TAROT: Origem Histórica, Formação Simbólica
Uma análise histórica e crítica sobre a passagem do jogo de cartas renascentista ao sistema oracular e esotérico moderno
Resumo
O Tarot ocupa uma posição singular na história cultural do Ocidente. Atualmente associado à cartomancia, à espiritualidade, ao ocultismo, à meditação simbólica e ao autoconhecimento, ele não nasceu originalmente com essas funções. As evidências documentais e materiais disponíveis situam os primeiros Tarots conhecidos no norte da Itália do século XV, especialmente em ambientes aristocráticos relacionados a cidades como Milão, Ferrara, Veneza, Florença e Urbino. Os primeiros baralhos funcionavam fundamentalmente como jogos de cartas estruturados pela introdução de uma série adicional de triunfos ilustrados. Somente a partir do final do século XVIII, sobretudo na França, o Tarot passou por uma transformação decisiva ao ser reinterpretado como depositário de conhecimentos ocultos e posteriormente utilizado sistematicamente para fins divinatórios. Durante o século XIX, autores como Éliphas Lévi incorporaram às cartas correspondências cabalísticas, mágicas e numerológicas; posteriormente, a Hermetic Order of the Golden Dawn e autores ligados ao ocultismo britânico ampliaram ainda mais esse processo. No início do século XX, o Tarot Rider-Waite-Smith produziu uma profunda transformação visual que influenciaria grande parte dos baralhos contemporâneos. Este artigo examina essas mudanças com base em documentação histórica, acervos museológicos e estudos especializados, distinguindo a origem histórica do Tarot das interpretações esotéricas desenvolvidas posteriormente. Essa distinção não pretende negar o valor simbólico ou espiritual contemporâneo das cartas, mas compreender de maneira mais rigorosa o processo pelo qual um jogo renascentista se converteu em um dos sistemas simbólicos mais difundidos da modernidade.
Palavras-chave: Tarot; história do Tarot; cartomancia; esoterismo ocidental; ocultismo; Renascimento; Tarot de Marseille; Rider-Waite-Smith; simbolismo; história das religiões.
1. Introdução
Poucos objetos culturais possuem uma trajetória tão marcada por transformações de significado quanto o Tarot.
Para muitas pessoas no século XXI, a palavra imediatamente remete a cartas utilizadas para aconselhamento espiritual, interpretação de acontecimentos, autoconhecimento ou divinação. Em determinadas correntes esotéricas, o Tarot é compreendido como um mapa da consciência; em outras, como um sistema de correspondências entre forças espirituais, planetárias, elementais ou cabalísticas. Também existem abordagens psicológicas, artísticas, filosóficas e secularizadas.
Entretanto, nenhuma dessas utilizações contemporâneas pode ser simplesmente projetada sobre o passado.
O Tarot possui aproximadamente seis séculos de desenvolvimento documentável, e durante esse período sua função, iconografia e interpretação foram continuamente modificadas. Instituições como o Metropolitan Museum of Art e o Warburg Institute situam os primeiros registros conhecidos na Itália renascentista do século XV e ressaltam que a associação sistemática das cartas à adivinhação surgiu muito posteriormente.
Essa constatação exige uma distinção metodológica fundamental:
a história do Tarot não é idêntica à história das interpretações esotéricas do Tarot.
Existem pelo menos três níveis diferentes de análise:
- a origem histórica e material das cartas;
- a história das interpretações ocultistas e divinatórias desenvolvidas posteriormente;
- os significados espirituais, filosóficos ou psicológicos contemporâneos atribuídos ao sistema.
Misturar esses níveis produz uma narrativa aparentemente misteriosa, porém historicamente frágil. Separá-los, ao contrário, permite perceber algo muito mais interessante: como um objeto cultural pode adquirir novas funções ao atravessar diferentes sociedades.
A história do Tarot é, portanto, não apenas uma história das cartas, mas uma história da transformação dos símbolos.
2. Uma questão metodológica: história, tradição e crença
Pesquisar seriamente o Tarot exige cuidado porque grande parte da literatura produzida sobre o assunto pertence ao próprio universo esotérico.
Durante os séculos XVIII, XIX e XX, diferentes autores apresentaram hipóteses sobre origens egípcias, herméticas, cabalísticas, templárias, ciganas ou iniciáticas das cartas. Algumas dessas interpretações tiveram enorme importância para a formação do ocultismo moderno, mas importância religiosa ou esotérica não equivale automaticamente a comprovação histórica.
A historiografia moderna trabalha principalmente com evidências de outro tipo:
documentos;
baralhos preservados;
registros administrativos;
iconografia;
impressos;
manuscritos;
correspondências;
objetos conservados em museus;
e comparação entre fontes datáveis.
A obra de Michael Dummett tornou-se uma referência fundamental nessa abordagem. Em The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City, publicado em 1980, o pesquisador examinou extensivamente o Tarot como parte da história dos jogos de cartas. Posteriormente, Ronald Decker, Thierry Depaulis e Michael Dummett investigaram especificamente a formação do Tarot ocultista em A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot, publicado em 1996.
Essa literatura permitiu estabelecer uma distinção historiográfica bastante importante: os baralhos italianos do Renascimento antecedem em vários séculos as teorias ocultistas que posteriormente foram associadas a eles.
Consequentemente, quando determinada interpretação esotérica aparece apenas nos séculos XVIII ou XIX, o pesquisador deve apresentá-la como desenvolvimento posterior, e não automaticamente como significado secreto conservado desde o século XV.
Isso não constitui um julgamento sobre seu valor espiritual.
Constitui simplesmente uma classificação histórica.
3. Antes do Tarot: o contexto das cartas de jogar
O Tarot não surgiu isoladamente.
Quando seus primeiros exemplares aparecem na Europa do século XV, diferentes tipos de cartas de jogar já circulavam no continente.
A história mais ampla das cartas envolve intercâmbios culturais complexos entre diferentes regiões da Ásia, do mundo islâmico e da Europa. A genealogia exata de todas essas tradições permanece objeto de discussão, motivo pelo qual é prudente não transformar hipóteses de transmissão em certezas absolutas.
O que pode ser afirmado com segurança é que o Tarot surgiu dentro de um ambiente europeu no qual os jogos de cartas já eram conhecidos.
Sua inovação não consistiu na invenção das cartas em si, mas especialmente na incorporação de uma série adicional de figuras que funcionavam como triunfos ou trunfos.
É nesse contexto que encontramos o Tarot propriamente dito.
4. O nascimento documentado do Tarot na Itália renascentista
As referências mais antigas conhecidas concentram-se nas décadas de 1440 e 1450, especialmente no norte da Itália.
O Metropolitan Museum of Art relaciona os primeiros testemunhos a centros como Veneza, Milão, Florença e Urbino.
É importante compreender o contexto.
A Itália do século XV ainda não constituía um Estado nacional unificado. A península era dividida entre cidades, repúblicas, ducados, Estados pontifícios e diferentes centros de poder.
Milão, Veneza, Florença e Ferrara estavam entre os grandes centros políticos, comerciais e artísticos daquele mundo.
Era também o período que chamamos de Renascimento, marcado por intensa produção artística, recuperação de referências da Antiguidade clássica, cultura cortesã, competição entre famílias aristocráticas e desenvolvimento de novas linguagens visuais.
O Tarot aparece exatamente nesse ambiente.
E isso ajuda a explicar suas imagens.
5. Os baralhos Visconti e Visconti-Sforza
Entre os mais importantes testemunhos materiais dos primeiros Tarots encontram-se os conjuntos associados às famílias Visconti e Sforza, dinastias fundamentais da história de Milão.
O Metropolitan Museum registra baralhos luxuosos produzidos em meados do século XV e relaciona alguns deles à corte milanesa. Um dos exemplares conhecidos como Visconti-Sforza Tarot provavelmente foi produzido para Francesco Sforza, que assumiu o ducado de Milão depois de se casar com Bianca Maria Visconti.
Essas cartas são importantes porque revelam algo frequentemente esquecido pelo imaginário popular:
os primeiros Tarots não eram necessariamente objetos sombrios, secretos ou marginais.
Alguns eram artigos de luxo.
Podiam ser pintados manualmente, dourados e produzidos para membros da aristocracia.
As cartas conservadas apresentam características da cultura visual de seu tempo, incluindo símbolos políticos, alegorias, figuras religiosas e referências relacionadas ao ambiente cortesão.
O Victoria and Albert Museum, por exemplo, observa a presença de emblemas ligados à família Visconti em cartas sobreviventes do século XV.
Isso constitui evidência importante.
Se determinados símbolos identificavam famílias contemporâneas à produção das cartas, estamos diante de objetos profundamente inseridos no universo político e social renascentista — e não simplesmente de cópias de um hipotético livro secreto proveniente de uma civilização muito mais antiga.
6. Como era estruturado o Tarot antigo?
A estrutura que acabou se tornando predominante reúne 78 cartas.
Dessas, 56 pertencem aos quatro naipes tradicionalmente encontrados nos baralhos italianos:
Copas;
Espadas;
Bastões;
Moedas.
Cada naipe apresentava cartas numeradas e figuras da corte.
A essas 56 cartas eram adicionadas outras cartas especiais:
21 triunfos e o Louco.
O Metropolitan Museum documenta essa estrutura nos baralhos italianos do século XV.
Posteriormente, principalmente dentro da literatura esotérica, essas divisões passariam a ser apresentadas como:
22 Arcanos Maiores;
e
56 Arcanos Menores.
Essa terminologia tornou-se tão comum que frequentemente parece pertencer à própria origem do Tarot.
Historicamente, porém, não devemos pressupor isso.
Os primeiros jogadores não necessariamente olhavam para aquelas cartas utilizando o conceito moderno de “Arcanos Maiores”.
A terminologia esotérica pertence a uma fase posterior da história.
7. Trionfi, tarocchi e Tarot
Outro ponto importante está no próprio vocabulário.
Os conjuntos mais antigos foram relacionados ao conceito de trionfi, isto é, “triunfos”.
Tratava-se de cartas que possuíam uma posição especial dentro da dinâmica do jogo.
Posteriormente difundiu-se em italiano a palavra tarocchi, da qual derivariam formas linguísticas posteriores como o francês tarot.
A evolução precisa da palavra possui questões etimológicas ainda discutidas, razão pela qual teorias que tentam derivá-la diretamente de línguas egípcias ou expressões iniciáticas antigas devem ser encaradas com cautela.
Não possuímos documentação histórica que permita transformar essas etimologias esotéricas em fatos estabelecidos.
8. O Tarot era originalmente um jogo
Este talvez seja o ponto historicamente mais importante de todo o debate.
O Tarot documentado no século XV funcionava como jogo de cartas.
Era um jogo envolvendo captura de vazas e uma hierarquia de cartas especiais — os triunfos.
O Metropolitan Museum observa que o sistema funcionava como um jogo no qual determinadas cartas possuíam precedência sobre outras.
O fato é particularmente significativo porque contraria uma das concepções modernas mais difundidas:
a ideia de que o Tarot tenha sido criado originalmente para prever o futuro.
As evidências disponíveis não sustentam essa conclusão.
Decker, Depaulis e Dummett observam que o Tarot surgiu como baralho de jogo e que a interpretação sistematicamente ocultista apareceu apenas muito mais tarde, sobretudo na França do final do século XVIII.
O Warburg Institute chega a resumir essa transformação como uma trajetória que parte do jogo cortesão renascentista, passa pela divinação e chega posteriormente à arte e a outras formas de expressão cultural.
Isso não significa que nenhuma pessoa tenha tentado atribuir sentidos divinatórios às cartas antes do século XVIII.
Significa que não existe base documental suficiente para afirmar que essa era a função original do Tarot.
9. Então o que significavam as imagens?
Uma pergunta inevitável surge:
se não eram originalmente um código ocultista, por que as cartas apresentam imagens tão carregadas de simbolismo?
Porque o mundo renascentista era profundamente simbólico.
As sociedades europeias dos séculos XV e XVI viviam cercadas por alegorias religiosas, representações das virtudes, símbolos políticos, imagens astrológicas, personificações da Fortuna, representações da morte, cenas de triunfo, figuras de autoridade e diferentes formas de moralização visual.
A presença de simbolismo, portanto, não comprova automaticamente uma finalidade esotérica secreta.
Ela demonstra que as cartas pertenciam a uma cultura na qual as imagens eram veículos fundamentais de comunicação.
Entre as figuras posteriormente consagradas na tradição do Tarot aparecem personagens e conceitos como:
o Imperador;
a Justiça;
a Roda da Fortuna;
a Morte;
o Diabo;
a Estrela;
a Lua;
o Sol;
o Julgamento;
o Mundo.
Para um observador contemporâneo, essas imagens podem parecer uma sequência iniciática deliberadamente construída.
Para um indivíduo do Renascimento, porém, muitas delas fariam parte de um repertório cultural relativamente familiar.
O Victoria and Albert Museum considera possível que a organização de determinados triunfos tenha relação com a cultura das procissões alegóricas e dos triunfos renascentistas. Essa associação deve ser compreendida como hipótese iconográfica plausível e não como prova definitiva de uma única origem das imagens.
10. A Morte não significava simplesmente morte física
Um bom exemplo da complexidade iconográfica é a carta da Morte.
Na cultura medieval e renascentista, a morte possuía enorme presença visual.
Epidemias, guerras, mortalidade elevada, religiosidade cristã, representações do Juízo e tradições como a danse macabre contribuíam para uma cultura na qual a lembrança da mortalidade tinha forte dimensão moral.
Consequentemente, seria um erro interpretar automaticamente uma carta antiga utilizando apenas os manuais modernos de cartomancia.
Ao mesmo tempo, seria igualmente equivocado reduzir sua imagem a um significado único.
Símbolos sobrevivem justamente porque podem receber novas interpretações.
Séculos depois, a Morte passaria a ser frequentemente interpretada no Tarot esotérico como:
fim de ciclo;
transformação;
abandono;
passagem;
renascimento simbólico;
necessidade de ruptura.
Essa interpretação tornou-se legítima dentro das tradições modernas de leitura.
Ela apenas não deve ser confundida automaticamente com uma definição original e universal existente desde o século XV.
11. O desenvolvimento dos modelos franceses e o chamado Tarot de Marseille
À medida que as cartas se difundiram, diferentes tradições regionais apareceram.
Um dos padrões mais influentes tornou-se conhecido posteriormente como Tarot de Marseille.
É importante compreender que “Tarot de Marseille” não representa necessariamente um único baralho original criado em determinado momento por uma única pessoa.
Trata-se de uma família iconográfica.
Entre os exemplares históricos relevantes encontra-se o Tarot produzido pelo fabricante parisiense Jean Noblet, ativo entre 1659 e 1681 segundo a Bibliothèque nationale de France.
Outro modelo de grande influência foi produzido por Nicolas Conver, em Marselha, em 1760. O British Museum conserva documentação relacionada a reproduções desse conhecido padrão.
Esses modelos são importantes porque ajudaram a estabilizar uma iconografia que posteriormente seria observada pelos primeiros ocultistas franceses.
Portanto, quando autores do século XVIII começaram a procurar conhecimentos secretos no Tarot, eles não estavam necessariamente analisando diretamente os luxuosos baralhos Visconti do século XV.
Estavam interpretando formas do Tarot que já haviam passado por séculos de reprodução e transformação gráfica.
Esse detalhe é fundamental.
O Tarot ocultista não nasceu simplesmente da recuperação intacta de um significado antigo.
Nasceu também da interpretação de imagens que já possuíam sua própria história de transformação.
12. A grande ruptura do século XVIII
Durante aproximadamente três séculos, o Tarot existiu principalmente como jogo de cartas.
Então ocorreu uma transformação.
Na França do final do século XVIII, intelectuais e ocultistas passaram a interpretar aquelas figuras como vestígios de uma antiga tradição esotérica.
É nesse momento que começa efetivamente a história do Tarot ocultista moderno.
A passagem é tão importante que poderíamos dividir a história do Tarot em dois grandes períodos:
antes da interpretação esotérica sistemática;
e
depois da interpretação esotérica sistemática.
A mudança ocorreu no ambiente intelectual europeu do Iluminismo tardio, da maçonaria, do interesse pelo hermetismo, das especulações sobre religiões antigas e do fascínio europeu pelo Egito.
13. Antoine Court de Gébelin e a hipótese egípcia
Entre os personagens mais importantes dessa transformação encontra-se o erudito francês Antoine Court de Gébelin.
No final do século XVIII, Court de Gébelin propôs que as cartas representariam remanescentes de conhecimentos provenientes do antigo Egito.
A ideia teria consequências extraordinárias.
O Tarot deixava de ser interpretado apenas como um conjunto de cartas e passava a ser apresentado como fragmento de um conhecimento muito mais antigo.
Surgia progressivamente a ideia do Tarot como Livro de Thoth.
O problema é que não existia documentação histórica demonstrando uma transmissão direta do Tarot desde o Egito faraônico até a Europa renascentista.
A historiografia especializada posterior não confirmou essa hipótese.
O V&A classifica as alegações de origem egípcia como não demonstradas historicamente.
Decker, Depaulis e Dummett igualmente situam a teoria egípcia dentro do nascimento do ocultismo do Tarot na França, e não como descrição comprovada de sua origem histórica.
Essa distinção é essencial.
A afirmação:
“O Tarot foi criado no Egito.”
não é sustentada pelas evidências conhecidas.
Já a afirmação:
“A interpretação egípcia do Tarot tornou-se extremamente importante para a formação do ocultismo europeu.”
é historicamente defensável.
E essa segunda história é fascinante por si mesma.
14. Etteilla: quando o Tarot se torna deliberadamente divinatório
Se Court de Gébelin foi fundamental para a construção da interpretação egípcia, Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, foi decisivo para transformar essas ideias em prática sistemática.
O pseudônimo “Etteilla” corresponde essencialmente ao sobrenome Alliette escrito de forma invertida.
Etteilla já trabalhava com cartomancia e posteriormente incorporou o Tarot ao seu sistema.
O Warburg Institute destaca um conjunto de Etteilla datado da década de 1780 como peça crucial da história do Tarot, tratando-o como o primeiro baralho conhecido explicitamente relacionado à divinação e à suposta tradição sapiencial do Egito.
A Wellcome Collection conserva um extraordinário conjunto atribuído a Etteilla, datado aproximadamente de 1780–1789, apresentado como folhas do suposto “Livro de Thoth” localizado simbolicamente no templo do fogo em Mênfis.
A importância histórica é enorme.
Com Etteilla, o Tarot começa a ser reorganizado deliberadamente em torno de uma finalidade oracular.
Não era mais apenas um jogo que alguém poderia ocasionalmente interpretar.
Passava a existir um projeto consciente de Tarot divinatório.
15. Nasce uma nova concepção de Tarot
A partir desse momento, a natureza cultural do objeto começa a mudar.
O Tarot passa gradualmente de:
objeto de jogo
para:
objeto interpretativo.
As cartas agora podiam representar acontecimentos;
condições humanas;
tendências;
relações;
virtudes;
perigos;
influências;
situações espirituais.
Mais importante ainda: as cartas começaram a ser interpretadas em relação umas às outras.
Uma carta deixava de possuir somente uma identidade isolada.
Sua posição dentro de uma disposição — a chamada tiragem — podia modificar sua leitura.
Assim começava a se formar aquilo que hoje reconhecemos como linguagem oracular do Tarot.
16. O século XIX e a transformação ocultista
O século XIX ampliou profundamente esse processo.
O Tarot passou a ser incorporado a um ambiente intelectual e espiritual no qual circulavam:
hermetismo;
magia cerimonial;
Cabala cristã e ocultista;
numerologia;
astrologia;
maçonaria esotérica;
rosacrucianismo;
magnetismo;
espiritualismo;
e diferentes movimentos de reconstrução das chamadas “ciências ocultas”.
Um dos nomes fundamentais dessa etapa foi Alphonse Louis Constant, conhecido como Éliphas Lévi.
O V&A destaca a importância de Lévi para a transformação do Tarot em objeto central do ocultismo do século XIX e registra a progressiva incorporação de correspondências cabalísticas e numerológicas ao sistema.
A partir desse período, olhar uma carta de Tarot já não significava apenas perguntar:
“Que figura está representada aqui?”
Passava também a significar:
qual número corresponde a ela?
qual planeta?
qual signo?
qual elemento?
qual letra hebraica?
qual posição na Árvore da Vida?
qual princípio metafísico?
Essa transformação é absolutamente central para compreender o Tarot contemporâneo.
17. Os Arcanos Maiores e Menores
É nesse universo ocultista que a divisão atualmente conhecida como Arcanos Maiores e Arcanos Menores se consolida.
A palavra arcanum deriva do latim e remete àquilo que é secreto ou oculto.
Aplicada às cartas, a terminologia modifica profundamente sua percepção.
Os antigos triunfos deixam de ser apenas cartas hierarquicamente superiores dentro de um jogo.
Tornam-se Arcanos.
Ou seja: passam a ser interpretados como portadores de conhecimentos ocultos.
Essa mudança linguística também é uma mudança filosófica.
Dar um novo nome ao objeto muda a forma de enxergá-lo.
18. Os 22 Arcanos Maiores como jornada simbólica
No Tarot esotérico contemporâneo, os 22 Arcanos Maiores são frequentemente compreendidos como representação de grandes experiências humanas ou etapas da consciência.
Nesse contexto, aparecem interpretações como:
O Louco — começo, abertura, potencial, liberdade;
O Mago — vontade, ação, capacidade de manifestação;
A Sacerdotisa — interioridade, conhecimento oculto, contemplação;
A Imperatriz — criação, fertilidade, abundância;
O Imperador — estrutura, autoridade, ordem;
O Hierofante — tradição, transmissão, instituição espiritual;
Os Enamorados — relação, escolha, integração;
O Carro — direção, avanço, domínio;
A Justiça — equilíbrio, consequência, responsabilidade;
O Eremita — introspecção, busca, sabedoria;
A Roda da Fortuna — mudança, ciclos, instabilidade;
A Força — domínio interior, coragem;
O Enforcado — suspensão, inversão de perspectiva, sacrifício;
A Morte — término e transformação;
A Temperança — equilíbrio, combinação, integração;
O Diabo — desejo, vínculo, materialidade, sombra ou limitação, dependendo da tradição;
A Torre — ruptura, crise, destruição de estruturas;
A Estrela — esperança, orientação, renovação;
A Lua — ambiguidade, imaginação, inconsciente;
O Sol — clareza, vitalidade, revelação;
O Julgamento — chamado, despertar, avaliação;
O Mundo — conclusão, integração, totalidade.
É importante destacar que essa lista constitui uma síntese interpretativa moderna.
Não deve ser apresentada como um dicionário invariável conhecido pelos criadores italianos do século XV.
Diferentes escolas de Tarot atribuem nuances diferentes às cartas.
19. Os Arcanos Menores e a ampliação do sistema
Os 56 Arcanos Menores também receberam interpretações progressivamente sofisticadas.
Na maior parte dos sistemas ocultistas modernos, os quatro naipes foram associados a elementos.
Uma correspondência bastante difundida é:
Paus ou Bastões — Fogo;
Copas — Água;
Espadas — Ar;
Moedas ou Pentáculos — Terra.
Essas correspondências permitem construir uma cosmologia.
Paus podem representar ação, energia ou iniciativa.
Copas podem representar sentimentos, relações e experiência emocional.
Espadas podem ser interpretadas em relação ao pensamento, conflito, decisão e linguagem.
Pentáculos podem relacionar-se ao mundo material, trabalho, recursos e estabilidade.
Entretanto, novamente deve-se distinguir a estrutura histórica dos naipes italianos das correspondências esotéricas posteriormente desenvolvidas.
Os naipes são antigos.
A totalidade do sistema moderno de correspondências é posterior.
20. A Hermetic Order of the Golden Dawn
No final do século XIX, o desenvolvimento do ocultismo britânico marcou outra transformação decisiva.
Em 1888 foi fundada a Hermetic Order of the Golden Dawn, organização dedicada a práticas e estudos relacionados à magia cerimonial e diferentes tradições esotéricas.
O Tarot passou a ocupar posição particularmente importante nesse ambiente.
A Golden Dawn trabalhou com sistemas altamente estruturados de correspondências entre Tarot, astrologia, Cabala, letras hebraicas, elementos e caminhos da Árvore da Vida.
O Victoria and Albert Museum registra a influência desse ambiente sobre Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith, posteriormente responsáveis por um dos baralhos mais influentes da história moderna.
A partir dessa tradição, o Tarot torna-se quase um diagrama portátil do universo ocultista.
Cada carta podia ocupar simultaneamente diferentes níveis de interpretação.
Era imagem.
Número.
Símbolo.
Elemento.
Correspondência astrológica.
Conceito cabalístico.
Instrumento meditativo.
E objeto divinatório.
21. Pamela Colman Smith e Arthur Edward Waite
Em 1909, ocorreu uma das maiores revoluções da história visual do Tarot.
Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith produziram o baralho atualmente conhecido como Rider-Waite-Smith Tarot.
O nome merece atenção.
Durante muito tempo, o baralho foi chamado simplesmente de Rider-Waite.
“Rider” correspondia à editora.
“Waite”, ao ocultista Arthur Edward Waite.
Entretanto, a parte visual foi realizada por Pamela Colman Smith.
Por essa razão, pesquisadores e praticantes contemporâneos frequentemente adotam a denominação Rider-Waite-Smith, reconhecendo a contribuição fundamental da artista.
O V&A registra que o baralho foi publicado inicialmente em 1909 e destaca uma inovação decisiva: as cartas numeradas dos Arcanos Menores receberam cenas ilustradas completas.
22. Por que Pamela Colman Smith mudou o Tarot?
Nos baralhos tradicionais, muitas cartas numeradas apresentavam principalmente a quantidade correspondente de símbolos.
O Cinco de Copas, por exemplo, poderia mostrar essencialmente cinco copas.
Pamela Colman Smith transformou essa lógica.
Passou a representar personagens dentro de situações.
Gestos.
Paisagens.
Conflitos.
Movimentos.
Expressões.
Narrativas.
Isso mudou profundamente a experiência da leitura.
Agora, mesmo uma pessoa sem profundo conhecimento de numerologia ou Cabala poderia olhar para uma carta e construir uma interpretação a partir da cena.
A carta tornou-se uma espécie de micro narrativa visual.
Essa inovação teve enorme influência sobre o Tarot moderno.
É por isso que muitas imagens que atualmente parecem “antiquíssimas” ao público possuem, na realidade, forte influência de um projeto artístico criado no início do século XX.
23. O Tarot de Crowley e Frieda Harris
Outra transformação importante ocorreu na colaboração entre Aleister Crowley e Lady Frieda Harris.
Entre aproximadamente 1937 e 1943, Harris desenvolveu as pinturas associadas ao sistema que se tornaria conhecido como Thoth Tarot.
O Warburg Institute conserva documentação relacionada a esse trabalho e possui materiais associados ao desenvolvimento do projeto.
O Tarot de Thoth representa outro estágio de transformação.
Sua linguagem visual combina elementos do ocultismo cerimonial, astrologia, Cabala, geometria, simbolismo e concepções próprias do sistema religioso-filosófico de Crowley.
Comparar um Visconti-Sforza do século XV, um Tarot francês do século XVIII, o Rider-Waite-Smith e o Thoth deixa evidente um princípio fundamental:
não existe uma única expressão visual imutável do Tarot.
Existe uma tradição que continuamente reconstrói suas próprias imagens.
24. Afinal, o Tarot possui um significado verdadeiro?
A pergunta parece simples, mas historicamente é complexa.
“Qual é o verdadeiro significado do Tarot?”
A resposta depende do que chamamos de significado.
Existe um significado histórico.
Existe um significado iconográfico.
Existe um significado lúdico.
Existe um significado ocultista.
Existe um significado divinatório.
Existe um significado psicológico.
Existe um significado espiritual.
E essas dimensões não precisam necessariamente ser idênticas.
O significado histórico da carta do Imperador em um baralho cortesão do século XV não precisa coincidir completamente com sua interpretação em uma consulta espiritual realizada no século XXI.
Isso não significa necessariamente que uma das duas leituras seja inútil.
Significa que pertencem a contextos diferentes.
25. O símbolo não é estático
Aqui encontramos uma das características mais fascinantes do Tarot.
Símbolos podem sobreviver às culturas que originalmente os produziram.
Entretanto, raramente atravessam séculos sem modificações.
Cada geração interpreta as imagens de acordo com suas próprias perguntas.
A Justiça pode representar uma virtude moral dentro de uma cultura cristã renascentista.
Pode representar uma correspondência esotérica dentro de um sistema ocultista.
Pode representar consequências e decisões em uma leitura contemporânea.
Pode ainda ser utilizada por um artista como crítica política.
A imagem continua reconhecível.
O contexto muda.
É precisamente esse mecanismo que ajuda a explicar a extraordinária longevidade do Tarot.
O Warburg Institute utiliza a ideia de imagens como veículos culturais — elementos capazes de circular através do tempo e receber novos contextos — para compreender a permanência de sistemas simbólicos como o Tarot.
26. O Tarot não permaneceu parado no tempo
Podemos resumir sua transformação histórica da seguinte maneira.
Século XV
O Tarot aparece documentadamente nas cortes italianas.
Predominam:
jogo;
entretenimento;
arte;
representação alegórica;
prestígio social.
Séculos XVI e XVII
O jogo se difunde e desenvolve diferentes tradições regionais.
Os métodos de impressão ajudam a multiplicar os baralhos.
Diferentes padrões iconográficos se consolidam.
Século XVIII
O Tarot começa a ser reinterpretado como sistema relacionado a conhecimentos ocultos.
Surge a teoria de sua origem egípcia.
Etteilla desenvolve sistematicamente sua utilização divinatória.
Século XIX
O Tarot entra profundamente no ocultismo europeu.
São desenvolvidas correspondências com:
Cabala;
astrologia;
numerologia;
magia;
hermetismo.
Éliphas Lévi ocupa posição central nessa transformação.
Final do século XIX
A Golden Dawn produz sistemas altamente elaborados de correspondência ocultista.
Início do século XX
Pamela Colman Smith e Arthur Edward Waite desenvolvem o Rider-Waite-Smith.
A linguagem narrativa das cartas numeradas transforma a prática da leitura.
Século XX
O Tarot expande-se por movimentos ocultistas, artísticos, psicológicos e contraculturais.
Novos baralhos reinterpretam a estrutura tradicional.
Século XXI
O Tarot torna-se global e digital.
Convive simultaneamente como:
objeto espiritual;
instrumento oracular;
sistema simbólico;
produto cultural;
forma artística;
ferramenta de reflexão;
objeto de pesquisa histórica.
O V&A registra inclusive o crescimento recente de comunidades digitais e a contínua reconstrução artística de sua linguagem visual.
27. O que realmente mudou entre o Tarot antigo e o contemporâneo?
Não foi apenas o desenho.
Mudou a função.
Mudou o vocabulário.
Mudou o sistema de interpretação.
Mudaram as correspondências.
Mudou a relação do usuário com as cartas.
No século XV, o participante fundamental era o jogador.
No final do século XVIII aparece de forma mais definida o cartomante.
No século XIX encontramos o ocultista.
No século XX cresce a figura do tarólogo ou leitor de Tarot.
Na contemporaneidade existe ainda o usuário que utiliza as cartas exclusivamente para:
meditação;
produção artística;
autoconhecimento;
reflexão;
narrativa;
estudo simbólico.
O objeto permaneceu reconhecível.
A relação humana com ele mudou profundamente.
28. Tarot, previsão do futuro e interpretação
Uma abordagem intelectualmente responsável também precisa distinguir diferentes maneiras de compreender uma consulta.
Algumas tradições entendem o Tarot como instrumento capaz de revelar acontecimentos futuros.
Outras apresentam a leitura como identificação de tendências.
Outras como orientação espiritual.
Existem ainda abordagens contemporâneas que o utilizam como instrumento de reflexão simbólica sem reivindicar previsão sobrenatural objetiva.
Historicamente, essas formas de compreensão não surgiram simultaneamente.
A função oracular do Tarot foi sendo construída ao longo do tempo.
Por essa razão, apresentar todas as formas contemporâneas de leitura como se fossem uma única tradição invariável desde o século XV constitui simplificação histórica.
29. O mito da origem cigana
Outra teoria bastante popular associa a origem do Tarot ao povo Romani, historicamente chamado de “cigano”.
Essa ideia também não encontra sustentação documental para explicar a criação do Tarot.
Ela pertence a uma série de narrativas modernas que tentavam atribuir às cartas uma origem extremamente antiga e misteriosa.
Isso não significa que comunidades Romani jamais tenham utilizado cartas ou participado historicamente de práticas de cartomancia.
Significa apenas que uma coisa não prova a outra.
Utilizar o Tarot não equivale a ter criado o Tarot.
A distinção é metodologicamente indispensável.
30. O mito de uma origem templária ou cabalística antiga
O mesmo princípio deve ser aplicado às alegações de que o Tarot tenha sido criado secretamente:
pelos templários;
por cabalistas medievais;
por iniciados egípcios;
por escolas herméticas da Antiguidade;
ou como sistema codificado destinado a escapar de perseguições religiosas.
Essas hipóteses fazem parte da literatura esotérica e podem ser estudadas como fenômenos culturais.
Entretanto, até o momento, não possuem documentação suficiente para substituir a origem italiana renascentista indicada pelas evidências materiais.
Quando a Cabala se torna claramente integrada a sistemas de interpretação do Tarot, estamos principalmente diante de desenvolvimentos do ocultismo europeu moderno.
31. Corrigir os mitos enfraquece o Tarot?
Não.
Talvez produza o efeito contrário.
Durante muito tempo, parte da literatura ocultista parecia acreditar que a importância de um sistema dependia obrigatoriamente de uma origem remotíssima.
Quanto mais antigo, mais legítimo.
Quanto mais secreto, mais poderoso.
Esse raciocínio não é historicamente necessário.
O fato de uma determinada interpretação ter sido criada no século XVIII ou XIX não a torna automaticamente irrelevante.
Filosofias, religiões, movimentos espirituais e sistemas simbólicos continuamente surgem e se transformam.
Uma tradição não precisa ter cinco mil anos para possuir significado.
Portanto, abandonar uma origem egípcia sem evidências não destrói a história do Tarot.
Revela uma história talvez ainda mais interessante:
seres humanos transformaram um jogo de cartas em uma complexa linguagem espiritual e simbólica ao longo de vários séculos.
32. O Tarot como tecnologia simbólica
Observado de uma perspectiva antropológica e cultural, o Tarot pode ser descrito como uma espécie de tecnologia simbólica.
Ele organiza imagens dentro de uma estrutura.
Essas imagens permitem construir relações.
As relações permitem construir narrativas.
As narrativas permitem interpretar experiências.
Independentemente da posição metafísica adotada pelo observador, existe um fato cultural importante:
as cartas produzem um espaço interpretativo.
Ao observar determinadas combinações, o leitor procura relações entre:
imagem;
pergunta;
posição;
sequência;
experiência;
memória;
expectativa.
É precisamente essa abertura interpretativa que possibilitou ao Tarot atravessar ambientes culturais completamente diferentes.
33. Do determinismo ao aconselhamento
Outro desenvolvimento contemporâneo relevante é a mudança de uma concepção estritamente fatalista para modelos de aconselhamento.
Em certas tradições antigas de cartomancia moderna, uma leitura podia ser apresentada como descrição praticamente inevitável do futuro.
Na contemporaneidade, muitos leitores preferem trabalhar com conceitos como:
tendências;
possibilidades;
escolhas;
consequências;
autoconhecimento;
responsabilidade pessoal.
Essa transformação corresponde também a mudanças culturais mais amplas sobre autonomia individual.
Nesse modelo, uma carta não necessariamente ordena:
“isto acontecerá.”
Ela pode sugerir:
“esta configuração merece atenção.”
A diferença é filosoficamente significativa.
34. O Tarot e o autoconhecimento contemporâneo
Durante os séculos XX e XXI, o Tarot passou a ocupar também espaços que não são exatamente equivalentes à cartomancia tradicional.
Algumas pessoas utilizam cartas como recurso de:
escrita;
meditação;
contemplação;
criatividade;
reflexão sobre conflitos;
análise de decisões;
construção narrativa.
Do ponto de vista histórico, essa utilização representa mais uma etapa da constante transformação funcional do Tarot.
O Warburg Institute, ao apresentar seis séculos da história das cartas, enfatizou justamente sua transformação de jogo cortesão em instrumento de divinação e posteriormente em veículo de expressão artística e cultural.
35. Tarot e psicologia: uma distinção necessária
É comum encontrar afirmações segundo as quais Carl Gustav Jung teria criado uma teoria específica do Tarot ou declarado formalmente que os 22 Arcanos constituiriam determinado sistema psicológico.
É necessário cuidado.
Jung estudou extensivamente símbolos, mitologia, alquimia, religião e aquilo que chamou de arquétipos e inconsciente coletivo.
Essas ideias posteriormente exerceram enorme influência sobre interpretações psicológicas do Tarot.
Isso, porém, não significa que todas as doutrinas contemporâneas chamadas de “Tarot junguiano” tenham sido formuladas pelo próprio Jung.
Uma abordagem academicamente responsável deve distinguir:
a obra documentada de Jung
das
aplicações posteriores de conceitos junguianos ao Tarot.
É exatamente o mesmo princípio empregado ao estudar as relações entre Tarot, Egito e Cabala.
Influência posterior não é sinônimo de origem.
36. O Tarot na era digital
No século XXI ocorreu outra transformação que provavelmente seria inimaginável para seus primeiros usuários.
O Tarot tornou-se digital.
Existem:
consultas por videoconferência;
comunidades online;
aplicativos;
baralhos virtuais;
bancos de dados;
cursos;
arquivos digitalizados;
redes sociais dedicadas ao tema.
Museus também digitalizaram coleções históricas, permitindo que pesquisadores comparem cartas preservadas em diferentes instituições.
O Tarot, portanto, deixou de depender exclusivamente do objeto físico.
Sua iconografia agora circula em escala global quase instantaneamente.
O V&A identifica precisamente essa expansão das comunidades digitais e a contínua criação de novos sistemas visuais baseados na estrutura tradicional.
37. Paradoxalmente, o Tarot moderno é antigo e novo ao mesmo tempo
Essa talvez seja a melhor forma de compreender o fenômeno.
O Tarot contemporâneo é antigo porque preserva uma estrutura desenvolvida aproximadamente seis séculos atrás.
Mas também é moderno porque grande parte das interpretações utilizadas atualmente foi desenvolvida muito depois.
Podemos imaginar o Tarot como uma construção histórica formada por camadas.
A primeira camada é renascentista.
Outra pertence à tradição gráfica europeia dos séculos XVI e XVII.
Outra ao ocultismo francês do século XVIII.
Outra ao esoterismo do século XIX.
Outra à Golden Dawn.
Outra ao Rider-Waite-Smith.
Outra ao Tarot de Thoth.
E inúmeras outras foram adicionadas por movimentos contemporâneos.
Nenhuma camada precisa necessariamente apagar as anteriores.
Elas coexistem.
38. O Tarot dentro de uma perspectiva luciferiana contemporânea
Dentro de uma abordagem luciferiana contemporânea, é possível interpretar o Tarot como instrumento de investigação simbólica, reflexão e busca por conhecimento.
Entretanto, para manter rigor intelectual, essa interpretação deve ser apresentada exatamente como aquilo que é:
uma interpretação espiritual contemporânea.
Ela não precisa ser artificialmente atribuída aos fabricantes italianos do século XV.
O próprio Templo de Lúcifer declara como propósito institucional separar fantasia de história, estimular pesquisa comparativa e evitar sensacionalismo.
Nesse sentido, uma abordagem luciferiana coerente com a busca pelo conhecimento pode assumir posição particularmente crítica:
não aceitar determinada alegação simplesmente porque ela parece misteriosa;
investigar sua origem;
comparar fontes;
identificar quando determinada tradição surgiu;
e depois decidir conscientemente qual significado filosófico atribuir a ela.
Essa posição permite conciliar estudo histórico e experiência espiritual sem transformar uma em falsificação da outra.
O próprio serviço de Tarot atualmente apresentado pelo Templo descreve a prática como leitura humana baseada em interpretação simbólica e orientação espiritual.
Historicamente, portanto, é possível dizer:
o Tarot nasceu como parte da cultura das cartas de jogar renascentistas.
Esotericamente, ele foi transformado durante os séculos XVIII, XIX e XX.
Espiritualmente, diferentes tradições contemporâneas continuam atribuindo novos significados ao sistema.
Essas três afirmações podem coexistir sem contradição.
39. O verdadeiro mistério talvez esteja na transformação
Durante séculos procurou-se aumentar o mistério do Tarot tornando sua origem cada vez mais distante.
Egito.
Atlântida.
Templários.
Cabala primordial.
Escolas secretas.
Entretanto, a investigação histórica revela outro tipo de mistério intelectual:
como um conjunto de cartas criado para uma sociedade aristocrática do século XV conseguiu sobreviver ao desaparecimento daquela própria sociedade?
Como imagens produzidas antes da imprensa industrial continuam reconhecíveis em telas digitais?
Como um jogo se tornou oráculo?
Como um oráculo se tornou sistema ocultista?
Como esse sistema posteriormente se transformou em instrumento artístico, psicológico e espiritual?
Talvez essa capacidade de adaptação seja uma das características mais extraordinárias do Tarot.
40. Conclusão
A história documentada do Tarot é mais complexa do que a versão segundo a qual ele teria surgido pronto, em uma civilização antiquíssima, contendo secretamente toda a sabedoria esotérica posteriormente atribuída às suas cartas.
As evidências atualmente disponíveis apontam para uma origem muito mais concreta.
O Tarot emerge no contexto cultural da Itália renascentista do século XV.
Seus primeiros exemplares conhecidos estavam relacionados à cultura das cortes e aos jogos de cartas.
Os baralhos Visconti e Visconti-Sforza demonstram materialmente essa primeira etapa.
Durante os séculos seguintes, as cartas espalharam-se e assumiram diferentes formas regionais.
No final do século XVIII ocorreu uma transformação decisiva.
Autores franceses começaram a atribuir ao Tarot uma origem egípcia e um conteúdo oculto.
Etteilla sistematizou sua utilização divinatória.
Durante o século XIX, Éliphas Lévi e outros ocultistas introduziram novas estruturas interpretativas.
O Tarot passou a dialogar com Cabala, astrologia, numerologia e magia cerimonial.
No final do século XIX, a Golden Dawn aprofundou essas correspondências.
No início do século XX, Pamela Colman Smith e Arthur Edward Waite transformaram sua linguagem visual.
Aleister Crowley e Frieda Harris posteriormente desenvolveram outra das grandes reformulações modernas.
E o processo jamais terminou.
Hoje existem milhares de interpretações e reconstruções do Tarot.
Portanto, aquilo que atualmente chamamos simplesmente de “Tarot” não representa um objeto cultural congelado no tempo.
Representa uma tradição histórica em permanente reconstrução.
Compreender isso exige abandonar duas simplificações opostas.
A primeira seria acreditar que toda narrativa esotérica sobre a antiguidade do Tarot constitui automaticamente um fato histórico.
A segunda seria imaginar que demonstrar a origem renascentista do baralho elimina todo o seu valor simbólico.
Nenhuma das posições é necessária.
A história pode explicar quando e como diferentes interpretações surgiram.
A filosofia pode perguntar o que essas imagens representam para nós.
A espiritualidade pode atribuir-lhes significados dentro de determinadas tradições.
E a investigação crítica pode determinar onde termina a evidência documental e onde começa a interpretação.
Essa distinção não diminui o Tarot.
Ao contrário.
Ela nos permite enxergá-lo como aquilo que talvez sempre tenha sido em sua trajetória cultural: um extraordinário veículo de imagens por meio do qual diferentes sociedades projetaram, reorganizaram e reinterpretaram suas concepções sobre destino, autoridade, desejo, morte, transformação, conhecimento e existência humana.
Depois de aproximadamente seis séculos, suas cartas continuam sobre a mesa.
Mas aqueles que as observam já não são os mesmos.
E talvez seja exatamente por isso que o Tarot continua vivo.
REFERÊNCIAS E FONTES PARA APROFUNDAMENTO
DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. New York: St. Martin’s Press, 1996. A obra examina a transformação do Tarot de jogo europeu em objeto de interpretação ocultista, particularmente na França.
DECKER, Ronald; DUMMETT, Michael. A History of the Occult Tarot, 1870–1970. London: Duckworth, 2002. Estudo dedicado à internacionalização e ao desenvolvimento posterior do Tarot ocultista.
DUMMETT, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. London: Duckworth, 1980. Obra fundamental para o estudo histórico do Tarot enquanto jogo e para a investigação de suas origens europeias.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. The World in Play: Luxury Cards, 1430–1540. New York: The Metropolitan Museum of Art. O acervo e a documentação da exposição apresentam os primeiros Tarots italianos e os baralhos Visconti-Sforza.
VICTORIA AND ALBERT MUSEUM. A History of Tarot Cards. London: V&A. Estudo museológico sobre o desenvolvimento histórico, artístico e ocultista das cartas.
WARBURG INSTITUTE. Tarot — Origins & Afterlives. University of London, 2025. Exposição e programa de pesquisa dedicados a aproximadamente seis séculos da história cultural do Tarot, de suas origens renascentistas às reconstruções modernas.
WELLCOME COLLECTION. The Tarot, in the form of leaves of the Book of Thoth…, J. B. Alliette — Etteilla, c. 1780–1789. Fonte histórica primária relacionada ao nascimento do Tarot divinatório e à interpretação egípcia.
BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE. Tarot de Jean Noblet. Acervo histórico relativo à produção francesa de Tarot no século XVII.
BRITISH MUSEUM. Coleções de cartas e Tarots históricos, incluindo documentação relacionada ao padrão de Nicolas Conver de 1760.
Nota editorial
Este artigo diferencia deliberadamente evidência histórica, tradição esotérica e interpretação contemporânea. Afirmações sobre origens egípcias, cabalísticas, templários ou outras genealogias secretas foram apresentadas de acordo com sua posição na história das ideias, e não como fatos quando não existe documentação suficiente para comprová-las.
Essa distinção é fundamental para qualquer estudo sério do Tarot: respeitar uma tradição não exige transformar suas interpretações posteriores em acontecimentos históricos retroativos.
Conhecimento histórico e experiência simbólica podem coexistir — desde que cada um seja apresentado com clareza.