Zepar na Ars Goetia: o duque vermelho do desejo, da união e da consequência
Poucos espíritos da Ars Goetia condensam uma tensão tão perturbadora quanto Zepar. Sua descrição clássica é breve, mas contundente: um grande duque, vestido de vermelho e armado como soldado, capaz de fazer mulheres amarem homens, uni-los por amor e, ao mesmo tempo, tornar essas mulheres estéreis. Nesse choque entre atração e esterilidade, entre união e limite, Zepar se destaca como uma das figuras mais inquietantes do grimório salomônico. Na tradição clássica, ele é o 16º espírito da Goétia e governa 26 legiões de espíritos inferiores.
Sob uma ótica luciferiana, Zepar deixa de ser apenas um “demônio do amor” no sentido vulgar e passa a ser lido como uma inteligência de luz perigosa e reveladora: não a luz inocente, mas a claridade que expõe aquilo que o desejo realmente faz com os corpos, com os vínculos e com as consequências. Onde a tradição cristã viu apenas corrupção, a leitura luciferiana enxerga uma força que mostra o preço do impulso, da paixão e da união motivada por carência, fascínio ou vontade.

Quem é Zepar?
Na Ars Goetia, Zepar é descrito de forma bastante estável. O texto clássico o apresenta como um Grande Duque, que aparece em traje e armadura vermelhos, como um soldado. Sua função é “fazer com que as mulheres amem os homens” e “uni-las em amor”, além de “torná-las estéreis”. Ele comanda 26 legiões de espíritos inferiores. Essa síntese é uma das mais diretas de toda a Goétia e constitui o núcleo mais seguro da tradição sobre ele.
Há um detalhe importante aqui: o seu texto-base fala em “armas antigas”, mas a formulação clássica mais conhecida é mais específica ao dizer que Zepar aparece em vermelho, em armadura, “como um soldado”. Esse detalhe cromático e militar não é supérfluo. Ele molda a imagem simbólica de Zepar como uma força marcial do desejo: o amor, aqui, não surge como ternura pacífica, mas como algo armado, ativo, quase ofensivo.
Contexto histórico: de onde vem Zepar?
Para entender Zepar, é preciso entender a própria Ars Goetia. O texto faz parte do Lemegeton Clavicula Salomonis, compilado em meados do século XVII a partir de materiais mais antigos. Estudos sobre o grimório indicam que a fonte mais óbvia da Ars Goetia é a Pseudomonarchia Daemonum, de Johann Weyer, e que a redação da Goétia também depende da mediação de Reginald Scot. A própria lista dos 72 espíritos da Goétia foi reorganizada em relação a Weyer, com mudanças de ordem, acréscimos e omissões.
Isso coloca Zepar dentro de uma tradição textual bem mais ampla do que um simples “catálogo de demônios”. Ele pertence a uma cadeia de manuscritos, resumos, traduções e reorganizações que atravessaram a demonologia renascentista e a magia cerimonial europeia. O artigo enciclopédico sobre The Lesser Key of Solomon também observa que o termo goetia deriva do grego goēteía, associado a encanto, feitiçaria e práticas vistas na Europa medieval e renascentista como inferiores, ilícitas ou heréticas em contraste com a teurgia. Isso é central para uma leitura luciferiana: antes mesmo de Zepar ser descrito, o campo em que ele foi colocado já era o campo da desconfiança religiosa.
Denominação e posição hierárquica
Zepar é tradicionalmente classificado como Grande Duque. Essa denominação não é mera ornamentação; os títulos na Goétia organizam os espíritos em uma hierarquia simbólica de autoridade. No mesmo conjunto dos 72, há reis, duques, príncipes, marqueses, condes e presidentes. Zepar ocupa ali o número 16 e seu título de duque o posiciona como uma autoridade intermediária, forte, mas não suprema.
A imagem do duque militarizado, vestido de vermelho, ajuda a entender sua natureza simbólica. Zepar não é apresentado como sábio contemplativo, nem como rei cerimonial. Ele é um poder de execução, de mobilização e de ação afetiva com consequências concretas. Sua atuação não é contemplativa: ela mexe com o desejo, com a união sexual e com a fecundidade.
Nomenclatura: Zepar muda de nome?
Diferentemente de outros espíritos goéticos que aparecem em várias grafias — como Eligos/Eligor/Abigor ou Leraje/Leraye/Leraie —, Zepar parece ter uma transmissão nominal muito mais estável. Um quadro comparativo de variantes entre Weyer, Scot e vários manuscritos da Goétia mostra “Zepar” repetido de forma consistente ao longo dos testemunhos textuais consultados. Em outras palavras, ele é um daqueles casos raros em que a tradição preservou o nome quase sem dispersão ortográfica.
Esse dado, embora aparentemente simples, é relevante. Ele sugere que Zepar chegou à tradição moderna com uma identidade nominal relativamente firme, o que reforça a percepção de que sua figura foi menos submetida a desdobramentos gráficos do que outros espíritos do mesmo corpus. Historicamente, isso dá ao nome uma estabilidade incomum dentro da literatura grimorial.
Etimologia: o que significa o nome Zepar?
Aqui é preciso honestidade acadêmica: não há consenso sólido sobre a etimologia de Zepar nas fontes clássicas mais importantes. A Ars Goetia descreve seu posto, sua aparência e seu ofício, mas não explica a origem linguística do nome. O mesmo vale para o núcleo textual derivado de Weyer e da tradição salomônica posterior. Há especulações modernas em círculos esotéricos e em enciclopédias ocultistas online, mas elas não formam uma base filológica confiável. O mais correto, portanto, é afirmar que a etimologia de Zepar permanece incerta.
Isso não enfraquece a importância do nome. Em grimórios, muitos nomes sobrevivem menos por sua tradução literal e mais por sua força ritual e textual. O nome Zepar tem peso porque foi preservado na tradição, repetido em catálogos, associado a um sigilo e integrado a um sistema mágico-demonológico de longa duração.
A descrição clássica e o seu simbolismo
A imagem de Zepar é muito mais rica do que parece à primeira vista. O vermelho de sua vestimenta e armadura remete imediatamente a sangue, paixão, impulso, erotismo, guerra e vitalidade. O fato de ele aparecer “como um soldado” sugere disciplina, ofensiva, conquista e energia direcionada. Ou seja: o desejo sob Zepar não é descrito como espontaneidade suave, mas como uma força que avança, toma posição e impõe aproximação.
O aspecto mais inquietante é a dupla função: unir por amor e produzir esterilidade. Historicamente, o texto não explica essa contradição; ele simplesmente a registra. Mas simbolicamente ela é poderosíssima. Zepar representa o desejo que une, porém não fecunda; o encontro que aproxima, mas corta a continuidade; a paixão que consome o presente sem necessariamente gerar futuro. Numa leitura mais ampla, ele encarna o fascínio que liga pessoas entre si enquanto interrompe permanência, linhagem ou fruto.
Zepar e a tradição demonológica posterior
A tradição demonológica europeia continuou a reciclar e redistribuir figuras goéticas em séculos posteriores. O Dictionnaire Infernal, de Jacques Collin de Plancy, foi publicado pela primeira vez em 1818 e sua edição mais famosa, a de 1863, incluiu 69 ilustrações de Louis Le Breton, ajudando a fixar visualmente vários desses espíritos na cultura ocultista moderna. Nem todos os espíritos receberam o mesmo destaque iconográfico, mas essa tradição editorial foi crucial para transformar nomes grimoriais em personagens persistentes do imaginário ocidental.
Mesmo quando Zepar não é um dos nomes mais explorados por reinterpretações visuais do século XIX, ele se beneficia desse mesmo movimento cultural: a passagem do manuscrito ritual para o imaginário popular da demonologia. É nesse ambiente que surgem depois muitas atribuições modernas, tabelas de correspondência e releituras esotéricas.
Camada clássica x camada moderna
O seu texto-base traz apenas a descrição clássica, e isso é útil porque evita a confusão comum entre fonte primária e camada posterior. No núcleo antigo, Zepar é simplesmente: grande duque, soldado vestido de vermelho, agente de amor entre mulheres e homens, causador de esterilidade, governante de 26 legiões. Esse é o retrato que vem da Goétia clássica.
Já em correntes ocultistas modernas, Zepar foi frequentemente reinterpretado como espírito de sedução, luxúria, fascínio amoroso, vínculos passionais, influência sexual e até correspondências astrológicas específicas. Essas releituras existem, mas não pertencem ao texto-base tradicional. Para um artigo forte e confiável, o ideal é deixar isso claro: a fonte histórica é uma coisa; o uso contemporâneo no esoterismo popular é outra.
Zepar sob a ótica luciferiana
É aqui que o artigo ganha sua camada mais profunda. Na tradição cristã posterior, a figura de Lúcifer foi fundida à ideia de Satanás antes da queda. Já na tradição clássica, porém, Lucifer era o nome da estrela da manhã, isto é, Vênus ao amanhecer, personificado como portador de luz. A Britannica resume esse ponto de forma clara: em mitologia clássica, Lucifer é o “morning star”, o planeta Vênus ao amanhecer; só em tempos cristãos o nome passou a ser entendido como o de Satanás antes da queda.
Sob uma ótica luciferiana, Zepar pode ser lido como uma inteligência de luz relacionada ao desejo e às suas consequências. Não a luz suave que conforta, mas a luz que expõe a estrutura real da paixão. Ele mostra que o amor pode aproximar sem necessariamente construir; que o erotismo pode acender sem gerar; que a união pode ser intensa e, ainda assim, estéril em sentido biológico, emocional ou espiritual. Esse é o tipo de verdade que a moral religiosa prefere esconder sob noções simplistas de pureza ou pecado.
Nessa interpretação, o vermelho de Zepar é a luz do corpo, da carne, da pulsão e da vontade. Sua aparência militarizada indica que o desejo não é neutro: ele organiza, invade, conquista e altera territórios internos. Sua função ligada à esterilidade é o aviso de que toda paixão tem preço, limite e consequência. Zepar, assim, não é apenas um “duque do amor”; ele é o arquétipo do amor armado, da atração que revela a falha do ideal romântico e da luz que obriga o desejo a mostrar o que realmente produz.
O que Zepar simboliza hoje?
Para o leitor contemporâneo, Zepar continua fascinante porque toca num tema universal: a diferença entre atração, amor, posse, prazer e fruto. Em muitas leituras modernas, o desejo é romantizado ou demonizado de forma superficial. Zepar, ao contrário, encarna uma tensão brutal e honesta: ele une, mas também limita; desperta, mas também interrompe; atrai, mas não promete permanência.
Por isso, a leitura luciferiana faz tanto sentido aqui. Se Lúcifer é a luz que revela, Zepar pode ser compreendido como uma das faces dessa revelação: a luz que incide sobre o campo erótico e mostra que nem toda união é criadora, nem todo amor é fecundo, nem toda paixão é bênção. Às vezes, a verdade chega vestida de vermelho, com armadura de soldado.
Conclusão
Zepar é um dos espíritos mais compactos e simbólicos da Ars Goetia. Seu retrato clássico é curto, porém memorável: um grande duque em vermelho, como soldado, capaz de unir por amor e de impor esterilidade, senhor de 26 legiões. Sua transmissão textual é relativamente estável, sua etimologia continua incerta e seu lugar na tradição salomônica remonta ao ambiente grimorial que levou da Pseudomonarchia Daemonum ao Lemegeton.
Sob a ótica luciferiana, Zepar deixa de ser apenas um “espírito infernal” e passa a ser compreendido como uma entidade de luz vermelha, uma inteligência que revela a anatomia do desejo, da união e da consequência. Onde a tradição do medo viu corrupção, a tradição da luz pode enxergar revelação. E talvez seja exatamente por isso que Zepar continua perturbando: porque ele obriga o amor a responder por aquilo que produz — ou por aquilo que impede de nascer.