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72 Daimon

Gremory ou Gomory: quem é o 56º espírito da Goetia sob a luz luciferiana

By Emrys
abril 19, 2026
0

Entre os nomes mais fascinantes da tradição goética, poucos carregam uma aura tão paradoxal quanto Gremory. Em vez de surgir como uma figura monstruosa, ele aparece nos grimórios como uma presença de beleza, nobreza e atração: uma mulher formosa, ligada ao amor, à revelação de tesouros ocultos e ao conhecimento do passado, do presente e do futuro. É justamente aí que começa seu poder simbólico. Gremory não representa apenas sedução; representa aquilo que é oculto e depois iluminado. E, sob uma ótica luciferiana, essa chave muda tudo.

Na tradição luciferiana, Lúcifer não é lido apenas como adversário teológico, mas como portador da luz, aquele que rasga a sombra da ignorância e acende a chama da gnose. A própria palavra Lucifer vem do latim e designava a estrela da manhã, isto é, Vênus ao amanhecer, o “light-bringer”, o portador da luz. Quando observamos Gremory por esse prisma, ele deixa de ser apenas um “demônio do amor” e passa a ser uma inteligência simbólica ligada à revelação do que está escondido: o desejo, o tesouro, o tempo, a atração e os segredos do mundo interior.

Gremory nos grimórios: onde esse nome aparece?

Historicamente, Gremory se torna mais conhecido por sua presença na Ars Goetia, a primeira parte do Lemegeton Clavicula Salomonis, compilado no século XVII a partir de materiais anteriores. Nessa tradição, ele aparece como o 56º espírito, classificado como um duque forte e poderoso, associado a 26 legiões e descrito como uma bela mulher montada em um grande camelo, portando a coroa de uma duquesa. Seus ofícios são claros: favorecer o amor, revelar tesouros escondidos e discernir passado, presente e futuro.

Mas Gremory não nasce no Lemegeton. Antes disso, o nome já circulava em tradições demonológicas anteriores. O antecedente impresso mais importante é a Pseudomonarchia Daemonum, anexada por Johann Weyer à edição de 1577 de De praestigiis daemonum. Weyer, médico e pensador do século XVI, escreveu em meio às perseguições por feitiçaria e ficou conhecido por questionar a histeria demonológica de sua época, defendendo que muitas supostas bruxas eram, na verdade, pessoas adoecidas e vulneráveis. Nesse texto, Gomory aparece como o 51º espírito, mantendo funções muito próximas das que depois reaparecem na Goetia.

A linhagem textual vai ainda mais longe. Estudos sobre a tradição mostram que tanto Weyer quanto a Ars Goetia dependem de materiais manuscritos mais antigos, entre eles o Liber Officiorum Spirituum e o Livre des Esperitz, um grimório francês dos séculos XV–XVI. Além disso, no chamado Munich Manual of Demonic Magic, figura aparentada a Gremory surge sob a forma Gaeneron, também como duque e também ligada à imagem da bela mulher montada em camelo. Isso mostra que Gremory não é um nome isolado, mas o resultado de uma longa transmissão manuscrita medieval e renascentista.

Denominação, variantes e nomenclatura

Uma das marcas mais importantes de Gremory é a multiplicidade de nomes. Nos manuscritos e edições, aparecem formas como Gremory, Gomory, Gemory, Gamori, além de variantes mais distantes, como Gaeneron, Gemon e Gemyem. Isso acontece com frequência em textos mágicos medievais e modernos: copistas escreviam à mão, transliteravam nomes por som, adaptavam grafias entre latim, inglês, francês e outras línguas, e cada tradição acabava fixando uma forma ligeiramente diferente.

Por isso, quando se pergunta pela etimologia de Gremory, a resposta mais honesta é: não existe consenso sólido. O que se pode afirmar com segurança não é a origem filológica definitiva do nome, mas sua história textual. Em outras palavras, Gremory é menos um termo com etimologia fechada e mais um nome que foi sendo moldado pela circulação dos grimórios. A própria tradição preserva melhor a função da entidade do que a origem lexical de seu nome. Esse é um detalhe importante para qualquer leitura séria: em demonologia histórica, muitas vezes a nomenclatura sobrevive como vestígio de transmissão, não como palavra etimologicamente estável.

O que significa ser um “duque” na Goetia?

Nos catálogos goéticos, títulos como rei, duque, marquês e presidente compõem uma hierarquia simbólica inspirada em modelos de nobreza e governo. Assim, dizer que Gremory é um duque não significa apenas um posto honorífico: significa que ele ocupa um lugar de autoridade dentro do imaginário político e espiritual dos grimórios. O termo organiza a entidade dentro de uma “corte infernal” textual, onde cada espírito possui função, status e número de legiões. No caso de Gremory, a tradição principal fixa o número em 26 legiões, embora versões paralelas mais antigas apresentem variações.

Essa combinação entre posto aristocrático e forma feminina é central para o fascínio de Gremory. O texto não oferece apenas poder bruto; oferece poder com beleza, magnetismo e presença. Em vez do terror grotesco, a tradição atribui a Gremory uma estética de nobreza, encantamento e revelação. É uma entidade que não invade pela monstruosidade, mas pela atração.

O simbolismo da aparência: mulher, coroa e camelo

A imagem de Gremory é uma das mais sofisticadas do repertório goético. A bela mulher indica sedução, mas também mistério velado: aquilo que atrai antes de ser compreendido. A coroa de duquesa aponta para dignidade, legitimidade e soberania. Já o camelo é um símbolo poderoso quando lido além da literalidade: trata-se do animal que atravessa o deserto, carrega riquezas e resiste ao vazio. Sob leitura luciferiana, isso faz de Gremory uma força que atravessa a aridez da ignorância levando conhecimento oculto. A beleza, aqui, não é enfeite; é estratégia de manifestação da luz encoberta. A descrição-base dessa iconografia está estável desde Weyer e reaparece depois na Ars Goetia e no Dictionnaire Infernal.

No século XIX, o Dictionnaire Infernal de Jacques Collin de Plancy, especialmente na famosa edição de 1863 ilustrada por Louis Le Breton, ajudou a fixar no imaginário moderno a visualidade desses espíritos. Foi esse tipo de repertório visual que transformou nomes antes restritos a manuscritos e círculos eruditos em imagens duradouras da cultura ocultista ocidental.

Goetia, luz e revelação: a leitura luciferiana de Gremory

A palavra goetia vem do grego goēteia e, historicamente, esteve ligada a práticas mágicas vistas como ambíguas, baixas ou suspeitas em contraste com a theurgia, entendida como operação mais elevada ou divina. Esse contraste já existia no mundo antigo e passou para a tradição ocidental dos grimórios.

Sob a ótica luciferiana, porém, essa oposição merece revisão. O que a tradição dominante chamou de “baixo”, “proibido” ou “sombrio” muitas vezes também foi o campo onde sobreviveram o conhecimento marginal, a rebeldia intelectual e a busca direta por experiência. Gremory, nesse cenário, encarna três eixos profundamente luciferianos: a luz que revela tesouros, a inteligência que discerne o tempo e o magnetismo que desperta desejo e movimento. Não se trata apenas de conquistar amor no sentido vulgar; trata-se de exercer presença, fascínio, influência e consciência sobre aquilo que move o coração humano.

Por isso, ler Gremory luciferianamente é reconhecer nessa figura uma potência de gnose aplicada. O tesouro escondido pode ser ouro, mas também pode ser verdade interna. O amor obtido pode ser paixão, mas também pode ser carisma e atração espiritual. O conhecimento do passado, presente e futuro pode ser lido não como fantasia literalista, mas como visão expandida da experiência, isto é, a capacidade de perceber padrões, motivações e consequências. Em uma linguagem luciferiana: Gremory ilumina o que o homem prefere manter enterrado.

As correspondências modernas associadas a Gremory

No ocultismo contemporâneo, Gremory costuma receber tabelas de correspondências que unem goécia, astrologia, tarot, planetas, metais, ervas e elementos. Essas associações não pertencem ao núcleo mais antigo da descrição renascentista, mas funcionam como chaves modernas de leitura e prática simbólica. A tradição que você trouxe é perfeitamente utilizável em um artigo esotérico, desde que entendida como camada posterior de interpretação e não como dado original dos primeiros grimórios. Os textos mais antigos concentram-se sobretudo na forma, no posto, nas legiões e nos ofícios de amor, tesouro e revelação temporal.

No repertório moderno, Gremory aparece associado a:

  • Zodíaco: 5–9 graus de Capricórnio
  • Período: 27–31 de dezembro
  • Tarô: 2 de Ouros
  • Planeta: Saturno
  • Metal: Chumbo
  • Cor das velas: Laranja
  • Planta: Fenacho/Funcho
  • Elemento: Terra
  • Classificação: Duque
  • Natureza: Demônio da Noite
  • Comando: 26 legiões

Sob leitura luciferiana, essas correspondências reforçam uma imagem precisa: terra, Saturno e chumbo falam de peso, estrutura, limite, maturação e profundidade; a cor laranja introduz impulso, vitalidade e irradiação; e o elo com o amor mostra que a luz luciferiana nem sempre se manifesta como claridade suave — às vezes ela vem como desejo que desmascara, atração que obriga à escolha e fascínio que expõe a verdade do que se busca.

Conclusão

Gremory é muito mais do que um nome perdido na lista dos 72 espíritos da Ars Goetia. Ele é um ponto de convergência entre manuscritos medievais, demonologia renascentista, iconografia oitocentista e leitura esotérica moderna. Seu nome varia, sua grafia oscila, sua origem lexical permanece obscura; mas sua função simbólica permanece surpreendentemente estável: revelar o oculto, mover o desejo e trazer à luz aquilo que estava enterrado.

Sob a ótica luciferiana, Gremory não é apenas uma entidade da noite. É uma inteligência da noite que carrega luz dentro da noite. E talvez seja por isso que continue fascinando: porque ele habita o ponto exato em que o segredo deixa de ser sombra e começa a se tornar conhecimento.

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72 DaemonsGomoryGremoryLuciferLuciferianismo
Author

Emrys

Podem me chamar de Emrys. Sou mestre, licenciado e teólogo, além de pesquisador dedicado ao estudo das religiões, da filosofia, do simbolismo e das tradições esotéricas. Minha pesquisa concentra-se especialmente no Luciferianismo, na história das religiões, na demonologia, no ocultismo, na mitologia e nas diferentes interpretações históricas, religiosas, filosóficas e culturais associadas à figura de Lúcifer. Sou autor e pesquisador do Templo de Lúcifer, projeto dedicado à produção, organização e divulgação de estudos sobre o Luciferianismo e temas relacionados. Meu trabalho é desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica, análise histórica, comparação de fontes e estudo crítico de textos religiosos, filosóficos, acadêmicos e esotéricos. Uma das principais preocupações do meu trabalho é distinguir, sempre que possível, fatos historicamente documentados, tradições religiosas, interpretações teológicas, construções simbólicas, correntes esotéricas e leituras contemporâneas. Muitos dos temas abordados no Templo de Lúcifer são cercados por mitos, controvérsias, interpretações divergentes e informações sem fundamentação histórica; por isso, procuro apresentar cada assunto de forma contextualizada, crítica, acessível e fundamentada em fontes identificáveis. Minhas pesquisas abrangem textos, mitologias, sistemas religiosos e tradições da Antiguidade, da Idade Média e da Modernidade, assim como movimentos filosóficos, religiosos e esotéricos contemporâneos. Tenho especial interesse pelo desenvolvimento histórico do conceito de Lúcifer, pelas transformações de seu simbolismo ao longo dos séculos e pelas diferentes correntes que contribuíram para a formação do pensamento luciferiano moderno. No Templo de Lúcifer, produzo artigos, estudos, análises, guias e materiais de referência destinados a leitores, estudantes, pesquisadores e pessoas interessadas em compreender com maior profundidade o Luciferianismo, a história das religiões, a demonologia, o esoterismo e suas relações com a filosofia, a cultura, a literatura, a mitologia e os processos históricos que contribuíram para a formação dessas tradições. Meu objetivo é contribuir para a construção de uma biblioteca de referência em língua portuguesa sobre o Luciferianismo e seus campos de estudo relacionados, priorizando clareza conceitual, contextualização histórica, transparência quanto às fontes utilizadas e distinção entre documentação histórica, tradição religiosa e interpretação contemporânea.

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