Astaroth — História, Simbolismo E Tradição Do 29º Espírito Da Ars Goetia

Astaroth ocupa a posição de 29º espírito da Ars Goetia e é apresentado nessa tradição como um Grande e Poderoso Duque que governa quarenta legiões de espíritos. Sua representação goética combina aparência angelical degradada, uma montaria descrita como dragão infernal, uma víbora carregada na mão e uma característica particularmente desagradável: um hálito considerado perigoso ou pestilento.
Sua esfera de conhecimento é igualmente extensa. Astaroth responde sobre acontecimentos passados, presentes e futuros, revela assuntos secretos, fala sobre a queda dos espíritos e sobre sua própria queda e concede conhecimento profundo das chamadas artes ou ciências liberais. Esses elementos já aparecem, em grande medida, na tradição de Johann Weyer no século XVI e foram preservados posteriormente pelo Lemegeton.
Entretanto, Astaroth é diferente de muitas figuras da Ars Goetia por possuir um nome cuja história conduz muito além dos grimórios renascentistas.
Por trás do nome encontra-se uma antiga tradição religiosa relacionada a Astarte, chamada também Ashtart, uma importante divindade feminina do antigo Oriente Próximo, especialmente associada às culturas fenícia e cananeia.
Na Bíblia Hebraica, uma forma do nome aparece como Ashtoreth, identificada em 1 Reis como a deusa dos sidônios. A tradição bíblica também utiliza uma forma plural, frequentemente transliterada como Ashtaroth, para referências coletivas a divindades femininas. Com o passar dos séculos, essa forma nominal passou por novas interpretações na literatura cristã e demonológica, até surgir como o nome masculino Astaroth.
Compreender Astaroth exige, portanto, separar épocas diferentes.
Astarte da religião antiga não é simplesmente o Astaroth dos grimórios usando outro nome.
A figura demonológica constitui uma construção posterior, desenvolvida por meio de releituras religiosas, transmissão textual e demonização de tradições anteriores.
Essa distinção é fundamental para evitar transformar milhares de anos de história religiosa em uma genealogia simples que as fontes não sustentam.
QUEM É ASTAROTH NA ARS GOETIA?
Na Ars Goetia, Astaroth é o vigésimo nono espírito.
O texto o classifica como Grande e Poderoso Duque.
Sua manifestação é descrita como a de um anjo de aparência desagradável ou deformada, montado sobre uma criatura comparada a um dragão infernal.
Ele carrega uma víbora na mão direita.
Outro elemento peculiar é seu hálito. A tradição adverte que sua proximidade poderia produzir dano por causa de um odor ou sopro pestilento.
Dentro da lógica ritual do manuscrito, aparece ainda uma referência a um anel utilizado como proteção diante dessa manifestação.
Seu conjunto de atribuições intelectuais é muito mais amplo do que sua aparência poderia sugerir.
Astaroth conhece passado, presente e futuro.
Revela segredos.
Explica, dentro da narrativa do grimório, como os espíritos caíram.
Também fala sobre a razão de sua própria queda.
Finalmente, torna uma pessoa extremamente instruída nas artes liberais.
A tradição goética lhe atribui o comando de 40 legiões.
ASTAROTH EM WEYER
Astaroth já aparece na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.
Ali ocupa a posição 28, imediatamente antes de Forras.
Na Ars Goetia, passa para a posição 29.
Essa mudança de apenas uma posição demonstra novamente que a numeração hoje popularizada não era universal em todas as versões da tradição.
O Astaroth de Weyer já possui praticamente todas as características que posteriormente seriam encontradas no Lemegeton.
É um poderoso Duque.
Aparece como uma figura angelical degradada.
Monta um dragão infernal.
Carrega uma víbora.
Responde sobre passado, presente e futuro.
Revela segredos.
Fala sobre a criação ou origem dos espíritos e sobre sua queda.
Afirma, segundo a transmissão inglesa preservada por Scot, que sua própria queda não teria ocorrido voluntariamente.
Ensina as artes liberais.
E governa quarenta legiões.
A estabilidade entre essas duas versões é significativa.
Ao contrário de entidades cuja descrição sofreu grandes inversões ao longo da transmissão, o núcleo de Astaroth já estava muito bem estabelecido antes da formação conhecida da Ars Goetia.
ASTAROTH Nº 28 E ASTAROTH Nº 29
Johann Weyer apresenta Astaroth como número 28.
A Goetia apresenta Astaroth como número 29.
A diferença é pequena, mas possui importância metodológica.
Quando sistemas esotéricos posteriores atribuem significado especial ao número 29, essa correspondência precisa ser entendida como pertencente à organização específica da Goetia.
Ela não acompanha Astaroth de maneira imutável em todas as listas históricas.
A própria comparação crítica entre Weyer e o Lemegeton registra claramente essa mudança.
ASTAROTH ANTES DE WEYER
A história textual não começa necessariamente em 1577.
A edição crítica de Joseph H. Peterson identifica testemunhos anteriores pertencentes à tradição dos chamados Offices of Spirits.
Um manuscrito florentino datado de 1494, por exemplo, contém uma forma do nome Astaroth entre outros espíritos que posteriormente aparecem nos grandes catálogos demonológicos. O mesmo ambiente manuscrito conserva ainda caracteres gráficos associados a diversos nomes, embora esses sinais não sejam os mesmos selos encontrados posteriormente na Goetia.
Isso é historicamente importante.
Astaroth já circulava como personagem de literatura mágica antes de Johann Weyer publicar seu catálogo.
Weyer representa, portanto, uma etapa importante da transmissão, e não necessariamente o ponto inicial da figura demonológica.
Outra tradição relevante é a do Livro de Abramelin, no qual Astarot aparece entre importantes espíritos subordinados. A história manuscrita dessa obra é complexa, e suas diferentes versões não devem ser reduzidas a uma única data simples, mas sua presença reforça que o nome circulava amplamente fora da sequência específica que resultaria na Ars Goetia.
JOHANN WEYER E A PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM
Johann Weyer publicou De Praestigiis Daemonum originalmente em 1563.
O trabalho fazia parte das discussões religiosas, médicas e jurídicas sobre bruxaria e demonologia no século XVI.
Em uma edição ampliada de 1577, Weyer acrescentou o catálogo posteriormente conhecido como Pseudomonarchia Daemonum.
Segundo a edição crítica de Peterson, Weyer dizia utilizar uma fonte mais antiga relacionada ao Liber officiorum spirituum. O próprio catálogo já apresentava variações de nomes, indicando que seu material havia passado por transmissão e alteração antes de chegar a Weyer.
Astaroth, portanto, pertence a uma tradição que estava em desenvolvimento antes da impressão de Weyer.
Esse detalhe é essencial para compreender a Goetia como resultado de transmissão manuscrita, e não como obra criada de uma única vez.
REGINALD SCOT E A TRANSMISSÃO INGLESA
Em 1584, Reginald Scot publicou The Discoverie of Witchcraft.
A obra reproduziu em inglês grande parte do catálogo de Weyer.
Essa tradução tornou-se particularmente importante porque a primeira parte do Lemegeton demonstra grande proximidade textual com ela.
Joseph H. Peterson observa inclusive que diferentes erros introduzidos pela tradução inglesa passaram para tradições posteriores, demonstrando que os compiladores da Goetia utilizavam material relacionado a Scot.
Astaroth atravessou esse processo com relativamente poucas alterações.
Isso explica por que sua descrição em Weyer e no manuscrito goético é tão semelhante.
ASTAROTH NO LEMEGETON
O Lemegeton Clavicula Salomonis é uma compilação mágico-cerimonial conhecida através de manuscritos da Europa moderna.
Sua primeira parte é denominada Ars Goetia.
O manuscrito Sloane 3825, utilizado em importantes transcrições críticas modernas, apresenta Astaroth na posição 29 e conserva praticamente todos os elementos fundamentais da tradição anterior.
A atribuição do Lemegeton ao rei Salomão pertence à tradição literária pseudo-salomônica.
Não existe evidência de que o rei bíblico tenha escrito pessoalmente a obra na forma transmitida pelos manuscritos europeus.
Assim, Astaroth nº 29 deve ser situado historicamente no ambiente dos grimórios modernos, ainda que a obra utilize Salomão como autoridade literária.
ASTAROTH E ASTARTE
Aqui encontramos a questão histórica central.
O nome Astaroth está claramente próximo da antiga deusa Astarte.
Astarte é a forma grega de um nome semítico ocidental normalmente transliterado como Ashtart ou ʿAshtart.
Ela foi uma importante divindade do antigo Levante e está particularmente associada às tradições fenícias.
Evidências arqueológicas e inscrições demonstram que seu culto foi significativo em regiões como Fenícia e Chipre.
O Metropolitan Museum of Art, por exemplo, conserva objetos cipriotas relacionados ao culto de Astarte e observa que sua veneração estava bem estabelecida na ilha devido à influência fenícia. O Louvre preserva um monumento helenístico conhecido como Trono de Astarte, contendo inclusive uma inscrição fenícia dedicada à deusa.
Estamos, portanto, diante de uma figura histórica de religião antiga, não de uma invenção dos demonólogos.
ASTARTE ERA UMA DEUSA FEMININA
Esse ponto parece óbvio, mas torna-se fundamental para entender a transformação em Astaroth.
Astarte era uma divindade feminina.
Representações antigas e objetos de culto a apresentam dentro de tradições femininas relacionadas à divindade, e diferentes fontes a associam a fertilidade, sexualidade, poder e, em determinados contextos, guerra.
Astaroth da Goetia, por outro lado, é tratado gramaticalmente como uma figura masculina e recebe o título de Duque.
Essa mudança de gênero demonstra que não estamos simplesmente diante da mesma figura religiosa preservada sem alterações.
O processo de demonização transformou profundamente a identidade.
ASTARTE E ISHTAR SÃO A MESMA DEUSA?
A resposta simplificada frequentemente encontrada na internet é “sim”.
Historicamente, é mais prudente dizer que Astarte e Ishtar pertencem a tradições fortemente relacionadas e seus nomes são linguisticamente aparentados, mas não devem ser reduzidas a uma identidade absolutamente uniforme em todos os locais e épocas.
Ishtar pertence principalmente à tradição mesopotâmica de língua acadiana.
Astarte pertence ao ambiente semítico ocidental, especialmente levantino.
Culturas antigas frequentemente identificavam ou aproximavam divindades, mas cada tradição podia desenvolver características próprias.
Assim, dizer simplesmente “Astarte é Ishtar” elimina diferenças regionais e históricas.
ASTARTE E INANNA
Algo semelhante vale para Inanna.
A deusa suméria Inanna possui profundas conexões históricas e religiosas com a posterior Ishtar acadiana.
Astarte pertence a uma tradição ocidental relacionada a esse grande complexo religioso.
Mas uma linha do tipo:
“Inanna virou Ishtar, depois Astarte e finalmente Astaroth”
é histórica e metodologicamente simplista.
Religiões antigas não evoluem como uma sequência de versões de software.
Cultos coexistem.
Características são emprestadas.
Nomes se aproximam.
Divindades são identificadas umas com as outras.
Tradições regionais desenvolvem diferenças.
A história é mais complexa que uma linha reta.
ASTARTE E ASHERAH NÃO SÃO SIMPLESMENTE A MESMA DIVINDADE
Outro erro frequente é confundir Astarte com Asherah.
Os nomes parecem semelhantes para leitores modernos, e antigas obras de referência às vezes contribuíram para a confusão.
Mas na pesquisa contemporânea elas são geralmente tratadas como figuras distintas, embora ambas pertençam ao complexo religioso do antigo Levante e possam aparecer em ambientes culturais relacionados.
Assim, não é adequado afirmar automaticamente:
Astarte = Asherah = Astaroth.
Isso elimina distinções importantes da religião cananeia e israelita antiga.
ASHTORETH NA BÍBLIA HEBRAICA
A Bíblia Hebraica preserva Astarte principalmente sob a forma Ashtoreth.
Em 1 Reis 11:5, Ashtoreth é explicitamente apresentada como deusa dos sidônios no contexto da narrativa sobre Salomão e cultos estrangeiros.
A mesma tradição aparece novamente em referências posteriores.
A perspectiva dos autores bíblicos é evidentemente negativa, pois essas divindades são tratadas como cultos incompatíveis com a fidelidade a Yahweh.
Esse julgamento teológico bíblico desempenharia importante papel na maneira como autores cristãos posteriores interpretariam divindades antigas.
POR QUE ASHTORETH E NÃO ASHTART?
Existe uma explicação filológica tradicional e amplamente discutida.
A forma semítica da deusa está próxima de Ashtart.
No hebraico bíblico encontramos Ashtoreth.
Uma explicação acadêmica tradicional entende essa vocalização como uma alteração depreciativa influenciada pelas vogais de bosheth, palavra hebraica associada a “vergonha”.
A Jewish Encyclopedia e obras de referência posteriores registram essa explicação. Algumas fontes modernas a formulam de maneira mais cautelosa como possibilidade, justamente porque a reconstrução da vocalização antiga envolve problemas linguísticos complexos.
O ponto importante é que a própria forma bíblica já pode refletir uma releitura polêmica da divindade.
ASHTAROTH: A FORMA PLURAL
A Bíblia também utiliza Ashtaroth, uma forma plural.
Em determinados contextos, funciona como termo coletivo para divindades femininas, frequentemente paralelo a “Baalim”, plural relacionado aos Baals.
A Encyclopedia Judaica observa que esse plural pode funcionar genericamente para deusas em passagens bíblicas.
Essa forma plural é particularmente importante para a história do nome demonológico.
Em transmissões e traduções posteriores, “Ashtaroth” podia deixar de ser percebido claramente como um plural feminino.
A palavra passou então a circular como se fosse um nome próprio singular.
Esse processo provavelmente contribuiu para a formação do Astaroth demonológico.
COMO UMA DEUSA FEMININA SE TORNOU UM DUQUE MASCULINO?
Não existe um único momento documentado em que alguém tenha decidido conscientemente:
“Agora transformaremos Astarte em Astaroth.”
A mudança ocorreu através de séculos de recepção religiosa.
Primeiro existe a antiga divindade feminina.
Depois encontramos sua rejeição na literatura bíblica.
Traduções transportam formas do nome para outros idiomas.
Autores cristãos passam a interpretar cultos pagãos através de categorias demonológicas.
Formas nominais podem ser descontextualizadas.
Finalmente encontramos Astaroth como personagem masculino dentro de catálogos mágicos e demonológicos europeus.
O processo é histórico, não instantâneo.
PAGANISMO E DEMONOLOGIA CRISTÃ
Dentro de determinadas correntes cristãs antigas e medievais, as divindades das religiões pagãs não eram necessariamente tratadas apenas como inexistentes.
Podiam ser interpretadas como demônios que recebiam culto indevido.
Essa ideia encontrou apoio teológico em leituras de textos bíblicos que associavam sacrifícios pagãos a seres demoníacos.
Em um ambiente desse tipo, uma antiga divindade podia continuar existindo nominalmente, mas sua categoria mudava completamente.
De deusa cultuada passava a espírito maligno.
A história de Astarte/Astaroth pertence a esse processo mais amplo de reinterpretar religiões concorrentes.
ASTAROTH NÃO É A REPRESENTAÇÃO HISTÓRICA DA ANTIGA ASTARTE
Essa distinção precisa ser absolutamente clara.
Se um artista contemporâneo desenha Astaroth como o Duque da Goetia, esse desenho não representa automaticamente como os antigos fenícios imaginavam Astarte.
Da mesma maneira, a famosa gravura de Astaroth publicada no século XIX não pode ser utilizada como reconstrução arqueológica da deusa antiga.
As duas figuras pertencem a períodos e sistemas religiosos diferentes.
Astarte é objeto da história das religiões do antigo Oriente Próximo.
Astaroth é objeto da história da demonologia e dos grimórios europeus.
Os nomes se relacionam.
As imagens não podem ser fundidas sem explicação.
ASTARTE EM SIDON
A relação de Astarte com Sidon é especialmente importante porque aparece tanto em fontes bíblicas quanto em evidências históricas do mundo fenício.
1 Reis a identifica como deusa dos sidônios.
Outras evidências fenícias confirmam a importância de Astarte nas cidades da região.
Essa convergência não significa que a descrição bíblica seja neutra: ela possui sua própria perspectiva religiosa.
Mas demonstra que o nome está ligado a um contexto histórico real.
ASTARTE EM CHIPRE
A presença de Astarte também é bem documentada em Chipre.
Objetos atualmente conservados no Metropolitan Museum demonstram a influência fenícia e a presença de sua veneração na ilha durante a Antiguidade.
Uma terracota cipriota datada aproximadamente entre 600 e 480 a.C., por exemplo, é identificada pelo museu como possivelmente representando a própria Astarte.
Esse tipo de evidência arqueológica mostra por que Astarte precisa ser tratada como figura religiosa histórica independente das tradições demonológicas posteriores.
ASTARTE E GUERRA
Em diferentes contextos do antigo Oriente Próximo, Astarte também possui associações marciais.
Isso é particularmente evidente em certas tradições egípcias e levantinas.
Essa característica pode tornar tentadora uma comparação com o posterior Astaroth demonológico.
Entretanto, o Astaroth da Goetia não é definido primariamente como espírito de guerra.
Seu domínio é principalmente intelectual e divinatório.
Assim, mesmo quando encontramos algum tema compartilhado em tradições distantes, não devemos utilizá-lo para criar uma continuidade artificial.
A APARÊNCIA ANGELICAL DE ASTAROTH
Na tradição de Weyer e da Goetia, Astaroth aparece sob forma angelical.
Mas não é um anjo belo.
As traduções inglesas utilizam expressões que indicam uma figura desagradável ou deformada.
A Ars Goetia fala em um “unbeautiful angel”, isto é, um anjo sem beleza ou de aparência repulsiva.
Essa descrição produz uma imagem intermediária.
Astaroth não é completamente animal.
Não é inteiramente monstruoso.
Conserva estrutura angelical, mas degradada.
ISSO PROVA QUE ASTAROTH ERA UM ANJO CAÍDO?
A descrição certamente favorece essa interpretação dentro da demonologia cristã.
O próprio texto associa Astaroth à discussão sobre a queda dos espíritos.
Entretanto, existe uma diferença entre dizer que o grimório o apresenta dentro de um imaginário de espíritos caídos e inventar uma biografia celestial detalhada.
Weyer afirma que Astaroth fala sobre como os espíritos caíram e, na tradução inglesa, sustenta que ele próprio não teria caído voluntariamente.
Isso não fornece, contudo, uma narrativa completa de sua suposta vida celestial.
Não sabemos através dessa passagem seu antigo cargo.
Não conhecemos uma ordem angelical específica.
Não recebemos uma biografia anterior à queda.
Sistemas posteriores preencheriam muitas dessas lacunas.
A QUEDA DE ASTAROTH
A Ars Goetia preserva a disposição de Astaroth para explicar como os espíritos caíram e a razão de sua própria queda.
Essa atribuição é incomum porque transforma a própria entidade em fonte de explicação sobre a demonologia.
Astaroth não apenas conhece acontecimentos.
Dentro da narrativa, conhece a própria história dos espíritos.
Isso o coloca numa posição semelhante à de testemunha do mundo pré-humano imaginado pelos grimórios.
A FRASE “NÃO CAÍ POR MINHA VONTADE”
Na tradição inglesa de Weyer aparece uma afirmação curiosa: Astaroth diria que não caiu de sua própria vontade.
Essa ideia gerou inúmeras interpretações posteriores.
Alguns autores modernos construíram histórias nas quais Astaroth teria sido arrastado para a rebelião.
Outros afirmam que teria permanecido neutro.
Esses desenvolvimentos excedem a fonte.
O texto antigo preserva uma frase breve.
A partir dela não podemos reconstruir uma biografia completa.
O DRAGÃO INFERNAL
Astaroth aparece montado sobre uma criatura descrita como dragão infernal.
A imagem possui forte carga dentro do imaginário cristão.
Dragões podem representar caos, perigo, monstruosidade e poder adversário.
A literatura bíblica e medieval contribuiu enormemente para essa associação.
Entretanto, a fonte não explica por que Astaroth utiliza especificamente essa montaria.
Qualquer significado detalhado precisa permanecer interpretativo.
ASTARTE ERA REPRESENTADA MONTADA EM DRAGÃO?
Não há base para afirmar isso como característica do culto antigo.
Essa pergunta é importante porque demonstra a distância entre as duas figuras.
O dragão infernal pertence à iconografia demonológica posterior.
Ele não pode ser retroprojetado automaticamente para a antiga deusa fenícia.
A VÍBORA
Astaroth carrega uma víbora.
Weyer coloca a serpente na mão direita, e a Goetia mantém essa posição.
Serpentes possuem significados extremamente variados ao longo da história.
Conhecimento.
Perigo.
Cura.
Renovação.
Morte.
Fertilidade.
Engano.
Não existe uma única definição universal.
Por isso, qualquer interpretação específica da víbora de Astaroth precisa ser apresentada como hipótese simbólica.
A SERPENTE E O CONHECIMENTO
Uma leitura moderna bastante natural relaciona a víbora ao conhecimento.
Astaroth é uma figura profundamente intelectual.
Revela segredos.
Conhece tempo.
Ensina ciências.
A serpente, em diferentes tradições, possui associações com sabedoria e conhecimento proibido.
A conexão é simbolicamente forte.
Mas não temos uma frase do grimório afirmando:
“Astaroth carrega a víbora porque ela simboliza conhecimento.”
A diferença entre imagem e explicação continua fundamental.
O HÁLITO PESTILENTO
Uma das características mais estranhas de Astaroth é seu hálito.
A Ars Goetia adverte que a entidade não deveria aproximar-se demais porque seu sopro ou hálito poderia causar dano.
Esse detalhe é extraordinário porque introduz uma dimensão corporal.
A ameaça não é apenas espiritual.
É sensorial.
Cheiro e proximidade tornam-se elementos da manifestação.
POR QUE O HÁLITO É IMPORTANTE?
Mau cheiro possui longa associação cultural com decomposição, doença, corrupção e impureza.
Antes da teoria microbiana moderna, odores desagradáveis também eram frequentemente associados a atmosferas perigosas ou insalubres.
O hálito pestilento de Astaroth pode, portanto, comunicar corrupção de maneira imediatamente compreensível para leitores pré-modernos.
Entretanto, essa é uma contextualização cultural, não uma interpretação explícita do autor.
O ANEL DE PROTEÇÃO
A Goetia associa Astaroth a uma advertência sobre o uso de um anel mágico diante de seu hálito.
O mesmo sistema textual menciona o anel em outras descrições, como Beleth e Berith.
Esse detalhe demonstra que os personagens não são apresentados isoladamente.
Eles pertencem a uma estrutura ritual integrada.
Do ponto de vista histórico, o anel deve ser analisado como elemento da literatura mágico-cerimonial, não como evidência empírica de que determinado objeto realmente neutralizaria um agente sobrenatural.
ASTAROTH E PASSADO, PRESENTE E FUTURO
Uma das atribuições mais estáveis de Astaroth é seu conhecimento temporal.
Weyer inclui passado, presente e futuro.
A Goetia conserva as três dimensões.
Isso o aproxima de outros personagens divinatórios do catálogo, como Purson, Berith e diferentes reis ou duques associados à revelação de acontecimentos.
A diferença está no conjunto de funções adicionais.
Astaroth não conhece apenas o tempo.
Conhece segredos e questões relacionadas à queda espiritual.
O CONHECIMENTO DOS SEGREDOS
Astaroth revela aquilo que está oculto.
“Segredo” aqui não precisa significar exclusivamente conhecimento esotérico.
Pode indicar informação escondida.
Algo desconhecido.
Uma causa não revelada.
Um fato privado.
A busca por conhecimentos inacessíveis aparece repetidamente nos grimórios.
Essa promessa responde a uma necessidade humana constante:
reduzir aquilo que não sabemos.
ASTAROTH E A CURIOSIDADE
Em uma interpretação contemporânea, Astaroth pode representar a curiosidade levada ao extremo.
Não apenas perguntar:
“O que aconteceu?”
Mas também:
“Por quê?”
“Como começou?”
“O que existe por trás?”
“Qual é a origem?”
“O que acontecerá depois?”
Seu perfil intelectual é investigativo.
Ele não se limita a fornecer fatos.
Dentro da narrativa, explica causas.
ASTAROTH E AS ARTES LIBERAIS
Weyer afirma que Astaroth torna uma pessoa extraordinariamente instruída nas artes liberais.
A Goetia preserva essa atribuição.
Para leitores modernos, o termo pode parecer relacionado principalmente às humanidades.
Historicamente, possui sentido mais específico.
As sete artes liberais tradicionalmente eram divididas entre Trivium e Quadrivium.
O Trivium abrangia gramática, retórica e lógica.
O Quadrivium abrangia aritmética, geometria, música e astronomia.
Assim, dizer que Astaroth ensina artes liberais significa atribuir-lhe um domínio intelectual extremamente abrangente.
ASTAROTH E A CIÊNCIA
Algumas traduções modernas utilizam “ciências liberais”.
Esse termo precisa ser compreendido historicamente.
Não devemos imaginar automaticamente física moderna, biologia molecular ou computação.
Os campos intelectuais eram organizados de maneira diferente.
Entretanto, a atribuição demonstra claramente que Astaroth pertence ao grupo de espíritos goéticos ligados ao conhecimento sistemático.
ASTAROTH E MORAX
Morax também está fortemente ligado às artes liberais.
A diferença está na combinação dos atributos.
Morax associa o conhecimento acadêmico à astronomia, ervas e pedras.
Astaroth associa-o a segredos, tempo e história da queda dos espíritos.
Morax aproxima-se simbolicamente da filosofia natural.
Astaroth aproxima-se do conhecimento oculto, histórico e cosmológico.
ASTAROTH E PAIMON
A comparação com Paimon também é relevante.
Paimon possui uma esfera intelectual extremamente abrangente e ensina artes e ciências.
Mas sua hierarquia é real: é Rei.
Astaroth é Duque.
Paimon recebe uma apresentação cerimonial majestosa.
Astaroth aparece como anjo degradado montado em dragão.
As funções podem se aproximar, mas a construção narrativa é completamente diferente.
ASTAROTH E PURSON
Purson também responde questões secretas e cosmológicas.
Em ambos encontramos busca por informações profundas.
Purson possui forte relação com tesouros, familiares e criação.
Astaroth acrescenta a história da queda dos espíritos e as artes liberais.
Isso demonstra novamente que a Goetia possui sobreposição de competências.
Ela não funciona como tabela moderna de especializações exclusivas.
AS 40 LEGIÕES
Weyer atribui a Astaroth quarenta legiões.
A Goetia mantém exatamente esse número.
Essa estabilidade é outro sinal de continuidade textual.
A posição muda.
O número de legiões não.
A terminologia militar integra Astaroth a uma hierarquia espiritual imaginada segundo modelos políticos e militares familiares à cultura europeia.
ASTAROTH COMO DUQUE
Seu título também permanece estável.
Astaroth é um grande e poderoso Duque.
Isso o coloca no mesmo grande grupo hierárquico de figuras como Agares, Eligor, Bune, Berith e outros.
O título ducal não define sua função.
Existem duques associados a guerra.
Outros a riqueza.
Outros a relações afetivas.
Astaroth destaca-se pela inteligência e pela revelação.
ASTARTE ERA UM “DUQUE”?
Evidentemente não.
Essa pergunta aparentemente absurda revela novamente a magnitude da transformação histórica.
A antiga Astarte era uma deusa feminina pertencente a sistemas religiosos do Levante.
O posterior Astaroth é inserido em uma monarquia infernal imaginada segundo títulos aristocráticos europeus.
Nenhum antigo fenício classificava Astarte como “Duque do Inferno”.
Essa linguagem pertence a um mundo cultural completamente diferente.
A MUDANÇA DE GÊNERO
A transformação de uma deusa em demônio masculino é uma das características mais fascinantes dessa história.
Várias explicações foram propostas.
Uma delas envolve a forma plural bíblica Ashtaroth, que poderia ter sido recebida em tradições posteriores como se fosse nome próprio.
Outra envolve o processo mais amplo de reclassificação das antigas divindades como demônios.
O que podemos afirmar com segurança é o resultado:
Astarte é feminina.
Astaroth da demonologia europeia é masculino.
Entre uma figura e outra ocorreu profunda reelaboração.
ASHTAROTH NÃO É UM “DEUS MASCULINO” NA BÍBLIA
Esse ponto corrige um erro relativamente comum.
A forma Ashtaroth pode parecer a leitores modernos um nome masculino singular.
Mas no hebraico bíblico ela pode funcionar como plural associado às deusas ou à própria categoria cultual de Astarte.
Portanto, não é correto utilizar a palavra Ashtaroth isoladamente para provar que a Bíblia já conhecia o Duque masculino Astaroth dos grimórios.
A figura demonológica é posterior.
ASTAROTH E OS SIDÔNIOS
A ligação com Sidon vem da antiga Astarte.
1 Reis chama Ashtoreth de deusa dos sidônios.
Autores demonológicos posteriores reutilizaram essa informação.
No século XIX, por exemplo, Collin de Plancy afirma que Astaroth teria sido adorado pelos sidônios e filisteus, integrando a antiga religião diretamente à biografia do demônio.
Esse tipo de afirmação precisa ser reinterpretado historicamente.
Os antigos sidônios cultuavam Astarte.
Não possuímos evidência de que cultuassem conscientemente o Duque infernal masculino descrito pela demonologia europeia do século XVI.
COLLIN DE PLANCY E ASTAROTH
O Dictionnaire Infernal, especialmente sua edição de 1863, teve enorme influência sobre a imagem moderna de Astaroth.
Collin de Plancy preserva vários elementos tradicionais.
Astaroth é poderoso.
Possui aparência angelical desagradável.
Monta criatura infernal.
Carrega serpente.
Mas o autor também adiciona ou sistematiza tradições posteriores.
Afirma que alguns mágicos o associavam ao Ocidente.
Relaciona-o ao favor de grandes senhores.
Apresenta-o como importante dignitário da corte infernal.
E identifica sua história com antigos cultos.
Essas afirmações pertencem à recepção demonológica posterior e não devem ser automaticamente projetadas para Weyer.
A FAMOSA ILUSTRAÇÃO DE ASTAROTH
A imagem que muitas pessoas atualmente reconhecem como “Astaroth” deriva da edição ilustrada do Dictionnaire Infernal.
Nela aparece uma figura nua e coroada, com asas, carregando serpente e montada numa criatura monstruosa.
Essa gravura tornou-se extremamente popular.
Mas é do século XIX.
Não é uma imagem fenícia.
Não é uma representação de Astarte.
Não provém de Johann Weyer.
Não é ilustração contemporânea ao antigo Israel.
Ela representa como um artista do século XIX visualizou a tradição demonológica.
Essa distinção é essencial quando imagens são utilizadas em conteúdos históricos.
COROA OU NÃO COROA?
A famosa gravura apresenta Astaroth coroado.
A descrição básica de Weyer e do manuscrito goético não enfatiza uma coroa da mesma maneira que faz, por exemplo, com Berith ou determinadas figuras reais.
Por isso, a coroa tornou-se sobretudo parte da iconografia artística posterior.
Esse exemplo mostra como ilustrações podem acrescentar características que depois parecem pertencer ao texto original.
ASTAROTH COMO “GRANDE TESOUREIRO DO INFERNO”
Collin de Plancy também transmite uma tradição segundo a qual Astaroth ocupa função de tesoureiro ou grande tesoureiro infernal.
Essa função tornou-se bastante popular em enciclopédias modernas.
Mas não é uma das funções centrais atribuídas a ele pela Pseudomonarchia Daemonum ou pela descrição básica da Ars Goetia.
É uma camada posterior.
ASTAROTH E O OCIDENTE
Outra tradição posterior associa Astaroth à direção Oeste.
É necessário separar diferentes sistemas.
Os grimórios não apresentam todos a mesma geografia infernal.
Em algumas tradições, outros reis ou príncipes controlam direções cardeais.
Em textos posteriores, Astaroth recebe novas correspondências.
Portanto, “Astaroth governa o Oeste” precisa sempre ser acompanhado da identificação da tradição específica.
Não é um fato universal de toda demonologia.
ASTAROTH E O MÊS DE AGOSTO
Algumas enciclopédias demonológicas posteriores relacionam Astaroth ao mês de agosto.
Collin de Plancy registra sistemas que distribuem demônios entre meses e apresenta agosto associado a Astaroth.
Isso não aparece como característica central da descrição goética.
É uma correspondência posterior.
Esse tipo de diferença é importante para SEO e qualidade acadêmica porque muitas páginas modernas misturam todas as épocas como se fossem uma única tradição antiga.
ASTAROTH E A PREGUIÇA
Outra associação muito conhecida apresenta Astaroth como demônio da preguiça ou ociosidade.
Ela deriva de sistemas demonológicos posteriores, especialmente classificações morais que relacionavam determinados demônios a pecados e tentações.
Essa característica não constitui a principal descrição de Weyer nem da Ars Goetia.
Por isso, um artigo histórico precisa dizer:
Astaroth foi posteriormente associado à preguiça.
Não:
“A Ars Goetia diz que Astaroth é o demônio da preguiça.”
São afirmações diferentes.
ASTAROTH E AS CIÊNCIAS MATEMÁTICAS
Também existem tradições posteriores que ampliam a relação intelectual de Astaroth para campos específicos.
Matemática.
Artes mecânicas.
Tesouros.
Invisibilidade.
Essas atribuições aparecem em determinados grimórios e sistemas paralelos, mas não são todas idênticas ao núcleo de Weyer/Goetia.
A descrição goética é mais ampla:
artes liberais.
Portanto, listas modernas de especialidades devem sempre ser vinculadas à sua fonte.
O SELO DE ASTAROTH
A Ars Goetia associa um selo específico a Astaroth.
Ele se tornou um dos sigilos goéticos mais reconhecidos na cultura esotérica contemporânea.
Entretanto, a tradição do nome Astaroth é mais antiga que esse selo específico.
A edição crítica de Peterson observa que sigilos da Goetia não aparecem nos primeiros manuscritos conhecidos dos Offices of Spirits.
Existem outros caracteres associados a Astarot em manuscritos anteriores, mas eles não correspondem aos selos do Lemegeton.
Isso significa que o selo moderno não pode ser usado como prova de uma suposta continuidade desde a antiga Astarte.
ASTARTE POSSUÍA O SELO DE ASTAROTH?
Não existe base histórica para afirmar isso.
A antiga deusa possuía seus próprios cultos, símbolos e representações.
O sigilo goético pertence a uma tradição mágico-cerimonial europeia muito posterior.
Associar o selo a artefatos fenícios seria anacrônico.
ASTARTE E VÊNUS
Astarte possui relações históricas com o planeta Vênus dentro de tradições religiosas do antigo Oriente Próximo e de identificações posteriores.
Essa relação também se conecta ao parentesco cultural com Ishtar.
No mundo greco-romano, Astarte podia ser aproximada de Afrodite.
Essas identificações antigas e tardias são importantes para compreender a história da deusa.
Mas a correspondência astrológica de Astaroth nos sistemas ocultistas modernos não deve ser tratada como se fosse exatamente a mesma coisa.
Deusa antiga e demônio goético possuem histórias sobrepostas no nome, mas seus sistemas simbólicos foram transformados.
ASTARTE E AFRODITE
Durante a Antiguidade, processos de identificação entre divindades de diferentes culturas foram comuns.
Astarte podia ser interpretada através de categorias próximas a Afrodite em determinados ambientes mediterrânicos.
Isso não significa que fossem absolutamente idênticas em todos os aspectos.
O fenômeno é chamado frequentemente de sincretismo.
Culturas reconheciam semelhanças entre divindades e construíam equivalências aproximadas.
Esse processo é muito diferente da demonização cristã posterior.
DE DEUSA A DEMÔNIO
A história de Astaroth revela três processos diferentes que não devem ser confundidos.
Primeiro há sincretismo antigo, quando divindades de culturas diferentes são aproximadas.
Depois existe rejeição religiosa, quando a Bíblia condena cultos considerados rivais.
Finalmente ocorre demonização, quando tradições cristãs posteriores reinterpretam nomes pagãos como seres demoníacos.
Astaroth surge no final desse longo caminho.
ASTAROTH NA BÍBLIA?
A resposta depende de como a pergunta é formulada.
A deusa que está por trás do nome aparece na Bíblia Hebraica como Ashtoreth e em formas plurais relacionadas a Ashtaroth.
O Duque masculino da Ars Goetia, porém, não aparece na Bíblia.
A Bíblia não descreve um anjo deformado montado em dragão.
Não lhe atribui quarenta legiões.
Não fala de sua víbora.
Não menciona seu hálito.
Não afirma que ensina artes liberais.
Essas características pertencem a uma tradição demonológica muito posterior.
ASTAROTH É UM DEMÔNIO BÍBLICO?
Por isso, chamar Astaroth simplesmente de “demônio bíblico” é impreciso.
O nome possui raízes em tradições bíblicas e pré-bíblicas.
Mas o personagem goético é medieval e moderno em sua formação.
Uma descrição mais precisa seria:
Astaroth é uma figura demonológica europeia cujo nome deriva de tradições relacionadas à antiga deusa Astarte/Ashtoreth.
Essa formulação preserva tanto a relação quanto a diferença.
ASTAROTH ERA UMA DEUSA?
Outra pergunta frequente exige a mesma nuance.
Historicamente, o nome demonológico está relacionado a uma antiga deusa.
Mas dizer simplesmente que “Astaroth era uma deusa” pode criar impressão de continuidade absoluta.
Mais precisamente:
Astaroth desenvolveu-se em tradições demonológicas a partir de um nome historicamente relacionado a Astarte/Ashtoreth, divindade feminina do antigo Oriente Próximo.
Essa diferença linguística é pequena, mas historicamente fundamental.
ASTAROTH E O GÊNERO
A mudança de feminino para masculino tornou-se especialmente interessante para estudiosos da recepção religiosa.
Astarte era deusa.
Ashtoreth continua gramaticalmente feminina na tradição bíblica.
Ashtaroth pode ser plural feminino.
Astaroth dos grimórios torna-se Duque masculino.
Esse processo demonstra como o significado de um nome pode mudar completamente quando deslocado para outra cultura.
ASTAROTH É ISHTAR?
Não no sentido estrito.
Ishtar é uma grande deusa mesopotâmica.
Astarte é uma divindade semítica ocidental relacionada em nome e atributos.
Astaroth é uma entidade demonológica europeia posterior.
Existe uma história de relações, empréstimos e transformações.
Não existe uma identidade simples que permita usar os três nomes indistintamente sem contexto.
ASTAROTH É ASHERAH?
Não deve ser apresentado dessa maneira.
Asherah e Astarte pertencem ao ambiente religioso do antigo Levante, mas são figuras distintas na pesquisa histórica.
A semelhança de nomes e a tendência de antigas enciclopédias a fundir tradições diferentes contribuíram para confusão moderna.
Um artigo de qualidade deve evitar reproduzir essa confusão.
ASTAROTH E A CRIAÇÃO DOS ESPÍRITOS
Weyer afirma que Astaroth fala de bom grado sobre o Criador dos espíritos e sobre sua queda.
Essa função aproxima a entidade de questões teológicas.
Não está apenas relacionada ao conhecimento humano.
Dentro da narrativa, conhece acontecimentos anteriores à história da humanidade.
Isso torna Astaroth um personagem cosmológico.
TEOLOGIA PROIBIDA
Dentro de um contexto cristão tradicional, buscar respostas teológicas através de uma entidade demonológica criava uma contradição.
Se o espírito é considerado enganador, por que acreditar em sua versão sobre a criação?
Esse tipo de tensão atravessa muitos grimórios.
Eles prometem conhecimentos extraordinários através de seres que a própria tradição religiosa considera perigosos.
Astaroth representa esse paradoxo de maneira particularmente clara.
ASTAROTH COMO FIGURA DO CONHECIMENTO PROIBIDO
Em uma leitura simbólica contemporânea, o personagem pode representar a busca por conhecimentos que ultrapassam limites estabelecidos.
Como os espíritos caíram?
Como surgiu determinada ordem?
O que aconteceu no passado?
O que ocorrerá no futuro?
Quais segredos permanecem escondidos?
Astaroth é constantemente relacionado àquilo que não é imediatamente acessível.
Essa característica permite interpretá-lo como figura do conhecimento proibido, escondido ou perigoso.
Essa é uma interpretação moderna construída sobre funções documentadas.
O PREÇO DO CONHECIMENTO
Sua iconografia acrescenta um elemento interessante.
O conhecimento vem acompanhado por hálito pestilento.
A aproximação é perigosa.
Simbolicamente, isso permite uma leitura poderosa:
nem todo conhecimento é neutro.
Certas informações podem alterar uma pessoa.
Podem destruir ilusões.
Podem produzir responsabilidade.
Podem ser utilizadas de maneira nociva.
A proximidade com aquilo que se deseja conhecer pode possuir consequências.
O grimório não formula essa filosofia explicitamente, mas seus elementos permitem essa leitura.
ASTAROTH COMO SÍMBOLO DA CURIOSIDADE SEM LIMITES
A curiosidade é essencial ao conhecimento.
Sem perguntas não existe ciência.
Mas curiosidade sem ética também pode produzir problemas.
Nem tudo que pode ser descoberto deve necessariamente ser utilizado de qualquer maneira.
Astaroth, simbolicamente, pode representar a curiosidade que ultrapassa fronteiras sem avaliar consequências.
CONHECIMENTO E HUMILDADE
Existe ainda outra interpretação possível.
Astaroth possui enorme conhecimento.
Mas sua aparência é degradada.
Dentro da narrativa, ele caiu.
Conhecimento não o impediu da queda.
Assim, simbolicamente, inteligência sem prudência ou humildade pode ser insuficiente.
Essa leitura pode ser especialmente interessante quando comparada ao antigo tema religioso da soberba intelectual.
A APARÊNCIA DO ANJO DEFORMADO
A imagem de um anjo sem beleza reforça simbolicamente a ideia de capacidade elevada em condição degradada.
Ele conserva conhecimento.
Conserva algo da forma angelical.
Mas perdeu a beleza associada à ordem celestial.
Dentro da demonologia cristã, isso comunica queda.
Em uma leitura psicológica contemporânea, pode representar talento que não foi acompanhado por desenvolvimento ético.
O DRAGÃO COMO INSTINTO OU PODER
A montaria dracônica também permite diferentes leituras modernas.
Pode simbolizar força.
Instinto.
Perigo.
Poder difícil de controlar.
Astaroth não é o dragão.
Ele o monta.
Isso permite interpretá-lo como figura de uma inteligência que utiliza forças poderosas.
Mas, novamente, o texto não oferece essa explicação.
A VÍBORA COMO CONHECIMENTO AMBÍGUO
A serpente também possui natureza simbólica ambígua.
Pode curar e matar.
Pode representar sabedoria e engano.
Essa ambivalência combina particularmente bem com uma entidade relacionada a segredos.
Conhecimento pode libertar.
Pode também ser utilizado para enganar.
A víbora torna-se, numa leitura contemporânea, um símbolo apropriado dessa duplicidade.
ASTAROTH COMO FIGURA DA MEMÓRIA
Conhecer o passado significa preservar aquilo que poderia desaparecer.
Em uma interpretação simbólica, Astaroth também pode representar memória histórica.
O problema é que memória não é necessariamente neutra.
Quem conta o passado interpreta.
Quem possui informação controla narrativas.
Astaroth conhece o passado e os segredos.
Isso cria uma figura simbolicamente ligada ao poder da informação histórica.
ASTAROTH COMO FIGURA DA PREVISÃO
Conhecer o futuro representa outro tipo de poder.
Empresas tentam prever mercados.
Governos produzem cenários.
Cientistas constroem modelos.
Pessoas planejam suas próprias vidas.
Embora o contexto moderno seja completamente diferente da adivinhação dos grimórios, a motivação humana permanece:
reduzir incerteza.
Astaroth pode simbolicamente representar essa busca por previsão.
PREVISÃO NÃO É CERTEZA
A leitura contemporânea também oferece uma advertência.
Modelos podem falhar.
Informações podem estar incompletas.
Previsões dependem de premissas.
O desejo de certeza absoluta pode fazer pessoas aceitarem respostas que parecem confiáveis apenas porque são apresentadas com autoridade.
Essa reflexão aproxima Astaroth de problemas modernos de informação.
ASTAROTH E A ERA DA INFORMAÇÃO
A figura torna-se surpreendentemente atual quando interpretada simbolicamente.
Hoje temos acesso a uma quantidade de informações inimaginável para leitores dos grimórios.
Mas acesso não significa compreensão.
Segredos podem ser revelados.
Dados podem ser obtidos.
Previsões podem ser produzidas.
E ainda assim permanece a necessidade de discernimento.
Astaroth pode representar simbolicamente essa tensão entre quantidade de conhecimento e qualidade de julgamento.
A INFORMAÇÃO TAMBÉM PODE SER TÓXICA
A imagem do hálito pestilento permite uma analogia contemporânea ainda mais forte.
Informação falsa pode contaminar.
Propaganda pode contaminar.
Rumores podem contaminar.
Conhecimento obtido fora de contexto pode produzir conclusões erradas.
A metáfora do hálito não precisa ser tomada literalmente para produzir uma reflexão sobre os riscos associados à circulação de informação.
Essa interpretação é moderna e deve permanecer claramente separada do texto histórico.
ASTAROTH NA CULTURA POPULAR
Astaroth tornou-se um dos nomes demonológicos mais conhecidos.
Aparece em romances, jogos, filmes, animações, quadrinhos e música.
Essas versões frequentemente não possuem qualquer compromisso com a descrição histórica.
Algumas apresentam Astaroth como criatura gigantesca.
Outras como mulher.
Outras como guerreiro.
Outras como deus.
Outras como título.
Essa diversidade pertence à cultura popular contemporânea.
Não deve ser utilizada como fonte para reconstruir a tradição goética.
ASTAROTH FEMININO NA CULTURA MODERNA
Curiosamente, algumas obras modernas voltaram a representar Astaroth como figura feminina.
Isso às vezes ocorre devido à lembrança de Astarte.
Em outros casos é apenas escolha artística.
Uma representação moderna feminina não restaura automaticamente a antiga deusa histórica.
Da mesma forma, uma representação masculina goética não descreve a religião fenícia.
São camadas diferentes.
ASTAROTH NO DICTIONNAIRE INFERNAL NÃO É ASTARTE
Essa distinção merece repetição justamente por causa da força da imagem.
A gravura do século XIX tornou-se tão famosa que aparece em páginas sobre Astarte antiga.
Esse uso é historicamente incorreto.
Uma obra sobre religião fenícia deveria utilizar evidências arqueológicas relacionadas à deusa.
Uma obra sobre demonologia europeia pode utilizar a gravura de Astaroth.
Misturar as duas imagens produz uma falsa continuidade visual.
COMO ESTUDAR ASTAROTH CORRETAMENTE?
O método mais seguro consiste em trabalhar com camadas cronológicas.
Primeiro, a antiga Astarte/Ashtart.
Depois, Ashtoreth e Ashtaroth na tradição bíblica.
Em seguida, a recepção cristã e medieval das divindades pagãs.
Depois, os catálogos mágicos europeus anteriores a Weyer.
Em seguida, Weyer e Scot.
Depois, o Lemegeton.
Finalmente, a demonologia dos séculos XVIII e XIX e o ocultismo moderno.
Quando essas etapas são separadas, a história torna-se muito mais clara.
ASTAROTH NÃO TEM UMA ÚNICA “BIOGRAFIA”
Essa talvez seja a conclusão metodológica mais importante.
Astaroth não possui uma única biografia transmitida intacta durante três milênios.
Possui várias histórias sobrepostas.
História religiosa antiga.
História bíblica.
História da demonização.
História dos grimórios.
História da arte demonológica.
História do ocultismo.
História da cultura popular.
O pesquisador precisa identificar de qual Astaroth está falando em cada momento.
FICHA HISTÓRICA DE ASTAROTH
- Nome principal na Ars Goetia: Astaroth.
- Posição na Ars Goetia: 29º espírito.
- Posição na Pseudomonarchia Daemonum: 28º.
- Hierarquia: Grande e Poderoso Duque.
- Aparência goética: figura angelical desagradável ou deformada.
- Montaria: criatura descrita como dragão infernal.
- Objeto característico: víbora na mão direita.
- Característica física: hálito ou sopro pestilento na tradição goética.
- Principais atribuições: conhecimento de passado, presente e futuro; revelação de segredos; conhecimento da queda dos espíritos; ensino das artes liberais.
- Legiões: 40.
- Testemunhos anteriores a Weyer: o nome Astarot/Astaroth aparece em tradições manuscritas anteriores ao catálogo de 1577, inclusive em material florentino do final do século XV.
- Antecedente nominal antigo: Astarte/Ashtart, divindade feminina semítica ocidental.
- Forma bíblica singular: Ashtoreth.
- Forma bíblica plural relacionada: Ashtaroth.
- Relação com Ishtar: historicamente relacionada e linguisticamente aparentada, mas não idêntica em todos os contextos.
- Relação com Asherah: não devem ser tratadas automaticamente como a mesma divindade.
- Origem do personagem goético completo na Bíblia: não; a descrição demonológica pertence a tradição posterior.
PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE ASTAROTH
Quem é Astaroth na Ars Goetia?
Astaroth é o 29º espírito da Ars Goetia. É classificado como Grande e Poderoso Duque e governa 40 legiões.
Qual é a aparência de Astaroth?
Na tradição goética, apresenta-se como uma figura angelical desagradável ou degradada, montada sobre um dragão infernal e carregando uma víbora.
Astaroth possui hálito venenoso?
A Ars Goetia afirma que sua proximidade seria perigosa devido ao hálito pestilento. Isso pertence à narrativa do grimório.
Astaroth conhece o futuro?
Sim. Weyer e a Goetia atribuem a ele conhecimento de passado, presente e futuro.
Astaroth revela segredos?
Sim. Essa é uma das atribuições tradicionais mais estáveis.
Astaroth ensina ciências?
A tradição afirma que torna pessoas extremamente instruídas nas artes liberais, categoria educacional que abrangia disciplinas do Trivium e Quadrivium.
Quantas legiões Astaroth governa?
As principais fontes de Weyer e da Goetia registram 40.
Astaroth sempre foi o nº 29?
Não. Na Pseudomonarchia Daemonum, aparece como nº 28.
Astaroth aparece antes de Weyer?
Sim. O nome aparece em tradições manuscritas de espíritos anteriores ao catálogo publicado por Weyer.
Astaroth aparece no Livro de Abramelin?
Uma forma Astarot aparece na tradição de Abramelin entre importantes espíritos subordinados.
Astaroth é Astarte?
Existe uma relação histórica muito forte entre os nomes, mas não é correto tratar a deusa antiga e o duque goético como figuras absolutamente idênticas em todas as épocas.
Quem era Astarte?
Astarte era uma importante divindade feminina do antigo Levante, particularmente associada a culturas fenícias e cananeias.
Astarte aparece na Bíblia?
A deusa aparece na tradição bíblica principalmente sob a forma Ashtoreth e em plurais relacionados a Ashtaroth.
O que significa Ashtoreth?
É a forma bíblica associada à deusa Ashtart/Astarte. Uma explicação filológica tradicional entende sua vocalização como influenciada de forma depreciativa pela palavra hebraica associada a “vergonha”.
O que significa Ashtaroth?
É uma forma plural utilizada em determinados textos bíblicos, podendo funcionar coletivamente para divindades femininas.
Astaroth era originalmente mulher?
O antecedente religioso relacionado ao nome é uma divindade feminina. O personagem demonológico dos grimórios é posteriormente apresentado como masculino.
Astaroth é Ishtar?
Não de maneira simples. Astarte e Ishtar pertencem a tradições historicamente relacionadas; Astaroth é uma construção demonológica posterior.
Astaroth é Asherah?
Não é historicamente seguro tratá-las como a mesma figura. Astarte e Asherah são normalmente diferenciadas no estudo das religiões do antigo Levante.
Astaroth é um demônio bíblico?
O Duque da Goetia não aparece na Bíblia com sua descrição demonológica. Seu nome possui raízes relacionadas à Ashtoreth bíblica e à antiga Astarte.
Astaroth é um anjo caído?
A tradição goética o apresenta com forma angelical degradada e associa sua fala à queda dos espíritos. Contudo, as fontes principais não fornecem uma biografia celestial completa.
Qual era a ordem angelical de Astaroth?
A Goetia e Weyer não estabelecem de maneira clara uma biografia anterior à queda com uma ordem angelical específica. Classificações detalhadas encontradas em demonólogos posteriores pertencem a outros sistemas.
Astaroth é o demônio da preguiça?
Essa associação aparece em demonologias posteriores. Não constitui a principal definição de Astaroth em Weyer ou na Ars Goetia.
Astaroth é o tesoureiro do Inferno?
Essa função aparece em tradições demonológicas posteriores, como as compiladas por Collin de Plancy, não no núcleo básico da descrição de Weyer.
Astaroth governa o Oeste?
Algumas tradições posteriores fazem essa associação, mas ela não deve ser apresentada como correspondência universal de todas as fontes.
Astaroth é associado ao mês de agosto?
Alguns sistemas demonológicos posteriores apresentam essa correspondência. Não é uma característica central da descrição original da Goetia.
A imagem do Dictionnaire Infernal é antiga?
É histórica, mas pertence ao século XIX. Não representa arte fenícia nem uma imagem antiga de Astarte.
ASTAROTH EM WEYER E NA ARS GOETIA
Em Johann Weyer encontramos Astaroth como nº 28.
É Grande e Poderoso Duque.
Aparece sob forma angelical degradada.
Monta um dragão infernal.
Carrega uma víbora.
Conhece passado, presente e futuro.
Revela segredos.
Fala da criação ou origem dos espíritos e de sua queda.
Ensina artes liberais.
Governa 40 legiões.
Na Ars Goetia, Astaroth torna-se nº 29.
A descrição permanece quase integralmente reconhecível.
A principal versão manuscrita acrescenta ou enfatiza particularmente a advertência a respeito de seu hálito pestilento e a proteção fornecida pelo anel dentro da estrutura ritual.
Todo o restante permanece extremamente próximo da tradição anterior.
ASTARTE E ASTAROTH: COMPARAÇÃO HISTÓRICA
Astarte pertence à religião antiga.
Astaroth pertence à demonologia europeia.
Astarte é feminina.
Astaroth é tratado como masculino.
Astarte possui culto documentado arqueologicamente.
Astaroth possui tradição documentada em manuscritos mágicos e demonológicos.
Astarte está associada a Sidon, Fenícia, Chipre e outras regiões do Mediterrâneo oriental.
Astaroth aparece em catálogos mágicos europeus.
Astarte possui iconografia religiosa antiga.
Astaroth recebe iconografia demonológica moderna.
A relação entre ambos está sobretudo no nome e no processo histórico de recepção e demonização.
Essa é a maneira mais precisa de preservar simultaneamente continuidade e diferença.
INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DE ASTAROTH
Separada da história documental, a figura goética permite uma interpretação particularmente rica.
Sua forma angelical degradada pode representar conhecimento elevado sem ordem moral.
O dragão pode simbolizar poder difícil de controlar.
A víbora pode representar conhecimento ambíguo.
O hálito pestilento pode simbolizar consequências tóxicas.
O conhecimento temporal representa capacidade de observar passado, presente e possibilidades futuras.
Os segredos representam aquilo que permanece escondido.
As artes liberais representam aprendizado sistemático.
A queda representa perda.
Quando esses elementos são reunidos, Astaroth pode ser interpretado contemporaneamente como uma figura da inteligência poderosa que precisa ser acompanhada por discernimento ético.
Essa interpretação é autoral e contemporânea.
Não é uma doutrina atribuída aos manuscritos antigos.
ASTAROTH COMO SÍMBOLO DA INTELIGÊNCIA SEM PRUDÊNCIA
Conhecer muito não significa julgar bem.
Uma pessoa pode possuir formação extraordinária e ainda tomar decisões destrutivas.
Pode conhecer fatos e não compreender consequências.
Pode dominar técnicas e não possuir ética.
Astaroth, simbolicamente, permite explorar essa diferença.
Ele possui enorme conhecimento.
Mas sua história é a história de uma queda.
ASTAROTH COMO SÍMBOLO DO SEGREDO
Segredos oferecem poder porque criam assimetria de informação.
Quem sabe algo que os outros desconhecem possui vantagem.
Essa vantagem pode ser utilizada para proteção.
Para investigação.
Para manipulação.
Para controle.
Astaroth reúne segredo e conhecimento de maneira especialmente forte.
Por isso, pode simbolizar a responsabilidade associada a informações privilegiadas.
ASTAROTH COMO SÍMBOLO DA HISTÓRIA
Talvez sua própria trajetória seja seu simbolismo mais interessante.
Astaroth nasceu historicamente de sucessivas interpretações de um nome antigo.
Uma deusa tornou-se nome condenado em textos religiosos.
O nome foi transmitido por traduções.
O plural transformou-se em identidade singular.
A figura mudou de gênero.
Entrou em catálogos demonológicos.
Recebeu um título aristocrático.
Recebeu nova aparência.
Recebeu selo.
Foi redesenhada no século XIX.
Entrou na cultura popular.
A história de Astaroth é, portanto, também uma história sobre como sociedades reinterpretam o passado.
A DEMONIZAÇÃO COMO TRANSFORMAÇÃO CULTURAL
Quando uma religião substitui ou entra em conflito com outra, figuras religiosas anteriores podem mudar de categoria.
Deus pode tornar-se demônio.
Espírito pode tornar-se superstição.
Ritual pode tornar-se heresia.
Astaroth representa de maneira particularmente clara esse fenômeno.
Compreendê-lo historicamente não exige acreditar ou desacreditar nas entidades.
Exige apenas acompanhar o que os documentos fizeram com o nome ao longo do tempo.
CONCLUSÃO
Astaroth é uma das figuras mais importantes de toda a tradição goética porque sua história permite observar um processo muito mais antigo que a própria Ars Goetia.
Na Goetia, ele é o 29º espírito.
Grande e Poderoso Duque.
Quarenta legiões.
Um anjo de aparência degradada.
Um dragão infernal como montaria.
Uma víbora na mão.
Um hálito perigoso.
Conhecimento de passado, presente e futuro.
Segredos.
Artes liberais.
A queda dos espíritos.
Essa imagem já estava quase completamente formada em Johann Weyer, onde Astaroth ocupa a posição 28.
Mas o nome é muito mais antigo.
A antiga Astarte foi uma importante deusa do Levante.
Seu culto deixou inscrições, objetos, santuários e evidências arqueológicas.
Na Bíblia Hebraica, a deusa aparece como Ashtoreth, deusa dos sidônios, enquanto formas plurais relacionadas a Ashtaroth aparecem em outros contextos.
Durante séculos, essas formas nominais atravessaram traduções e disputas religiosas.
A divindade passou a ser interpretada negativamente.
A linguagem religiosa mudou.
Astarte tornou-se, na recepção demonológica, Astaroth.
Mas esse processo não preservou sua identidade intacta.
A deusa feminina transformou-se em Duque masculino.
O antigo culto mediterrânico transformou-se em hierarquia infernal europeia.
A iconografia religiosa transformou-se em anjo degradado, dragão e serpente.
Séculos mais tarde, Collin de Plancy e os ilustradores do Dictionnaire Infernal acrescentariam ainda outras camadas visuais e hierárquicas.
Astaroth mostra, portanto, por que história da religião e demonologia precisam ser estudadas cronologicamente.
Sem cronologia, tudo parece uma única tradição.
Com cronologia, enxergamos transformação.
Astarte não é simplesmente Astaroth.
Ashtoreth não é simplesmente o Duque da Goetia.
Ashtaroth não é prova de que a Bíblia descrevia o demônio masculino conhecido posteriormente.
E a gravura do século XIX não é uma imagem de uma deusa fenícia.
Cada etapa possui seu próprio contexto.
Ao mesmo tempo, negar qualquer relação entre esses nomes seria igualmente incorreto.
Existe uma continuidade.
Mas é uma continuidade de recepção, reinterpretacão e transformação, não de identidade imutável.
Esse equilíbrio torna Astaroth particularmente valioso para qualquer estudo sério da demonologia.
Ele demonstra como um nome pode sobreviver durante milênios e, ainda assim, mudar radicalmente de significado.
No antigo Levante, o nome remetia a uma divindade.
Na Bíblia, tornou-se objeto de condenação religiosa.
Nos grimórios, tornou-se espírito demonológico.
Na Goetia, tornou-se o 29º Duque.
No século XIX, ganhou uma imagem hoje mundialmente reconhecida.
Na cultura contemporânea, transformou-se novamente.
Em uma interpretação simbólica moderna, Astaroth pode representar o poder e o perigo do conhecimento.
Ele sabe.
Revela.
Explica.
Recorda.
Prevê.
Ensina.
Mas sua forma continua ligada à queda.
Essa tensão permite uma reflexão que ultrapassa o ocultismo:
conhecimento amplia poder, mas somente discernimento determina aquilo que faremos com ele.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA HEBRAICA. Especialmente passagens relacionadas a Ashtoreth e Ashtaroth, incluindo 1 Reis 11 e outras referências aos cultos estrangeiros no antigo Israel.
WEYER, Johann. De Praestigiis Daemonum. Obra inicialmente publicada em 1563 e ampliada em edições posteriores.
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo que apresenta Astaroth na posição 28 como poderoso Duque e preserva grande parte das características posteriormente encontradas na Goetia.
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. Londres, 1584. Importante etapa inglesa da transmissão do catálogo demonológico associado a Weyer.
LEMEGETON CLAVICULA SALOMONIS. Tradição manuscrita da obra conhecida como The Lesser Key of Solomon, principalmente sua primeira parte, Ars Goetia.
SLOANE MS 3825. Manuscrito fundamental para o estudo crítico da versão da Ars Goetia na qual Astaroth aparece como nº 29.
BOOK OF ABRAMELIN. Tradição mágico-cerimonial que preserva Astarot entre importantes espíritos subordinados.
COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. Particularmente importante para acompanhar a transformação e popularização de Astaroth na demonologia do século XIX.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Objetos arqueológicos relacionados à presença e veneração de Astarte em Chipre.
MUSÉE DU LOUVRE. Trône d’Astarté, monumento helenístico com inscrição fenícia dedicada a Ashtart.
JEWISH ENCYCLOPEDIA / ENCYCLOPAEDIA JUDAICA. Referências filológicas e históricas para Ashtoreth, Ashtaroth e Astarte.
PETERSON, Joseph H. Edições e comparações críticas da Pseudomonarchia Daemonum, Ars Goetia e manuscritos relacionados aos Offices of Spirits.