Cimejes, Kimaris e Khepri: o espírito 66 da Goétia sob a ótica luciferiana
Entre os nomes mais intrigantes da tradição goética, poucos carregam uma aura tão ambígua e fascinante quanto Cimejes, também grafado como Cimeies, Cimeries ou Kimaris. No repertório clássico da Ars Goetia, ele aparece como o 66º espírito, um marquês poderoso, descrito como um guerreiro valente montado em um belo corcel negro, senhor dos espíritos “nas partes da África”, mestre da gramática, lógica e retórica, e descobridor de coisas perdidas, ocultas e tesouros. Essa descrição aparece na tradição goética impressa e ecoa materiais demonológicos anteriores ligados a Johann Weyer e à tradição grimorial renascentista.
O dado histórico central é este: Cimejes não nasce no Egito faraônico, mas no universo textual da demonologia e da magia cerimonial europeia tardomedieval e renascentista. A Pseudomonarchia Daemonum, anexada por Johann Weyer ao De praestigiis daemonum em 1577, é uma das matrizes mais importantes dessa linhagem; depois, no século XVII, o Lemegeton ou Lesser Key of Solomon consolidou a versão mais conhecida da lista dos 72 espíritos. O próprio arquivo de referência da Goétia observa que a Ars Goetia foi baseada, ao menos em parte, na Pseudomonarchia de Weyer, enquanto o Lemegeton é conhecido como um manual ritual popular do século XVII compilado a partir de materiais mais antigos.
Sob esse aspecto, o seu texto-base está correto no essencial: Cimejes é um marquês, aparece como guerreiro sobre cavalo negro, ensina o trivium e revela o que está escondido. Esse núcleo é sólido na tradição textual. O que muda, conforme manuscritos e transmissões, é o detalhamento simbólico, o número exato de legiões em versões paralelas e o desenvolvimento posterior do personagem em correntes ocultistas modernas.

O nome Cimejes: nomenclatura, variantes e o problema da origem
As variantes Cimejes, Cimeies, Cimeries e Kimaris mostram como a tradição grimorial foi transmitida por cópias, traduções, latinizações e adaptações fonéticas. Isso é comum em manuscritos mágicos: nomes espirituais atravessam séculos com deformações gráficas, às vezes mantendo a função ritual mesmo quando a etimologia se torna obscura. A própria tradição moderna costuma tratar essas grafias como equivalentes do mesmo espírito goético.
Quanto à etimologia, não existe consenso acadêmico robusto. Há hipóteses esotéricas e especulações posteriores, mas não uma derivação historicamente fechada. Em outras palavras: é legítimo falar em família nominal de Cimejes/Kimaris, mas não é metodologicamente seguro afirmar, como fato histórico estabelecido, uma origem única e definitiva para o nome.
Cimejes e Khepri: ponte simbólica ou identidade histórica?
Aqui entramos no ponto mais delicado e mais interessante do seu material-base: a associação entre Cimejes e Khepri. Historicamente, Khepri é uma divindade da religião egípcia antiga vinculada ao sol da manhã, à transformação, ao devir e ao renascimento. Ele era representado como escaravelho ou como homem com cabeça de escaravelho, e funcionava como aspecto de Rá/Re, especialmente na manifestação do sol nascente. O próprio nome e o hieróglifo do escaravelho estão ligados a ideias de existência, manifestação, desenvolvimento e crescimento.
Também é importante lembrar que a religião egípcia antiga não era fixa nem simples: o panteão variou ao longo de mais de três milênios, com deuses sobrepostos, fundidos e reinterpretados por diferentes centros cultuais. Nesse contexto, Khepri aparece como uma das grandes imagens do nascer da luz, da emergência do ser e da renovação da vida.
Mas daqui até afirmar que “Cimeries é o deus egípcio Khepri” há um salto que as fontes históricas clássicas não comprovam diretamente. Nos textos goéticos consultados, Cimejes é apresentado como marquês guerreiro, mestre das artes da linguagem e revelador de ocultos; já nas fontes egiptológicas, Khepri é uma potência solar de transformação e renascimento. O vínculo entre ambos funciona muito melhor como ponte simbólica moderna do que como equivalência documental antiga.
Em linguagem franca: a associação faz sentido no plano esotérico, mas não se sustenta como identidade histórica direta. Ela nasce da vontade de alguns ocultistas de ler o grimório ocidental à luz de matrizes mais antigas, especialmente egípcias, solares e iniciáticas.
A leitura luciferiana: luz, coragem e revelação
É precisamente aqui que a ótica luciferiana se torna fértil. Se entendemos Lúcifer como entidade de Luz, não no sentido simplista de oposição moral, mas como princípio de consciência, iluminação, coragem intelectual e ruptura com a ignorância, então Cimejes deixa de ser apenas um “demônio do catálogo” e passa a ser visto como uma inteligência da revelação disciplinada.
Na Goétia, ele ensina gramática, lógica e retórica. Isso não é detalhe menor. O trivium sempre foi, no mundo antigo e medieval, o alicerce da mente bem formada. Gramática ordena a linguagem; lógica afia o discernimento; retórica dá poder à palavra. Sob uma leitura luciferiana, Cimejes não é apenas um guerreiro externo, mas um forjador da espada mental. Ele não concede luz passiva; ele exige articulação, precisão e domínio de si.
O cavalo negro sobre o qual ele cavalga também pode ser lido simbolicamente. Não como simples ornamento sombrio, mas como a imagem do impulso bruto, da força instintiva e do movimento através das zonas obscuras do psiquismo. A luz luciferiana, nesse caso, não destrói a noite: ela aprende a cavalgar a noite. Cimejes seria, então, uma figura da lucidez que atravessa a sombra sem ser devorada por ela.
Essa leitura ganha ainda mais força quando aproximada, por analogia, de Khepri. O deus egípcio do amanhecer empurra o disco solar para o horizonte; Cimejes, na releitura luciferiana, empurra a consciência para fora da estagnação. Um está ligado ao nascimento da luz cósmica; o outro, ao desencobrimento do saber oculto. A equivalência histórica é fraca, mas a ressonância simbólica é poderosa.
Tesouros ocultos e coisas perdidas: a riqueza interior
O texto clássico diz que Cimejes encontra coisas perdidas e tesouros ocultos. Em leitura literal, trata-se de um atributo comum dos grimórios. Em leitura iniciática, porém, o tesouro escondido não é apenas ouro enterrado: é o poder que o indivíduo perde quando vive no automatismo, na linguagem pobre, na covardia mental e na obediência cega.
Sob o signo de Lúcifer-Luz, Cimejes se torna um arquétipo da recuperação da inteligência perdida. Ele seria a força que ajuda a reencontrar o que foi soterrado: vocação, coragem, eloquência, presença e direção. Não por acaso, o seu texto-base o chama de patrono dos soldados e militares e o associa à coragem heroica. Mesmo que essa formulação pertença mais claramente a correntes ocultistas modernas do que aos grimórios clássicos, ela combina com o perfil goético do espírito como guerreiro e instrutor da mente.
As correspondências modernas: Aquário, Vênus, cobre, ar e Khepu
O seu material também traz um conjunto de correspondências modernas: 25–29 graus de Aquário, 14–18 de fevereiro, 7 de Espadas, vela azul-escuro, pinho, elemento ar, planeta Vênus, metal cobre, além da forma devocional “Khepu” e da imagem de um ser belo, dourado e resplandecente. Essas associações não aparecem nas descrições clássicas da Ars Goetia nem nas referências egiptológicas consultadas sobre Khepri; por isso, o tratamento mais honesto é assumi-las como parte de uma camada contemporânea de demonolatria e esoterismo devocional, não como informação verificável da tradição antiga.
Isso não as torna inúteis. Apenas muda sua categoria. Historicamente, elas são tardias. Simbolicamente, podem servir como mapa ritual e imaginal para praticantes modernos. Em outras palavras: elas pertencem ao campo da prática contemporânea, não ao da reconstrução filológica.
Conclusão: Cimejes como inteligência de luz nas margens da noite
Cimejes, Kimaris ou Cimeries permanece uma figura extraordinária porque reúne três eixos que raramente aparecem juntos com tanta nitidez: guerra, linguagem e descoberta. Ele é o guerreiro do cavalo negro, mas também o mestre do trivium. Ele é o senhor do oculto, mas trabalha pelo desvelamento. Ele habita a noite, mas seu ofício é trazer à tona o que estava escondido.
Sob a ótica luciferiana, essa combinação é quase perfeita. Lúcifer, entendido como entidade de Luz, não representa conforto, e sim clareza conquistada. Não representa submissão, e sim consciência desperta. Não representa obediência cega, e sim gnose, coragem e autoiluminação. Nesse horizonte, Cimejes pode ser lido como uma potência de instrução e de bravura interior: aquele que ensina a nomear o mundo, raciocinar com precisão, falar com poder e recuperar os tesouros enterrados no próprio ser.
Se Khepri é a imagem egípcia do sol que renasce, Cimejes, em chave luciferiana, pode ser entendido como a inteligência que faz a mente amanhecer.