Murmur na Ars Goetia: origem, etimologia e o espírito da filosofia sob a luz de Lúcifer
Entre os nomes mais intrigantes da tradição goética, Murmur ocupa um lugar singular. Diferente de espíritos descritos apenas como agentes de poder, riqueza ou guerra, Murmur aparece ligado a um campo mais raro e mais profundo: a filosofia, a memória dos mortos e a linguagem do invisível. Na Ars Goetia, ele surge como o 54º espírito, chamado também de Murmus ou Murmux, descrito como um grande Conde-Duque que se manifesta como um guerreiro montado sobre um grifo, coroado, precedido por ministros ao som de trombetas. Seu ofício é ensinar filosofia perfeitamente e constranger almas falecidas a virem diante do magista para responder perguntas. A tradição o apresenta ainda como antigo membro da ordem dos Tronos e senhor de 30 legiões.
Sob uma ótica luciferiana, Murmur deixa de ser lido apenas como “demônio” no sentido vulgar e passa a ser compreendido como inteligência iniciática. Aqui, Lúcifer não é tratado como caricatura de mal absoluto, mas como a antiga imagem do portador da luz, ligada ao astro da manhã na tradição clássica latina. Essa chave simbólica permite ver Murmur não como um ser de trevas cegas, mas como uma potência de iluminação difícil: aquele que conduz o buscador a escutar o que o mundo profano ignora — a voz da morte, da memória e da filosofia.

Quem é Murmur na tradição dos grimórios?
Historicamente, Murmur não nasce em blogs modernos de ocultismo, mas no corpo textual dos grimórios salomônicos. A Ars Goetia é a primeira parte do Lemegeton ou Lesser Key of Solomon, compilado nos séculos XVI e XVII a partir de materiais mais antigos. O próprio texto preservado por Joseph Peterson indica que a Goetia depende de tradições anteriores e dialoga diretamente com a Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, publicada no século XVI, que por sua vez se baseava em um manuscrito ainda mais antigo, o Liber Officiorum Spirituum. Em outras palavras, Murmur pertence a uma corrente textual de longa duração, não a uma invenção recente.
Esse ponto é importante porque devolve Murmur ao seu contexto real: o da magia ritual erudita do fim da Idade Média e do início da modernidade, quando catálogos de espíritos, nomes selados e hierarquias infernais coexistiam com angelologia cristã, astrologia, necromancia e filosofia natural. Estudos sobre necromancia medieval mostram que esse universo não era um folclore simples, mas um sistema ritual e intelectual complexo. E há um detalhe decisivo: em muitos textos medievais, “necromancia” significava invocar espíritos, demônios ou entidades não físicas, e só raramente os mortos propriamente ditos; por isso, Murmur chama atenção justamente porque sua descrição fala de forma explícita em almas falecidas.
Murmur, Murmus, Murmux: o que significam esses nomes?
A variação de nomes — Murmur, Murmus, Murmux — é típica da transmissão manuscrita dos grimórios. O texto da Goetia preserva essas variantes, inclusive observando que diferentes cópias registram formas diferentes do nome. Isso sugere que não estamos diante de entidades distintas, mas de uma instabilidade gráfica e fonética própria de textos copiados, traduzidos e recopiados ao longo dos séculos.
Quanto à etimologia, a pista mais plausível é o latim murmur, murmuris, que remete a “murmúrio”, “som baixo”, “sussurro”, “rumor”, “roar/growl”, “ressonância” ou “zumbido”. Essa raiz sonora combina de maneira notável com a iconografia e as funções do espírito: ministros com trombetas, evocação de vozes do além, filosofia como escuta daquilo que fala por baixo da superfície. É uma inferência simbólica, mas uma inferência forte: Murmur seria, então, aquele cujo nome já carrega a ideia de voz subterrânea, de saber que não grita, mas reverbera.
A imagem de Murmur: guerreiro, grifo, coroa e trombetas
A iconografia goética de Murmur é uma das mais solenes. Ele não surge como fera caótica, mas como guerreiro entronizado em movimento, montado sobre um grifo e coroado como duque. O grifo, criatura híbrida com corpo de leão e cabeça ou asas de águia, era um motivo importante no imaginário antigo e medieval; sua associação frequente com majestade, vigilância e tesouros torna a montaria de Murmur especialmente eloquente. O leão sugere força terrestre; a águia, elevação e visão aérea. Em leitura simbólica, Murmur cavalga a união do instinto e da inteligência, da matéria e da altura.
As trombetas que o precedem também não são mero ornamento dramático. Elas fazem de sua aparição um evento de anúncio, quase litúrgico. Se o nome aponta para o murmúrio, a entrada ritual aponta para a proclamação. É como se Murmur ocupasse a zona liminar entre o sussurro e a revelação pública, entre o segredo e a doutrina. Para uma leitura luciferiana, isso é central: a luz não é apenas claridade doce; ela também é o som que rompe o silêncio da ignorância. O conhecimento, quando chega, nem sempre consola — muitas vezes convoca.
O espírito que ensina filosofia
Poucos atributos em toda a Goetia soam tão sofisticados quanto este: “ensinar filosofia perfeitamente”. Não se trata apenas de dar respostas práticas, mas de transmitir uma forma superior de compreensão. Na tradição dos grimórios, isso aproxima Murmur de uma figura iniciática, ligada ao intelecto disciplinado, à contemplação e ao acesso a estruturas ocultas do real. Seu papel não é só revelar fatos; é treinar o operador para pensar.
Essa característica muda tudo. Sob o prisma luciferiano, Murmur pode ser lido como um mediador da gnose, um espírito que não satisfaz curiosidade banal, mas empurra o adepto para uma sabedoria mais severa. Filosofia, aqui, não é aula acadêmica esterilizada: é confronto com os limites da vida, do tempo e da morte. É precisamente por isso que Murmur também aparece associado à evocação das almas falecidas. O filósofo verdadeiro, nessa chave, não estuda abstrações vazias; ele enfrenta o destino, o silêncio, o pós-vida, a memória e a finitude.
Murmur e as almas dos mortos
A descrição clássica diz que Murmur pode constranger almas falecidas a comparecerem e responder perguntas. Historicamente, esse ponto o aproxima do imaginário necromântico; simbolicamente, ele o aproxima daquilo que poderíamos chamar de arqueologia do espírito. Não é preciso ler isso apenas de forma literal. Em uma interpretação mais alta, “trazer os mortos” pode significar convocar vozes esquecidas, tradições soterradas, traumas ancestrais, memórias que a consciência comum enterrou.
É justamente aí que a ótica luciferiana revela sua potência. Lúcifer, como princípio de iluminação, não foge da sombra: ele ilumina a sombra. Murmur, nesse sentido, é um aliado da recordação perigosa. Ele obriga a falar aquilo que foi calado. Faz emergir o que a religião do medo tentou enterrar sob o rótulo fácil de “infernal”. Seu reino não é o da maldade automática, mas o da verdade difícil — aquela que vem dos túmulos do esquecimento.
Murmur foi um Trono? O peso da angelologia invertida
A Goetia afirma que Murmur foi da ordem dos Tronos e “em parte dos Anjos”. Na angelologia cristã tradicional, os Tronos pertencem à alta hierarquia celeste. Esse detalhe é crucial porque mostra como os grimórios não criam uma separação limpa entre anjo e demônio; ao contrário, operam numa lógica de hierarquia caída, invertida ou deslocada, em que antigos poderes celestes aparecem recatalogados no infernal.
Sob leitura luciferiana, isso é quase um manifesto teológico subterrâneo: o que caiu não perdeu necessariamente todo o esplendor; às vezes, perdeu apenas o lugar autorizado dentro da ortodoxia. Murmur seria, então, um exemplo de inteligência outrora entronizada que agora ensina fora do templo oficial. Não é a ausência de luz, mas uma luz exilada — e é precisamente esse exílio que torna seu saber mais perturbador.
As correspondências esotéricas modernas de Murmur
As atribuições que circulam hoje para Murmur — 25 a 29 graus de Sagitário, 17 a 21 de dezembro, 10 de Varas no Tarot, vela azul-escura, Sol, Fogo, salsa, ouro — não aparecem na descrição clássica da Ars Goetia. Elas pertencem a sistemas esotéricos posteriores, que cruzaram demonologia com astrologia, Tarot, planetas, metais e magia correspondencial. A ausência dessas chaves no texto goético mais antigo é verificável; portanto, o mais rigoroso é tratá-las como correspondências modernas ou tardias, não como dados originais do manuscrito.
Ainda assim, essas associações modernas são simbolicamente coerentes. O 10 de Varas, na tradição tarológica moderna, aponta para peso, carga, maturidade dura e responsabilidade extrema — temas que combinam com um espírito ligado à filosofia e ao contato com os mortos. O campo de Sagitário reforça a dimensão de busca, sentido e visão distante. O ouro e o Sol acrescentam uma camada de majestade e iluminação. Numa leitura luciferiana, tais correspondências não “provam” nada historicamente, mas ampliam o retrato de Murmur como uma inteligência de fogo mental, disciplina e revelação exigente.
Murmur além do medo: uma leitura luciferiana
A tradição religiosa dominante ensinou por séculos que entidades associadas ao infernal deveriam ser lidas apenas pela lente do pavor moral. Mas a própria história dos grimórios mostra uma realidade mais ambígua: muitos desses nomes preservam vestígios de angelologia, cosmologia, filosofia e magia ritual erudita. Murmur é um dos exemplos mais fortes disso. Ele não é apresentado como príncipe da devassidão ou da simples destruição, e sim como mestre da filosofia e interlocutor entre mundos.
Sob a luz de Lúcifer, Murmur se revela como um arquétipo da escuta profunda. Seu nome vibra como sussurro; sua chegada ressoa como trombeta; sua função atravessa a morte; seu ensino aponta para a filosofia. Ele é o espírito de quem sabe que a verdade não nasce apenas dos altares oficiais, mas também das ruínas, dos ecos, dos sepulcros e das perguntas que ninguém quer fazer. Nessa chave, Murmur não é só um “demônio da noite”: ele é uma forma de inteligência crepuscular que conduz o buscador da ignorância para a gnose.
Conclusão
Murmur, Murmus ou Murmux é uma das figuras mais densas da Ars Goetia porque reúne em si quatro eixos poderosos: som, filosofia, morte e hierarquia caída. Seu nome ecoa murmúrio e ressonância; sua imagem une coroa, guerra e grifo; sua função atravessa o campo da necromancia; sua origem textual o insere numa tradição grimorial séria, ligada ao Lemegeton e a Weyer. Quando lido a partir de uma ótica luciferiana, Murmur deixa de ser apenas um nome de catálogo demonológico e passa a ser entendido como força de iluminação difícil, aquela que obriga o espírito humano a ouvir o que foi reprimido, esquecido ou temido.