredo e confiança
Da mesma forma, a passagem histórica sobre segredos pode servir para uma ética exatamente oposta à zombaria descrita em Weyer.
Conhecer a intimidade de alguém aumenta responsabilidade.
Não direito de exposição.
Se uma pessoa revela algo vulnerável, confiança deveria criar obrigação de cuidado.
Essa leitura talvez seja especialmente importante numa sociedade em que exposição digital pode permanecer online por muitos anos.
Sitri segundo o Método das Seis Camadas
Na primeira camada, temos a Ars Goetia: Sitri é nº 12, Grande Príncipe, rosto de leopardo, asas de grifo, bela forma humana, desejo, nudez e 60 legiões.
Na segunda, voltamos a Weyer: Sytry/Bitru é nº 21, com perfil visual semelhante, mas inclui explicitamente segredos, zombaria e nudez.
Na terceira, recuamos ao Livre des esperitz: Bitur é Marquês, belo homem, possui 36 legiões e funções diferentes ligadas a amor, destruição e perda de dignidades.
Na quarta, separamos Rudd, astrologia, Tarô, planetas, elementos, enns e sistemas demonolátricos modernos.
Na quinta, examinamos a recepção de Collin de Plancy, que preserva muitos elementos de Weyer, mas registra 70 legiões.
Na sexta, apresentamos a leitura do Templo: Sitri como figura do desejo consciente, da vulnerabilidade, da atração e da responsabilidade diante da autonomia alheia.
Conclusão
Sitri demonstra de forma particularmente clara como uma figura demonológica pode mudar de identidade funcional ao longo dos séculos.
Antes de Sitri existe Sytry.
Antes de Sytry existe Bitru.
E antes da forma goética consolidada encontramos Bitur.
O Bitur preservado no Livre des esperitz é Marquês.
Aparece como belo homem.
Concede amor de mulheres.
Pode destruir cidades e castelos.
Pode retirar honras e dignidades.
Governa 36 legiões.
Em Weyer, a figura muda.
Sytry/Bitru torna-se Grande Príncipe.
Surge o rosto de leopardo.
Surgem as asas de grifo.
Sua forma humana continua bela.
O desejo sexual passa ao centro da descrição.
Segredos, nudez e zombaria entram no perfil.
As legiões passam para 60.
A Ars Goetia reorganiza-o como nº 12.
Mantém o título de Príncipe.
Mantém a aparência híbrida.
Mantém a bela forma humana.
Mantém desejo e nudez.
Mantém as 60 legiões.
Mas reduz parte do material mais extenso de Weyer.
No século XIX, Collin de Plancy volta a enfatizar paixões, segredos e exposição, mas agora registra 70 legiões.
Séculos de transmissão produziram, portanto, aquilo que atualmente chamamos simplesmente de “Sitri”.
Isso torna inadequadas as fichas que apresentam:
um único significado do nome;
uma única correspondência planetária;
um único número histórico de legiões;
uma origem egípcia supostamente comprovada;
e uma lista moderna de poderes sem indicar quando cada elemento surgiu.
O caminho mais profissional é mais exigente.
Primeiro, reconstruir.
Depois, interpretar.
Dentro do Templo de Lúcifer, Sitri não precisa ser reduzido ao papel de entidade utilizada para “fazer alguém se apaixonar”.
Essa interpretação é pobre porque coloca todo o poder do símbolo na vontade de outra pessoa.
Uma leitura luciferiana centrada em autonomia pode inverter a questão.
O verdadeiro território de Sitri pode estar no estudo daquilo que o desejo faz conosco.
O que ele revela.
O que esconde.
O que idealiza.
Onde nos torna vulneráveis.
E até que ponto conseguimos continuar soberanos quando queremos alguma coisa intensamente.
Nesse sentido, Sitri pode representar uma das questões mais difíceis do autoconhecimento:
você controla aquilo que deseja ou aquilo que deseja começou a controlar você?
A resposta não está em negar sexualidade.
Nem em transformar desejo em mandamento.
Está em consciência.
E consciência exige conseguir sustentar simultaneamente duas verdades:
meu desejo é meu.
a vontade do outro continua pertencendo ao outro.
É nesse limite entre intensidade e soberania que Sitri pode adquirir uma interpretação contemporânea mais profunda, ética e coerente com um Luciferianismo que pretende associar liberdade à responsabilidade.
Leituras relacionadas
Consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia como página central desta biblioteca. Leia também Gusion ou Gusoin: história, origem e tradição do 11º espírito da Ars Goetia, imediatamente anterior na sequência. Para aprofundar as questões éticas levantadas pelo tema do desejo, vale relacionar esta página a A ética no Luciferianismo: princípios para uma vida consciente e Sinais de manipulação espiritual: como se proteger.
O próximo estudo da sequência será Beleth/Bileth: história, origem e tradição do 13º espírito da Ars Goetia.
Referências e leituras para aprofundamento
Livre des esperitz. Trinity College Cambridge, MS O.8.29. Bitur aparece como Grande Marquês em forma de belo homem, ligado ao amor, destruição de cidades e castelos, perda de honras e dignidades e 36 legiões.
BOUDET, Jean-Patrice. “Les who’s who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux”. Médiévales, nº 44, 2003. Estudo fundamental para contextualizar o Livre des esperitz e sua relação com os catálogos demonológicos renascentistas.
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Sytry, alias Bitru, aparece como nº 21, Grande Príncipe, associado ao leopardo, grifo, bela forma humana, desejo, segredos, nudez e 60 legiões.
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Sua tradução transmite Sitri/Bitru e constitui importante elo entre Weyer e a tradição posteriormente utilizada pelo Lemegeton.
PETERSON, Joseph H. (ed.). Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia. O Sloane 3825 apresenta Sitri como nº 12, Grande Príncipe, com rosto de leopardo, asas de grifo, forma humana bela, atração, nudez, 60 legiões e selo próprio.
COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed., Paris, 1863. Preserva Sytry/Bitru como Grande Príncipe associado à paixão, segredos e bela forma humana, mas registra 70 legiões.
RUDD, Thomas — tradição manuscrita atribuída. Sistemas posteriores pareiam os 72 espíritos da Goetia aos 72 anjos do Shem HaMephorash pela posição numérica; nessa organização, Sitri nº 12 corresponde a Hahaiah.