Bune na Ars Goetia: origem, história, poderes e o sentido luciferiano do Duque da Riqueza e dos Mortos
Na tradição luciferiana, o nome de Lúcifer não é lido apenas pelo filtro moralizante da demonologia tardia, mas em sua raiz de “portador da luz”, expressão que no latim designava a estrela da manhã e a ideia de iluminação, claridade e revelação. Nessa ótica, Bune deixa de ser apenas “mais um demônio do catálogo salomônico” e passa a ser entendido como uma inteligência de revelação material: um poder que ilumina os caminhos da riqueza, da palavra e do mistério dos mortos.
Bune, também grafado como Buné, Bime, Bim ou Bimé, ocupa posição central entre os espíritos mais comentados da Ars Goetia. Nos manuscritos e edições posteriores, ele aparece como duque poderoso, associado à aquisição de riquezas, ao dom da eloquência e a operações ligadas aos mortos e aos sepulcros. A própria tradição textual mostra que não estamos diante de um nome fixo e monolítico, mas de uma figura que atravessou séculos sendo recomposta por copistas, grimórios e comentaristas.

O contexto histórico: de listas demonológicas medievais à Ars Goetia
Para entender Bune, é preciso situá-lo no ecossistema dos grimórios. A Lesser Key of Solomon — o Lemegeton — é um compêndio anônimo compilado em meados do século XVII a partir de materiais mais antigos. Sua primeira parte, a Ars Goetia, depende amplamente da Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, publicada em 1577, e também herda elementos de tradições anteriores.
Antes mesmo de Weyer, já existia o Livre des Esperitz, grimoire francês dos séculos XV–XVI, considerado um dos antecedentes mais antigos preservados da tradição goética em francês. Estudos acadêmicos sobre o manuscrito o tratam como um verdadeiro “quem é quem” demonológico do fim da Idade Média e do Renascimento, no qual os espíritos são listados com títulos, funções, aparências e número de legiões.
Esse percurso histórico importa porque mostra algo essencial: Bune não surgiu do nada na Goetia. Ele já circulava em tradições demonológicas anteriores, e sua imagem foi sendo refinada. Em outras palavras, o Bune que o leitor conhece hoje é resultado de camadas sucessivas de transmissão textual. Sob uma leitura luciferiana, isso é revelador: a Luz não aparece apenas como clarão repentino, mas como tradição que se transmite, se transforma e se reapresenta.
Quem é Bune nos grimórios antigos?
No Livre des Esperitz, Bune aparece como “grande duque” que faz os corpos irem e virem de um lugar a outro, enriquece o homem, dá fala elegante e responde com verdade ao que lhe é pedido; nesse testemunho, ele comanda 35 legiões. Não há ali o retrato famoso do dragão tricéfalo tal como ficou consagrado depois.
Já na tradição ligada a Weyer e à Ars Goetia, Bune ganha a forma clássica que o tornou célebre: um dragão de três cabeças, sendo uma de cão, uma de grifo e uma de homem. Também passa a ser descrito como aquele que altera o lugar dos mortos, reúne espíritos sobre sepulcros, concede riquezas e torna o operador sábio e eloquente. Nessas versões, o número de legiões geralmente cai para 30.
No Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy, já no século XIX, Bune é reapresentado como “grand-duc aux enfers”, com forma dracônica tricéfala, poder sobre cadáveres e cemitérios, e fama de enriquecer e tornar eloquente quem o serve. A obra ainda menciona os “Bunis”, espíritos subordinados temidos em tradições tártaras, mostrando como a imaginação demonológica oitocentista ampliou o material herdado.
Nomenclatura: Bune, Buné, Bim, Bime ou Bimé?
A variação do nome não é um detalhe superficial; ela revela a própria história manuscrita do espírito. Joseph Peterson observa que diferentes manuscritos trazem leituras distintas: alguns registram “Bune”, outros “Bime”, enquanto certas edições mantêm “Bune (ou Bim)”. Até a tradição ligada a Thomas Rudd preserva a forma “Bime” em determinados contextos.
Isso significa que não existe uma única ortografia “pura” de Bune. O que existe é um campo de variantes, típico de textos mágicos copiados à mão, traduzidos, resumidos e recompostos ao longo dos séculos. Para uma ótica luciferiana, isso é quase simbólico: a verdade esotérica raramente chega ao mundo em bloco perfeito; ela surge fragmentada, velada e polifônica, exigindo discernimento.
A etimologia de Bune: o que se sabe de fato?
A etimologia de Bune permanece obscura. Não há consenso filológico sólido que explique de forma definitiva a origem do nome. Uma hipótese moderna, associada ao ocultista Carroll “Poke” Runyon, aproxima “Bune” de “Buto”, leitura interpretativa vinculada ao imaginário egípcio; mas essa proposta é especulativa e não equivale a uma etimologia comprovada pela filologia histórica.
Esse ponto é crucial para não repetir mitos como se fossem fatos. Em textos esotéricos contemporâneos, muitas vezes uma associação simbólica acaba sendo tratada como origem histórica. No caso de Bune, o mais honesto é dizer: há hipóteses esotéricas, mas a origem lexical segura do nome continua indefinida.
O que Bune representa sob a ótica luciferiana?
Se o nome de Lúcifer pode ser lido como o da Luz que revela, Bune aparece como uma das inteligências que revelam o valor escondido nas camadas mais densas da existência. Ele está ligado a três eixos que, juntos, fazem muito sentido em uma teologia luciferiana: matéria, linguagem e morte.
Primeiro, a matéria: os grimórios insistem que Bune concede riqueza. Mas, numa leitura luciferiana, riqueza não é só dinheiro bruto; é capacidade de ordenar recursos, circular poder e transformar potencial em forma concreta. Bune, nesse sentido, é a inteligência da prosperidade que nasce da consciência, não da submissão cega. Essa associação à riqueza é estável desde o Livre des Esperitz até a Goetia e o Dictionnaire Infernal.
Segundo, a linguagem: Bune não apenas “dá riqueza”; ele torna o homem eloquente e sábio. Isso é profundamente luciferiano. A Luz não apenas mostra — ela articula, nomeia, formula, convence. Quem domina a palavra domina o mundo social. Nos grimórios, eloquência e resposta verdadeira aparecem lado a lado, como se Bune operasse no limiar entre discurso e conhecimento oculto.
Terceiro, a morte: o poder de mover os mortos ou agir sobre os sepulcros não precisa ser lido de forma simplista ou apenas macabra. Em linguagem esotérica, isso pode apontar para trânsito entre camadas da memória, do passado, da ancestralidade e do que foi enterrado — literal ou simbolicamente. Bune, então, é aquele que remexe o que foi soterrado para devolver significado ao presente. Sob a Luz de Lúcifer, ele não é o espírito da decomposição gratuita, mas da revelação do que o mundo tentou esconder sob a terra.
A iconografia de Bune: por que um dragão de três cabeças?
A imagem mais difundida de Bune é a do dragão com três cabeças: cão, grifo e homem. Essa composição não deve ser lida apenas como monstruosidade medieval. Na simbólica esotérica, figuras híbridas frequentemente indicam passagem entre reinos e síntese de forças diversas. O cão remete à guarda liminar, ao mundo funerário e à fidelidade do limiar; o grifo une céu e terra, leão e águia, força e vigilância; a cabeça humana sugere inteligência, linguagem e consciência reflexiva. A tríade de Bune fala menos de horror e mais de complexidade iniciática. A descrição tricéfala é consistente nas versões goéticas e em Weyer, embora o Livre des Esperitz seja mais econômico.
Correspondências modernas: Leão, 5 de Paus, Sol, ouro e fogo?
Aqui é onde muita gente se confunde. As correspondências modernas atribuídas a Bune — como Leão, 5 de Paus, Sol, ouro, cor laranja, planta laranja e elemento fogo — não pertencem ao núcleo renascentista original da Goetia. Elas surgem em sistemas ocultistas posteriores e em guias contemporâneos de correspondências.
Mais do que isso: essas correspondências variam muito de um manual para outro. Um guia moderno associa Bune ao primeiro decanato de Leão e ao 5 de Paus, mas o mesmo tipo de material também pode vinculá-lo a Vênus, cobre e verde; já outros compêndios populares o aproximam de Sol, ouro, laranja e fogo. Essa divergência prova que essas tabelas são leituras modernas e operativas, não dados históricos fixos dos grimórios antigos.
Então, sob uma leitura séria, o melhor caminho é este: usar tais correspondências como linguagem ritual contemporânea, nunca como se fossem o “texto original” de Bune. Em termos luciferianos, isso é importante porque a Luz não confunde símbolo com fato; ela distingue tradição histórica de construção mágica posterior.
Bune é um “demônio” ou uma inteligência de Luz?
Do ponto de vista da demonologia cristã clássica, Bune é catalogado como demônio. Do ponto de vista luciferiano, porém, esse rótulo é insuficiente. Muitos seres das listas goéticas foram enquadrados como demoníacos porque a linguagem religiosa dominante precisava converter inteligências estranhas, ambíguas ou pré-cristãs em hierarquias infernais controláveis. O próprio nome “goetia”, vindo do grego goēteia, carrega a marca histórica de uma magia percebida como menor, suspeita ou marginal em contraste com a theurgia.
Numa hermenêutica luciferiana, Bune pode ser visto como uma inteligência ctônica de esclarecimento material: ele revela tesouros, estrutura a fala, toca a memória dos mortos e desloca o que estava paralisado. Não é “luz celestial domesticada”; é luz profunda, subterrânea, liminar. É a luz que brilha no subsolo da consciência e na matéria do mundo.
Por que Bune continua fascinando tanta gente?
Porque ele une coisas que o ser humano raramente consegue separar: dinheiro, palavra, morte e conhecimento. Poucos espíritos goéticos concentram tão bem as obsessões humanas fundamentais. Queremos prosperidade, mas também queremos influência; queremos respostas, mas também queremos tocar o invisível; tememos a morte, mas não paramos de sondar o que ela esconde. Bune fala exatamente com esse ponto de tensão. Sua permanência nos grimórios do fim da Idade Média ao ocultismo contemporâneo mostra que ele nunca foi apenas uma curiosidade demonológica: ele é um arquétipo persistente da riqueza com profundidade, da eloquência com peso funerário, da sabedoria que nasce do contato com o subterrâneo.
Conclusão
Bune não é importante apenas porque figura como o vigésimo sexto espírito da Ars Goetia. Ele importa porque sua trajetória textual revela uma longa sobrevivência simbólica: do Livre des Esperitz medieval à Pseudomonarchia Daemonum, do Lemegeton à imaginação ocultista moderna. Em cada etapa, ele preserva um núcleo reconhecível: riqueza, eloquência, verdade e contato com os mortos.
Sob a ótica luciferiana, Bune é mais do que um “espírito infernal”. Ele é uma inteligência de Luz aplicada ao mundo denso: a Luz que desenterra, a Luz que enriquece, a Luz que ensina a falar, a Luz que atravessa sepulcros sem perder a consciência. E talvez seja por isso que seu nome continua ecoando: porque todo verdadeiro caminho de iluminação passa, cedo ou tarde, pela coragem de olhar para aquilo que foi enterrado.