Naberius — História, Simbolismo E Tradição Do 24º Espírito Da Ars Goetia

Naberius ocupa a posição de 24º espírito da Ars Goetia e recebe o título de poderoso Marquês. Sua descrição reúne elementos que fazem dele uma das figuras intelectualmente mais interessantes dessa parte do catálogo: conhecimento das artes e ciências, domínio especial da retórica, uma voz característica e uma curiosa relação com honra, dignidade e posição social.
Sua aparência é relativamente simples quando comparada às criaturas híbridas de múltiplas cabeças encontradas em outras partes da Goetia. Naberius manifesta-se na forma de um corvo negro, movimentando-se ao redor do círculo e falando com uma voz rouca.
Entretanto, sua aparente simplicidade esconde um problema histórico particularmente importante.
Nas fontes anteriores à Ars Goetia, a entidade aparece sob as formas Naberus e Naberius, acompanhada por um segundo nome surpreendente: Cerberus.
Johann Weyer registra Naberus, também chamado Cerberus, como o 17º espírito de sua Pseudomonarchia Daemonum. Reginald Scot preserva a mesma associação na tradição inglesa.
Mais tarde, a Ars Goetia reorganiza a figura como Naberius nº 24.
Mas a mudança de posição não é a transformação mais importante.
Existe uma verdadeira inversão em uma de suas atribuições.
Weyer e Scot dizem que Naberus provoca a perda de prelazias e dignidades.
A Ars Goetia, por outro lado, afirma que Naberius restaura dignidades e honras perdidas.
Assim, uma função originalmente destrutiva ou depreciativa transforma-se, na versão posterior, em uma capacidade restauradora.
Poucos exemplos demonstram de forma tão clara como uma pequena alteração textual pode mudar completamente o significado de uma entidade.
QUEM É NABERIUS NA ARS GOETIA?
Na organização da Ars Goetia, Naberius é o vigésimo quarto espírito.
Ele recebe o título de Marquês muito valente ou poderoso, dependendo da tradução adotada.
Sua manifestação é descrita como a de um corvo negro que se movimenta ou esvoaça ao redor do círculo.
Quando fala, sua voz é caracterizada como rouca.
Sua principal esfera de conhecimento encontra-se nas artes e ciências.
Entre todas elas, uma recebe atenção especial:
a retórica.
Naberius é apresentado como capaz de tornar pessoas extremamente habilidosas nesse campo.
A tradição goética também lhe atribui a capacidade de recuperar dignidades e honras perdidas.
Finalmente, Naberius governa 19 legiões de espíritos.
Essas características formam o perfil pelo qual ele se tornou conhecido no ocultismo moderno.
NABERIUS OU NABERUS?
A forma atualmente mais conhecida é Naberius.
Entretanto, Johann Weyer registra principalmente Naberus.
Reginald Scot emprega Naberius em sua transmissão inglesa.
Manuscritos relacionados às tradições dos ofícios dos espíritos apresentam ainda outras pequenas variações.
Isso não representa algo excepcional.
Quase todos os artigos anteriores desta série demonstraram que os nomes da Goetia não permaneceram absolutamente estáveis.
Saleos aparece também como Zaleos.
Purson aparece como Pursan e Curson.
Morax torna-se Marax em determinadas edições.
Ipos aparece como Ipes.
Aim aparece como Aym e Haborym.
Naberius participa do mesmo processo.
Os grimórios foram copiados, traduzidos e reorganizados durante séculos. Nesse ambiente, nomes pouco familiares eram particularmente vulneráveis a mudanças.
NABERIUS E CERBERUS
A variante realmente intrigante não é Naberus.
É Cerberus.
Johann Weyer identifica explicitamente a entidade como Naberus, também chamado Cerberus.
Reginald Scot preserva a associação ao apresentar Naberius como Cerberus.
Isso cria uma questão histórica inevitável.
O Cerberus desses catálogos seria o mesmo Cérbero da mitologia greco-romana?
A resposta exige cautela.
Existe claramente uma associação nominal histórica, porque os próprios textos utilizam Cerberus como nome alternativo de Naberius.
Isso é fato documental.
Entretanto, demonstrar que Naberius representa uma continuidade direta e integral do Cérbero mitológico é uma questão muito mais complexa.
As duas figuras possuem aparências profundamente diferentes.
QUEM ERA CÉRBERO NA MITOLOGIA GREGA?
Na tradição mitológica grega, Cérbero — Kerberos em transliteração mais próxima do grego — é o monstruoso cão associado ao mundo dos mortos.
Sua função fundamental é guardar o domínio de Hades.
Uma das narrativas mais conhecidas envolvendo a criatura aparece nos trabalhos de Héracles, que recebe a tarefa de trazer Cérbero do mundo subterrâneo.
Fontes antigas apresentam variações em sua aparência.
A imagem de três cabeças tornou-se especialmente famosa, embora representações e relatos antigos nem sempre utilizem exatamente o mesmo número.
Em uma tradição preservada por Apolodoro, Cérbero possui três cabeças caninas, uma cauda semelhante à de um dragão ou serpente e elementos serpentinos adicionais.
A arte grega também demonstra que sua iconografia não foi completamente uniforme.
Existem representações antigas com duas cabeças, enquanto a forma tripla acabaria se tornando particularmente reconhecida.
O elemento constante é sua identidade como cão monstruoso ligado ao reino de Hades.
O PROBLEMA: NABERIUS NÃO PARECE UM CÃO
Aqui surge uma dificuldade importante.
Naberus/Cerberus, em Weyer, não aparece como cão.
Ele aparece como corvo.
Na Ars Goetia, Naberius continua relacionado ao corvo.
Também não existem três cabeças em sua descrição principal.
Não aparece como guardião do mundo dos mortos.
Não é apresentado junto a Hades.
Não possui a função mitológica de impedir a passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Isso significa que a correspondência não pode ser estabelecida simplesmente através da aparência ou função.
Temos um nome compartilhado, mas identidades iconográficas bastante diferentes.
NABERIUS É REALMENTE CÉRBERO?
A resposta mais historicamente responsável é:
Weyer e Scot associam explicitamente Naberius/Naberus ao nome Cerberus, mas isso não é suficiente para demonstrar como essa associação surgiu ou se Naberius representa uma transformação direta do Cérbero clássico.
Podem ter ocorrido séculos de adaptação entre uma tradição e outra.
Um nome clássico poderia ter sido reutilizado.
Uma entidade já existente poderia ter recebido Cerberus como nome alternativo.
Alguma tradição intermediária hoje perdida poderia explicar a transformação.
Também é possível que erros, adaptações ou reorganizações textuais tenham desempenhado algum papel.
Sem documentação intermediária suficiente, escolher uma dessas hipóteses como certeza seria especulação.
POR QUE ESSA DISTINÇÃO É IMPORTANTE?
Grande parte dos conteúdos modernos sobre demonologia funciona através de equivalências rápidas.
Um nome lembra uma divindade antiga.
Logo, afirma-se que são a mesma entidade.
Um símbolo aparece em duas culturas.
Logo, cria-se uma genealogia entre elas.
Esse método produz histórias atraentes, mas frequentemente frágeis.
Semelhança não é prova histórica.
No caso de Naberius, temos algo mais forte do que simples semelhança: existe de fato o nome alternativo Cerberus em fontes importantes.
Ainda assim, permanece necessário distinguir:
associação textual comprovada de continuidade histórica integral não demonstrada.
Essa diferença transforma uma hipótese interessante em uma análise intelectualmente responsável.
NABERUS NA PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM
A documentação anterior à Goetia apresenta Naberus na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.
Ele ocupa a posição 17.
A descrição é relativamente curta, porém suficientemente detalhada para identificarmos quase toda a estrutura preservada posteriormente.
Naberus é um Marquês poderoso ou valente.
Manifesta-se como corvo.
Possui voz rouca.
Relaciona-se às artes.
Possui domínio especial da retórica.
Governa 19 legiões.
Porém existem duas diferenças muito importantes em relação à versão goética.
A primeira é uma atribuição que posteriormente desaparece.
Weyer afirma que Naberus torna uma pessoa amável ou agradável.
A segunda diferença é ainda mais significativa.
Segundo Weyer, Naberus provoca a perda de prelazias e dignidades.
A Goetia posterior inverterá essa função.
JOHANN WEYER E O CONTEXTO DO CATÁLOGO
Johann Weyer publicou originalmente De Praestigiis Daemonum em 1563.
Sua obra tornou-se uma peça fundamental dos debates sobre bruxaria e demonologia na Europa moderna.
Weyer questionava aspectos das perseguições contra pessoas acusadas de feitiçaria, embora permanecesse inserido em uma visão religiosa do mundo própria de seu período.
Em 1577, uma edição ampliada incorporou o catálogo posteriormente conhecido como Pseudomonarchia Daemonum.
É nele que encontramos Naberus.
Essa cronologia é importante.
A Ars Goetia conhecida através da tradição do Lemegeton pertence a um desenvolvimento posterior.
Naberius, portanto, não nasceu como nº 24 da Goetia.
Uma versão anterior do personagem já circulava no século XVI.
NABERUS COMO Nº 17
Na organização de Weyer, Naberus ocupa a posição número 17.
Na Goetia, Naberius é o número 24.
O deslocamento é significativo, embora não tão radical quanto o observado com Aim, que passa da posição 57 para 23.
A mudança reforça um padrão que vem aparecendo repetidamente nesta série.
A conhecida sequência dos 72 espíritos da Ars Goetia não pode ser projetada automaticamente sobre todos os documentos anteriores.
Esses números pertencem a uma determinada organização textual.
Quando o catálogo foi reorganizado, diversas posições mudaram.
Naberius avançou sete lugares na numeração final, passando de 17 na lista de Weyer para 24 na Goetia.
REGINALD SCOT E NABERIUS
Em 1584, Reginald Scot publicou The Discoverie of Witchcraft.
O trabalho possui enorme importância para o estudo da magia europeia porque preservou em inglês uma grande quantidade de material relacionado a práticas mágicas, conjurações e catálogos demonológicos.
Assim como Weyer, Scot escreveu em um contexto crítico.
Entretanto, ao reproduzir esses documentos, contribuiu para sua transmissão.
Na versão de Scot encontramos Naberius, também chamado Cerberus.
Sua descrição segue de maneira muito próxima a tradição de Weyer.
Ele aparece como poderoso Marquês.
Assume a forma de um corvo.
Possui voz rouca.
Torna uma pessoa agradável e habilidosa nas artes, especialmente na retórica.
Está relacionado à perda de prelazias e dignidades.
E governa 19 legiões.
A importância desse estágio para a Goetia posterior é enorme.
DE SCOT AO LEMEGETON
Os estudos comparativos mostram forte proximidade entre a linguagem de partes da Ars Goetia e a tradição inglesa preservada por Scot.
Isso ajuda a explicar diversas características do texto posterior.
Não significa necessariamente que exista apenas uma linha simples de transmissão.
Podem ter existido fontes intermediárias.
Outros manuscritos circularam.
Diferentes compiladores podem ter utilizado materiais paralelos.
Mas a relação textual é suficientemente evidente para demonstrar que a Goetia faz parte de uma tradição documental anterior.
Naberius constitui um caso particularmente interessante porque essa transmissão pode ser observada através de mudanças concretas.
NABERIUS NO LEMEGETON
O Lemegeton Clavicula Salomonis, conhecido posteriormente como The Lesser Key of Solomon, reúne diferentes tratados associados à magia cerimonial.
Sua primeira parte é a Ars Goetia.
Nessa organização, Naberius assume a posição 24.
A descrição preserva grande parte dos elementos anteriores, porém também apresenta modificações.
A forma continua sendo a de um corvo.
A voz permanece rouca.
A retórica permanece central.
As 19 legiões permanecem.
Porém a Goetia amplia a formulação intelectual para artes e ciências.
A referência explícita a tornar alguém amável desaparece.
E a perda de dignidades transforma-se em recuperação de dignidades e honras.
O CORVO NEGRO DE NABERIUS
A versão goética descreve Naberius como um corvo negro.
O texto acrescenta ainda uma característica dinâmica.
Ele não aparece simplesmente imóvel.
A criatura é apresentada esvoaçando ou movimentando-se ao redor do círculo.
Esse detalhe ajuda a construir uma manifestação bastante diferente de espíritos apresentados de forma estática, sentados em animais ou aparecendo como figuras humanas.
Naberius está em movimento.
Sua voz também possui caráter marcante.
Ela é rouca.
A combinação entre forma de corvo, movimento e som cria uma das descrições mais coerentes visualmente da Goetia.
CORVO OU CORVO-GRANDE?
Traduções podem variar na maneira de representar o termo inglês antigo relacionado à ave.
Em português, “corvo” é a tradução mais natural e historicamente consolidada.
Não é necessário tentar identificar uma espécie zoológica precisa.
O texto não foi produzido como tratado ornitológico.
Seu objetivo é construir uma aparência reconhecível.
Assim, a forma de corvo deve ser entendida principalmente como elemento iconográfico.
O CORVO NA CULTURA SIMBÓLICA
Corvos aparecem em inúmeras tradições religiosas, literárias e folclóricas.
Podem ser associados a inteligência.
Em outros contextos aparecem relacionados à morte.
Também podem funcionar como mensageiros, observadores ou aves de presságio.
Seu comportamento e vocalizações chamaram atenção de diversas sociedades humanas.
Entretanto, nenhuma dessas associações deve ser automaticamente escolhida como significado oficial de Naberius.
Os grimórios não oferecem uma explicação detalhada de por que ele aparece como corvo.
Podemos interpretar.
Não podemos transformar interpretação em documento.
O CORVO E A INTELIGÊNCIA DE NABERIUS
Ainda assim, uma leitura simbólica contemporânea produz uma associação interessante.
Naberius está ligado à inteligência verbal e às artes.
O corvo, na cultura moderna e em diversas tradições, é frequentemente percebido como uma ave inteligente.
Isso cria uma coerência simbólica atraente.
Mas a cronologia precisa permanecer clara.
Não sabemos se o autor da descrição escolheu o corvo justamente por essa associação.
A correspondência pode ser explorada simbolicamente sem ser apresentada como fato histórico.
A VOZ ROUCA
A voz de Naberius constitui um detalhe preservado desde Weyer.
Isso é interessante porque conecta diretamente sua aparência àquilo que talvez seja sua principal especialidade: a fala.
Naberius ensina retórica.
Retórica depende de linguagem.
Linguagem depende da capacidade de comunicar.
E a própria entidade recebe uma voz particularmente identificável.
Existe, portanto, uma ligação estrutural entre som e função.
Entretanto, o contraste também é interessante.
Um mestre da retórica não recebe uma voz descrita como melodiosa.
Sua voz é rouca.
Isso demonstra novamente que a iconografia goética não segue necessariamente as expectativas modernas de correspondência perfeita entre aparência e função.
NABERIUS E A RETÓRICA
A retórica é provavelmente a atribuição mais importante de Naberius.
O termo não deve ser reduzido ao sentido popular contemporâneo de “fala vazia” ou manipulação verbal.
Historicamente, a retórica constitui uma disciplina intelectual com uma tradição milenar.
No mundo greco-romano, foi profundamente desenvolvida como arte do discurso.
Autores como Aristóteles, Cícero e Quintiliano produziram reflexões fundamentais sobre persuasão, argumentação, estilo e comunicação.
Na educação medieval, a retórica tornou-se uma das disciplinas do Trivium, ao lado da gramática e da dialética ou lógica.
Assim, dizer que Naberius possui domínio especial da retórica significa associá-lo a uma das estruturas fundamentais da educação intelectual europeia.
O TRIVIUM
A educação das artes liberais tradicionalmente foi organizada em Trivium e Quadrivium.
O Trivium reúne:
gramática, retórica e lógica ou dialética.
Essas disciplinas estavam relacionadas à linguagem, interpretação e argumentação.
O Quadrivium reunia aritmética, geometria, música e astronomia.
Quando Naberius é relacionado especialmente à retórica, ele ocupa uma posição dentro desse antigo sistema de organização do conhecimento.
Sua especialidade é a arte de construir e transmitir discurso de maneira eficaz.
RETÓRICA NÃO SIGNIFICA APENAS PERSUASÃO
A retórica histórica envolve mais do que convencer alguém.
Ela inclui organização do discurso.
Escolha de argumentos.
Adequação ao público.
Estilo.
Memória.
Entrega da fala.
Uso de figuras linguísticas.
Construção de credibilidade.
Apelos emocionais e racionais.
Por isso, a atribuição de Naberius pode ser compreendida como uma associação ampla com competência comunicativa.
Interpretações modernas que o relacionam a eloquência possuem, nesse sentido, uma conexão lógica com a fonte histórica.
NABERIUS E AS ARTES
Weyer afirma que Naberus torna uma pessoa conhecedora ou habilidosa nas artes.
A Goetia amplia essa formulação para artes e ciências.
Isso coloca Naberius em uma categoria intelectual compartilhada por vários outros espíritos.
Morax ensina astronomia e artes liberais.
Paimon possui atribuições relacionadas a filosofia e ciências.
Foras ensina lógica e ética.
Asmoday aparece relacionado a disciplinas matemáticas.
Naberius possui um perfil diferente.
Sua ênfase não está principalmente em compreender a natureza ou o cosmos.
Está no domínio da expressão, do aprendizado e, sobretudo, da retórica.
ARTES E CIÊNCIAS NO CONTEXTO PRÉ-MODERNO
As palavras “arte” e “ciência” não possuíam exatamente os limites conceituais que utilizamos atualmente.
Uma ars podia significar técnica, conhecimento estruturado ou disciplina.
A palavra “ciência” também possuía forte relação com conhecimento sistemático.
Consequentemente, não devemos imaginar Naberius como professor de um currículo universitário moderno.
A formulação pertence a outro universo intelectual.
O importante é compreender que o personagem está associado à aquisição de conhecimento e competência.
NABERIUS COMO FIGURA DA ELOQUÊNCIA
Entre todas as suas atribuições, a retórica oferece a interpretação simbólica mais imediata.
Naberius pode ser compreendido como uma figura da palavra eficaz.
Não apenas falar.
Mas saber como falar.
Não apenas possuir informação.
Mas saber apresentá-la.
Não apenas ter um argumento.
Mas organizar esse argumento de maneira inteligível e persuasiva.
Essa leitura explica por que interpretações contemporâneas frequentemente aproximam Naberius de oratória, comunicação, negociação e capacidade de expressão.
As extensões modernas precisam ser identificadas como tais, mas possuem uma base conceitual clara na antiga associação com retórica.
A ATRIBUIÇÃO QUE DESAPARECEU: TORNAR-SE AMÁVEL
Existe um detalhe de Weyer e Scot frequentemente ignorado nas descrições modernas.
Naberus/Naberius também torna uma pessoa amável, agradável ou bem aceita.
Essa característica desaparece da descrição principal da Ars Goetia.
A perda é interessante.
Retórica e simpatia possuem uma relação natural no campo da interação social.
Uma pessoa eloquente e agradável pode possuir maior capacidade de influência.
Talvez a combinação fosse percebida dessa maneira pelos transmissores anteriores.
No entanto, não temos uma explicação textual suficiente para saber por que a característica foi eliminada da versão posterior.
AMABILIDADE E PODER SOCIAL
Em uma interpretação simbólica, essa antiga atribuição amplia consideravelmente o perfil de Naberius.
Sua competência não seria apenas acadêmica.
Envolveria também presença social.
A capacidade de falar com habilidade.
A capacidade de ser bem recebido.
A capacidade de circular entre pessoas.
A capacidade de preservar ou recuperar posição.
Essa leitura torna ainda mais interessante a relação de Naberius com dignidade e honra.
O GRANDE PROBLEMA TEXTUAL: PERDER OU RECUPERAR DIGNIDADES?
Esse é provavelmente o aspecto historicamente mais importante de Naberius.
Em Weyer, Naberus causa a perda de prelazias e dignidades.
Scot preserva a mesma função.
Na Ars Goetia, Naberius faz exatamente o contrário.
Ele restaura dignidades e honras perdidas.
As duas afirmações não podem ser harmonizadas simplesmente como traduções equivalentes.
Elas possuem sentidos opostos.
Em uma tradição, Naberius retira posição.
Na outra, devolve posição.
O QUE É UMA PRELAZIA?
O termo pode parecer estranho ao leitor contemporâneo.
“Prelazia” está relacionado ao ofício, posição ou dignidade de um prelado, isto é, uma autoridade eclesiástica de alta posição.
Assim, quando Weyer fala em perda de prelazias e dignidades, sua formulação possui uma dimensão institucional bastante concreta.
Não estamos falando apenas de autoestima.
Estamos falando de posição.
Cargo.
Status.
Autoridade.
Prestígio social ou eclesiástico.
A palavra “dignidade”, nesse contexto histórico, pode carregar um sentido de posição formal muito mais forte que o uso cotidiano atual.
WEYER: NABERUS RETIRA STATUS
Na tradição de Weyer, portanto, Naberus possui uma função potencialmente destrutiva no campo social e institucional.
Ele pode estar associado à perda de posição elevada.
Uma pessoa poderia ser privada de dignidade.
Uma autoridade poderia perder seu posto.
Um membro do clero poderia perder determinada posição.
Isso coloca o personagem em relação direta com estruturas de poder.
Essa característica combina curiosamente com sua associação à retórica.
Palavras podem construir reputações.
Também podem destruí-las.
Novamente, essa conexão é uma interpretação possível, não uma explicação fornecida diretamente por Weyer.
A GOETIA: NABERIUS RESTAURA STATUS
A tradição goética inverte completamente essa direção.
Naberius passa a restaurar aquilo que foi perdido.
Honra.
Dignidade.
Posição.
Reputação.
Essa versão tornou-se muito mais conhecida no ocultismo moderno.
Como consequência, Naberius frequentemente é interpretado como uma figura associada à recuperação de reconhecimento ou reputação.
Entretanto, qualquer artigo historicamente rigoroso precisa mostrar que essa não é a única versão.
COMO OCORREU A INVERSÃO?
Não sabemos com segurança.
Essa é a resposta mais correta.
Pode ter ocorrido um erro de cópia.
Pode ter existido uma fonte intermediária com outra formulação.
Um compilador pode ter entendido a frase de maneira diferente.
A alteração pode ter sido deliberada.
Uma palavra pode ter desaparecido ou sido substituída.
Sem evidência suficiente, escolher uma explicação seria especulação.
O que podemos demonstrar é o resultado.
A tradição anterior apresenta perda.
A Goetia apresenta restauração.
POR QUE ESSA INVERSÃO É TÃO IMPORTANTE?
Porque demonstra que pequenas mudanças editoriais podem transformar completamente uma entidade.
Imagine dois leitores separados por diferentes versões do texto.
O primeiro consulta Weyer.
Para ele, Naberus pode destruir dignidades.
O segundo consulta a Goetia.
Para ele, Naberius recupera dignidades.
Os dois acreditam estar lendo a mesma tradição.
E, em grande parte, estão.
Mas uma única diferença textual produz interpretações praticamente opostas.
Esse é um exemplo perfeito de por que a história dos grimórios não pode ser estudada apenas através de resumos modernos.
HONRA NA SOCIEDADE PRÉ-MODERNA
A ideia de honra possuía enorme importância na Europa pré-moderna.
Reputação não era apenas uma questão emocional.
Ela podia influenciar posição social, relações políticas, oportunidades, credibilidade e pertencimento a determinadas instituições.
Assim, recuperar uma honra perdida podia representar muito mais do que sentir-se melhor consigo mesmo.
Significava recuperar posição pública.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que a atribuição de Naberius poderia parecer extremamente significativa aos leitores antigos.
NABERIUS COMO RESTAURADOR DE REPUTAÇÃO
Em interpretações modernas derivadas da Goetia, a recuperação de dignidades frequentemente é expandida para recuperação de reputação.
A associação é razoável, mas deve ser apresentada como desenvolvimento interpretativo.
“Dignidade” e “honra” podem envolver reputação, mas também posições formais.
Uma leitura contemporânea pode interpretar Naberius simbolicamente como figura relacionada à reconstrução da imagem pública após uma queda.
A fonte histórica fornece o ponto de partida.
A psicologia social moderna amplia o conceito.
PALAVRA E REPUTAÇÃO
A combinação entre retórica e restauração da honra permite uma interpretação particularmente coerente.
Reputações frequentemente são construídas através da comunicação.
Uma acusação pode destruir uma imagem.
Uma defesa bem formulada pode restaurá-la.
Uma pessoa pode recuperar sua posição demonstrando competência, justificando suas ações ou reconstruindo confiança.
Nesse sentido, o domínio de Naberius sobre retórica e honra pode ser interpretado como parte de um mesmo eixo simbólico.
A palavra modifica a posição social.
Essa é uma leitura moderna, mas surge diretamente da justaposição de duas atribuições históricas.
NABERIUS COMO MARQUÊS
Naberius possui o título de Marquês.
A categoria já aparece em Weyer e permanece na Goetia.
A utilização de títulos aristocráticos é uma das características estruturais mais evidentes dos catálogos goéticos.
Reis.
Príncipes.
Duques.
Marqueses.
Condes.
Presidentes.
Cavaleiros.
O universo espiritual é representado através de categorias de autoridade reconhecíveis aos leitores europeus.
Naberius encontra-se dentro dessa estrutura como Marquês.
O QUE SIGNIFICA O TÍTULO DE MARQUÊS NA GOETIA?
Não devemos imaginar necessariamente uma equivalência exata entre um Marquês goético e o título político existente em determinada monarquia europeia.
Os grimórios empregam uma linguagem aristocrática, mas não apresentam um sistema político perfeitamente desenvolvido.
A categoria funciona principalmente como indicação de posição hierárquica.
Diversos Marqueses possuem funções completamente diferentes.
Assim, o título de Naberius indica dignidade dentro do catálogo, não sua área de especialização.
A IRONIA DA DIGNIDADE
Existe uma curiosidade especialmente interessante.
Naberius é uma entidade dotada de uma dignidade aristocrática — Marquês — cuja própria função está relacionada a dignidades humanas.
Em Weyer, ele as destrói.
Na Goetia, ele as recupera.
Essa relação cria uma espécie de espelhamento.
Uma figura de alta posição espiritual controla simbolicamente a ascensão ou queda de posições sociais.
Não sabemos se essa relação foi intencional para os compiladores.
Mas ela fornece uma leitura simbólica particularmente fértil.
AS 19 LEGIÕES DE NABERIUS
Naberius governa 19 legiões.
Esse número permanece estável entre Weyer, Scot e a Goetia.
Assim, enquanto sua posição muda e uma de suas funções sofre inversão, sua quantidade de legiões continua intacta.
Essa estabilidade ajuda a demonstrar que a transmissão não foi uma reconstrução completa do personagem.
Partes foram preservadas.
Outras foram alteradas.
Esse padrão de continuidade seletiva é típico de tradições manuscritas.
O QUE SIGNIFICA “LEGIÃO”?
A palavra deriva do vocabulário militar romano.
Na literatura demonológica, tornou-se uma maneira de representar grandes grupos de espíritos subordinados.
Os números atribuídos aos diferentes personagens variam bastante.
Não há razão histórica para converter as 19 legiões de Naberius em uma quantidade exata de indivíduos sobrenaturais.
Dentro da narrativa, o número comunica autoridade.
Naberius não aparece sozinho.
Ele ocupa uma posição de comando.
NABERIUS E AS CIÊNCIAS
A formulação da Goetia acrescenta explicitamente as ciências ao repertório de Naberius.
Isso amplia seu perfil intelectual.
Contudo, é importante evitar um anacronismo.
“Ciência” nos séculos anteriores não correspondia exatamente ao conjunto de instituições, métodos e disciplinas que atualmente identificamos como ciência moderna.
A palavra podia significar conhecimento organizado ou domínio intelectual de determinado campo.
Portanto, apresentar Naberius como “patrono da ciência moderna” seria historicamente inadequado.
A associação original é muito mais ampla.
NABERIUS E MORAX
Morax oferece um bom contraste.
Ele está associado à astronomia, às artes liberais, às ervas e às pedras.
Seu conhecimento está fortemente relacionado à investigação da natureza.
Naberius possui perfil diferente.
Sua especialidade é discursiva.
A linguagem ocupa posição central.
Retórica.
Competência intelectual.
Prestígio.
Comunicação.
Os dois pertencem ao universo do conhecimento, mas representam tipos diferentes de conhecimento.
NABERIUS E PAIMON
Paimon também possui atribuições intelectuais extensas.
Ensina filosofia, ciências e conhecimentos secretos.
Entretanto, sua representação envolve uma autoridade real muito mais ampla.
Naberius possui uma especialização mais claramente identificável.
A retórica constitui seu traço intelectual dominante.
Isso torna sua figura especialmente interessante para estudos sobre linguagem, persuasão e autoridade.
NABERIUS E RONOVE
Ronove, que aparece pouco depois na sequência da Goetia, também possui relações importantes com retórica e linguagem.
Essa proximidade demonstra novamente que funções podem se sobrepor no catálogo.
A Goetia não atribui cada disciplina exclusivamente a uma única entidade.
Mais de um espírito pode ensinar linguagem.
Mais de um conhece artes.
Mais de um influencia dignidades.
As identidades individuais surgem da combinação completa de aparência, título, posição e competências.
NABERIUS É UM DEMÔNIO DA FALA?
Essa descrição pode funcionar como simplificação moderna, mas é insuficiente historicamente.
Naberius está profundamente relacionado à fala devido à retórica e à característica de sua voz.
Entretanto, sua esfera também inclui artes, ciências e dignidades.
Chamaremos melhor Naberius de uma figura demonológica relacionada à competência intelectual e discursiva, cuja especialidade mais enfatizada é a retórica.
Isso preserva a complexidade do texto.
NABERIUS E O PODER DA LINGUAGEM
A retórica sempre esteve relacionada ao poder.
Quem consegue explicar uma ideia pode influenciar.
Quem consegue argumentar pode convencer.
Quem domina a linguagem pode defender uma posição.
Quem possui autoridade discursiva pode adquirir prestígio.
Dentro dessa perspectiva, a associação entre Naberius, retórica e dignidade torna-se especialmente significativa.
Em uma interpretação contemporânea, ele pode representar a capacidade de recuperar poder social através da palavra.
Essa leitura não aparece pronta nos grimórios.
Ela é construída através da análise de seus atributos.
O CORVO COMO MENSAGEIRO
Outra interpretação moderna aproxima o corvo da ideia de mensagem.
Aves frequentemente funcionam como mensageiras em mitos e narrativas.
Corvos possuem ainda fortes associações culturais com observação e inteligência.
Quando essa imagem é combinada com retórica, surge uma figura muito ligada à circulação de informação.
Novamente, não existe evidência suficiente para afirmar que essa fosse a intenção exata dos primeiros compiladores.
O valor dessa leitura é simbólico.
A VOZ IMPERFEITA DO MESTRE DA RETÓRICA
Existe um paradoxo interessante na descrição de Naberius.
O mestre da retórica possui voz rouca.
Isso pode ser interpretado de diversas maneiras.
Talvez simplesmente reproduza a vocalização imaginada de um corvo.
Talvez não exista nenhum significado mais profundo.
Mas simbolicamente surge uma ideia interessante:
eloquência não depende necessariamente de uma voz perfeita.
A força do discurso pode estar na estrutura, inteligência e escolha das palavras.
Essa leitura contemporânea transforma um detalhe aparentemente negativo em uma reflexão sobre comunicação.
RETÓRICA E MANIPULAÇÃO
A retórica também possui uma reputação ambivalente.
Pode ser usada para explicar.
Pode ser usada para persuadir honestamente.
Pode organizar argumentos racionais.
Mas também pode ser utilizada para manipulação.
Essa ambiguidade já existe desde discussões filosóficas antigas sobre a natureza da persuasão.
Naberius, enquanto personagem demonológico associado à retórica, inevitavelmente participa desse imaginário ambíguo.
Entretanto, os grimórios não oferecem um tratado moral detalhado sobre seu uso.
Assim, interpretações éticas devem ser construídas com cuidado.
CONHECIMENTO NÃO É O MESMO QUE SABEDORIA
A Goetia atribui conhecimento a muitas entidades.
Isso não significa necessariamente sabedoria moral.
Naberius pode ensinar artes.
Pode ensinar ciências.
Pode desenvolver retórica.
Mas o texto não afirma que essas capacidades sejam automaticamente utilizadas para o bem.
Essa diferença é conceitualmente importante.
Conhecimento é capacidade.
Sabedoria envolve julgamento sobre como utilizar essa capacidade.
Em uma interpretação moderna, Naberius pode representar justamente a ambiguidade existente entre possuir habilidades de comunicação e utilizá-las de maneira responsável.
NABERIUS E CÉRBERO: UMA SEGUNDA LEITURA SIMBÓLICA
Mesmo sem afirmar uma continuidade histórica direta, o nome alternativo Cerberus permite uma comparação simbólica interessante.
Cérbero guarda uma passagem.
Ele controla uma fronteira.
Naberius trabalha simbolicamente com linguagem.
A linguagem também controla passagens: entre pensamento e comunicação, desconhecido e conhecido, reputação perdida e reputação reconstruída.
É possível interpretar Naberius como guardião de uma fronteira discursiva.
Essa leitura é moderna.
Mas pode ser utilizada justamente porque não precisa fingir ser uma explicação antiga.
A TRADIÇÃO CLÁSSICA E OS GRIMÓRIOS
O reaparecimento de nomes clássicos em literatura demonológica não é algo impossível ou surpreendente.
Autores medievais e renascentistas conheciam diferentes elementos da literatura antiga.
Personagens pagãos podiam ser reinterpretados dentro de contextos cristãos.
Nomes também podiam circular desvinculados de parte de suas narrativas originais.
Assim, Cerberus tornar-se um nome alternativo dentro de um catálogo demonológico pertence a um ambiente cultural plausível.
O que não podemos fazer é reconstruir automaticamente todas as etapas perdidas desse processo.
NABERIUS NÃO É UMA FIGURA BÍBLICA
Naberius não aparece como personagem da Bíblia canônica.
Esse ponto merece ser repetido porque classificações populares frequentemente agrupam toda demonologia sob o rótulo de “demônios bíblicos”.
A Bíblia representa apenas uma das várias fontes que influenciaram a demonologia europeia.
Naberius é documentado principalmente através da tradição dos catálogos mágicos europeus.
Sua associação com Cerberus sugere inclusive uma possível interação com repertório clássico, embora a natureza exata dessa relação permaneça incerta.
NABERIUS É UM ANJO CAÍDO?
Determinadas tradições teológicas interpretam demônios genericamente como anjos caídos.
Isso permite incluir Naberius nessa estrutura dentro de sistemas posteriores.
Entretanto, Weyer, Scot e a Goetia não apresentam uma biografia individual detalhada de Naberius antes de uma suposta queda celestial.
Não sabemos, através dessas fontes, seu suposto nome anterior, ordem angelical original ou narrativa particular de rebelião.
Assim, afirmar especificamente que Naberius era determinado anjo celestial transformado posteriormente em demônio exigiria documentação adicional.
NABERIUS ERA UM DEUS ANTIGO?
Não existem evidências suficientes para classificá-lo como antiga divindade pagã demonizada.
O caso é diferente da afirmação sobre Cerberus.
Cerberus aparece efetivamente como nome alternativo nas fontes de Weyer e Scot.
Mas Cérbero não é propriamente um deus; é uma criatura mitológica ligada ao mundo de Hades.
Mesmo essa relação deve ser tratada com cautela.
Portanto, apresentar Naberius simplesmente como “antigo deus pagão transformado em demônio” seria historicamente incorreto.
A ETIMOLOGIA DE NABERIUS
A origem linguística precisa do nome Naberius permanece incerta.
Existem tentativas modernas de explicar o nome através de diferentes línguas ou transformações de Cerberus.
Entretanto, sem uma sequência documental filologicamente sólida, essas propostas devem permanecer hipóteses.
A existência das formas Naberus, Naberius e Cerberus demonstra uma tradição complexa.
Não sabemos exatamente qual forma antecedeu todas as outras.
Não sabemos se Cerberus foi acrescentado como identificação secundária ou se desempenhou papel na formação do próprio nome Naberius.
Reconhecer essa incerteza é mais rigoroso do que inventar uma etimologia definitiva.
O SELO DE NABERIUS
Na tradição da Ars Goetia, Naberius possui um selo gráfico próprio.
Esses sinais se tornaram uma das características mais conhecidas da recepção moderna dos 72 espíritos.
Entretanto, Naberius enquanto personagem é anterior ao sistema gráfico goético conhecido.
Weyer já descrevia Naberus/Cerberus no século XVI.
A Pseudomonarchia Daemonum não apresenta o mesmo conjunto sistemático de selos posteriormente associado à Goetia.
Isso significa que a identidade textual da entidade antecede o sigilo que atualmente costuma representá-la.
O SELO PODE TER VARIAÇÕES?
Sim.
Símbolos transmitidos através de manuscritos estão sujeitos a transformações.
Uma linha pode ser copiada de maneira diferente.
Um traço pode desaparecer.
Partes podem se fundir.
A proporção pode mudar.
Por isso, a existência de pequenas variações gráficas não significa necessariamente que existam diferentes entidades ou selos completamente independentes.
A crítica textual também precisa considerar desenhos.
NABERIUS NA DEMONOLOGIA MODERNA
Durante os séculos XIX, XX e XXI, Naberius acumulou interpretações adicionais.
Entre elas encontram-se associações com:
eloquência, comunicação, persuasão, conhecimento, inteligência, reputação, recuperação de prestígio, imagem pública, estudo e capacidade de argumentação.
Parte dessas associações possui conexão bastante direta com as fontes.
Retórica sustenta eloquência e comunicação.
Restauração de honra sustenta interpretações relacionadas à reputação.
Outras expansões pertencem claramente ao ocultismo contemporâneo.
É possível estudá-las sem confundi-las com a documentação antiga.
NABERIUS E A RECUPERAÇÃO DA IMAGEM PÚBLICA
Entre as leituras modernas, a recuperação de reputação merece atenção especial.
Na sociedade contemporânea, reputação pode envolver carreira, relações profissionais, presença pública e credibilidade.
Isso não é exatamente o mesmo que recuperar uma dignidade institucional do século XVII.
Ainda assim, existe uma analogia compreensível.
Por esse motivo, sistemas modernos frequentemente reinterpretam o atributo antigo em termos de reconstrução da imagem pessoal.
A história fornece a raiz.
A modernidade adapta o conceito ao seu próprio ambiente social.
INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DE NABERIUS
Quando seus atributos são analisados em conjunto, Naberius pode ser interpretado como uma figura do poder social da linguagem.
O corvo representa simbolicamente observação e inteligência em diversas leituras culturais.
A voz representa comunicação.
A retórica representa domínio da expressão.
As artes e ciências representam conhecimento.
A amabilidade presente nas fontes anteriores introduz capacidade social.
A dignidade e a honra introduzem reputação e posição.
Esses elementos convergem para uma mesma região simbólica.
Naberius está cercado pela relação entre conhecimento, palavra e reconhecimento.
Essa síntese é uma interpretação contemporânea.
Não é uma frase retirada de um grimório.
NABERIUS COMO SÍMBOLO DA RECONSTRUÇÃO
Na versão goética, a restauração da dignidade permite uma leitura ainda mais específica.
Uma pessoa pode perder reconhecimento.
Pode sofrer uma derrota pública.
Pode perder posição.
Pode ter sua credibilidade questionada.
Reconstruir-se exige conhecimento, comunicação e capacidade de convencer novamente aqueles ao redor.
Dentro desse modelo simbólico, Naberius representa o processo de reconstrução através da competência.
A honra não retorna simplesmente porque é desejada.
Ela é recuperada através da capacidade de demonstrar valor.
Essa é uma interpretação moderna particularmente coerente com as funções tradicionais da entidade.
NABERIUS COMO SÍMBOLO DO ORADOR
Outra leitura é ainda mais direta.
Naberius pode representar o arquétipo do orador.
O indivíduo que organiza pensamentos.
Escolhe palavras.
Adapta o discurso ao público.
Constrói credibilidade.
Defende uma posição.
Recupera confiança.
Produz influência através da linguagem.
Essa interpretação aproxima a figura demonológica de uma preocupação humana extremamente antiga: dominar a palavra.
O CORVO E A MEMÓRIA
Corvos também podem ser utilizados em interpretações contemporâneas relacionadas à memória e observação.
Isso se torna interessante quando consideramos a retórica clássica.
A memória era tradicionalmente considerada uma das partes fundamentais da preparação do discurso.
Não existe evidência de que o corvo de Naberius tenha sido escolhido por causa dessa associação.
Mas simbolicamente, a relação entre ave observadora, memória e discurso pode produzir uma leitura consistente.
Mais uma vez, consistência simbólica não equivale a prova histórica.
A PALAVRA COMO INSTRUMENTO DE PODER
Naberius demonstra algo que a história humana confirma independentemente da demonologia:
palavras exercem poder social.
Discursos podem mobilizar sociedades.
Argumentos podem alterar decisões.
Defesas podem preservar reputações.
Acusações podem destruir posições.
A comunicação pode elevar ou derrubar uma pessoa.
Curiosamente, as duas versões históricas de Naberius refletem exatamente essa ambivalência.
Weyer: perda de dignidade.
Goetia: recuperação de dignidade.
Em ambos os casos, o domínio da linguagem permanece.
UMA POSSÍVEL CHAVE PARA A CONTRADIÇÃO
Sem tentar resolver historicamente a mudança textual, podemos utilizá-la simbolicamente.
Talvez a melhor leitura contemporânea de Naberius não seja escolher entre destruição ou recuperação da reputação.
Talvez seja reconhecer que a palavra pode fazer ambas as coisas.
Ela pode destruir uma posição.
Pode recuperá-la.
Pode prejudicar uma reputação.
Pode defendê-la.
Pode produzir humilhação.
Pode devolver reconhecimento.
Essa interpretação possui a vantagem de respeitar as duas tradições documentais.
A contradição histórica transforma-se em uma reflexão simbólica sobre a ambivalência da linguagem.
NABERIUS EXISTE?
A questão precisa ser separada em dois níveis.
Historicamente, existe uma tradição documentada de Naberius.
Podemos localizar Naberus/Cerberus em Weyer.
Podemos encontrar Naberius/Cerberus em Scot.
Podemos acompanhar Naberius na Ars Goetia.
Podemos demonstrar sua mudança da posição 17 para 24.
Podemos verificar a permanência das 19 legiões.
Podemos identificar a inversão entre perda e recuperação de dignidades.
Tudo isso pertence à história documental.
A existência objetiva de uma entidade sobrenatural correspondente às descrições é uma questão diferente.
Os manuscritos demonstram a existência de uma tradição cultural.
Não constituem, isoladamente, prova empírica da realidade sobrenatural do personagem.
POR QUE NABERIUS É IMPORTANTE PARA O ESTUDO DA GOETIA?
Naberius é um dos melhores exemplos de transformação textual dentro da tradição goética.
Seu caso reúne vários fenômenos importantes.
Mudança de nome.
Nome alternativo clássico.
Mudança de posição.
Alteração de atribuições.
Preservação do número de legiões.
Preservação da aparência.
Preservação da especialidade em retórica.
E uma inversão completa de função relacionada à dignidade.
Poucos personagens permitem observar tantas características da transmissão dos grimórios ao mesmo tempo.
NABERIUS EM WEYER, SCOT E NA ARS GOETIA
A comparação histórica revela três etapas particularmente claras.
Em Johann Weyer, encontramos Naberus, também chamado Cerberus, como nº 17. Ele é um Marquês poderoso, apresenta-se como corvo, fala com voz rouca, torna uma pessoa agradável e hábil nas artes — especialmente na retórica — e provoca a perda de prelazias e dignidades. Governa 19 legiões.
Em Reginald Scot, encontramos Naberius, também chamado Cerberus, mantendo praticamente a mesma estrutura: corvo, voz rouca, artes, retórica, perda de prelazias e dignidades e 19 legiões.
Na Ars Goetia, encontramos Naberius como nº 24. Ele continua Marquês. O corvo permanece e é explicitamente apresentado como negro e em movimento ao redor do círculo. A voz rouca permanece. As artes permanecem e a descrição acrescenta as ciências. A retórica continua sendo sua especialidade. As 19 legiões permanecem.
Porém a referência a tornar pessoas amáveis desaparece.
E a função relacionada à dignidade é invertida.
Agora Naberius restaura dignidades e honras perdidas.
Essa comparação demonstra a evolução da tradição com extraordinária clareza.
FICHA HISTÓRICA DE NABERIUS
Nome mais conhecido: Naberius. Variante histórica: Naberus. Nome alternativo nas fontes de Weyer e Scot: Cerberus. Posição na Ars Goetia: 24º espírito. Posição na Pseudomonarchia Daemonum: 17º. Hierarquia: poderoso Marquês. Aparência em Weyer e Scot: corvo. Aparência na Ars Goetia: corvo negro esvoaçando ao redor do círculo. Voz: rouca. Principal atribuição intelectual: retórica. Outras atribuições na Goetia: conhecimento das artes e ciências. Atribuição adicional em Weyer e Scot: tornar uma pessoa amável ou agradável. Função relacionada à dignidade em Weyer e Scot: provocar a perda de prelazias e dignidades. Função na Ars Goetia: restaurar dignidades e honras perdidas. Legiões: 19. Origem bíblica: não documentada. Relação histórica com Cérbero: existe associação nominal explícita nas fontes, mas a natureza exata dessa relação permanece incerta.
PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE NABERIUS
Quem é Naberius na Ars Goetia?
Naberius é o 24º espírito da Ars Goetia. É classificado como poderoso Marquês e associado ao conhecimento das artes e ciências, especialmente à retórica, além da restauração de dignidades e honras perdidas.
Naberius e Naberus são a mesma entidade?
Sim, dentro da tradição documental analisada. Naberus é a forma registrada por Johann Weyer, enquanto Naberius se tornou predominante na tradição inglesa e na Goetia.
Naberius e Cerberus são a mesma entidade?
Weyer e Scot utilizam Cerberus como nome alternativo de Naberus/Naberius. Isso comprova uma associação textual histórica. Contudo, não demonstra por si só que todas as características de Naberius derivem diretamente do Cérbero da mitologia clássica.
Naberius é Cérbero da mitologia grega?
A ligação nominal existe, mas a identidade completa não pode ser demonstrada apenas pelas fontes conhecidas. Cérbero é tradicionalmente um cão monstruoso ligado ao mundo de Hades, enquanto Naberius aparece como corvo e possui funções relacionadas à retórica, artes e dignidades.
Qual é a aparência de Naberius?
Na Ars Goetia, Naberius aparece como um corvo negro que se movimenta ao redor do círculo.
Naberius possui três cabeças?
A descrição tradicional de Naberius na Ars Goetia não apresenta três cabeças. A imagem das três cabeças pertence principalmente à conhecida iconografia de Cérbero.
Qual é a voz de Naberius?
Os textos descrevem sua voz como rouca.
Naberius ensina retórica?
Sim. A retórica constitui sua especialidade intelectual mais destacada tanto nas fontes anteriores quanto na Ars Goetia.
O que é retórica?
Retórica é a disciplina relacionada à construção eficaz do discurso e da argumentação. Possui raízes profundas na educação clássica e posteriormente integrou o Trivium medieval junto à gramática e à lógica.
Naberius ensina artes e ciências?
A versão da Ars Goetia atribui a ele habilidade nas artes e ciências, com destaque especial para a retórica.
Naberius restaura reputação?
A Ars Goetia afirma que ele restaura dignidades e honras perdidas. Interpretar isso especificamente como recuperação de reputação é uma ampliação moderna plausível, mas não reproduz exatamente todas as nuances sociais da formulação histórica.
Naberius sempre restaurou dignidades?
Não. Esse é um dos pontos mais importantes de sua história documental. Weyer e Scot afirmam que Naberus/Naberius provoca a perda de prelazias e dignidades. A Goetia posterior inverte essa atribuição e afirma que ele restaura dignidades e honras perdidas.
O que significa prelazia?
Prelazia refere-se ao ofício, posição ou dignidade de um prelado, isto é, uma autoridade eclesiástica de alto nível.
Naberius torna as pessoas amáveis?
Essa atribuição aparece nas tradições de Weyer e Scot. Ela não é preservada da mesma maneira na descrição principal da Ars Goetia.
Quantas legiões Naberius governa?
As principais fontes analisadas atribuem a ele 19 legiões.
Qual era a posição de Naberius antes da Goetia?
Na Pseudomonarchia Daemonum, Naberus ocupa a posição número 17.
Qual é a posição de Naberius na Ars Goetia?
Ele ocupa a posição número 24.
Naberius aparece na Bíblia?
Não. Naberius não é personagem da Bíblia canônica.
Naberius era uma antiga divindade?
Não existe evidência suficiente para classificá-lo dessa maneira. Sua associação histórica mais intrigante é com o nome Cerberus, pertencente à tradição mitológica clássica.
Qual é a origem do nome Naberius?
A etimologia exata permanece incerta. A relação com as formas Naberus e Cerberus é documentável, mas a evolução linguística completa não está definitivamente estabelecida.
CONCLUSÃO
Naberius é muito mais interessante historicamente do que sua curta descrição na Ars Goetia pode sugerir.
Sua aparência é relativamente simples.
Um corvo negro.
Movimento ao redor do círculo.
Uma voz rouca.
Entretanto, suas funções conduzem diretamente ao universo da linguagem, conhecimento e posição social.
Naberius conhece artes e ciências.
Sua principal especialidade é a retórica.
E sua história está profundamente ligada à ideia de dignidade.
É justamente nesse último aspecto que encontramos uma das divergências mais fascinantes de toda a tradição goética.
Johann Weyer registra Naberus/Cerberus como nº 17.
Reginald Scot preserva a mesma tradição.
Para ambos, a entidade provoca perda de prelazias e dignidades.
Mais tarde, a Ars Goetia transforma Naberus em Naberius nº 24 e apresenta uma afirmação praticamente oposta.
Agora o espírito restaura dignidades e honras perdidas.
Não sabemos com certeza quando, como ou por que essa inversão ocorreu.
Mas sabemos que ocorreu.
E essa diferença é muito mais importante para o estudo histórico do que qualquer tentativa de esconder a contradição e produzir uma biografia artificialmente uniforme.
Naberius também demonstra como a transmissão dos grimórios pode conservar e modificar simultaneamente uma figura.
O corvo permanece.
A voz permanece.
A retórica permanece.
O título permanece.
As 19 legiões permanecem.
Mas a posição muda.
Uma característica desaparece.
E outra se inverte.
O nome Cerberus acrescenta ainda outra camada de complexidade.
O Cérbero clássico é um cão monstruoso ligado ao mundo subterrâneo e conhecido especialmente como guardião de Hades.
Naberius é um corvo especialista em retórica.
A fonte renascentista afirma uma relação nominal entre eles, mas não explica satisfatoriamente a transformação.
Consequentemente, o pesquisador precisa fazer aquilo que muitas páginas modernas não fazem: reconhecer onde termina a evidência e começa a hipótese.
Do ponto de vista simbólico, Naberius oferece igualmente uma imagem poderosa.
A palavra possui capacidade de construir reputações.
Também possui capacidade de destruí-las.
A retórica pode elevar.
Pode derrubar.
Pode defender.
Pode acusar.
Pode recuperar confiança.
Pode produzir perda de confiança.
Curiosamente, as duas tradições históricas de Naberius parecem representar justamente esses dois lados do poder da comunicação.
Weyer conserva o lado da queda.
A Goetia conserva o lado da restauração.
Quando as duas versões são observadas conjuntamente, Naberius pode ser interpretado contemporaneamente como uma figura da ambivalência do discurso e do poder social da linguagem.
Conhecimento oferece conteúdo.
Retórica oferece forma.
Reputação oferece consequência.
Essa interpretação não precisa ser falsamente atribuída a um manuscrito antigo.
Ela pode ser apresentada pelo que realmente é: uma análise moderna construída sobre evidências documentais antigas.
E talvez esse seja justamente o aspecto mais valioso de Naberius.
Ele demonstra que os grimórios não são apenas catálogos de figuras sobrenaturais.
Também são documentos da história das ideias, da linguagem, das hierarquias sociais, das transformações textuais e da maneira pela qual diferentes épocas reinterpretaram materiais recebidos do passado.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E BIBLIOGRÁFICAS
WEYER, Johann. De Praestigiis Daemonum. Obra originalmente publicada em 1563 e ampliada em edições posteriores.
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo incorporado à tradição editorial ampliada de De Praestigiis Daemonum, registrando Naberus, também chamado Cerberus, na posição 17.
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. Londres, 1584. Preserva Naberius/Cerberus e constitui importante etapa da transmissão inglesa do catálogo.
LEMEGETON CLAVICULA SALOMONIS. Tradição manuscrita da compilação posteriormente conhecida como The Lesser Key of Solomon, sobretudo sua primeira parte, Ars Goetia.
SLOANE MS 3825. Manuscrito importante para estudos comparativos da tradição do Lemegeton.
MATHERS, S. L. MacGregor; CROWLEY, Aleister. The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King. Edição de grande influência na recepção moderna dos espíritos goéticos.
APOLODORO. Bibliotheca. Fonte clássica relevante para a tradição de Cérbero e sua relação com o último dos trabalhos de Héracles.
PETERSON, Joseph H. Estudos e transcrições críticas das tradições relacionadas à Ars Goetia, Johann Weyer, Reginald Scot e aos diferentes catálogos dos ofícios dos espíritos.