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Luciferianismo, História e Filosofia

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Home/Biblioteca/Demonologia/72 Daemons da Ars Goetia/Gaap — História, Simbolismo E Tradição Do 33º Espírito Da Ars Goetia
Templo de Lúcifer Gaap
72 Daemons da Ars Goetia

Gaap — História, Simbolismo E Tradição Do 33º Espírito Da Ars Goetia

By Emrys
abril 18, 2026
0

Gaap, também registrado como Tap e relacionado em diferentes testemunhos a formas como Caap, Toab e possivelmente Goap, ocupa a posição de 33º espírito da Ars Goetia. Sua descrição é uma das mais complexas de toda a primeira metade do catálogo porque combina autoridade política, conhecimento filosófico, influência sobre sentimentos, alteração da percepção, invisibilidade, conhecimento temporal, deslocamento extraordinário e domínio sobre relações entre praticantes e espíritos familiares.

Na Ars Goetia, Gaap possui simultaneamente dois títulos:

Grande Presidente e Poderoso Príncipe.

Essa dupla classificação já existia antes do Lemegeton. Johann Weyer registra Gaap, alias Tap, igualmente como Presidente e Príncipe, na Pseudomonarchia Daemonum.

A posição, entretanto, é diferente.

Na organização latina de Weyer, Gaap aparece como §36.

Na Ars Goetia, torna-se nº 33.

Sua manifestação principal é humana.

O texto goético afirma que ele aparece quando o Sol se encontra em determinados “signos do sul”, assumindo forma humana e seguindo ou precedendo quatro grandes reis como uma espécie de guia.

Essa conhecida formulação, porém, possui uma história textual muito mais complicada do que normalmente se percebe.

Weyer não escreve exatamente a mesma frase.

Sua expressão latina é:

in signo Meridiei apparet.

A tradução de Scot fala em um “signo meridional”.

A Ars Goetia desenvolve isso para uma referência ao Sol em determinados signos meridionais.

Já Collin de Plancy, no século XIX, interpreta a passagem como uma aparição ao meio-dia.

Ou seja, até mesmo o momento ou condição da manifestação de Gaap sofreu transformação durante a transmissão.

Além disso, Gaap possui uma das histórias manuscritas mais interessantes do catálogo.

O Livre des Esperitz, manuscrito francês do século XV, apresenta um Caap classificado como grande príncipe, aparecendo como cavaleiro, respondendo verdadeiramente às perguntas, trazendo ouro e prata e governando vinte legiões.

A mesma obra contém ainda outro nome extremamente semelhante, Coap, também Grande Príncipe, mas com funções diferentes e 27 legiões.

Essa coexistência demonstra que a genealogia nominal de Gaap não pode ser reconstruída apenas pela semelhança entre palavras.

Em outro testemunho manuscrito, Clm 849, aparece ainda a forma Toab, acompanhada de uma descrição alternativa relacionada às mulheres e ao amor.

Gaap é, portanto, uma excelente demonstração de como um espírito dos grimórios não possui necessariamente uma única biografia textual fixa.

Seu nome mudou.

Sua posição mudou.

Algumas funções mudaram.

Seu número de legiões mudou entre tradições.

Sua hierarquia foi reinterpretada.

Até mesmo sua relação com os quatro grandes reis permanece problemática.

E, apesar disso, um núcleo suficientemente forte sobreviveu para que possamos acompanhar sua trajetória ao longo dos séculos.

QUEM É GAAP NA ARS GOETIA?

Na Ars Goetia, Gaap ocupa a posição número 33.

É descrito como:

Grande Presidente

e

Poderoso Príncipe.

Sua manifestação é humana.

Ele aparece associado a quatro grandes reis, aparentemente conduzindo-os.

Entre suas principais funções estão:

ensinar filosofia;

ensinar as artes liberais;

causar amor;

causar ódio;

produzir insensibilidade;

dar respostas verdadeiras sobre passado, presente e futuro;

ensinar determinadas formas de consagração relacionadas ao domínio de Amaymon;

libertar espíritos familiares da custódia de outros magos;

transportar pessoas rapidamente de um reino para outro.

A tradição goética afirma ainda que Gaap governa 66 legiões de espíritos e que anteriormente pertenceu à ordem das Potestades ou Powers.

Esse conjunto de competências torna Gaap uma entidade incomum.

Ele não possui apenas uma especialidade.

Opera sobre:

conhecimento;

emoções;

percepção;

relações espirituais;

tempo;

movimento;

e hierarquia.

Por isso, qualquer tentativa de reduzi-lo simplesmente a um “demônio do conhecimento” ou a um “espírito de viagem” perde grande parte de sua identidade histórica.

GAAP, TAP, CAAP, TOAB OU GOAP?

As variantes nominais constituem uma das principais dificuldades do estudo de Gaap.

A forma mais conhecida atualmente é:

Gaap.

Weyer registra explicitamente:

Gaap, alias Tap.

Ou seja, Gaap e Tap são tratados por ele como o mesmo personagem.

A comparação de manuscritos feita por Joseph H. Peterson registra ainda:

Toab, no Clm 849;

e

Caap, no manuscrito Trinity associado ao Livre des Esperitz.

A forma Goap também aparece em tradições relacionadas.

Mas aqui surge um problema importante.

Goap pode não ser simplesmente uma grafia alternativa sem consequências.

Em determinadas partes das tradições salomônicas, Goap aparece como um dos quatro reis associados às direções cardeais.

Entretanto, Gaap é descrito em sua própria entrada como Presidente e Príncipe, não como Rei.

Peterson chega a observar que o Goap do esquema dos quatro reis pode não ser o mesmo Gaap da entrada individual.

Isso exige cautela.

GAAP E GOAP SÃO A MESMA ENTIDADE?

Não é possível responder com absoluta segurança para todas as fontes.

Em literatura ocultista moderna, Gaap e Goap são frequentemente tratados como variantes do mesmo nome.

Essa identificação é compreensível.

As formas são extremamente próximas.

Além disso, tradições posteriores tendem a fundi-las.

Mas a crítica textual apresenta uma dificuldade.

A própria estrutura do Lemegeton pode diferenciar:

Gaap — Presidente e Príncipe;

Goap — nome utilizado numa lista de reis cardeais.

Isso não prova definitivamente que fossem entidades separadas.

Pode representar apenas inconsistência manuscrita.

Mas também significa que não devemos transformar a identidade em certeza absoluta.

A formulação historicamente responsável é:

Gaap e Goap foram frequentemente identificados entre si, mas os manuscritos preservam inconsistências que tornam essa equivalência menos simples do que sugerem os resumos modernos.

CAAP NO LIVRE DES ESPERITZ

O Livre des Esperitz oferece um antecedente especialmente interessante.

Nele encontramos Caap.

Caap é classificado como Grande Príncipe.

Aparece na forma de um cavaleiro.

Responde verdadeiramente ao que lhe é perguntado.

Pode trazer ouro e prata.

E governa 20 legiões.

Essa descrição difere profundamente do Gaap de Weyer.

Não encontramos filosofia.

Não encontramos artes liberais.

Não encontramos familiares.

Não encontramos 66 legiões.

Não encontramos Potestades.

Não encontramos explicitamente os quatro grandes reis.

Mesmo assim, nome e título apresentam semelhanças suficientes para que estudos comparativos relacionem Caap à linhagem textual de Gaap.

CAAP E GAAP: CONTINUIDADE OU COINCIDÊNCIA?

A hipótese de continuidade é bastante plausível.

Mas precisa ser apresentada como hipótese textual forte, não como identidade absolutamente comprovada.

O nome aproxima.

O título de príncipe aproxima.

A tradição manuscrita comparativa aproxima.

Porém, as funções são diferentes.

Isso pode indicar evolução.

Um personagem inicialmente associado a respostas verdadeiras e riquezas poderia ter adquirido novas funções com o passar do tempo.

Mas também existe um complicador:

o mesmo Livre des Esperitz possui um Coap separado.

COAP NO LIVRE DES ESPERITZ

Coap aparece pouco antes de Caap.

Também é Grande Príncipe.

Sua função, porém, está relacionada principalmente a mulheres, atração e transformação de sua condição.

A leitura do manuscrito é difícil em alguns pontos, mas a figura parece estar ligada a fazer mulheres amar e deslocarem-se até determinado lugar.

Coap governa 27 legiões.

Temos, então, no mesmo manuscrito:

Coap

e

Caap.

Isso é extremamente importante.

Se duas formas tão semelhantes coexistem como personagens distintos, não podemos simplesmente fundir qualquer grafia parecida encontrada em outras fontes.

COAP PODE TER INFLUENCIADO GAAP?

Essa possibilidade merece consideração.

Gaap, mais tarde, passa a possuir funções relacionadas a amor.

Coap já possui funções semelhantes.

Caap possui outra descrição.

É possível que tradições manuscritas distintas tenham contribuído para uma futura consolidação.

Mas essa reconstrução é especulativa.

Não existe documento conhecido dizendo explicitamente:

“Coap e Caap foram unidos e formaram Gaap.”

O pesquisador pode observar coincidências.

Não deve transformar coincidências em certeza.

TOAB NO MANUSCRITO CLM 849

Outra variante acrescenta ainda mais complexidade.

O manuscrito Clm 849 preserva uma forma identificada por Peterson como Toab.

A passagem difere da linha de Weyer.

Ela apresenta o espírito como uma espécie de excelente “médico das mulheres” e associa-o a fazer mulheres arderem de amor pelos homens.

Essa função aproxima Toab curiosamente do Coap do Livre des Esperitz.

Isso pode indicar que diferentes tradições relacionadas ao nome circularam e foram parcialmente combinadas.

Outra possibilidade é que um copista tenha incorporado material proveniente de outro espírito.

Sem documentação intermediária, não podemos decidir.

Mas o fenômeno demonstra que Gaap possuía uma tradição muito menos estável antes da impressão de Weyer.

O QUE A HISTÓRIA MANUSCRITA DE GAAP MOSTRA?

Mostra que os catálogos demonológicos não foram produzidos de maneira simples.

Eles não surgiram como uma lista perfeitamente organizada transmitida intacta desde a Antiguidade.

Nomes foram copiados.

Funções foram deslocadas.

Variantes surgiram.

Alguns personagens foram fundidos.

Outros talvez tenham sido divididos.

Números de legiões mudaram.

Títulos permaneceram ou desapareceram.

Gaap é um dos melhores exemplos desse processo.

GAAP NA PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM

Johann Weyer apresenta Gaap como:

Gaap, alias Tap.

Na edição latina comparada por Peterson, ocupa o §36.

É classificado como:

Grande Presidente;

e Príncipe.

Aparece em um “signo meridional” e, quando assume forma humana, é descrito como guia dos quatro principais reis.

Weyer ainda afirma que é tão poderoso quanto Bileth.

A descrição depois entra numa longa digressão sobre antigos necromantes, Bileth, livros mágicos e atribuições pseudo-salomônicas.

Ao final, retorna às capacidades de Gaap.

POR QUE ALGUMAS LISTAS COLOCAM GAAP COMO Nº 35 EM WEYER?

Aqui existe uma dificuldade editorial real.

A numeração da versão latina e a contagem de determinadas traduções ou reconstruções não coincide perfeitamente.

A edição latina consultada por Peterson identifica Gaap como §36.

Entretanto, algumas edições baseadas na sequência inglesa de Scot numeram Gaap como 35.

A diferença está relacionada a problemas de transmissão e enumeração da lista, especialmente porque os catálogos de Weyer, Scot e da Goetia não contêm exatamente os mesmos nomes ou posições.

Para manter consistência histórica, neste artigo adotamos:

Weyer latino: §36.

Ars Goetia: nº 33.

Quando outra obra utilizar 35, deve-se verificar qual enumeração está seguindo.

GAAP Nº 36 EM WEYER E Nº 33 NA GOETIA

A diferença é, portanto:

Weyer: 36.

Goetia: 33.

Gaap desloca-se três posições.

Mas quase todas as funções da linha principal permanecem.

Presidente e Príncipe.

Forma humana.

Quatro reis.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor e ódio.

Invisibilidade.

Consagração.

Familiares.

Conhecimento temporal.

Transporte rápido.

66 legiões.

Potestades.

Isso demonstra uma enorme estabilidade funcional entre Weyer e o Lemegeton.

JOHANN WEYER E GAAP

Johann Weyer publicou De Praestigiis Daemonum originalmente em 1563.

A obra ficou famosa por participar da discussão sobre bruxaria e perseguições na Europa moderna.

Weyer criticou aspectos dos processos contra pessoas acusadas de feitiçaria.

Isso não significa que negasse completamente a existência de demônios.

Seu pensamento permanecia profundamente inserido na cosmologia cristã do século XVI.

A Pseudomonarchia Daemonum apareceu em edições posteriores de sua obra como catálogo de espíritos.

Gaap ocupa ali uma posição especialmente longa devido a uma digressão sobre a origem de determinadas práticas mágicas.

GAAP, BILETH E A HISTÓRIA DE CAM

A entrada de Weyer afirma que determinados necromantes faziam ofertas e sacrifícios relacionados à tradição de Gaap e Bileth.

O texto atribui ainda uma narrativa curiosa a Cam, filho de Noé.

Segundo Weyer, não teria sido Salomão quem primeiro compôs determinada arte relacionada a Bileth, mas Cam, depois do Dilúvio.

Essa história pertence à tradição demonológica de Weyer.

Não possui suporte na narrativa bíblica canônica sobre Cam.

A Bíblia não conta que Cam tenha produzido um livro de invocação de Bileth.

Portanto, essa afirmação deve ser compreendida como lenda demonológica renascentista.

CAM NÃO É “CRIADOR DA MAGIA” NA BÍBLIA

Essa distinção é importante.

Tradições medievais e modernas atribuíram inúmeras histórias aos descendentes de Noé.

Algumas procuravam explicar origens de astrologia, magia, idolatria ou conhecimentos secretos.

A associação de Cam com invocação de espíritos pertence a esse universo lendário.

Não deve ser apresentada como fato bíblico.

GAAP ERA TÃO PODEROSO QUANTO BILETH?

Weyer afirma que Gaap era tão poderoso quanto Bileth.

Dentro da lógica do catálogo, essa comparação reforça seu status elevado.

Bileth é Rei.

Gaap é Presidente e Príncipe.

Mesmo assim, a comparação sugere que título e capacidade não obedeciam necessariamente a uma escala completamente rígida.

Uma entidade com título inferior podia ser apresentada como tão poderosa quanto outra de dignidade real.

REGINALD SCOT E GAAP

Em 1584, Reginald Scot publicou The Discoverie of Witchcraft.

Sua obra incorporou uma tradução inglesa do catálogo de Weyer.

Essa tradução tornou-se extremamente importante para a formação posterior do Lemegeton.

Gaap fornece uma evidência particularmente interessante desse processo porque existe uma pequena diferença entre o latim e a versão inglesa.

A tradução acrescenta insensibilidade entre suas capacidades.

O texto latino de Weyer preservado na edição crítica não possui equivalente direto nessa passagem para essa palavra.

DE ONDE VEM A “INSENSIBILIDADE” DE GAAP?

Na tradução inglesa transmitida através de Scot aparece a ideia de que Gaap produz:

amor;

ódio;

insensibilidade;

invisibilidade.

No latim impresso de Weyer, a lista possui:

amor;

ódio;

invisibilidade;

e consagração.

Não existe ali uma palavra equivalente clara a insensibilitas.

Isso significa que a insensibilidade pode ter vindo de:

uma variante manuscrita;

uma leitura diferente;

um acréscimo na tradução;

ou outra etapa da transmissão.

A documentação atual não permite afirmar com certeza qual.

Mas a consequência histórica é clara.

A palavra entrou na tradição inglesa.

Depois entrou na Goetia.

DE “INSENSÍVEL” PARA “IGNORANTE”

A versão manuscrita principal da Goetia preserva “insensível”.

Mais tarde, a edição Mathers/Crowley popularizou a formulação:

insensível ou ignorante.

Assim surgiu mais uma ampliação.

O Gaap moderno muitas vezes é descrito como capaz de “tornar pessoas estúpidas”.

Essa leitura deriva de uma cadeia textual muito mais complexa que uma simples tradução direta de Weyer.

Por isso, devemos separar:

Weyer latino: não apresenta claramente insensibilidade nessa lista.

Scot: inclui insensibilidade.

manuscritos da Goetia: preservam insensibilidade.

Mathers/Crowley: ampliam para “insensível ou ignorante”.

GAAP PODE TORNAR ALGUÉM IGNORANTE?

Essa afirmação pertence principalmente à recepção goética posterior.

Não deve ser retroprojetada automaticamente para Weyer.

O núcleo documental mais seguro é que a tradição inglesa passou a associá-lo a uma forma de redução ou suspensão da sensibilidade.

“Fazer ignorante” é uma interpretação/editorialização posterior.

O CONTRASTE ENTRE CONHECIMENTO E IGNORÂNCIA

Apesar da incerteza textual, o contraste tornou-se simbolicamente poderoso.

Gaap ensina filosofia e artes liberais.

Mas também pode, na tradição posterior, tornar alguém insensível ou ignorante.

Conhecimento.

E privação de conhecimento.

Essa oposição transformou-se numa das características mais interessantes de sua recepção moderna.

GAAP E A FILOSOFIA

Weyer afirma que Gaap pode tornar uma pessoa admirável ou excelente em filosofia.

Essa atribuição permanece na Goetia.

O termo filosofia possuía um campo muito amplo no período moderno inicial.

Não se limitava às disciplinas acadêmicas contemporâneas.

Filosofia podia envolver:

lógica;

metafísica;

filosofia natural;

ética;

teoria do conhecimento;

estudo das causas.

Assim, a competência atribuída a Gaap é extremamente abrangente.

O QUE SIGNIFICAVA FILOSOFIA?

A palavra vem de uma tradição antiga relacionada ao “amor à sabedoria”.

Durante a Idade Média e o Renascimento, filosofia incluía grande parte do conhecimento sistemático sobre realidade, natureza e pensamento.

Uma pessoa extraordinária em filosofia seria capaz de compreender princípios.

Causas.

Argumentos.

Categorias.

Natureza.

Ser.

Conhecimento.

Gaap é, portanto, uma figura de grande capacidade intelectual dentro da narrativa do grimório.

GAAP E AS ARTES LIBERAIS

Além da filosofia, Gaap ensina todas as artes liberais.

Na tradição medieval, essas artes foram organizadas em:

Trivium

Gramática.

Retórica.

Lógica.

Quadrivium

Aritmética.

Geometria.

Música.

Astronomia.

Associar Gaap a todas elas significa atribuir-lhe uma competência intelectual extremamente ampla.

GAAP É UM “DEMÔNIO DO CONHECIMENTO”?

A expressão funciona como resumo, mas é incompleta.

Ele realmente possui forte dimensão intelectual.

Porém também atua sobre:

amor;

ódio;

invisibilidade;

familiars;

consagração;

movimento;

tempo.

Assim, “espírito do conhecimento” captura apenas uma parte de seu perfil.

Uma descrição mais precisa seria:

figura goética ligada ao conhecimento filosófico e liberal, à influência social, à percepção e ao deslocamento.

FILOSOFIA E PODER

Conhecimento nunca é apenas informação.

Compreender uma situação cria vantagem.

Compreender argumentos permite persuadir.

Compreender natureza permite agir.

Compreender pessoas permite prever comportamentos.

Gaap reúne conhecimento com influência.

Isso produz uma figura simbolicamente ligada à relação entre saber e poder.

GAAP E O AMOR

Weyer atribui a Gaap capacidade relacionada a amor.

A Goetia mantém.

A formulação é ampla.

Não limita necessariamente amor à paixão romântica.

Dependendo da tradição e do contexto, pode envolver afeição, atração ou disposição favorável.

Manuscritos paralelos, entretanto, apresentam versões mais claramente sexuais ou relacionais.

Toab, por exemplo, aparece associado especificamente ao amor de mulheres por homens.

Isso demonstra que a função afetiva possui raízes antigas dentro da família textual de Gaap.

GAAP E O ÓDIO

A capacidade oposta também aparece.

Gaap produz ódio.

A combinação:

amor;

ódio;

é significativa.

Ele não atua apenas em uma direção emocional.

Pode aproximar.

Pode afastar.

Pode criar atração.

Pode criar repulsa.

Em uma interpretação contemporânea, isso pode simbolizar influência sobre polaridades afetivas intensas.

AMOR E ÓDIO SÃO REALMENTE OPOSTOS?

Psicologicamente, ambos podem possuir uma característica em comum:

atenção intensa.

Amor e ódio podem manter uma pessoa mentalmente ligada ao objeto de sua emoção.

Indiferença é diferente.

Essa observação permite uma interpretação moderna interessante de Gaap como figura relacionada à intensidade do vínculo.

Mas isso é uma leitura contemporânea.

O grimório apenas atribui as duas capacidades.

GAAP E A INSENSIBILIDADE

Na tradição inglesa, Gaap pode produzir insensibilidade.

O termo pode possuir vários sentidos.

Ausência de sensação física.

Entorpecimento.

Indiferença.

Falta de percepção.

Bloqueio.

As fontes não fornecem uma teoria psicológica detalhada.

Assim, conteúdos modernos que transformam essa capacidade especificamente em anestesia, depressão ou transe estão interpretando além do texto.

INSENSIBILIDADE COMO TERCEIRO POLO

Se amor e ódio representam envolvimento intenso, insensibilidade representa o oposto:

ausência de resposta.

Isso produz uma tríade interessante.

Amor.

Ódio.

Indiferença.

Em uma leitura simbólica moderna, Gaap poderia representar diferentes estados de relação entre sujeito e objeto.

Mas novamente, essa estrutura é interpretativa.

GAAP E A INVISIBILIDADE

A invisibilidade aparece diretamente no latim de Weyer.

A Goetia conserva essa função.

O tema é recorrente nos grimórios europeus.

Diferentes entidades são capazes de tornar pessoas invisíveis.

Objetos mágicos também recebem essa atribuição.

Do ponto de vista histórico, a invisibilidade representava um poder extraordinário evidente.

Observar sem ser visto.

Mover-se sem ser detectado.

Escapar.

Ocultar-se.

INVISIBILIDADE NÃO É INSENSIBILIDADE

Essas duas palavras passaram a aparecer lado a lado na tradição inglesa.

Mas são capacidades diferentes.

Invisibilidade altera percepção alheia.

Insensibilidade altera sensação ou resposta.

O fato de palavras semelhantes aparecerem próximas também aumenta a possibilidade de confusões durante transmissão.

É importante não fundi-las.

INVISIBILIDADE COMO SÍMBOLO

Em uma leitura moderna, invisibilidade pode representar:

discrição;

anonimato;

ocultação;

privacidade;

sigilo.

Todas essas categorias possuem aspectos positivos e negativos.

Privacidade pode proteger.

Anonimato pode permitir liberdade.

Mas ocultação também pode facilitar abuso.

A ética depende do uso.

GAAP E A ERA DA PRIVACIDADE DIGITAL

Uma interpretação contemporânea pode aproximar a invisibilidade de Gaap das questões modernas de privacidade.

Dados pessoais.

Rastreamento.

Anonimato.

Criptografia.

Identidade digital.

Ser “invisível” num ambiente de vigilância significa limitar aquilo que outros conseguem observar.

Essa analogia é moderna, não goética.

Mas demonstra como antigos símbolos podem ganhar novas leituras.

GAAP E AS RESPOSTAS VERDADEIRAS

Weyer afirma que Gaap fornece respostas perfeitas e verdadeiras sobre:

presente;

passado;

futuro.

A Goetia conserva a mesma capacidade.

Essa estabilidade é importante.

Mesmo em tradições anteriores como Caap, já aparece a característica de responder verdadeiramente ao que é perguntado.

A função divinatória parece, portanto, possuir raízes relativamente antigas na linhagem.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Essas três categorias transformam Gaap em uma figura de conhecimento temporal amplo.

O passado responde:

o que aconteceu?

O presente:

o que está acontecendo fora da percepção imediata?

O futuro:

o que acontecerá?

Dentro do imaginário mágico, acesso aos três tempos elimina boa parte da incerteza humana.

GAAP COMO FIGURA DA INFORMAÇÃO

Em uma interpretação contemporânea, esse domínio temporal pode simbolizar diferentes formas de análise.

Passado:

histórico e dados.

Presente:

monitoramento.

Futuro:

previsão.

Uma organização moderna também tenta responder exatamente essas três perguntas.

O que ocorreu?

Qual é a situação agora?

O que provavelmente virá depois?

Essa analogia não pertence aos grimórios, mas demonstra a permanência da necessidade humana de reduzir incerteza.

GAAP E OS ESPÍRITOS FAMILIARES

Uma das funções mais peculiares de Gaap é sua relação com familiares.

O texto afirma que ele pode retirar ou libertar familiares da posse ou custódia de outros praticantes.

Essa função aparece em Weyer, Scot e na Goetia.

Para compreender essa passagem, precisamos contextualizar o termo “familiar”.

O QUE É UM ESPÍRITO FAMILIAR?

Na literatura mágica e demonológica europeia, um familiar pode ser entendido como espírito associado a determinado praticante.

A categoria varia muito entre fontes.

Em processos de bruxaria, familiares podiam ser descritos de maneira diferente daquela encontrada nos grimórios cerimoniais.

Algumas tradições imaginavam-nos como auxiliares espirituais.

Outras como demônios subordinados.

Outras ainda como seres assumindo formas animais.

Por isso, não existe uma definição única válida para todas as épocas.

GAAP “ROUBA” FAMILIARES?

A linguagem moderna de “roubar familiares” simplifica a passagem.

O texto fala em retirar ou entregar familiares da potência ou posse de outro exorcista.

Isso pode significar quebrar uma relação de controle.

Libertar.

Transferir.

Reivindicar.

A fonte não explica detalhadamente a mecânica.

Assim, “roubo” é apenas uma interpretação possível.

PODER SOBRE VÍNCULOS

Simbolicamente, a função pode ser interpretada como poder sobre vínculos.

Uma relação existe.

Gaap pode desfazê-la.

Isso aproxima essa atribuição de outras funções do personagem.

Amor cria vínculo.

Ódio cria oposição.

Insensibilidade rompe resposta.

Familiares representam associação.

Gaap aparece repetidamente ligado à formação, transformação e dissolução de relações.

GAAP E A CONSAGRAÇÃO

Outro ofício atribuído a Gaap envolve consagração.

Weyer fala na consagração de coisas que pertencem ao domínio de Amaymon.

A Goetia afirma que Gaap ensina como consagrar coisas pertencentes ao domínio de Amaymon, seu rei.

Esse detalhe posiciona Gaap dentro de uma hierarquia maior.

Ele não é independente.

Possui relação com Amaymon.

O QUE SIGNIFICA CONSAGRAÇÃO?

Em sentido amplo, consagrar significa separar algo para um uso sagrado ou ritual.

Uma coisa comum torna-se objeto de função específica dentro de determinado sistema religioso ou mágico.

A palavra não implica necessariamente uma religião específica.

No caso de Gaap, o contexto é mágico-cerimonial.

O importante historicamente é reconhecer que o texto o apresenta como alguém capaz de transmitir conhecimento ritual associado ao domínio de Amaymon.

GAAP E AMAYMON

A relação com Amaymon aparece diretamente na tradição.

Gaap ensina consagrações relacionadas ao domínio de Amaymon.

A Goetia chama Amaymon de seu rei.

Isso coloca Gaap numa posição curiosa.

Ele próprio é Príncipe.

Mas encontra-se subordinado a uma autoridade superior.

Essa estrutura reflete a natureza hierárquica da demonologia dos grimórios.

QUEM É AMAYMON?

Amaymon aparece em diversas tradições mágicas como um grande rei ou autoridade espiritual.

Sua direção cardinal varia conforme o sistema.

Em determinadas tradições, é associado ao Sul.

Em outras estruturas e listas, as distribuições diferem.

Por isso, qualquer afirmação absoluta como:

“Amaymon é sempre o rei do Sul”

precisa ser tratada com cautela.

Os grimórios não formam uma burocracia perfeitamente uniforme.

GAAP E OS QUATRO GRANDES REIS

A descrição afirma que Gaap, quando em forma humana, atua como guia de quatro grandes reis.

Esse é um dos aspectos mais misteriosos da entrada.

Quem são esses quatro reis?

A tradição não é completamente estável.

Uma seção do material goético menciona quatro reis principais chamados:

Amaymon;

Corson;

Ziminiar;

Goap.

Outra tradição amplamente reproduzida associa um grupo diferente de quatro grandes figuras:

Belial;

Beleth;

Asmoday;

Gaap.

As diferentes listas não podem ser harmonizadas com certeza apenas escolhendo uma delas.

GAAP É O GUIA DOS QUATRO REIS OU É UM DOS QUATRO REIS?

Exatamente aqui surge a contradição.

A entrada individual diz:

Gaap é Presidente e Príncipe;

Gaap guia quatro grandes reis.

Mas outra seção coloca Goap entre os próprios quatro reis.

Se Goap = Gaap, então a mesma figura parece simultaneamente membro e guia do grupo.

Isso pode refletir:

corrupção de nomes;

fusão de duas tradições;

erro de compilação;

ou identificação posterior de entidades originalmente distintas.

Peterson considera possível que Goap não seja o mesmo Gaap da entrada individual.

Essa é a posição mais prudente.

GAAP É REI DO SUL?

A afirmação é extremamente popular.

Mas a história documental é mais confusa.

Weyer menciona numa seção adicional quatro reis associados aos pontos cardeais, entre eles Goap, relacionado ao Oeste em determinada leitura.

Outras tradições posteriores colocam Gaap no Sul.

Ao mesmo tempo, a própria entrada principal não o chama de Rei, e sim Presidente e Príncipe. Jean-Patrice Boudet destaca justamente essa incoerência ao discutir Goap e Gaap.

Assim, é historicamente mais seguro evitar a frase:

“Gaap é definitivamente o rei do Sul.”

Melhor:

algumas tradições posteriores identificam Gaap/Goap com um dos governantes cardeais, mas os manuscritos preservam atribuições conflitantes de nome, título e direção.

GAAP APARECE “QUANDO O SOL ESTÁ NOS SIGNOS DO SUL”?

Essa é a formulação famosa da Goetia.

Mas novamente a transmissão exige cautela.

Weyer escreve:

in signo Meridiei apparet.

Scot traduz como:

“em um signo meridional”.

A Goetia posteriormente fala do Sol em alguns signos meridionais.

Collin de Plancy, por outro lado, entende que Gaap se manifesta ao meio-dia.

A palavra latina meridies pode relacionar-se tanto ao sul quanto ao meio-dia.

Isso ajuda a explicar por que tradições posteriores divergem.

SUL OU MEIO-DIA?

Ambos os sentidos possuem fundamento linguístico.

No hemisfério norte, o Sol ao meio-dia encontra-se associado à direção sul, o que historicamente ajudou a aproximar os conceitos.

Por isso, meridies pode carregar ambos os campos semânticos.

O texto de Gaap fornece um excelente exemplo de como uma palavra aparentemente simples pode produzir diferentes sistemas de interpretação.

A FORMA HUMANA DE GAAP

Ao contrário de muitas entidades da Goetia, Gaap possui forma humana explícita.

A fonte não descreve:

chifres;

asas;

cauda;

garras;

ou várias cabeças.

Simplesmente diz que assume rosto ou forma humana.

Isso é importante porque diversas ilustrações modernas mostram Gaap como criatura alada e monstruosa.

Essas imagens pertencem principalmente à recepção artística posterior.

GAAP POSSUI ASAS DE MORCEGO?

Não na descrição principal de Weyer ou da Goetia.

A imagem de Gaap com asas e características monstruosas tornou-se conhecida principalmente através de ilustrações e enciclopédias demonológicas posteriores.

Portanto, não deve ser tratada como descrição textual original.

A fonte principal é muito mais simples:

forma humana.

O DICTIONNAIRE INFERNAL E GAAP

No século XIX, Jacques Collin de Plancy dedica uma entrada a Tap ou Gaap.

Ele o descreve como grande Presidente e Príncipe do inferno.

Interpreta sua aparição como ocorrendo ao meio-dia.

Preserva sua relação com quatro reis.

Mantém amor e ódio.

Mantém o transporte rápido.

Mas atribui a ele sessenta legiões, não 66.

Essa diferença demonstra que até o número de legiões sofreu alteração na recepção posterior.

66 OU 60 LEGIÕES?

Na principal tradição de Weyer e da Goetia:

66 legiões.

No Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy:

60 legiões.

A divergência provavelmente deriva de erro, simplificação ou fonte editorial distinta.

Para a ficha histórica principal de Gaap, 66 é o número mais bem sustentado pela linha Weyer–Goetia.

O CAAP ANTIGO TINHA 20 LEGIÕES

Se incluirmos o provável antecedente do Livre des Esperitz, temos outro número:

Caap: 20.

Weyer/Gaap: 66.

Collin de Plancy: 60.

Essa sequência demonstra que o número de subordinados não constitui uma característica absolutamente estável em todas as tradições.

GAAP E A ORDEM DAS POTESTADES

Weyer afirma que Gaap anteriormente pertencia à ordem das Potestades.

A Goetia preserva a afirmação.

Esse detalhe introduz uma conexão direta entre demonologia e angelologia cristã.

As Potestades, traduzidas também como Powers ou Potências, pertencem ao sistema tradicional das nove ordens angelicais.

O QUE SÃO AS POTESTADES?

O sistema angelológico mais influente do cristianismo medieval está associado ao tratado A Hierarquia Celeste, atribuído a Pseudo-Dionísio Areopagita.

Ali as nove ordens são distribuídas em três grupos.

A primeira hierarquia:

Serafins;

Querubins;

Tronos.

A segunda:

Dominações;

Virtudes;

Potestades ou Powers.

A terceira:

Principados;

Arcanjos;

Anjos.

Assim, as Potestades ocupam uma posição na hierarquia intermediária.

GAAP ERA UMA POTESTADE ANTES DA QUEDA?

Essa é a interpretação natural da afirmação goética.

O texto diz que Gaap “era da ordem das Potestades”.

Dentro de uma cosmologia cristã de demônios como anjos caídos, isso implica uma condição celestial anterior.

Mas é importante limitar a conclusão.

A fonte não fornece:

nome angelical anterior;

função específica no céu;

data da queda;

narrativa individual de rebelião.

Portanto, podemos dizer que a tradição o associa anteriormente à ordem das Potestades.

Não podemos reconstruir uma biografia celestial completa.

POTESTADES E ORDEM

Pseudo-Dionísio associa as Powers a uma ideia de autoridade ordenada e poder regulado dentro da hierarquia celestial.

Em uma interpretação simbólica moderna, isso combina curiosamente com várias funções de Gaap.

Ele interfere em:

hierarquias;

consagrações;

familiares;

reis;

movimento;

conhecimento.

Mas a ligação simbólica não deve ser transformada em explicação histórica automática.

GAAP COMO FIGURA DE AUTORIDADE INTERMEDIÁRIA

Sua dupla categoria de Presidente e Príncipe já sugere autoridade.

Mas ele também está subordinado a Amaymon.

Guia reis.

Comanda 66 legiões.

Liberta familiares de outros magos.

Esse conjunto cria uma figura situada em vários níveis de poder ao mesmo tempo.

Não está no topo absoluto.

Também não é subordinado comum.

Opera entre estruturas.

PRESIDENTE E PRÍNCIPE

Essa dupla hierarquia é relativamente incomum.

“Príncipe” pertence claramente ao vocabulário aristocrático.

“Presidente” possui outra origem terminológica.

Dentro dos catálogos mágicos, ambos funcionam como títulos de autoridade.

Gaap combina os dois.

Isso talvez reflita fusão de tradições originalmente diferentes.

Ou simplesmente uma dignidade composta.

Os textos não explicam.

GAAP E O TRANSPORTE ENTRE REINOS

Outra capacidade extremamente característica é transportar pessoas rapidamente de uma região ou reino para outro.

Weyer fala em deslocá-las para diferentes regiões em velocidade extraordinária.

A Goetia mantém essa função.

Esse tipo de transporte sobrenatural aparece em diferentes tradições mágicas.

Distância deixa de ser obstáculo.

GAAP TRANSPORTA O CORPO OU A CONSCIÊNCIA?

A fonte não fornece uma distinção psicológica moderna.

Ela fala em transportar pessoas.

Interpretações contemporâneas frequentemente transformam isso em:

viagem astral;

projeção da consciência;

teletransporte espiritual.

Essas categorias não aparecem explicitamente no núcleo histórico.

O sentido mais direto do texto é deslocamento extraordinariamente rápido.

“PROJEÇÃO ASTRAL” É UMA ATRIBUIÇÃO ANTIGA DE GAAP?

Não com essa terminologia.

A expressão pertence a vocabulários esotéricos posteriores.

É possível interpretar simbolicamente a capacidade de transporte dessa maneira.

Mas dizer que Weyer afirma que Gaap ensina “projeção astral” seria anacrônico.

TRANSPORTE E MOBILIDADE

Historicamente, deslocamento rápido era um desejo extraordinário.

Viajar era lento.

Estradas eram difíceis.

Fronteiras existiam.

O clima influenciava trajetos.

Transporte podia ser perigoso.

Uma entidade capaz de mover alguém instantaneamente entre regiões representaria superação radical das limitações humanas.

GAAP COMO SÍMBOLO DA TRANSIÇÃO

Em uma leitura contemporânea, essa capacidade pode simbolizar mudanças rápidas.

Mudar de contexto.

Abandonar uma condição.

Passar de uma etapa para outra.

Mas velocidade possui dois lados.

Pode ser oportunidade.

Também pode ser instabilidade.

Gaap pode simbolicamente representar a força da transição acelerada.

GAAP E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

Hoje, mover-se entre países pode levar horas em vez de meses.

Informação atravessa o planeta em segundos.

Uma mensagem pode mudar relações instantaneamente.

Conhecimento pode ser adquirido de fontes de todo o mundo.

Nesse sentido, várias capacidades extraordinárias atribuídas a Gaap possuem equivalentes tecnológicos aproximados.

Isso não valida literalmente a magia antiga.

Mas oferece material para interpretação cultural.

GAAP E A VELOCIDADE DA INFORMAÇÃO

Conhecimento do passado, presente e futuro.

Transporte.

Filosofia.

Relações.

Gaap é uma figura marcada pela circulação.

Circulação de pessoas.

Circulação de informação.

Circulação de sentimentos.

Circulação de vínculos espirituais.

Essa talvez seja uma das melhores chaves para interpretar seu conjunto de funções.

GAAP COMO FIGURA DA CONEXÃO

Amor conecta.

Ódio também conecta através do conflito.

Familiares representam vínculos.

Consagração conecta objetos a determinado domínio.

Conhecimento conecta mente e realidade.

Transporte conecta lugares.

Gaap aparece repetidamente associado à transformação de relações entre coisas que estavam separadas.

GAAP COMO FIGURA DA DESCONEXÃO

Mas também existe o movimento inverso.

Insensibilidade rompe sensação.

Ódio rompe proximidade.

Retirar familiares rompe vínculos.

Invisibilidade rompe relação visual.

Assim, Gaap não é apenas figura de conexão.

É figura de controle sobre conexão e desconexão.

Essa interpretação moderna oferece grande coerência a um conjunto de funções inicialmente disperso.

AMOR E ÓDIO COMO CONTROLE SOCIAL

Influenciar sentimentos significa alterar relações.

Uma pessoa amada recebe tratamento diferente.

Uma pessoa odiada também.

Essas emoções afetam confiança.

Cooperação.

Conflito.

Reputação.

Decisão.

A capacidade tradicional de Gaap pode, portanto, ser interpretada como forma extrema de influência social.

A ÉTICA DA INFLUÊNCIA

Em uma leitura contemporânea responsável, essa função também levanta uma questão ética.

Persuadir alguém é diferente de controlar alguém.

Construir confiança é diferente de manipular.

Interferir no desejo ou ódio de outra pessoa sem consentimento seria problemático sob concepções modernas de autonomia.

Assim, as antigas atribuições podem ser analisadas historicamente sem serem transformadas em ideal de comportamento.

GAAP E O CONHECIMENTO: ILUMINAÇÃO OU DOMINAÇÃO?

O conhecimento pode libertar.

Mas também pode ser utilizado para controlar.

Quem sabe mais possui vantagem.

Quem conhece passado, presente e futuro possui enorme assimetria informacional.

Quem conhece filosofia e ciências compreende estruturas que outros talvez desconheçam.

Gaap combina conhecimento com capacidade de interferir em relações.

Isso produz simbolicamente uma figura da ambiguidade do saber.

GAAP COMO SÍMBOLO DA INFORMAÇÃO PRIVILEGIADA

No mundo contemporâneo, informação privilegiada possui valor econômico, político e estratégico.

Dados confidenciais.

Vulnerabilidades.

Planos futuros.

Segredos comerciais.

Informação não está distribuída igualmente.

Uma leitura moderna de Gaap pode representar a responsabilidade associada à assimetria de conhecimento.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO COMO ANÁLISE

Podemos construir uma interpretação moderna:

passado = histórico;

presente = observação;

futuro = previsão.

Conhecimento sólido exige os três.

Sem passado, não vemos padrões.

Sem presente, ignoramos contexto.

Sem futuro, não planejamos.

Gaap simbolicamente reúne essas três dimensões.

GAAP COMO SÍMBOLO DO ESTRATEGISTA

Essa combinação torna possível outra leitura.

Um estrategista precisa:

compreender história;

conhecer situação atual;

estimar possibilidades futuras;

entender pessoas;

mover recursos;

comunicar;

gerenciar alianças e adversários.

Gaap possui simbolicamente muitos desses atributos.

Assim, pode ser interpretado como figura da estratégia.

Essa interpretação é contemporânea e não aparece como título do grimório.

GAAP COMO SÍMBOLO DO FILÓSOFO

Filosofia ocupa lugar explícito.

O filósofo não pergunta apenas “o quê?”.

Pergunta:

por quê?

como sabemos?

quais consequências?

o que é real?

qual é a causa?

Gaap pode representar simbolicamente essa busca por estruturas profundas de compreensão.

FILOSOFIA NÃO É ACUMULAR FATOS

Essa distinção é importante.

Informação não é filosofia.

Memorizar dados não significa compreender.

Filosofia exige organizar conceitos, examinar fundamentos e argumentar.

Gaap, ao unir filosofia e artes liberais, representa uma forma de conhecimento estruturado, não apenas acúmulo de curiosidades.

GAAP COMO SÍMBOLO DO PROFESSOR

A fonte afirma que ele torna pessoas admiráveis em filosofia e artes liberais.

Isso pode ser interpretado como função pedagógica.

Um bom professor não apenas possui conhecimento.

Consegue transmiti-lo.

Estruturar.

Relacionar.

Explicar.

Gaap pode simbolizar o processo de ampliar capacidade intelectual.

O PERIGO DA INTELIGÊNCIA SEM SENSIBILIDADE

A tradição posterior oferece um contraste fascinante.

Gaap ensina.

Mas também torna insensível.

Essa oposição pode ser lida simbolicamente como advertência.

Uma pessoa extremamente inteligente pode perder sensibilidade humana.

Pode transformar tudo em abstração.

Pode tratar pessoas apenas como objetos de análise.

Conhecimento sem empatia pode produzir formas de poder frias.

Essa leitura não é uma explicação antiga.

É interpretação contemporânea da tensão textual.

CONHECIMENTO E EMPATIA

Saber mais não necessariamente significa compreender melhor os outros emocionalmente.

Inteligência cognitiva.

Sensibilidade emocional.

São capacidades diferentes.

A tradição de Gaap, especialmente depois da introdução de “insensibilidade”, oferece uma imagem simbólica dessa diferença.

GAAP COMO SÍMBOLO DA DESINFORMAÇÃO

A versão Mathers/Crowley acrescenta “ignorância”.

Isso cria outra oposição moderna:

produzir conhecimento;

produzir ignorância.

Informação pode ser ensinada.

Também pode ser escondida.

Pessoas podem ser esclarecidas.

Também podem ser confundidas.

Uma leitura contemporânea de Gaap pode explorar o poder de controlar fluxos de informação.

QUEM CONTROLA O CONHECIMENTO?

Essa pergunta possui enormes implicações.

Governos.

Instituições.

Empresas.

Plataformas.

Escolas.

Meios de comunicação.

Todos influenciam aquilo que pessoas conseguem saber.

Gaap, simbolicamente, pode representar a capacidade de abrir ou fechar acesso ao conhecimento.

GAAP E A CONSAGRAÇÃO COMO TRANSFORMAÇÃO DE FUNÇÃO

Consagrar significa mudar o status de algo.

O objeto material pode permanecer fisicamente igual.

Mas dentro de determinado sistema sua função muda.

Isso oferece uma interpretação moderna interessante sobre significado.

Uma bandeira é tecido.

Mas socialmente representa uma nação.

Uma aliança é metal.

Mas simboliza compromisso.

Um documento é papel.

Mas pode representar propriedade.

Consagração demonstra como seres humanos atribuem funções simbólicas às coisas.

GAAP COMO FIGURA DA TRANSFORMAÇÃO DE SIGNIFICADO

Filosofia muda compreensão.

Amor muda significado de uma pessoa.

Ódio também.

Consagração muda significado de um objeto.

Conhecimento muda significado de acontecimentos.

Gaap pode ser interpretado simbolicamente como figura que altera contextos e relações.

GAAP E O SELO GOÉTICO

A Ars Goetia associa Gaap a um selo próprio.

Esse símbolo tornou-se bastante conhecido em comunidades esotéricas contemporâneas.

Entretanto, como ocorre com outros espíritos, a tradição textual do personagem é anterior à forma gráfica popularizada pela Goetia.

Caap já aparece no século XV.

Gaap/Tap aparece em Weyer.

O selo goético pertence a uma fase posterior.

Portanto, não existe fundamento para tratar o sigilo como símbolo imutável existente desde a origem da personagem.

O SELO DE GAAP NÃO É UM SÍMBOLO ANTIGO DE POTESTADES

A associação de Gaap com Potestades pode incentivar tentativas modernas de interpretar cada linha de seu selo como símbolo angelical antigo.

Mas a documentação não demonstra isso.

A origem gráfica do selo pertence à tradição dos manuscritos goéticos.

Não possuímos evidência de que esse mesmo desenho fosse utilizado na angelologia medieval para representar a ordem das Potestades.

GAAP É UMA FIGURA BÍBLICA?

Não.

Gaap não aparece na Bíblia canônica.

Tap também não.

Caap não.

Goap não é personagem bíblico conhecido.

A narrativa de Weyer que relaciona Gaap/Bileth a Cam, filho de Noé, é uma elaboração demonológica posterior.

Portanto, classificar Gaap como “demônio bíblico” é historicamente inadequado.

GAAP ERA UMA DIVINDADE ANTIGA?

Não existe evidência suficiente para identificar Gaap com uma divindade específica da Antiguidade.

Alguns espíritos goéticos possuem raízes antigas relativamente claras.

Astaroth possui forte relação nominal com Astarte.

Berith possui relação possível com Baal-Berith.

Gaap não possui uma genealogia religiosa comparável claramente demonstrada.

Sua história conhecida conduz principalmente aos catálogos mágicos medievais e modernos.

A ETIMOLOGIA DE GAAP

A origem do nome é incerta.

Gaap.

Tap.

Toab.

Caap.

Coap.

Goap.

A enorme diversidade dificulta qualquer tentativa de derivação linguística segura.

Explicações modernas que atribuem uma tradução exata ao nome precisam demonstrar como todas essas variantes se relacionam.

Sem essa cadeia, a etimologia permanece especulativa.

GAAP NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE NADA EM HEBRAICO

Um hábito comum em conteúdos sobre Goetia consiste em procurar uma palavra hebraica visualmente semelhante e declarar que esse é o significado original.

Esse método é filologicamente fraco.

Sem cadeia histórica de transmissão, semelhança sonora não basta.

No caso de Gaap, as variantes manuscritas tornam esse problema ainda maior.

GAAP E AS CORRESPONDÊNCIAS ASTROLÓGICAS

Sistemas ocultistas posteriores relacionaram Gaap a:

signos zodiacais;

decanatos;

planetas;

metais;

dias;

cartas do Tarô.

Essas correspondências variam entre autores.

Não pertencem todas a Weyer nem aos manuscritos mais antigos.

Por isso, não existe uma correspondência astrológica universal de Gaap.

E OS “SIGNOS DO SUL”?

A própria passagem goética sobre o Sol em signos meridionais não deve ser utilizada como prova de um sistema zodiacal moderno específico.

A frase deriva de uma tradição textual ambígua ligada ao latim meridies.

Não fornece uma lista de signos.

As tabelas modernas que atribuem Gaap a determinado decanato pertencem a sistemas posteriores.

GAAP E O TARÔ

O mesmo vale para o Tarô.

Correspondências entre espíritos goéticos e cartas específicas foram construídas em sistemas ocultistas modernos.

São relevantes para história do esoterismo.

Não devem ser tratadas como características existentes no Livre des Esperitz ou na Pseudomonarchia.

GAAP E A ORDEM DAS POTESTADES NA RECEPÇÃO MODERNA

Autores contemporâneos frequentemente interpretam a antiga ordem angelical de Gaap como explicação para sua capacidade de:

controlar espíritos;

romper vínculos;

transportar;

comandar.

Essa leitura possui coerência simbólica.

Mas não sabemos se Weyer ou os compiladores da Goetia tinham exatamente essa teoria em mente.

A fonte simplesmente registra sua antiga ordem.

GAAP É UM ANJO CAÍDO?

Dentro da estrutura cristã demonológica, a afirmação de que pertencia às Potestades implica uma narrativa de queda.

Assim, Gaap pode ser entendido como anjo caído dentro dessa tradição.

Mas precisamos diferenciar:

afirmação geral: pertencia à ordem das Potestades;

biografia detalhada: nome celestial, cargo específico, razão da queda etc.

A primeira possui base textual.

A segunda normalmente pertence a sistemas modernos.

GAAP E COLLIN DE PLANCY

No Dictionnaire Infernal de 1863, Collin de Plancy preserva o nome como Tap ou Gaap.

A entrada mantém grande parte da tradição de Weyer.

Gaap é Presidente e Príncipe.

Relaciona-se aos quatro reis.

É comparado a Bileth.

Produz amor e ódio.

Possui autoridade sobre demônios ligados a Amaymon.

Transporta pessoas rapidamente.

Mas existem mudanças.

A aparição é interpretada como ocorrendo ao meio-dia.

O número de legiões passa a 60.

E a ilustração de Louis Le Breton cria uma imagem visual que se tornaria extremamente influente.

A FAMOSA IMAGEM DE GAAP

A gravura publicada no Dictionnaire Infernal de 1863 mostra uma interpretação artística de Tap/Gaap.

Ela não provém de Weyer.

Não pertence ao Livre des Esperitz.

Não é contemporânea da formação original da Goetia.

É uma imagem do século XIX.

Isso é essencial quando se utilizam imagens em artigos históricos.

A ilustração mostra como o século XIX imaginou Gaap.

Não como os manuscritos do século XV necessariamente o imaginavam.

GAAP POSSUI CHIFRES E ASAS?

Esses elementos tornaram-se populares em representações artísticas posteriores.

Mas não estão na descrição textual principal de Weyer ou da Goetia.

O personagem aparece em forma humana.

Assim, qualquer imagem com grandes asas de morcego deve ser identificada como interpretação artística moderna ou oitocentista.

POR QUE A IMAGEM MODERNA SE TORNOU MAIS FAMOSA QUE O TEXTO?

Imagens circulam facilmente.

Um desenho é memorizado em segundos.

Uma descrição textual complexa exige leitura.

Quando Louis Le Breton forneceu formas visuais para entidades demonológicas, essas representações passaram a ser reproduzidas em livros, sites, jogos e enciclopédias.

Com o tempo, o desenho parece “oficial”.

Mas historicamente ele pertence a um artista específico, numa época específica.

GAAP NA CULTURA POPULAR

Gaap aparece hoje em:

jogos;

romances;

mangás;

animações;

visual novels;

RPGs;

música;

conteúdo digital.

Essas versões frequentemente modificam completamente aparência e gênero.

Em algumas obras, Gaap é feminino.

Em outras, monstruoso.

Em outras, humano.

Em outras, associado principalmente a teletransporte.

Essa diversidade pertence à cultura popular.

Não deve ser utilizada como fonte histórica para reconstruir o personagem dos grimórios.

GAAP E TELETRANSPORTE NA CULTURA POPULAR

A função de mover pessoas rapidamente entre regiões tornou-se particularmente fácil de adaptar para ficção.

O antigo deslocamento sobrenatural transforma-se em:

portais;

teletransporte;

dobras espaciais;

viagem dimensional.

Essa é uma boa demonstração de como um atributo antigo pode sobreviver mesmo quando todo o contexto religioso desaparece.

GAAP E O LIVRE DES ESPERITZ: UMA COMPARAÇÃO

Caap

Grande Príncipe.

Forma de cavaleiro.

Respostas verdadeiras.

Ouro e prata.

20 legiões.

Gaap em Weyer

Grande Presidente e Príncipe.

Forma humana.

Guia de quatro reis.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor.

Ódio.

Invisibilidade.

Consagração.

Familiares.

Conhecimento temporal.

Transporte.

66 legiões.

Potestades.

A diferença é enorme.

Mas alguns elementos permanecem.

Príncipe.

Respostas.

Autoridade.

Isso sustenta uma provável relação textual sem exigir identidade perfeita.

GAAP EM WEYER E NA GOETIA

A comparação entre Weyer e a Goetia é muito mais próxima.

Weyer

Gaap/Tap.

§36.

Grande Presidente e Príncipe.

Forma humana.

Guia de quatro reis.

Tão poderoso quanto Bileth.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor.

Ódio.

Invisibilidade.

Consagração.

Familiares.

Passado, presente e futuro.

Transporte rápido.

66 legiões.

Antiga ordem das Potestades.

Ars Goetia

Gaap.

Nº 33.

Grande Presidente e Poderoso Príncipe.

Forma humana.

Guia de quatro reis.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor.

Ódio.

Insensibilidade ou, em edições posteriores, ignorância.

Consagração.

Familiares.

Passado, presente e futuro.

Transporte entre reinos.

66 legiões.

Antiga ordem das Potestades.

A continuidade é evidente.

O QUE A GOETIA ACRESCENTA?

Principalmente três elementos de formulação.

A relação com o Sol em “signos do Sul” é expandida.

A insensibilidade herdada da transmissão inglesa ganha maior destaque.

E edições posteriores acrescentam “ignorância”.

Isso demonstra novamente a importância de comparar versões em vez de depender de uma única edição moderna.

O QUE WEYER POSSUI QUE A GOETIA REDUZ?

A entrada de Weyer contém uma longa digressão sobre:

necromantes;

Bileth;

Cam, filho de Noé;

livros atribuídos a Salomão;

e práticas que Weyer considera abomináveis.

A Goetia concentra-se principalmente nas funções do espírito.

Isso demonstra um processo editorial.

Os compiladores selecionaram aquilo que lhes interessava.

GAAP COMO FIGURA DA TRANSFORMAÇÃO TEXTUAL

A história de Gaap quase funciona como resumo da própria história da Goetia.

Caap.

Coap.

Toab.

Gaap.

Tap.

Goap.

Diferentes funções.

Diferentes legiões.

Diferentes posições.

Diferentes interpretações.

E ainda assim um personagem reconhecível emerge.

FICHA HISTÓRICA DE GAAP

Nome principal: Gaap.

Nome alternativo clássico: Tap.

Variantes ou formas relacionadas: Toab, Caap, Goap; Coap possui relação possível, mas aparece separadamente no Livre des Esperitz.

Posição na Ars Goetia: 33º espírito.

Posição na edição latina comparada de Weyer: §36.

Hierarquia: Grande Presidente e Poderoso Príncipe.

Aparência principal: forma humana.

Relação hierárquica: associado a quatro grandes reis e subordinado, em determinadas funções, a Amaymon.

Principal atribuição intelectual: filosofia.

Outra atribuição intelectual: artes liberais.

Atribuições emocionais: amor e ódio.

Atribuição perceptiva: invisibilidade; tradição inglesa acrescenta insensibilidade.

Atribuição ritual: conhecimento relacionado à consagração de coisas pertencentes ao domínio de Amaymon.

Atribuição sobre familiares: libertação ou transferência de espíritos familiares pertencentes a outros praticantes.

Conhecimento temporal: passado, presente e futuro.

Atribuição de movimento: transporte rápido entre regiões ou reinos.

Legiões em Weyer e na Goetia: 66.

Legiões em Caap do Livre des Esperitz: 20.

Legiões no Dictionnaire Infernal: 60.

Antiga ordem angelical segundo Weyer/Goetia: Potestades/Powers.

Origem bíblica: não documentada.

Origem como divindade antiga: não demonstrada.

Etimologia: incerta.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE GAAP

Quem é Gaap na Ars Goetia?

Gaap é o 33º espírito da Ars Goetia. É classificado simultaneamente como Grande Presidente e Poderoso Príncipe.

Gaap e Tap são a mesma entidade?

Sim, na principal tradição de Weyer. Ele é explicitamente chamado “Gaap, alias Tap”.

Gaap e Goap são a mesma entidade?

Frequentemente são identificados, mas a situação manuscrita é problemática. O Lemegeton também possui um Goap em uma lista de reis cardeais, enquanto Gaap é Presidente e Príncipe. Peterson adverte que talvez não sejam automaticamente a mesma figura.

Gaap e Caap são a mesma entidade?

Caap do Livre des Esperitz é tratado por estudos comparativos como provável antecedente ou forma relacionada a Gaap, mas sua descrição apresenta diferenças importantes.

Quem é Coap?

Coap é outro Grande Príncipe no Livre des Esperitz. Ele aparece separadamente de Caap e possui funções diferentes. Por isso, não deve ser automaticamente fundido com Gaap.

Quem é Toab?

Toab é uma forma preservada em um manuscrito relacionado aos Offices of Spirits, com uma descrição alternativa ligada às mulheres e ao amor.

Qual é a posição de Gaap na Goetia?

Gaap é o nº 33.

Qual é a posição de Gaap em Weyer?

Na edição latina comparada por Peterson, a entrada aparece como §36. Algumas enumerações inglesas ou secundárias utilizam 35 devido às diferenças de contagem entre testemunhos.

Qual é a aparência de Gaap?

Na tradição principal de Weyer e da Goetia, assume forma humana.

Gaap possui asas?

As principais fontes da linha Weyer–Goetia não especificam asas. Representações aladas pertencem principalmente à iconografia posterior.

Gaap possui chifres?

Também não aparecem na descrição textual principal.

Gaap é um dos quatro reis do Inferno?

A resposta depende da tradição. A entrada individual o chama de Presidente e Príncipe e afirma que guia quatro reis. Outra seção menciona Goap entre quatro reis. A identificação entre Goap e Gaap é problemática.

Gaap é Rei do Sul?

Algumas tradições posteriores o classificam dessa maneira. Outras associam Goap ao Oeste. A documentação não é uniforme.

Gaap aparece ao meio-dia?

Collin de Plancy interpreta a tradição dessa maneira. Weyer utiliza uma expressão latina ambígua ligada a meridies, enquanto a Goetia desenvolve a ideia dos “signos do Sul”.

Gaap ensina filosofia?

Sim. Essa é uma de suas atribuições principais e antigas.

Gaap ensina artes liberais?

Sim.

Quais eram as artes liberais?

Tradicionalmente, Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.

Gaap causa amor?

A tradição atribui a ele capacidade relacionada a amor ou atração.

Gaap causa ódio?

Sim. Amor e ódio aparecem lado a lado.

Gaap torna as pessoas insensíveis?

Essa característica aparece na tradução inglesa de Scot e na Goetia, mas não possui equivalente claro na mesma passagem do latim impresso de Weyer.

Gaap torna as pessoas ignorantes?

A formulação “insensível ou ignorante” foi popularizada especialmente por Mathers/Crowley. “Ignorante” não aparece da mesma maneira na tradição latina de Weyer.

Gaap torna alguém invisível?

A invisibilidade está explicitamente presente em Weyer e na Goetia.

Gaap conhece o passado?

Sim.

Gaap conhece o presente?

Sim.

Gaap conhece o futuro?

Sim.

Gaap responde verdadeiramente?

A tradição principal afirma que fornece respostas verdadeiras e completas sobre questões temporais.

Gaap pode transportar pessoas?

Os textos afirmam que consegue transportar rapidamente pessoas entre regiões ou reinos.

Isso significa projeção astral?

A expressão “projeção astral” é moderna e não aparece como terminologia original de Weyer ou da Goetia.

Gaap está relacionado a espíritos familiares?

Sim. A tradição afirma que pode retirar ou libertar familiares da custódia de outros praticantes.

O que são familiares?

É uma categoria histórica ampla de espíritos auxiliares associados a determinada pessoa ou prática. O significado varia entre fontes.

Gaap está subordinado a Amaymon?

A tradição relaciona determinadas funções de Gaap diretamente ao domínio de Amaymon e a Goetia o chama de seu rei nesse contexto.

Gaap era uma Potestade?

Weyer e a Goetia afirmam que ele era da ordem das Potestades.

O que são as Potestades?

São uma das nove ordens angelicais da tradição cristã sistematizada de maneira influente por Pseudo-Dionísio.

Isso significa que Gaap era um anjo caído?

Dentro da estrutura demonológica cristã, essa é a interpretação natural. Entretanto, as fontes não fornecem uma biografia celestial completa.

Quantas legiões Gaap governa?

Weyer e a Goetia registram 66.

Por que Collin de Plancy diz 60?

O Dictionnaire Infernal preserva uma variante ou erro de transmissão com 60 legiões. Para a linha Weyer–Goetia, 66 é o número principal.

Caap tinha quantas legiões?

No Livre des Esperitz, Caap governa 20.

Gaap aparece na Bíblia?

Não.

Gaap é uma antiga divindade pagã?

Não existe evidência histórica suficiente para identificar Gaap diretamente com uma divindade antiga específica.

Qual é a origem do nome Gaap?

Permanece incerta devido à grande quantidade de variantes documentais.

O selo de Gaap é antigo?

O selo goético pertence à tradição manuscrita do Lemegeton e é posterior às primeiras formas conhecidas do personagem.

INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DE GAAP

Quando observamos suas atribuições em conjunto, Gaap apresenta uma estrutura incomum.

Filosofia representa compreensão.

Artes liberais representam formação.

Conhecimento temporal representa informação.

Amor representa aproximação.

Ódio representa afastamento.

Insensibilidade representa ausência de resposta.

Invisibilidade representa ocultação.

Familiares representam vínculos.

Consagração representa transformação de significado.

Transporte representa movimento.

Os quatro reis representam hierarquia.

As Potestades representam uma antiga posição de autoridade.

Esses elementos podem ser reunidos numa interpretação contemporânea:

Gaap como figura do controle das relações entre conhecimento, percepção, vínculo e movimento.

Essa interpretação é autoral.

Não constitui uma doutrina explicitamente encontrada nos manuscritos.

GAAP COMO SÍMBOLO DA INFORMAÇÃO

Conhecimento muda possibilidades.

Uma pessoa que sabe mais pode agir de maneiras indisponíveis para quem não sabe.

Gaap ensina.

Responde.

Prevê.

Move.

Em uma leitura contemporânea, ele pode representar informação como forma de mobilidade.

Conhecimento permite sair de uma posição e alcançar outra.

GAAP COMO SÍMBOLO DA TRANSIÇÃO

Transportar pessoas entre reinos pode simbolizar mudanças rápidas de estado.

Aluno torna-se especialista.

Estranho torna-se aliado.

Amor transforma-se em ódio.

Visível torna-se invisível.

Subordinado torna-se livre.

A descrição de Gaap está repleta de mudanças.

GAAP COMO SÍMBOLO DA AMBIVALÊNCIA EMOCIONAL

Poucas emoções possuem contraste tão forte quanto amor e ódio.

Gaap controla simbolicamente os dois extremos.

A tradição inglesa adiciona ainda insensibilidade.

Isso cria um espectro:

atração;

repulsão;

indiferença.

Uma interpretação psicológica moderna pode utilizar esse conjunto para pensar diferentes maneiras pelas quais seres humanos se relacionam.

GAAP COMO SÍMBOLO DA AUTONOMIA

A libertação de familiares também permite uma leitura contemporânea sobre autonomia.

Um vínculo pode ser rompido.

Uma relação de controle pode terminar.

Mas liberdade também cria incerteza.

Romper estrutura não significa automaticamente criar uma melhor.

Essa tensão aparece em muitos processos humanos.

GAAP COMO SÍMBOLO DA PRIVACIDADE

A invisibilidade pode representar a capacidade de manter algo fora da observação.

Privacidade.

Segredo.

Anonimato.

No ambiente moderno, essas categorias tornaram-se particularmente importantes.

Quanto mais sistemas conseguem observar pessoas, maior o valor de escolher aquilo que será ou não exposto.

GAAP COMO SÍMBOLO DA RESPONSABILIDADE SOBRE O CONHECIMENTO

Se alguém conhece passado, presente e futuro, possui poder.

Se alguém conhece filosofia, possui ferramentas de raciocínio.

Se alguém entende pessoas, possui influência.

A pergunta ética não é apenas:

o que sabemos?

Mas:

o que fazemos com aquilo que sabemos?

Gaap pode simbolizar a necessidade de responsabilidade diante da assimetria de informação.

GAAP COMO SÍMBOLO DA INTELIGÊNCIA SEM EMPATIA

A insensibilidade acrescentada pela tradição inglesa oferece outra leitura.

Uma pessoa pode ser intelectualmente brilhante e emocionalmente indiferente.

Pode compreender sistemas e ignorar sofrimento.

Pode saber convencer e utilizar isso para manipular.

Pode dominar ciência e esquecer pessoas.

Gaap pode representar simbolicamente esse risco.

GAAP COMO SÍMBOLO DA MOBILIDADE

Mover-se rapidamente também significa escapar de imobilidade.

A pessoa que muda de ambiente encontra novas possibilidades.

Mas mudança constante também pode impedir raízes.

Assim, mobilidade não é automaticamente positiva.

Gaap pode simbolizar tanto liberdade de movimento quanto instabilidade.

GAAP COMO FIGURA DA MEDIAÇÃO

Sua posição diante de reis também permite outra interpretação.

O guia não é necessariamente o governante.

Mas pode saber o caminho.

Uma pessoa pode não possuir autoridade máxima e ainda assim exercer enorme influência porque orienta quem decide.

Conselheiros.

Especialistas.

Assessores.

Mediadores.

Gaap pode simbolicamente representar esse tipo de poder indireto.

O PODER DE QUEM GUIA O REI

Aquele que governa possui autoridade formal.

Aquele que aconselha pode possuir autoridade intelectual.

Se o governante depende do guia para saber onde ir, a hierarquia torna-se mais complexa.

A descrição de Gaap como guia de quatro reis cria simbolicamente exatamente esse problema.

Quem possui mais poder?

Quem ocupa o trono?

Ou quem conhece o caminho?

GAAP COMO FIGURA DA FILOSOFIA PRÁTICA

Filosofia não precisa permanecer apenas no campo abstrato.

Entendimento pode mudar decisões.

Gaap combina filosofia com movimento, relações e ação.

Em uma leitura contemporânea, isso permite interpretá-lo como figura do conhecimento colocado em prática.

CONHECIMENTO QUE NÃO MUDA NADA É SUFICIENTE?

Essa pergunta resume uma possível leitura.

Gaap não apenas sabe.

Ele transporta.

Transforma vínculos.

Altera disposições.

Consagra.

A figura sugere que conhecimento produz consequências quando aplicado.

GAAP COMO FIGURA DA MUDANÇA DE CONTEXTO

Transportar alguém entre reinos não altera necessariamente a pessoa.

Mas altera tudo ao redor dela.

Normas.

Pessoas.

Idioma.

Oportunidades.

Perigos.

Às vezes, mudar contexto transforma mais que tentar mudar diretamente o indivíduo.

Gaap pode simbolizar essa capacidade de alterar condições.

GAAP E O CONCEITO DE REDE

Outra interpretação moderna particularmente adequada envolve redes.

Uma rede é constituída por:

nós;

ligações;

fluxos.

Gaap atua exatamente nesses três níveis.

Pessoas e espíritos são nós.

Amor, ódio e familiares são ligações.

Informação e movimento são fluxos.

Isso permite compreender simbolicamente Gaap como figura da estrutura relacional.

CONECTAR, DESCONECTAR E MOVER

Podemos reduzir suas principais funções a três verbos:

conhecer

conectar

mover.

Conhecer:

filosofia;

artes;

passado;

presente;

futuro.

Conectar:

amor;

familiares;

consagração.

Desconectar:

ódio;

insensibilidade;

libertação de familiares.

Mover:

transporte entre regiões.

Essa síntese oferece grande coerência à sua aparente variedade de poderes.

GAAP EXISTE?

Como em todos os artigos desta série, a pergunta precisa ser dividida.

Historicamente, Gaap existe como tradição documental.

Podemos localizar:

Caap no Livre des Esperitz;

Coap no mesmo manuscrito;

Toab em outra tradição;

Gaap/Tap em Weyer;

Gaap/Tap em Scot;

Gaap nº 33 na Goetia;

Tap/Gaap em Collin de Plancy.

Podemos comparar posições.

Títulos.

Funções.

Legiões.

Nomes.

Hierarquias.

Isso é demonstrável documentalmente.

A existência objetiva de um ser sobrenatural correspondente a essas descrições pertence a outro campo.

Os documentos demonstram a existência e transformação da tradição.

Não funcionam isoladamente como prova empírica de uma entidade sobrenatural.

POR QUE GAAP É IMPORTANTE PARA O ESTUDO DA GOETIA?

Gaap reúne praticamente todos os grandes problemas da crítica dos grimórios.

Variantes nominais.

Possíveis personagens duplicados.

Mudança de posição.

Mudança de legiões.

Traduções problemáticas.

Ampliações editoriais.

Hierarquias contraditórias.

Relação com tradições manuscritas anteriores.

Angelologia.

Demonologia.

Recepção artística posterior.

Tudo isso aparece num único personagem.

GAAP COMO CASO DE CRÍTICA TEXTUAL

Talvez nenhuma abordagem seja mais adequada para Gaap que comparar versões.

Um resumo moderno pode afirmar:

Gaap é nº 33.

Rei do Sul.

Presidente.

Príncipe.

Possui 66 legiões.

Torna ignorante.

Aparece quando o Sol está em signos do Sul.

Tudo isso parece formar uma ficha simples.

Mas a pesquisa revela:

Weyer o coloca como §36.

Seu título não é Rei.

Goap talvez seja outra figura.

“ignorante” é ampliação posterior.

A frase solar deriva de expressão latina ambígua.

Collin de Plancy entende meio-dia.

Caap possui 20 legiões.

Collin de Plancy apresenta 60.

A história real é muito mais interessante que a ficha simplificada.

O QUE PERMANECE ATRAVÉS DA TRADIÇÃO PRINCIPAL?

Título composto.

Forma humana.

Forte autoridade.

Conhecimento.

Amor e ódio.

Invisibilidade.

Relação com Amaymon.

Familiares.

Conhecimento temporal.

Transporte.

Legiões numerosas.

Esses elementos formam o núcleo relativamente estável do Gaap renascentista e goético.

O QUE MUDA?

Nome.

Posição.

Condições de aparição.

Insensibilidade.

Ignorância.

Número de legiões em fontes paralelas.

Relação com quatro reis.

Direção cardinal.

Iconografia visual.

Esses elementos demonstram evolução.

GAAP NO LIVRE DES ESPERITZ

O provável antecedente Caap apresenta:

Título: Grande Príncipe.

Aparência: cavaleiro.

Função: respostas verdadeiras.

Função material: trazer ouro e prata.

Legiões: 20.

A identidade ainda é muito diferente.

GAAP EM WEYER

A principal descrição renascentista apresenta:

Nome: Gaap ou Tap.

Posição: §36 na edição latina comparada.

Título: Grande Presidente e Príncipe.

Aparência: humana.

Relação: guia de quatro reis.

Poder comparativo: tão poderoso quanto Bileth.

Conhecimento: filosofia e artes liberais.

Influência: amor e ódio.

Outra capacidade: invisibilidade.

Ritual: consagrações ligadas ao domínio de Amaymon.

Familiares: pode retirá-los da posse de outros exorcistas.

Conhecimento temporal: presente, passado e futuro.

Movimento: transporta rapidamente pessoas entre regiões.

Legiões: 66.

Antiga ordem: Potestades.

GAAP EM SCOT

A tradução inglesa mantém grande parte dessa descrição.

Mas introduz “insensibilidade”.

Essa palavra seria herdada pelo Lemegeton.

Isso faz da versão de Scot uma etapa decisiva na transformação do personagem.

GAAP NA ARS GOETIA

A Goetia reorganiza Gaap como nº 33.

Mantém a dupla hierarquia.

Desenvolve a referência solar.

Preserva a forma humana.

Mantém filosofia e artes liberais.

Mantém amor e ódio.

Preserva insensibilidade.

Mantém invisibilidade.

Mantém Amaymon.

Mantém familiares.

Mantém conhecimento temporal.

Mantém transporte.

Mantém 66 legiões.

Mantém Potestades.

O personagem permanece claramente reconhecível.

GAAP NO DICTIONNAIRE INFERNAL

Collin de Plancy apresenta Tap/Gaap.

Interpreta a aparição como meio-dia.

Preserva seu enorme poder.

Mantém amor e ódio.

Mantém transporte.

Reduz o número para 60 legiões.

A edição ilustrada fornece ainda uma representação visual que influenciaria profundamente a cultura moderna.

FICHA COMPARATIVA

Livre des Esperitz — Caap

Grande Príncipe.

Cavaleiro.

Respostas verdadeiras.

Ouro e prata.

20 legiões.

Weyer — Gaap/Tap

§36.

Presidente e Príncipe.

Forma humana.

Guia de quatro reis.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor.

Ódio.

Invisibilidade.

Consagração.

Familiares.

Passado, presente e futuro.

Transporte.

66 legiões.

Potestades.

Ars Goetia — Gaap

Nº 33.

Grande Presidente e Poderoso Príncipe.

Forma humana.

Quatro reis.

Filosofia.

Artes liberais.

Amor.

Ódio.

Insensibilidade.

Em edições posteriores, ignorância.

Consagração.

Familiares.

Passado, presente e futuro.

Transporte entre reinos.

66 legiões.

Potestades.

Collin de Plancy — Tap/Gaap

Presidente e Príncipe.

Aparição ao meio-dia.

Quatro reis.

Amor.

Ódio.

Transporte.

60 legiões.

Iconografia artística própria.

CONCLUSÃO

Gaap ocupa a posição de número 33 da Ars Goetia, mas sua história é muito menos simples do que essa numeração sugere.

Na tradição latina de Johann Weyer, aparece como §36.

Seu nome é Gaap ou Tap.

Antes de Weyer, formas relacionadas circulavam em manuscritos anteriores.

O Livre des Esperitz apresenta Caap como Grande Príncipe, cavaleiro, conhecedor de respostas verdadeiras e fornecedor de ouro e prata.

No mesmo manuscrito existe também Coap, outro Grande Príncipe com funções diferentes.

Outro testemunho preserva Toab.

Essas variantes demonstram que a tradição ainda estava em movimento.

Quando chegamos a Weyer, grande parte da identidade atualmente reconhecida já está formada.

Gaap é Presidente.

E Príncipe.

Possui forma humana.

Guia quatro reis.

Ensina filosofia.

Ensina artes liberais.

Influencia amor e ódio.

Concede invisibilidade.

Está ligado a consagrações de Amaymon.

Interfere em relações com familiares.

Conhece passado, presente e futuro.

Transporta pessoas rapidamente.

Governa 66 legiões.

E teria pertencido à ordem angelical das Potestades.

A tradução inglesa de Scot modifica esse conjunto.

Surge a insensibilidade.

A Goetia herda essa característica.

Edições modernas acrescentam ignorância.

A expressão latina relacionada a meridies também sofre transformação.

Weyer utiliza uma formulação ambígua.

Scot fala num signo meridional.

A Goetia coloca o Sol em alguns signos do Sul.

Collin de Plancy interpreta a tradição como aparição ao meio-dia.

Uma única palavra ajudou a criar várias tradições.

Existe ainda a questão de Goap.

Em uma seção da tradição salomônica, Goap aparece entre reis ligados aos pontos cardeais.

Mas Gaap é Presidente e Príncipe.

Sua própria descrição afirma que ele guia quatro reis.

Isso cria um problema impossível de resolver simplesmente repetindo listas modernas.

Talvez Goap e Gaap tenham sido originalmente distintos.

Talvez sejam variantes que entraram em conflito durante a compilação.

Talvez duas tradições tenham sido fundidas.

A documentação não permite uma resposta definitiva.

E justamente essa incerteza possui valor histórico.

Ela mostra o que esses manuscritos realmente são:

documentos transmitidos por seres humanos.

Copiados.

Traduzidos.

Alterados.

Reorganizados.

Interpretados.

A história de Gaap é também uma história sobre transmissão de informação.

Isso combina curiosamente com suas próprias funções.

Gaap ensina conhecimento.

Mas sua própria história precisa ser reconstruída a partir de informações fragmentadas.

Ele conhece passado, presente e futuro.

Mas seu próprio passado textual é difícil de recuperar.

Ele transporta pessoas entre regiões.

Seu nome também viajou entre idiomas e manuscritos.

Ele altera vínculos.

Sua própria identidade parece ter sido conectada e desconectada de Caap, Coap, Toab e Goap ao longo dos séculos.

Essa combinação torna Gaap especialmente interessante para uma leitura simbólica contemporânea.

Suas atribuições parecem inicialmente dispersas.

Filosofia.

Ciências.

Amor.

Ódio.

Insensibilidade.

Invisibilidade.

Familiares.

Consagração.

Movimento.

Conhecimento temporal.

Mas existe um eixo capaz de reuni-las:

relações e fluxos.

Conhecimento flui entre mente e mundo.

Emoções criam ou destroem relações.

Familiares representam vínculos.

Consagração altera a relação entre objeto e significado.

Invisibilidade interrompe a relação entre sujeito e observador.

Transporte altera a relação entre pessoa e lugar.

O conhecimento do tempo conecta presente a passado e futuro.

Gaap pode, portanto, ser interpretado simbolicamente como figura do controle sobre informação, conexão e movimento.

Essa leitura não está pronta em Weyer.

Não está escrita no Lemegeton.

É uma interpretação autoral construída sobre características historicamente documentadas.

Ela também possui extraordinária relevância contemporânea.

Vivemos numa sociedade definida por fluxos.

Informação circula.

Pessoas circulam.

Capital circula.

Dados circulam.

Influência circula.

Relações são formadas e rompidas rapidamente.

Uma pessoa pode estar fisicamente num país e trabalhar diariamente com pessoas de outro continente.

Pode tornar-se visível para milhões através de uma publicação.

Pode tentar tornar-se invisível utilizando ferramentas de privacidade.

Pode adquirir conhecimento extraordinário através da internet.

Pode também ser mantida ignorante através de desinformação.

Pode construir vínculos.

Pode manipular vínculos.

Pode mover informação de maneira quase instantânea.

Nesse ambiente, os antigos atributos de Gaap adquirem uma surpreendente força metafórica.

Mas existe uma diferença fundamental entre capacidade e ética.

Conhecimento pode ser utilizado para ensinar.

Ou manipular.

Invisibilidade pode proteger privacidade.

Ou esconder abuso.

Influência pode reconciliar.

Ou produzir ódio.

Mobilidade pode libertar.

Ou desestabilizar.

Informação pode esclarecer.

Ou confundir.

Uma interpretação contemporânea de Gaap precisa, portanto, reconhecer a ambivalência presente em suas próprias atribuições.

Talvez a principal questão simbólica da figura não seja:

quanto poder podemos obter?

Mas:

o que acontece quando conseguimos controlar aquilo que os outros sabem, sentem, veem e conseguem alcançar?

Essa pergunta transforma Gaap em algo muito mais interessante que uma simples entrada de catálogo.

Historicamente, ele permanece o Grande Presidente e Poderoso Príncipe nº 33 da Ars Goetia, sucessor textual do Gaap/Tap §36 de Weyer e provavelmente relacionado a tradições manuscritas ainda anteriores.

Documentalmente, é um caso exemplar de variação e transmissão.

Simbolicamente, pode representar a relação entre saber, conexão, mobilidade e poder.

E sua história demonstra novamente uma das principais conclusões desta série:

os espíritos da Goetia não são personagens congelados.

São construções textuais que viajaram durante séculos, mudando de nome, posição e significado enquanto diferentes autores, copistas, tradutores e leitores os reconstruíam.

REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E BIBLIOGRÁFICAS

LIVRE DES ESPERITZ. Manuscrito francês do século XV preservando Caap como Grande Príncipe em forma de cavaleiro, fornecedor de respostas, ouro e prata, com 20 legiões; contém também Coap como personagem separado.

TRINITY COLLEGE CAMBRIDGE, MS O.8.29. Manuscrito associado ao Livre des Esperitz, importante para documentar Caap e Coap.

CLM 849. Manuscrito preservando uma forma relacionada a Gaap sob o nome Toab e uma descrição alternativa associada às mulheres e ao amor.

WEYER, Johann. De Praestigiis Daemonum. Obra inicialmente publicada em 1563 e ampliada em edições posteriores.

WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo que apresenta Gaap/Tap na seção 36 da edição latina comparada, como Grande Presidente e Príncipe, governando 66 legiões.

SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. Londres, 1584. Etapa essencial da transmissão inglesa e especialmente importante para a introdução da “insensibilidade” na descrição de Gaap.

LEMEGETON CLAVICULA SALOMONIS. Tradição manuscrita conhecida posteriormente como The Lesser Key of Solomon, especialmente sua primeira parte, Ars Goetia.

SLOANE MS 3825. Importante testemunho manuscrito da Goetia no qual Gaap aparece como nº 33.

PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. De Coelesti Hierarchia. Obra fundamental para contextualizar a ordem angelical das Potestades/Powers.

COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. Sexta edição, Paris, 1863. Registra Tap/Gaap, interpreta a aparição como ocorrendo ao meio-dia e atribui 60 legiões.

LE BRETON, Louis. Ilustração de Tap/Gaap para a edição de 1863 do Dictionnaire Infernal, uma das representações visuais mais influentes na recepção contemporânea.

BOUDET, Jean-Patrice. “Les who’s who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux”. Estudo comparativo fundamental para compreender os catálogos demonológicos e as inconsistências relacionadas a Gaap/Goap.

PETERSON, Joseph H. Edições e estudos comparativos da Pseudomonarchia Daemonum, Ars Goetia, Livre des Esperitz e diferentes testemunhos dos Offices of Spirits.

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Emrys

Emrys é autor, editor e pesquisador responsável pelo Templo de Lúcifer. Seu trabalho concentra-se em Luciferianismo, história das religiões, demonologia, simbolismo, ocultismo e esoterismo, com ênfase na análise e contextualização de fontes. Conheça o autor e a metodologia editorial →

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