Andromalius: o 72º e último espírito da Ars Goetia, justiça, revelação e recuperação do que foi perdido

Andromalius ocupa uma posição particularmente importante na Ars Goetia: ele é apresentado como o 72º e último espírito do catálogo que constitui a primeira parte do Lemegeton, também conhecido como The Lesser Key of Solomon.
Descrito como um Grande e Poderoso Conde — Earl ou Count nas edições inglesas —, Andromalius aparece sob a forma de um homem que segura uma grande serpente na mão. Segundo a descrição tradicional, governa 36 legiões de espíritos e possui atribuições ligadas principalmente à descoberta de crimes, recuperação de objetos roubados, identificação de ladrões, revelação de negociações secretas, punição de malfeitores e descoberta de tesouros escondidos.
Sua posição como último espírito da sequência produz uma coincidência simbólica interessante. A lista começa com entidades associadas a diferentes formas de poder, conhecimento e transformação e termina com uma figura cuja função central é revelar aquilo que foi ocultado e restaurar aquilo que foi retirado.
Historicamente, entretanto, é importante distinguir essa leitura simbólica moderna da descrição efetivamente encontrada nos manuscritos. A Goetia não apresenta Andromalius como uma alegoria filosófica da justiça. Ela enumera objetivamente suas funções dentro de um sistema de magia cerimonial.
Quem é Andromalius na Ars Goetia
A descrição da Ars Goetia começa identificando Andromalius como o septuagésimo segundo espírito em ordem.
Ele recebe o título de Earl, palavra inglesa que corresponde aproximadamente a Conde dentro da terminologia hierárquica empregada pelas edições modernas do grimório.
A fonte o caracteriza como “grande e poderoso” e descreve sua manifestação na forma de um homem segurando uma grande serpente.
Suas principais funções são:
- trazer de volta o ladrão e os bens roubados;
- descobrir atos de maldade;
- revelar negócios ou ações realizadas secretamente;
- punir ladrões e outras pessoas consideradas perversas;
- descobrir tesouros escondidos;
- governar 36 legiões de espíritos.
Essas atribuições fazem de Andromalius uma figura incomum dentro da Goetia.
Muitos espíritos são associados à aquisição de conhecimento, riquezas, influência, amor, guerra, eloquência ou transformações. Andromalius, por outro lado, está essencialmente relacionado à investigação do que aconteceu, revelação do que permaneceu escondido e restituição daquilo que foi tomado.
A aparência de Andromalius
A manifestação atribuída a Andromalius é relativamente simples quando comparada às formas híbridas e fantásticas de muitos outros espíritos goéticos.
Ele aparece como:
um homem segurando uma grande serpente em sua mão.
Não são mencionadas múltiplas cabeças, asas, montarias, instrumentos musicais ou combinações complexas de animais.
A serpente é o elemento visual que imediatamente diferencia sua representação.
O texto original não fornece uma explicação sobre o significado desse animal. Por isso, qualquer interpretação simbólica precisa ser apresentada como posterior, e não como informação expressamente declarada pelo grimório.
A serpente de Andromalius
A serpente possui uma longa história simbólica em diferentes tradições culturais.
Dependendo do contexto, pode representar conhecimento, perigo, transformação, cura, renovação, astúcia ou aquilo que permanece escondido.
No caso de Andromalius, algumas dessas possibilidades combinam particularmente bem com suas funções.
A serpente é um animal capaz de permanecer praticamente invisível em determinado ambiente e revelar sua presença repentinamente. Sob uma interpretação simbólica contemporânea, ela poderia representar aquilo que existe oculto sob a superfície.
Essa leitura corresponde às atribuições do espírito:
o ladrão precisa ser encontrado;
os bens roubados precisam ser localizados;
ações secretas precisam ser descobertas;
tesouros ocultos precisam ser revelados.
Existe, portanto, uma relação simbólica possível entre a serpente e o tema central de Andromalius: tornar visível aquilo que foi escondido.
Entretanto, a Ars Goetia simplesmente menciona a serpente como parte de sua aparência. Ela não explica explicitamente seu significado.
Andromalius e a recuperação de objetos roubados
Uma das funções mais específicas de Andromalius é trazer de volta tanto o ladrão quanto os objetos roubados.
Essa atribuição coloca sua função em um campo muito diferente daquele ocupado por diversas outras entidades do catálogo.
Não se trata simplesmente de adquirir riquezas.
Na descrição de Andromalius existe a ideia de restituição.
Algo pertencia a alguém.
Esse objeto foi retirado.
Existe uma pessoa responsável.
A função atribuída ao espírito seria descobrir o responsável e recuperar aquilo que desapareceu.
Sob uma interpretação simbólica moderna, esse processo pode representar a reconstrução da verdade depois de uma violação.
Primeiro ocorre uma perda.
Depois surge uma investigação.
Finalmente acontece a descoberta.
Por essa razão, Andromalius frequentemente é associado posteriormente a conceitos como justiça, investigação, recuperação e consequência.
Esses conceitos são interpretações coerentes com suas funções, mas o vocabulário mais abstrato de “justiça” não substitui a formulação muito mais concreta encontrada na fonte histórica.
O descobridor de ladrões
A associação entre magia e identificação de ladrões não é exclusiva da Ars Goetia.
Joseph H. Peterson observa em sua edição crítica que Andromalius aparece também em textos mágicos independentes, normalmente com grafias diferentes, onde é empregado precisamente para detectar ladrões ou descobrir tesouros.
Isso é historicamente significativo.
A função de Andromalius aparentemente não surgiu apenas para completar uma lista de 72 espíritos.
Existia uma tradição mágica mais ampla relacionada a uma entidade de nome semelhante, empregada em operações destinadas a localizar pessoas responsáveis por furtos ou encontrar objetos e riquezas ocultas.
Isso ajuda a explicar por que a descrição de Andromalius é tão específica.
Ele não é simplesmente apresentado como conhecedor de segredos em geral.
Seu domínio está ligado particularmente àquilo que foi:
roubado, escondido, dissimulado ou realizado clandestinamente.
A descoberta daquilo que é feito secretamente
A edição inglesa clássica descreve uma das funções de Andromalius como descobrir underhand dealing.
A expressão pode ser entendida como negociações, acordos ou comportamentos realizados de maneira secreta, desonesta ou clandestina.
Isso amplia consideravelmente sua função.
Andromalius não seria apenas um descobridor de objetos desaparecidos.
Também seria capaz, dentro da cosmologia do grimório, de revelar condutas ocultas.
Essa característica aproxima simbolicamente sua figura de processos de investigação.
Existem fatos visíveis e fatos escondidos.
Existem declarações públicas e intenções privadas.
Existem ações que deixam evidências e ações planejadas justamente para evitar que essas evidências sejam percebidas.
O atributo de Andromalius consiste em romper esse ocultamento.
Andromalius e a punição
A descrição não termina na descoberta do culpado.
Ela afirma também que Andromalius pode punir ladrões e outras pessoas consideradas perversas.
Esse elemento diferencia investigação de julgamento.
Encontrar aquilo que aconteceu seria apenas a primeira etapa.
Segundo a lógica do grimório, a transgressão descoberta produz também uma consequência.
Em uma interpretação simbólica moderna, Andromalius pode representar a ideia de que determinadas ações produzem resultados inevitáveis.
Aquilo que alguém tenta esconder pode eventualmente tornar-se conhecido.
Uma fraude pode deixar rastros.
Uma mentira pode gerar contradições.
Um objeto roubado pode ser encontrado.
Uma ação realizada secretamente pode produzir evidências.
Nesse sentido, a punição associada a Andromalius pode simbolizar menos uma vingança arbitrária e mais o princípio de consequência após revelação.
Novamente, essa é uma leitura interpretativa moderna.
Andromalius e os tesouros escondidos
A última grande capacidade mencionada na descrição tradicional é descobrir tesouros ocultos.
O tema aparece diversas vezes na literatura mágica europeia.
Em períodos nos quais moedas, metais preciosos e outros bens frequentemente eram fisicamente enterrados ou escondidos, histórias sobre tesouros ocultos possuíam uma dimensão extremamente concreta.
Grimórios apresentam diferentes espíritos associados à localização de riquezas escondidas.
No caso de Andromalius, entretanto, essa função combina diretamente com todas as demais.
Ladrões escondem objetos.
Pessoas escondem ações.
Tesouros permanecem escondidos no solo ou em lugares desconhecidos.
Andromalius seria, portanto, um espírito especializado em localização e revelação.
O denominador comum não é necessariamente riqueza.
É aquilo que permanece oculto.
O nome Andromalius e suas variantes
Um aspecto histórico particularmente interessante é que o nome Andromalius não aparece de forma uniforme nos diferentes textos mágicos relacionados à tradição.
Joseph H. Peterson registra variantes como:
Andromalcus
Andromalce
Andromalcum
Andrewemalcus
Andrea Malchus
entre outras formas encontradas em manuscritos.
A existência dessas variantes é importante por duas razões.
Primeiro, demonstra como nomes mágicos podiam sofrer grandes alterações durante sucessivas cópias manuscritas.
Segundo, recomenda cautela diante de explicações etimológicas modernas excessivamente precisas.
Nem sempre é possível determinar com segurança uma origem única para um nome depois de séculos de transmissão, adaptação fonética e erros ou escolhas de copistas.
A forma Andromalius acabou se tornando a grafia mais conhecida por causa das edições modernas da Ars Goetia.
Andromalius não aparece na Pseudomonarchia Daemonum
Assim como Dantalion, Andromalius possui uma característica histórica importante:
ele não consta do catálogo de Johann Weyer conhecido como Pseudomonarchia Daemonum, nem da versão derivada publicada por Reginald Scot. Joseph Peterson registra explicitamente essa ausência.
Isso é particularmente relevante porque grande parte da lista da Ars Goetia possui relação textual com o catálogo demonológico de Weyer.
A Pseudomonarchia Daemonum contém menos espíritos do que a lista final de 72 entidades encontrada no Lemegeton. A edição crítica de Peterson observa que o catálogo da Goetia está relacionado a essa tradição anterior, mas passou por modificações, reorganizações e acréscimos.
Dantalion e Andromalius estão justamente entre os nomes cuja presença ajuda a demonstrar esse processo.
Eles encerram a lista goética, mas não pertencem à sequência encontrada em Weyer.
Andromalius nos manuscritos mágicos
Embora esteja ausente de Weyer e Scot, o nome relacionado a Andromalius aparece em outros manuscritos de magia.
Peterson cita, entre outras fontes, manuscritos preservados em coleções britânicas nos quais formas do nome são utilizadas em operações relacionadas à descoberta de ladrões e tesouros.
Esse detalhe muda significativamente a maneira de compreender sua origem textual.
Andromalius não parece ser simplesmente uma invenção tardia colocada no final da lista para alcançar o número 72.
Existem evidências de uma tradição independente relacionada à mesma figura ou a formas muito próximas dela.
Sua incorporação ao Lemegeton provavelmente representa a integração de diferentes materiais mágicos em um catálogo maior.
O selo de Andromalius
Como cada um dos 72 espíritos da Ars Goetia, Andromalius possui um selo ou caráter próprio.
Esse desenho aparece associado à sua entrada nos manuscritos e nas edições posteriores.
No sistema ritual descrito pelo grimório, esses selos funcionam como sinais específicos ligados a cada espírito.
A edição de Peterson reproduz o caráter de Andromalius junto da descrição e registra que ele deveria ser produzido e usado como um lamen durante a operação ritual.
Nas representações contemporâneas, o selo tornou-se provavelmente o elemento visual mais reconhecível associado ao nome Andromalius.
Entretanto, é importante separar o desenho histórico das inúmeras versões decorativas atualmente disponíveis em livros, sites, joias, tatuagens e ilustrações.
Molduras, alfabetos mágicos adicionais, cores, signos astrológicos ou outros elementos adicionados ao redor do selo geralmente pertencem a sistemas posteriores.
Andromalius entre os Condes da Goetia
A classificação organizada nas edições modernas coloca Andromalius entre os Earls ou Counts — Condes — da Goetia.
A relação inclui também espíritos como Botis, Marax, Glasya-Labolas, Ronové, Furfur, Halphas, Raum, Viné e Bifrons.
Na classificação publicada junto à edição de Mathers e Crowley, os selos dos Condes são relacionados conjuntamente a cobre e prata.
A própria edição, entretanto, acrescenta uma observação especulando que talvez o metal correspondente aos Condes devesse ser o ferro, para completar o sistema tradicional de correspondências planetárias.
Esse detalhe é importante porque mostra que nem mesmo todas as correspondências encontradas em edições famosas devem ser tratadas como informações indiscutíveis do texto original.
Algumas representam interpretação editorial.
As 36 legiões
Andromalius é apresentado como governante de 36 legiões de espíritos.
O número aparece também em diversos outros espíritos da Goetia e faz parte da linguagem hierárquica utilizada pelo grimório.
Não existe uma explicação detalhada na entrada de Andromalius sobre a composição dessas legiões, seus nomes individuais ou sua organização.
Por isso, afirmações modernas excessivamente específicas sobre subordinados individuais de Andromalius precisam ser avaliadas separadamente.
O dado textual seguro é simplesmente:
Andromalius governa 36 legiões.
Andromalius como símbolo de investigação
Em uma interpretação psicológica e simbólica contemporânea, talvez o conceito que melhor reúna os atributos de Andromalius seja investigação.
Uma investigação começa porque existe algo desconhecido.
Quem realizou determinada ação?
Onde está aquilo que desapareceu?
O que realmente aconteceu?
Existe informação sendo escondida?
Há alguma evidência que permita reconstruir os fatos?
Todas essas perguntas apresentam correspondência interessante com as atribuições descritas no grimório.
Andromalius pode, portanto, ser interpretado simbolicamente como a força que procura reconstruir a realidade a partir de vestígios.
Não como uma representação da suspeita permanente, mas como uma busca disciplinada pelaquilo que pode ser demonstrado.
O oculto e o revelado
Existe um padrão extremamente consistente em praticamente todas as capacidades de Andromalius.
O ladrão está escondido.
Andromalius o encontra.
Os bens desapareceram.
Andromalius os recupera.
Uma negociação foi realizada secretamente.
Andromalius a revela.
Uma transgressão foi ocultada.
Andromalius a descobre.
Um tesouro foi escondido.
Andromalius o localiza.
O elemento central de sua descrição não é simplesmente punição.
É revelação.
A punição ocorre depois que aquilo que estava escondido se torna conhecido.
Essa estrutura oferece uma interpretação simbólica particularmente forte da figura.
Andromalius representa a passagem:
do oculto para o visível;
da suspeita para a descoberta;
da perda para a recuperação;
do ato escondido para sua consequência.
Justiça e vingança não são a mesma coisa
As interpretações modernas frequentemente associam Andromalius à justiça.
Essa associação é compreensível porque sua descrição menciona descoberta de crimes, recuperação de bens e punição de infratores.
Entretanto, existe uma diferença importante entre justiça e vingança.
Justiça envolve determinar fatos, estabelecer responsabilidade e aplicar consequências de acordo com algum critério.
Vingança pode partir simplesmente do desejo de causar dano em resposta a uma ofensa.
O texto goético não desenvolve uma filosofia jurídica sobre essa diferença.
Mas uma leitura simbólica contemporânea de Andromalius torna-se muito mais interessante quando sua função é compreendida como investigação e responsabilização, em vez de simples retaliação.
A verdade como tema central
Se Dantalion, o 71º espírito, pode ser associado simbolicamente à complexidade dos pensamentos humanos, Andromalius, o 72º, apresenta uma dinâmica diferente.
Seu domínio é aquilo que pode ser descoberto.
Isso permite estabelecer uma interessante sequência simbólica entre os dois últimos espíritos.
Dantalion lida com aquilo que existe dentro da mente.
Andromalius lida com aquilo que alguém tenta esconder no mundo das ações.
Um representa pensamentos secretos.
O outro revela atos secretos.
Um está relacionado à interioridade.
O outro, às evidências e consequências.
Essa comparação não é apresentada pela Goetia como uma doutrina estruturada, mas constitui uma leitura simbólica possível da organização final do catálogo.
Por que Andromalius é o último espírito?
O texto não fornece uma explicação filosófica para o fato de Andromalius ocupar a posição 72.
Não existe uma passagem afirmando que ele encerra a lista porque representa justiça, conclusão ou revelação final.
Qualquer afirmação desse tipo seria interpretação posterior.
Historicamente, a posição provavelmente resulta da maneira como diferentes listas e tradições textuais foram compiladas até formar o catálogo de 72 espíritos do Lemegeton.
Simbolicamente, entretanto, sua posição final é extraordinariamente sugestiva.
Depois de uma longa sequência envolvendo poder, conhecimento, riqueza, amor, guerra, astronomia, filosofia, profecia, comunicação, transformação e outros temas, o catálogo termina com uma entidade cuja principal função é:
descobrir aquilo que estava escondido.
É difícil encontrar uma função mais adequada para encerrar simbolicamente um livro dedicado ao conhecimento do oculto.
Andromalius e o número 72
Andromalius completa a estrutura dos 72 espíritos da Ars Goetia.
O número 72 possui longa importância em diferentes sistemas religiosos, cabalísticos e mágicos.
Entretanto, é necessário cuidado para não projetar retrospectivamente sistemas posteriores sobre todas as camadas do texto.
A edição crítica de Peterson explica que o catálogo goético deriva parcialmente de tradições anteriores cujo número de espíritos não correspondia perfeitamente aos 72 da forma final. A Pseudomonarchia Daemonum, por exemplo, possui uma lista menor, apesar de determinadas passagens mencionarem o número 72.
A forma final da Goetia organiza o material para produzir uma coleção completa de 72 entidades.
Andromalius é o nome que encerra essa estrutura.
O fim da lista e a lenda do vaso de bronze
Imediatamente depois da descrição de Andromalius, determinadas edições da Ars Goetia apresentam a narrativa segundo a qual os 72 espíritos teriam sido comandados pelo rei Salomão e confinados em um vaso de bronze junto de suas legiões.
A narrativa afirma posteriormente que o recipiente foi lançado em um lugar profundo e depois aberto por pessoas que imaginavam existir um tesouro em seu interior.
Os espíritos teriam então escapado.
Essa passagem pertence à mitologia salomônica que enquadra o catálogo.
Ela não constitui relato histórico verificável sobre o rei Salomão, mas parte da tradição lendária e mágica que se desenvolveu em torno de seu nome durante séculos.
A localização de Andromalius imediatamente antes dessa narrativa reforça sua função textual:
ele não é apenas mais um espírito.
Ele é efetivamente a última entrada antes do encerramento do catálogo principal.
O simbolismo central de Andromalius
Quando todas as atribuições são reunidas, alguns temas aparecem repetidamente.
SERPENTE
Aquilo que pode permanecer oculto e depois surgir.
LADRÃO
O responsável desconhecido que precisa ser identificado.
OBJETO ROUBADO
Aquilo que foi perdido e deve ser recuperado.
NEGOCIAÇÕES SECRETAS
Informações escondidas que precisam ser descobertas.
PUNIÇÃO
A consequência produzida depois da revelação.
TESOURO OCULTO
Algo valioso cuja existência permanece desconhecida.
Todos esses elementos convergem para uma única estrutura:
ocultamento → investigação → revelação → consequência.
É essa estrutura que torna Andromalius simbolicamente distinto.
Andromalius em interpretações contemporâneas
Na literatura ocultista moderna, Andromalius passou a receber numerosas correspondências adicionais.
Alguns sistemas relacionam seu nome a planetas, horários, signos zodiacais, cores, perfumes, metais, cartas de tarot, anjos, salmos ou diferentes sistemas cabalísticos.
Essas associações podem pertencer a tradições esotéricas posteriores, mas não devem automaticamente ser atribuídas ao texto original da Ars Goetia.
Para estudar Andromalius historicamente, é útil trabalhar com três camadas:
1. Fonte goética
O que os manuscritos efetivamente dizem.
2. Tradições mágicas paralelas
Formas como Andromalcus e variantes encontradas em outros manuscritos relacionados à descoberta de ladrões ou tesouros.
3. Ocultismo moderno
Correspondências e interpretações desenvolvidas posteriormente.
Manter essas camadas separadas evita transformar interpretações recentes em supostas informações medievais ou renascentistas.
Uma leitura psicológica de Andromalius
Sem assumir literalmente as capacidades sobrenaturais descritas pelo grimório, Andromalius pode funcionar como uma figura simbólica extremamente interessante.
Ele pode representar a necessidade humana de investigar antes de concluir.
Suspeita não é evidência.
Aparência não é prova.
Acusação não é confirmação.
Para descobrir aquilo que realmente aconteceu, é necessário comparar informações, identificar inconsistências, verificar evidências e reconstruir acontecimentos.
Nesse sentido, Andromalius pode simbolizar:
discernimento;
investigação;
responsabilização;
recuperação;
transparência;
consequência.
Essa leitura transforma uma antiga figura da literatura mágica em uma metáfora bastante contemporânea para a busca da verdade.
Conclusão
Andromalius é o 72º e último espírito da Ars Goetia.
Ele é descrito como um Grande e Poderoso Conde, manifestando-se na forma de um homem que segura uma grande serpente e governando 36 legiões de espíritos. Suas funções tradicionais consistem em recuperar ladrões e bens roubados, revelar maldades e negociações secretas, punir infratores e descobrir tesouros escondidos.
Sua história textual também é particularmente interessante. Andromalius não aparece na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer nem na versão de Reginald Scot, mas entidades com nomes próximos — especialmente Andromalcus — aparecem em outros manuscritos mágicos relacionados à descoberta de ladrões e tesouros.
Isso indica que sua incorporação à Goetia provavelmente representa a integração de uma tradição mágica previamente existente ao catálogo final do Lemegeton.
Como símbolo, Andromalius reúne quatro ideias essenciais:
aquilo que foi escondido pode ser descoberto;
aquilo que foi tomado pode ser recuperado;
ações clandestinas podem deixar evidências;
descobertas podem produzir consequências.
E existe algo particularmente apropriado em sua posição.
Depois de 71 espíritos associados a inúmeras formas de conhecimento, poder, desejo, conflito e transformação, a Ars Goetia termina com aquele cuja função é revelar aquilo que estava oculto.
Com Andromalius chega-se, portanto, ao 72º espírito e ao encerramento completo do catálogo da Ars Goetia.
Referências
Lemegeton Clavicula Salomonis – Ars Goetia, transcrição e edição crítica de Joseph H. Peterson, baseada principalmente no manuscrito British Library Sloane 3825 e comparada com outros testemunhos manuscritos. A entrada de Andromalius registra sua posição como 72º espírito, título de Earl, aparência, funções, 36 legiões, variantes históricas do nome e presença em outros manuscritos mágicos.
The Lesser Key of Solomon, edição associada a S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley. A entrada número 72 descreve Andromalius como um grande e poderoso Earl, manifestado como homem segurando uma grande serpente, especializado na recuperação de objetos roubados, revelação de crimes e descoberta de tesouros.
Classified List of the 72 Chief Spirits of the Goetia. A classificação apresenta Andromalius entre os Earls ou Counts e registra as correspondências metálicas utilizadas nessa edição específica.
Nota sobre as fontes enviadas
Os links fornecidos junto ao pedido incluem materiais sobre Seere, que é o 70º espírito, além de compilações modernas de sigilos e hierarquias. Para a descrição histórica de Andromalius, foram priorizadas as transcrições da própria Ars Goetia e a edição crítica de Joseph H. Peterson, por permitirem distinguir melhor o conteúdo manuscrito das associações ocultistas desenvolvidas posteriormente.