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72 Daimon

Crocell na Goétia: o duque das águas ocultas e da geometria sagrada sob a ótica luciferiana

By Templo de Lucifer
abril 19, 2026 7 Min Read
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Poucos espíritos da Goétia concentram uma imagem tão intrigante quanto Crocell, o 49º espírito: um duque que surge em forma de anjo, fala sobre mistérios ocultos, ensina geometria e as ciências liberais, faz ecoar o som de “muitas águas” onde não há rio algum, aquece fontes e revela banhos e termas. Nos textos clássicos, ele aparece como uma figura de saber, ressonância e profundidade — menos um monstro caricatural e mais uma inteligência velada por símbolos.

O ponto decisivo é este: Crocell não pertence apenas ao folclore demonológico popular. Ele emerge de uma tradição grimorial europeia que passa por Johann Weyer, pela recepção de Reginald Scot e pelo Lemegeton ou Lesser Key of Solomon, compilado no século XVII a partir de materiais mais antigos. Essa literatura, por sua vez, bebe da antiga tradição salomônica, em que Salomão aparece como rei capaz de submeter espíritos por meio de sabedoria e selo.

Sob uma ótica luciferiana, isso muda completamente a leitura. Se Lúcifer é entendido não como mero “adversário” moralizado pela ortodoxia, mas como princípio de Luz, lucidez, revelação e consciência, então Crocell deixa de ser lido apenas como “demônio infernal” e passa a ser visto como uma inteligência da iluminação oculta: aquele que transforma ruído em significado, sombra em conhecimento, e profundidade em linguagem. Crocell, nessa chave, é o mestre das águas interiores da mente.

Quem é Crocell nas fontes clássicas?

No Ars Goetia, Crocell é descrito como o quadragésimo nono espírito, um duque grande e forte, que aparece “na forma de um anjo”, ensina geometria e as ciências liberais, produz grandes ruídos como o rumor de muitas águas e “aquece águas” enquanto “descobre banhos”. O texto ainda afirma que ele pertenceu à ordem das Potestades ou Powers antes de sua queda, e que governa 48 legiões.

Essa imagem já tem um antecedente importante em Weyer, na Pseudomonarchia Daemonum, publicada em 1577 como apêndice de De praestigiis daemonum. Ali, Crocell aparece sob a forma mais antiga Pucel/Procell, dentro de uma lista de 69 demônios, anterior à forma posterior do Ars Goetia, que passa a organizar 72 espíritos. Reginald Scot republicou esse material em The Discoverie of Witchcraft (1584), e ele serviu como uma das bases para a tradição goética posterior.

Em outras palavras: Crocell não nasce no esoterismo contemporâneo. Ele já está documentado na demonologia renascentista e entra no Lemegeton como parte de uma cadeia textual mais antiga. Isso importa porque separa o que é núcleo histórico do que é camada moderna de interpretação.

Crocell, Procel, Procell, Crokel ou Pucel? A questão da nomenclatura

O seu texto traz uma informação correta e valiosa: Crocell circula com várias formas de nome. E isso não é detalhe — é parte do próprio problema textual da tradição grimorial. Em tabelas comparativas de manuscritos e edições, o mesmo espírito aparece como Pucel em Weyer, Procell/Procel em alguns testemunhos, e Crocell/Crokel em manuscritos e edições posteriores do Goetia.

Essa oscilação mostra duas coisas. Primeiro, que a tradição goética foi transmitida por cópia manuscrita, adaptação editorial e tradução, o que naturalmente produz variantes. Segundo, que muitas vezes a “identidade” de um espírito na literatura mágica não depende de um nome fixo moderno, mas de um conjunto de funções, rank e atributos que permanece reconhecível apesar das mudanças gráficas. Em Crocell, esse núcleo constante é claro: forma angélica, saber oculto, geometria, ruído aquático, águas quentes e ligação com as Potestades.

Etimologia: o que realmente pode ser dito?

Aqui é preciso precisão. Não encontrei uma etimologia filológica consensual e sólida para “Crocell”. O que as fontes históricas centrais documentam com segurança é a existência das variantes Pucel, Procell/Procel, Crocell e Crokel.

A hipótese mais plausível em círculos modernos aproxima Procel/Procell do latim procella, “tempestade”, o que combina bem com o atributo do espírito de produzir o som impetuoso de águas e tumultos. Mas isso deve ser tratado como conjectura interpretativa, não como etimologia comprovada. O latim procella de fato significa tempestade; a ligação direta com o nome do espírito, porém, permanece especulativa.

Sob leitura simbólica — e aqui a ótica luciferiana funciona muito bem — o nome variável de Crocell é parte de sua própria natureza. Ele é espírito de ressonância, não de rigidez; de eco, não de dogma. Seu nome escorre pelos manuscritos como a água que ele governa.

O que significa Crocell ensinar geometria e as ciências liberais?

Esse é um dos aspectos mais fascinantes do espírito. O Ars Goetia não diz apenas que Crocell fala de coisas ocultas; diz que ele ensina geometria e as ciências liberais. No contexto medieval e renascentista, isso não era pouca coisa. As sete ciências liberais formavam o grande currículo do saber: gramática, lógica e retórica no trivium; geometria, aritmética, música e astronomia no quadrivium.

Logo, Crocell não é apenas um “espírito de mistério” no sentido nebuloso. Ele pertence ao imaginário de uma inteligência que transmite estrutura, medida, ordem do espaço, linguagem, proporção e cosmovisão. A geometria, nesse ambiente, não era só matemática aplicada: era também chave de arquitetura, harmonia, simbolismo e leitura do cosmos.

Na ótica luciferiana, esse detalhe é central. Crocell representa a Luz não como consolo passivo, mas como inteligência organizadora. Ele não “ilumina” no sentido sentimental; ele ilumina ao dar forma ao caos. É a luz que mede, traça, distingue, calcula e revela. A verdadeira luz luciferiana não é cegueira mística: é clareza conquistada.

O senhor das águas quentes, do rumor e das termas

Crocell é um espírito aquático? Em parte, sim — mas não no sentido simplista de “deus da água”. Seu poder está ligado ao som das águas, às águas aquecidas e à revelação de banhos ou termas. No Ars Goetia, ele produz “grandes ruídos como o rumor de muitas águas, embora não haja nada” e aquece águas enquanto revela banhos. Em versões mais antigas ligadas a Weyer, a ênfase também recai sobre o aquecimento das águas e a perturbação ou ordenação de banhos em certos tempos.

Esse detalhe não é banal. O ruído de muitas águas, na tradição simbólica, sugere força invisível, presença sem forma visível, movimento subterrâneo. As termas, por sua vez, remetem a lugares de cura, purificação, calor vital e contato entre o que está sob a terra e o que emerge à superfície. Crocell, então, pode ser lido como uma inteligência do que está escondido sob a consciência, mas pode ser trazido à tona em forma útil.

Numa hermenêutica luciferiana, Crocell é a chama que passa pela água sem apagá-la. Ele é a inteligência que faz a água pensar. A água, nele, não é passividade: é memória profunda, linguagem arcaica, corrente psíquica, inconsciente aquecido pela centelha da Luz.

Crocell e a ordem das Potestades

Os textos afirmam que Crocell foi da ordem das Potestades ou Powers antes da queda. Essa referência faz sentido dentro da angelologia cristã herdada da tradição de Pseudo-Dionísio, cuja hierarquia celeste organiza nove ordens angélicas, incluindo as Powers entre os coros intermediários.

Isso é importante porque mostra que Crocell não é imaginado como uma criatura caótica desde a origem. Ele vem de uma ordem associada a autoridade, força e estrutura hierárquica. O que a demonologia faz é reinterpretar essa procedência sob a lógica da queda. Mas, sob uma ótica luciferiana, essa “queda” pode ser lida como reversão de perspectiva: não perda absoluta de luz, e sim deslocamento da luz para fora do monopólio ortodoxo.

Crocell, portanto, não aparece como espírito da ignorância; aparece como espírito de um saber que foi deslocado, interditado e recodificado como perigoso.

As correspondências astrológicas, planetárias e mágicas: antigas ou modernas?

Aqui vale separar tradição textual de tradição esotérica posterior. O seu material traz correspondências como 0–4 graus de Sagitário, 23–27 de novembro, 8 de Varas, Júpiter, estanho, fogo, vela rosa e madeira betônica. Essas atribuições circulam amplamente em tabelas contemporâneas de demonolatria e ocultismo popular.

Mas elas não pertencem ao núcleo do texto clássico de Weyer ou do Ars Goetia. Além disso, elas variam conforme a linhagem. Há tabelas modernas que ligam Crocell a Vênus, cobre, água, verde e Oeste, enquanto outras o colocam em Sagitário/8 de Paus/Júpiter. O próprio sistema de associar cartas menores do tarô aos decanatos do zodíaco deriva de correntes ocultistas posteriores, especialmente ligadas à tradição da Golden Dawn.

Ou seja: essas correspondências podem ser úteis em prática moderna, mas não devem ser apresentadas como se viessem diretamente do grimório renascentista. O que é clássico em Crocell é sua descrição funcional; o resto pertence, em grande medida, à camada interpretativa moderna.

A iconografia feminina de Crocell: tradição ou releitura?

No seu texto, Crocell aparece também como ela, com longa cabeleira loira, vestido azul e grandes asas azuis. Essa imagem é coerente com correntes contemporâneas que feminilizam ou suavizam certos espíritos goéticos, mas ela não está nas fontes clássicas principais, que se limitam a dizer que Crocell aparece “na forma de um anjo”.

Isso não torna a imagem inválida; apenas a situa corretamente. Trata-se de uma iconografia devocional moderna, uma forma de tornar visível a atmosfera do espírito. E, curiosamente, essa releitura dialoga bem com a própria natureza de Crocell: azul de profundidade, água, céu, mistério, voz distante, inteligência velada.

Leitura final: Crocell como inteligência da Luz profunda

Sob a ótica luciferiana, Crocell não é o “demônio do medo”, mas o duque da profundidade iluminada. Ele é o espírito que ensina a medir o invisível, a ouvir o que parece só ruído, a encontrar calor onde o mundo supõe frieza, e a transformar correnteza psíquica em conhecimento ordenado.

Se Lúcifer é a Luz que desperta, Crocell é uma de suas expressões mais refinadas:
a Luz que não grita, mas ressoa;
a Luz que não moraliza, mas revela;
a Luz que desce às águas ocultas para trazer de volta geometria, ciência, memória e poder interior.

Crocell é, em suma, uma figura perfeita para quem compreende o luciferianismo não como culto da treva bruta, mas como via de iluminação pelo conhecimento proibido, pela consciência ampliada e pela beleza do que foi escondido.

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