Vine — História, Simbolismo E Tradição Do 45º Espírito Da Ars Goetia

Vine ocupa a posição de 45º espírito da Ars Goetia e possui uma característica incomum dentro do catálogo: recebe simultaneamente os títulos de Grande Rei e Conde. Diferentemente de muitos espíritos cuja posição muda consideravelmente entre Johann Weyer e o Lemegeton, Vine conserva exatamente o número 45 nas duas principais tradições. Essa estabilidade numérica, porém, contrasta com importantes alterações em suas funções, no número de legiões que lhe são atribuídas e até na maneira como seus poderes arquitetônicos e aquáticos foram compreendidos ao longo dos séculos.
Sua imagem tradicional é poderosa e relativamente simples. Vine manifesta-se como um leão montado sobre um cavalo negro, carregando uma víbora na mão. Algumas edições posteriores registram variantes em que a figura possui apenas a cabeça de leão, mantendo uma forma mais antropomórfica. O núcleo mais antigo conhecido, entretanto, descreve diretamente uma manifestação leonina sobre o cavalo negro.
Vine responde sobre coisas escondidas e sobre pessoas associadas à feitiçaria. Também conhece acontecimentos presentes, passados e futuros. Sua tradição arquitetônica é particularmente interessante porque combina construção e, nas versões posteriores, destruição. A conhecida Ars Goetia afirma que ele ergue torres, derruba grandes muralhas de pedra e torna as águas revoltas com tempestades.
O problema é que Johann Weyer não escreveu exatamente isso.
O texto latino de Weyer afirma que Vine constrói grandes torres, ergue casas de pedra e faz cursos de água ou rios ficarem cheios, elevados ou transbordantes. A conhecida imagem do espírito que “derruba muralhas de pedra” nasce na tradução inglesa transmitida por Reginald Scot. A mesma tradução transforma a ideia de rios ou cursos de água inchados em “águas revoltas”. A Goetia herda essas leituras e acrescenta explicitamente as tempestades.
Assim, Vine oferece um dos exemplos mais claros de como uma tradução pode alterar profundamente a identidade funcional de uma entidade.
Em Weyer, ele é sobretudo um construtor, capaz de levantar torres e construções de pedra.
Na tradição inglesa posterior, torna-se também um demolidor de fortificações.
Na Goetia moderna, passa a ser simultaneamente construtor, destruidor e provocador de tempestades.
A transformação é pequena no papel, mas enorme na interpretação.
VINE NA ARS GOETIA
Na Ars Goetia, Vine permanece exatamente na posição nº 45. É chamado de Grande Rei e Conde, aparece como leão montado num cavalo negro e traz uma víbora na mão. Sua função é revelar coisas escondidas, identificar pessoas ligadas à feitiçaria e responder sobre presente, passado e futuro.
A entrada goética acrescenta ainda que, mediante comando, Vine constrói torres, derruba grandes muralhas de pedra e torna as águas revoltas por tempestades.
A conhecida edição de Mathers e Crowley, publicada em 1904, chama-o de Viné ou Vinea e populariza a atribuição de 36 legiões. Essa é provavelmente a versão mais difundida atualmente. Contudo, quando voltamos ao manuscrito Sloane 3825 utilizado por Joseph H. Peterson, encontramos 35 legiões, não 36.
Essa diferença é fundamental e será examinada adiante.
VINE Nº 45 EM JOHANN WEYER
Vine é um caso pouco comum porque sua posição não muda.
Na Pseudomonarchia Daemonum:
Vine é nº 45.
Na Ars Goetia:
Vine continua nº 45.
Em uma região do catálogo na qual praticamente todos os espíritos foram deslocados, essa coincidência merece ser observada.
Raum muda de 42 para 40.
Halphas, de 43 para 38.
Focalor, de 44 para 41.
Vine permanece 45.
Bifrons, logo depois dele, também conserva nº 46.
Isso sugere que determinados blocos da lista permaneceram relativamente intactos mesmo durante a reorganização que produziu os 72 espíritos da Goetia.
O VINE DE WEYER
Johann Weyer chama Vine de:
Magnus Rex & Comes.
Ou seja:
Grande Rei e Conde.
Sua aparência é descrita como a de um leão montado sobre um cavalo negro e carregando uma víbora na mão.
O texto afirma que Vine gosta de construir grandes torres. Em seguida aparece a frase latina que causaria uma transformação particularmente importante na tradição:
lapideas domus extruit.
O sentido é construir ou erguer:
casas de pedra.
Weyer também escreve:
rivos reddit turgidos.
A ideia é fazer cursos de água ou rios ficarem inchados, cheios ou transbordantes.
Isso é bastante diferente da versão atualmente mais conhecida.
WEYER NÃO DIZ QUE VINE DERRUBA MURALHAS
Esse é provavelmente o ponto filológico mais importante de todo o artigo.
Weyer apresenta Vine como alguém que:
constrói grandes torres,
ergue casas de pedra,
faz cursos de água aumentarem.
Reginald Scot traduz a passagem dizendo que Vine:
constrói grandes torres,
derruba muralhas de pedra,
e torna as águas revoltas.
Joseph H. Peterson assinala justamente o problema na sua edição comparativa. O latim indica construção, não demolição, nessa parte da frase.
A mudança é profunda.
DE CONSTRUTOR A DESTRUIDOR
No texto latino, as primeiras funções arquitetônicas de Vine apontam na mesma direção.
Ele constrói torres.
Ele constrói edificações de pedra.
A tradução inglesa introduz uma oposição nova.
Agora ele:
constrói torres,
mas derruba muralhas.
Essa nova dualidade é muito mais dramática e provavelmente contribuiu para a interpretação moderna de Vine como espírito capaz tanto de construir quanto de destruir estruturas.
A Goetia preserva exatamente essa oposição.
A GOETIA AUMENTA A DESTRUIÇÃO
No Sloane 3825, Vine passa a:
construir torres,
derrubar grandes muralhas de pedra,
e tornar as águas revoltas com tempestades.
Assim, o texto posterior não apenas mantém a leitura de Scot. Ele a intensifica.
As muralhas agora são explicitamente grandes.
As águas revoltas passam a ser associadas a tempestades.
O Vine moderno tornou-se muito mais violento que o Vine descrito pelo latim de Weyer.
ISSO SIGNIFICA QUE TODA FUNÇÃO DESTRUTIVA DE VINE É UM ERRO?
Não exatamente.
Existe uma complicação importante.
Uma tradição manuscrita paralela, preservada no Folger V.b.26, apresenta um espírito chamado Royne, cuja descrição Joseph H. Peterson considera correspondente à de Vine. Royne é um Grande Conde, possui rosto de leão, cavalga um cavalo negro e carrega uma serpente. Ele constrói grandes torres, casas e fortificações militares, mas também destrói inimigos e suas casas.
Isso significa que a ideia de um espírito leonino dessa família capaz de destruir construções não depende exclusivamente do erro de Scot.
O que não podemos fazer é afirmar que Weyer escreveu especificamente que Vine derruba muralhas de pedra.
Ele não escreveu.
A tradição mais ampla possui um componente destrutivo em Royne, mas a fórmula específica “derrubar grandes muralhas de pedra” pertence à linha inglesa posterior.
ROYNE: UM PARENTE TEXTUAL DE VINE
O manuscrito Folger V.b.26 fornece um paralelo extraordinariamente importante.
Royne é chamado de Grande Conde. Aparece como soldado com rosto semelhante ao de um leão, cavalga um cavalo negro e segura ou envolve uma serpente nos braços. É capaz de construir torres, casas e fortificações militares. Também destrói inimigos e suas casas, consagra livros e outros objetos e revela tesouros e segredos escondidos.
Peterson observa explicitamente que a descrição de Vine corresponde à de Royne. No sistema do Folger, Royne aparece subordinado a Egyn.
As correspondências são fortes demais para serem consideradas coincidência superficial.
Leão.
Cavalo negro.
Serpente.
Torres.
Construções.
Conhecimento oculto.
Tudo isso reaparece em Vine.
ROYNE E VINE SÃO EXATAMENTE A MESMA ENTIDADE?
É mais prudente falar em tradições diretamente relacionadas.
Os nomes são diferentes.
As funções apresentam sobreposição considerável, mas não são idênticas.
Royne possui atribuições que Vine perde, enquanto Vine possui outras que Royne não conserva da mesma maneira.
Por isso, não devemos simplesmente substituir um nome pelo outro em todas as situações.
Documentalmente, porém, Royne é provavelmente o paralelo pré-goético mais importante para compreender Vine.
O QUE ROYNE FAZ QUE VINE NÃO FAZ?
Royne possui funções particularmente curiosas que desaparecem da linha principal de Weyer.
Ele promove relações sexuais entre marido e mulher, consagra livros e outros objetos, constrói fortificações militares e revela tesouros e segredos. Também possui capacidade destrutiva contra inimigos e suas casas.
Essas atribuições não aparecem integralmente na curta entrada de Vine em Weyer.
Isso demonstra novamente que os catálogos demonológicos não foram transmitidos apenas através de acréscimos.
Também perderam material.
O QUE VINE GANHA?
O Vine de Weyer recebe uma função mais claramente temporal.
Ele responde sobre:
coisas presentes,
coisas passadas,
coisas futuras.
Também responde sobre coisas escondidas e sobre pessoas associadas à feitiçaria.
Essas capacidades transformam Vine não apenas em figura arquitetônica, mas também em entidade relacionada à revelação e ao conhecimento.
A FORMA DE VINE
Weyer é bastante direto.
Vine aparece:
como um leão montado num cavalo negro, carregando uma víbora na mão.
Essa descrição cria uma pequena dificuldade visual.
Se Vine aparece literalmente como leão, como segura uma víbora “na mão”?
Provavelmente por causa dessa tensão, tradições posteriores começaram a apresentar variantes mais antropomórficas.
LEÃO COMPLETO OU HOMEM COM CABEÇA DE LEÃO?
A conhecida edição Mathers/Crowley registra em nota que determinados códices permitem leituras como:
figura com cabeça de leão,
ou figura tendo um leão como cabeça.
Isso produz duas tradições iconográficas legítimas dentro da recepção goética.
Uma apresenta Vine como:
leão quadrúpede sobre cavalo.
Outra:
figura antropomórfica com cabeça de leão sobre cavalo.
A primeira corresponde mais diretamente à redação de Weyer.
A segunda resolve visualmente a dificuldade da víbora segurada na mão.
ROYNE PODE AJUDAR A EXPLICAR A FORMA HUMANOIDE
Royne aparece como:
soldado com rosto semelhante ao de um leão.
Isso é especialmente interessante.
A tradição do Folger fornece justamente uma forma intermediária entre:
homem,
e leão.
Assim, representações modernas de Vine como guerreiro humanoide com cabeça ou face leonina não são necessariamente invenções arbitrárias. Possuem paralelo numa tradição manuscrita relacionada.
O LEÃO
O leão possui uma enorme carga simbólica na cultura europeia.
Pode representar:
realeza,
força,
coragem,
ferocidade,
domínio.
No caso de Vine, a associação com realeza é particularmente tentadora porque ele recebe o título de Grande Rei.
Contudo, Weyer não oferece uma explicação simbólica para a forma.
Podemos observar a coerência.
Não podemos afirmar que o compilador escolheu o leão especificamente para representar o título real.
O CAVALO NEGRO
A montaria também apresenta estabilidade.
Weyer:
cavalo negro.
Scot:
cavalo negro.
Goetia:
cavalo negro.
Royne:
cavalo negro.
Essa continuidade torna o cavalo uma das características visuais mais seguras da tradição.
O CAVALO NEGRO TEM ORIGEM BÍBLICA?
Não existe documentação suficiente para afirmar uma ligação direta com os cavalos do Apocalipse.
A Bíblia possui um cavalo negro entre os Quatro Cavaleiros, tradicionalmente associado a fome e escassez.
Vine também possui um cavalo negro.
Mas o grimório não afirma:
“este é o cavalo do Apocalipse”.
A semelhança cromática não demonstra identidade.
A VÍBORA
Vine segura uma:
vipera,
uma víbora.
A serpente permanece também na tradição de Royne, embora a descrição da maneira como é carregada varie.
A víbora possui igualmente enorme repertório simbólico.
Perigo.
Veneno.
Conhecimento.
Astúcia.
Transformação.
Renovação.
Mas nenhuma dessas interpretações é fornecida diretamente pela entrada de Weyer.
VINE NÃO É UM SERPENTEIRO
A presença da víbora não significa que sua função principal seja controlar serpentes.
Isso o distingue de figuras como Valac, cuja descrição está explicitamente relacionada a serpentes.
Em Vine, a serpente é parte da iconografia.
Não é apresentada como principal campo de atuação.
GRANDE REI E CONDE
Vine possui uma dignidade dupla extremamente interessante.
Ele é simultaneamente:
Rei
e:
Conde.
Weyer preserva os dois títulos.
Scot também.
A Goetia mantém exatamente essa combinação.
Isso distingue Vine de grande parte do catálogo.
POR QUE DOIS TÍTULOS?
A fonte não explica.
Não devemos inventar uma teoria rígida segundo a qual cada título represente necessariamente uma função diferente.
Pode refletir:
sobreposição de tradições,
fusão de listas,
mudança hierárquica,
ou simplesmente uma classificação dupla já presente no manuscrito utilizado por Weyer.
O fato seguro é que os dois títulos são antigos dentro da tradição preservada.
ROYNE ERA APENAS CONDE
Royne, no Folger, aparece como Grande Conde, não Rei.
Isso permite uma hipótese interessante: a dignidade real talvez tenha sido acrescentada numa etapa diferente da tradição.
Mas não possuímos documentação suficiente para reconstruir a sequência exata.
O correto é registrar a diferença sem transformá-la em certeza genealógica.
VINE E AS COISAS OCULTAS
Vine responde sobre:
occultis,
isto é, coisas ocultas ou escondidas.
Essa função permanece muito estável.
Weyer registra.
Scot preserva.
A Goetia preserva.
Royne também revela segredos e tesouros escondidos.
Assim, a revelação do oculto parece pertencer profundamente à tradição dessa figura.
VINE E AS BRUXAS
Weyer utiliza o termo:
maleficis.
A palavra pode designar pessoas que praticam atos mágicos maléficos, feiticeiros ou bruxas dentro do vocabulário demonológico do período.
Scot traduz como:
witches.
O Sloane 3825 também registra:
witches.
A edição de Mathers/Crowley amplia a fórmula para:
Witches, Wizards.
Portanto, “wizards” não precisa ser tratado como palavra presente desde Weyer.
O QUE SIGNIFICA “DESCOBRIR BRUXAS”?
No contexto europeu dos séculos XVI e XVII, a afirmação possui um peso histórico diferente de uma leitura moderna.
Weyer escreveu num ambiente em que acusações de bruxaria podiam produzir perseguição real. Ao mesmo tempo, sua obra De Praestigiis Daemonum ficou conhecida justamente por sua crítica a muitos excessos da caça às bruxas.
Por isso, não devemos ler a entrada de Vine como um método histórico confiável de identificação de pessoas que praticavam bruxaria.
Ela pertence ao catálogo mágico que Weyer reproduziu criticamente.
WEYER NÃO PUBLICOU A PSEUDOMONARCHIA COMO MANUAL DE APOIO À CAÇA ÀS BRUXAS
Esse contexto é importante.
Weyer introduz a Pseudomonarchia Daemonum dentro de uma obra voltada contra muitas crenças e práticas persecutórias de sua época. Ele afirma ter omitido partes do material para torná-lo impraticável como manual mágico.
Assim, estudar a função de Vine não significa atribuir a Weyer aprovação literal da prática descrita.
Ele estava documentando e criticando um sistema.
PRESENTE, PASSADO E FUTURO
Vine também responde sobre acontecimentos:
presentes,
passados,
futuros.
Essa tríade aparece claramente em Weyer e atravessa a tradição posterior.
Ela coloca Vine entre vários espíritos goéticos associados a conhecimento temporal.
Raum.
Gremory.
Orobas.
Balam.
Outros apresentam funções semelhantes.
VINE NÃO É APENAS UM ESPÍRITO DE PROFECIA
Sua entrada é ampla demais para essa redução.
Vine combina:
revelação,
arquitetura,
água,
fortificações,
feitiçaria,
conhecimento temporal.
A divinação é apenas uma parte do perfil.
O PASSADO COMO INVESTIGAÇÃO
Em uma interpretação contemporânea, conhecer o passado pode simbolizar análise histórica.
O que aconteceu?
Como chegamos aqui?
Qual evento produziu a condição atual?
Esse tipo de pergunta é fundamental em qualquer investigação séria.
O PRESENTE COMO DIAGNÓSTICO
O presente representa aquilo que está acontecendo agora.
Em tecnologia, isso seria:
telemetria,
estado do sistema,
condições atuais.
Uma decisão baseada apenas no passado pode falhar porque o contexto mudou.
O FUTURO COMO CENÁRIO
No mundo real, não possuímos conhecimento infalível do futuro.
Possuímos previsões.
Modelos.
Probabilidades.
Cenários.
Assim, a função sobrenatural de Vine pode ser reinterpretada simbolicamente como capacidade de pensar adiante, sem confundir esse simbolismo com previsão científica real.
VINE COMO CONSTRUTOR
Antes de se tornar famoso como destruidor de muralhas, Vine é explicitamente um construtor.
Weyer afirma que ele gosta de construir:
grandes torres.
Também ergue:
casas de pedra.
Royne reforça ainda mais esse eixo ao construir:
torres,
casas,
fortificações militares.
Portanto, arquitetura não é uma atribuição acidental.
É uma característica central da linhagem.
VINE E MALPHAS
A comparação com Malphas é interessante.
Malphas constrói casas e torres e reúne artesãos.
Vine constrói grandes torres e casas de pedra.
Mas suas funções adicionais são diferentes.
Malphas:
organiza trabalhadores,
destrói obras inimigas,
fornece familiares.
Vine:
revela coisas ocultas,
conhece o tempo,
atua sobre águas.
A sobreposição arquitetônica não torna as duas entidades equivalentes.
VINE E SABNACH
Sabnach também constrói fortificações.
Entretanto, sua função é muito mais militarizada.
Sabnach aparece como soldado.
Constrói torres, castelos e cidades equipadas para defesa.
Vine possui arquitetura, mas sua imagem e suas capacidades combinam construção com investigação e forças naturais.
VINE E HALPHAS
Halphas constrói cidades fortificadas carregadas de armas.
Vine constrói torres e estruturas de pedra.
Halphas trabalha com logística militar.
Vine, especialmente em Weyer, parece mais ligado à monumentalidade estrutural.
As funções se aproximam, mas não são idênticas.
A FAMOSA DESTRUIÇÃO DE MURALHAS
Mesmo sendo uma leitura posterior, a capacidade de derrubar grandes muralhas tornou-se parte genuína da história da recepção de Vine.
A Ars Goetia registra explicitamente essa capacidade.
Portanto, não seria correto simplesmente apagar a destruição de muralhas da história de Vine.
O correto é contextualizá-la.
Weyer não diz isso.
Scot introduz a leitura.
A Goetia a preserva e intensifica.
A crítica textual não elimina tradições posteriores. Apenas explica de onde elas vieram.
CONSTRUIR E DESTRUIR
Na tradição goética moderna, Vine torna-se uma figura extremamente simétrica.
Constrói torres.
Destrói muralhas.
Essa dualidade cria uma personagem associada tanto à formação quanto à remoção de estruturas.
Simbolicamente, a ideia é poderosa.
A mesma inteligência que compreende como algo é construído pode compreender como desmontá-lo.
A PAREDE COMO LIMITE
Uma muralha estabelece:
dentro,
fora,
proteção,
exclusão.
Construir uma parede cria um limite.
Derrubá-la remove esse limite.
Vine pode simbolicamente representar a capacidade de avaliar quais limites precisam existir e quais se tornaram obstáculos.
NEM TODA MURALHA PRECISA SER DERRUBADA
Uma leitura simplista transformaria todo limite em algo negativo.
Isso seria um erro.
Muralhas também protegem.
Firewalls protegem.
Limites pessoais protegem.
Controles de acesso protegem.
A questão simbolicamente interessante não é destruir todas as paredes.
É saber distinguir:
proteção útil
de
barreira desnecessária.
VINE COMO SÍMBOLO DA ARQUITETURA
O Vine de Weyer é particularmente adequado a essa interpretação.
Torres.
Casas de pedra.
Estruturas.
Ele pode representar simbolicamente a capacidade de pensar em sistemas duráveis.
PEDRA E PERMANÊNCIA
Construir em pedra comunica estabilidade.
Uma construção de pedra pretende resistir.
Isso contrasta de maneira interessante com sua atuação sobre águas, que representam movimento.
Vine reúne:
estrutura sólida,
e fluxo instável.
PEDRA E ÁGUA
Esses dois elementos produzem uma excelente oposição simbólica.
Pedra:
forma.
Água:
movimento.
Pedra:
permanência.
Água:
mudança.
Vine atua sobre ambos.
Pode construir algo que pretende durar.
Pode também alterar aquilo que nunca fica inteiramente parado.
OS RIOS DE WEYER
O latim de Weyer utiliza:
rivos.
Isso aponta para riachos, cursos de água ou rios, não necessariamente para o oceano. Ele afirma que Vine os torna turgidos, isto é, cheios, inchados ou elevados.
Essa leitura é significativamente diferente da imagem moderna de tempestade marítima.
DA CHEIA À TEMPESTADE
Scot traduz a passagem como tornar as águas:
rough,
revoltas.
A Goetia passa a escrever:
rough with storms.
Temos então uma evolução clara:
Weyer:
cursos de água inchados.
Scot:
águas revoltas.
Goetia:
águas revoltas com tempestades.
O fenômeno torna-se progressivamente mais dramático.
VINE É UM ESPÍRITO DE TEMPESTADE?
Na Goetia, essa descrição possui fundamento.
Em Weyer, a formulação é mais moderada e está relacionada a cursos de água elevados ou transbordantes.
Portanto, uma descrição histórica rigorosa deve dizer:
a associação explícita com tempestades pertence à tradição goética posterior.
VINE E FOCALOR
Isso também ajuda a separar Vine de Focalor.
Focalor possui domínio claro sobre:
ventos,
mares,
navios.
Vine possui uma função aquática secundária.
A tradição moderna torna essa função mais tempestuosa, mas ele não se transforma por isso num equivalente de Focalor.
VINE E VEPAR
O mesmo vale para Vepar.
Vepar é essencialmente marítimo.
Vine não.
Seu núcleo é mais diversificado.
Conhecimento oculto.
Arquitetura.
Tempo.
Água.
O NOME VINE
A etimologia de Vine permanece incerta.
Uma hipótese bastante popular relaciona a variante Vinea à palavra latina vinea.
Essa palavra possui mais de um significado.
Pode indicar:
vinha,
videira,
vinhedo.
Mas no vocabulário militar romano também podia designar uma estrutura coberta utilizada para proteger soldados durante operações de cerco. Lewis e Short registram esse uso militar como uma espécie de abrigo ou cobertura para sitiantes.
Essa coincidência torna a hipótese especialmente tentadora porque Vine está associado a torres e, na tradição posterior, a muralhas.
VINEA COMO MÁQUINA OU ABRIGO DE CERCO
A vinea militar não era simplesmente uma “videira”.
Era uma cobertura móvel ou estrutura protetora utilizada em operações contra fortificações. Fontes clássicas empregam o termo nesse sentido militar.
Isso cria uma possível conexão semântica extremamente elegante com o Vine destruidor de muralhas da Goetia.
Mas existe um problema cronológico e documental.
A ETIMOLOGIA É ATRAENTE, MAS NÃO COMPROVADA
Não possuímos uma declaração de Weyer dizendo:
“Vine recebe esse nome da máquina romana denominada vinea.”
Também não sabemos se a variante Vinea precede a associação arquitetônica ou se foi reforçada posteriormente.
Além disso, a forma principal em Weyer é:
Vine.
Portanto, a relação com vinea é uma hipótese filológica interessante, não uma certeza histórica.
NÃO TRANSFORMAR UMA BOA HIPÓTESE EM FATO
Esse cuidado é especialmente importante porque a hipótese parece perfeita.
Vinea era utilizada em cercos.
Vine derruba muralhas na Goetia.
Logo, parece óbvio que um deriva do outro.
Entretanto, a famosa função de derrubar muralhas não corresponde ao latim original de Weyer.
Isso torna a explicação ainda mais delicada.
Pode haver uma conexão.
Mas não podemos provar que o nome originou a função ou que a função originou a interpretação do nome.
AS LEGIÕES DE VINE: UM DOS MAIORES PROBLEMAS DA ENTRADA
A maioria dos resumos modernos afirma simplesmente:
Vine governa 36 legiões.
Essa é a leitura popularizada pela edição Mathers/Crowley.
Mas a história documental é muito mais complexa.
WEYER NÃO FORNECE UM NÚMERO DE LEGIÕES PARA VINE
A entrada latina de Vine em Weyer termina depois de suas funções relacionadas ao oculto, à feitiçaria e ao conhecimento do presente, passado e futuro.
Não aparece ali uma frase atribuindo-lhe determinado número de legiões.
Reginald Scot, seguindo essa entrada, também não fornece um número para Vine.
Portanto, não devemos afirmar:
“Weyer diz que Vine comanda 36 legiões.”
Ele não diz isso na entrada preservada.
SLOANE 3825: 35 LEGIÕES
Na transcrição do Sloane 3825 realizada por Peterson, a entrada nº 45 afirma:
35 legiões.
Essa é uma correção importante porque muitas edições modernas substituem automaticamente o número por 36.
MATHERS/CROWLEY: 36 LEGIÕES
Na edição de 1904, encontramos:
36 legiões.
Essa versão tornou-se a mais reproduzida no século XX e na internet.
Portanto:
35 pertence ao Sloane 3825.
36 tornou-se padrão através de Mathers/Crowley.
ROYNE: 26 LEGIÕES
Peterson observa ainda que a descrição paralela de Royne no manuscrito Folger possui 26 legiões. A própria transcrição disponível do Folger apresenta essa contagem.
Assim, a tradição relacionada apresenta outra quantidade.
COLLIN DE PLANCY: 19 LEGIÕES
O Dictionnaire Infernal introduz uma quarta contagem.
Collin de Plancy afirma que Vine governa:
19 legiões.
Curiosamente, sua nota atribui a informação a Weyer, embora a entrada preservada da Pseudomonarchia não forneça esse número.
Isso demonstra como dados podem ser atribuídos retrospectivamente a uma fonte que não os contém.
QUAL É O NÚMERO CORRETO?
Não existe uma única resposta que possa ser apresentada como se todas as fontes concordassem.
O quadro histórico é:
Weyer: número não informado na entrada.
Scot: número não informado.
Royne/Folger: 26 na tradição paralela indicada por Peterson.
Sloane 3825: 35.
Mathers/Crowley: 36.
Collin de Plancy: 19.
Se o objetivo for reproduzir a edição Mathers/Crowley, 36 é correto para aquela edição.
Se o objetivo for seguir o Sloane 3825, o número é 35.
Se o objetivo for reconstruir Weyer, não devemos inventar um número.
POR QUE O NÚMERO MUDOU?
Não existe evidência suficiente para reconstruir cada etapa.
Pode envolver:
cópia,
harmonização com outros catálogos,
erro numérico,
uso de outra testemunha manuscrita.
O mais importante é não esconder a divergência.
COLLIN DE PLANCY E VINE
Na sexta edição do Dictionnaire Infernal, de 1863, Vine é apresentado como Grande Rei e Conde da corte infernal. Surge furioso como um leão, monta cavalo negro e segura uma víbora. Constrói casas, faz os rios crescerem e conhece o passado. Collin de Plancy atribui-lhe 19 legiões.
Essa pequena entrada é extremamente interessante porque, em dois aspectos, aproxima-se novamente do latim de Weyer.
COLLIN DE PLANCY RECUPERA AS CASAS
Enquanto a Goetia popularizou:
derrubar muralhas,
Collin de Plancy diz que Vine:
constrói casas.
Isso se aproxima muito mais de:
lapideas domus extruit,
a construção de casas de pedra em Weyer.
COLLIN DE PLANCY RECUPERA OS RIOS
Ele também afirma que Vine:
faz os rios crescerem ou incharem.
Novamente, isso corresponde mais diretamente ao latim de Weyer do que às “tempestades” da Goetia.
Essa é uma excelente demonstração de que uma fonte posterior pode, em certos detalhes, conservar ou recuperar uma leitura mais antiga que uma tradição intermediária.
COLLIN DE PLANCY REDUZ O CONHECIMENTO TEMPORAL
Sua entrada curta menciona especialmente que Vine conhece:
o passado.
Não repete de modo completo a tríade:
presente,
passado,
futuro.
Isso provavelmente decorre da natureza resumida do verbete, e não necessariamente de uma tradição totalmente independente.
VINE POSSUI UMA ILUSTRAÇÃO CLÁSSICA?
A iconografia demonológica do século XIX consolidou visualmente muitos espíritos. No caso de Vine, representações modernas frequentemente utilizam um leão ou figura leonina sobre cavalo negro carregando serpente.
Essas imagens devem ser compreendidas como interpretações visuais posteriores.
A descrição textual é muito mais antiga que qualquer gravura moderna popular.
VINE POSSUI SELO?
Sim.
A Ars Goetia atribui a Vine nº 45 um selo próprio. O Sloane 3825 apresenta esse sigilo junto à entrada.
Weyer, por outro lado, descreve Vine sem o sistema gráfico goético de selos atualmente conhecido.
Isso significa que Vine como personagem textual antecede a associação documentada com seu sigilo moderno.
O SELO DE VINE É ANTIGO?
É histórico dentro da tradição manuscrita do Lemegeton.
Não existe, contudo, documentação demonstrando que o desenho seja:
romano,
grego,
egípcio,
hebraico antigo,
ou proveniente da Antiguidade.
Deve ser entendido dentro da tradição mágico-cerimonial europeia.
VINE APARECE NA BÍBLIA?
Não.
Vine não é personagem da Bíblia canônica.
Seu cavalo negro também não basta para identificá-lo com qualquer figura específica do Apocalipse.
A documentação histórica conhecida pertence à tradição europeia dos Offices of Spirits, Weyer e ao posterior Lemegeton.
VINE ERA UMA DIVINDADE PAGÃ?
Não existe uma divindade antiga específica cuja transformação histórica em Vine tenha sido demonstrada.
Leão, serpente e cavalo são símbolos amplamente presentes em diferentes culturas.
Compartilhar esses elementos não estabelece genealogia.
VINE ERA UM ANJO CAÍDO?
Pode ser compreendido genericamente dessa maneira dentro da cosmologia demonológica cristã.
Entretanto, as principais fontes não informam uma antiga ordem celestial de Vine.
Não sabemos se teria pertencido aos:
Tronos,
Dominações,
Potestades,
Virtudes,
Querubins,
ou qualquer outra ordem específica.
A ANTIGA ORDEM ANGELICAL DE VINE
Não é fornecida por Weyer.
Também não é indicada na entrada principal da Goetia.
Por isso, sistemas modernos que atribuem a Vine determinada antiga posição angelical devem ser tratados como desenvolvimentos posteriores.
VINE E AS CORRESPONDÊNCIAS ASTROLÓGICAS
O ocultismo moderno associou os espíritos goéticos a:
decanatos,
planetas,
metais,
cores,
cartas de Tarô,
anjos.
Essas correspondências não pertencem à descrição principal de Weyer.
A conhecida atribuição moderna de Vine a determinado decanato de Gêmeos, por exemplo, é parte de sistemas posteriores de correspondência e não uma característica original da Pseudomonarchia Daemonum.
VINE E O SHEM HA-MEPHORASH
Emparelhamentos entre Vine e determinado anjo do Shem ha-Mephorash pertencem igualmente a sistemas posteriores.
A entrada de Weyer não apresenta um anjo específico como seu oposto.
O mesmo vale para a primeira tradição goética manuscrita.
VINE É UM ESPÍRITO DE PROTEÇÃO?
Essa interpretação aparece com frequência no ocultismo contemporâneo devido à construção de torres.
Historicamente, porém, Weyer não utiliza a expressão:
“Vine protege o operador.”
Ele constrói estruturas.
Transformar a construção de torres em uma função universal de proteção é uma interpretação moderna.
VINE É UM ESPÍRITO DE DESTRUIÇÃO?
Na Goetia, existe fundamento para essa interpretação porque ele derruba grandes muralhas.
No Weyer latino, essa função específica não existe da mesma maneira.
Portanto, é melhor dizer:
a tradição goética posterior enfatiza Vine como construtor e destruidor, enquanto Weyer o apresenta principalmente como construtor.
VINE É UM ESPÍRITO DE TEMPESTADES?
Na Goetia, sim, como resumo de uma de suas funções.
Em Weyer, a passagem fala em cursos de água inchados ou aumentados.
Assim, o aspecto tempestuoso é uma evolução posterior.
VINE REVELA BRUXAS?
Essa é uma das funções mais estáveis desde Weyer.
Mas ela precisa ser contextualizada historicamente como parte do imaginário demonológico da época, não como método confiável para acusar pessoas reais de práticas mágicas.
VINE CONHECE O FUTURO?
Segundo a tradição demonológica de Weyer e da Goetia, responde sobre acontecimentos futuros.
Isso é uma atribuição textual.
Não constitui evidência empírica de previsão sobrenatural.
VINE CONSTRÓI TORRES?
Sim.
Essa é uma das funções mais seguras e estáveis.
Weyer registra claramente grandes torres.
Royne também.
A Goetia preserva.
VINE CONSTRÓI CASAS?
Em Weyer, sim.
O latim fala em construções de pedra.
Royne também constrói casas.
Collin de Plancy volta a mencionar casas.
VINE DERRUBA MURALHAS?
Na Ars Goetia, sim.
No latim de Weyer, não é essa a frase.
A atribuição tornou-se conhecida através da tradição inglesa iniciada pela tradução de Scot.
VINE CAUSA TEMPESTADES?
Na Goetia, sim.
Weyer descreve de maneira diferente o aumento ou inchaço de cursos de água.
VINE GOVERNA 36 LEGIÕES?
Na edição Mathers/Crowley, sim.
No Sloane 3825, são 35.
Weyer não informa o número em sua entrada.
Collin de Plancy registra 19.
A tradição paralela de Royne apresenta 26 segundo a comparação de Peterson.
Portanto, “36” não deve ser apresentado como número universal presente em todas as fontes.
VINE E ROYNE SÃO A MESMA ENTIDADE?
Peterson considera as descrições correspondentes, e os paralelos são muito fortes.
Entretanto, como os nomes e algumas funções diferem, é metodologicamente mais seguro apresentar Royne como um antecedente ou tradição estreitamente relacionada a Vine.
O QUE SIGNIFICA VINE?
A etimologia é incerta.
A variante Vinea permite comparação com a palavra latina que pode significar vinha ou, no vocabulário militar, uma cobertura utilizada por sitiantes.
A conexão com Vine é sugestiva, sobretudo por suas funções arquitetônicas, mas não está documentalmente demonstrada.
VINE EM JOHANN WEYER
Na Pseudomonarchia Daemonum, Vine ocupa a posição nº 45. É Grande Rei e Conde e surge como leão montado em cavalo negro, carregando uma víbora. Constrói grandes torres e casas de pedra, faz cursos de água ficarem cheios ou elevados e responde sobre coisas escondidas, pessoas associadas à feitiçaria e acontecimentos presentes, passados e futuros. Sua entrada não apresenta um número de legiões.
VINE EM REGINALD SCOT
Scot mantém Vine na posição correspondente, conserva a forma leonina, o cavalo negro, a víbora e o conhecimento oculto e temporal. Entretanto, sua tradução modifica duas funções importantes. As casas de pedra tornam-se muralhas derrubadas, e os cursos de água elevados tornam-se águas revoltas. Também não atribui um número de legiões a Vine.
ROYNE NO MANUSCRITO FOLGER
Royne aparece como Grande Conde e possui forma mais antropomórfica, semelhante a um soldado com rosto de leão montado em cavalo negro e associado a uma serpente. Constrói torres, casas e fortificações militares. Destrói inimigos e suas construções, consagra livros e outros objetos e revela tesouros e segredos escondidos. Peterson relaciona diretamente sua descrição à de Vine.
VINE NA ARS GOETIA
No Sloane 3825, Vine continua nº 45 e permanece Grande Rei e Conde. Aparece como leão em cavalo negro com víbora. Revela coisas escondidas, pessoas associadas à feitiçaria e acontecimentos presentes, passados e futuros. Constrói torres, derruba grandes muralhas de pedra e provoca águas revoltas com tempestades. O manuscrito atribui-lhe 35 legiões.
VINÉ/VINEA EM MATHERS E CROWLEY
A edição de 1904 preserva praticamente a descrição goética conhecida, mas apresenta o nome como Viné ou Vinea e atribui 36 legiões. Também registra variantes iconográficas em que Vine pode possuir cabeça de leão em vez de aparecer integralmente como um leão.
Essa versão exerceu enorme influência sobre os resumos modernos.
VINE EM COLLIN DE PLANCY
No Dictionnaire Infernal, Vine continua Grande Rei e Conde, aparece furioso como um leão, monta cavalo negro e segura víbora. Constrói casas, faz rios aumentarem e conhece o passado. Collin de Plancy atribui-lhe 19 legiões.
A entrada é curta, mas curiosamente preserva melhor que a Goetia dois detalhes do latim de Weyer:
casas,
e rios inchados.
O QUE PERMANECE ATRAVÉS DA TRADIÇÃO?
A posição nº 45 apresenta estabilidade excepcional.
Também permanecem de forma muito consistente o título duplo de Rei e Conde, a forma leonina, o cavalo negro, a serpente, a construção de torres e o conhecimento de coisas ocultas.
A capacidade temporal também permanece na principal linha Weyer-Goetia.
O QUE MUDA?
As mudanças são igualmente importantes.
As casas de pedra de Weyer tornam-se muralhas derrubadas em Scot e na Goetia.
Os rios inchados tornam-se águas revoltas e, posteriormente, águas atingidas por tempestades.
Royne possui funções conjugais, consagração e destruição de inimigos que desaparecem na linha de Weyer.
A contagem de legiões varia profundamente.
Até a forma física pode oscilar entre leão completo e figura humanoide com cabeça ou rosto de leão.
Vine é estável no nome e número, mas extremamente variável nos detalhes.
FICHA HISTÓRICA DE VINE
O nome principal é Vine, enquanto Viné e Vinea aparecem sobretudo em edições posteriores. A tradição paralela mais importante é Royne. Vine ocupa a posição nº 45 tanto em Weyer quanto na Ars Goetia. Seu título é Grande Rei e Conde. A forma principal é a de um leão montado num cavalo negro, segurando uma víbora, embora existam variantes antropomórficas com cabeça ou rosto de leão.
Em Weyer, suas funções arquitetônicas são construir grandes torres e casas de pedra. Na Goetia, passam a ser construir torres e derrubar grandes muralhas de pedra. Weyer descreve cursos de água inchados ou elevados, enquanto a Goetia fala em águas revoltas com tempestades.
Sua função intelectual inclui revelar coisas ocultas e responder sobre presente, passado e futuro. Também possui associação tradicional com a descoberta de pessoas ligadas à feitiçaria.
Quanto às legiões, não existe número na entrada de Weyer ou na tradução de Scot. Royne possui uma contagem própria na tradição paralela. O Sloane 3825 registra 35. Mathers/Crowley popularizam 36. Collin de Plancy registra 19.
Sua antiga ordem angelical não é informada. Não existe origem bíblica comprovada nem derivação demonstrada de uma divindade pagã específica. A possível relação etimológica com o latim vinea é interessante, mas permanece hipotética.
INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DE VINE
Separada da reconstrução histórica, Vine oferece uma combinação excepcional de imagens.
O leão representa autoridade.
O cavalo representa movimento.
A serpente representa perigo e conhecimento.
A torre representa estrutura e observação.
A casa de pedra representa estabilidade.
A muralha representa limite.
A água representa fluxo.
As coisas ocultas representam informação não imediatamente acessível.
O passado representa causas.
O presente representa diagnóstico.
O futuro representa planejamento.
Quando esses elementos são reunidos, Vine pode ser interpretado como uma figura da capacidade de compreender estruturas, revelar aquilo que está escondido e decidir o que deve ser construído, preservado ou removido.
Essa leitura é autoral e não constitui doutrina explícita dos grimórios.
VINE COMO SÍMBOLO DA CONSTRUÇÃO
A versão mais antiga de Weyer reforça especialmente esse aspecto.
Vine não começa destruindo.
Constrói.
Grandes torres.
Casas de pedra.
Uma construção durável exige:
planejamento,
material adequado,
fundação,
manutenção.
Esse princípio pode ser aplicado simbolicamente a qualquer sistema complexo.
VINE COMO SÍMBOLO DA ARQUITETURA DE SISTEMAS
Em tecnologia, construir infraestrutura também significa definir estruturas.
Servidores.
Redes.
Serviços.
Dependências.
Permissões.
Uma arquitetura ruim pode parecer funcional até ser submetida a condições reais.
Vine pode simbolizar a importância de compreender a estrutura antes de tentar ampliá-la.
VINE COMO SÍMBOLO DA REVISÃO DE ESTRUTURAS
A tradição posterior acrescenta a destruição de muralhas.
Isso cria outra pergunta.
Toda estrutura que foi útil no passado continua útil hoje?
Nem sempre.
Sistemas acumulam componentes antigos.
Processos tornam-se burocráticos.
Regras que protegiam passam a bloquear.
Nesse sentido, Vine pode simbolizar a capacidade de reconhecer quando algo precisa ser reconstruído.
CONSTRUIR NÃO SIGNIFICA PRESERVAR TUDO
Uma organização madura não conserva cada sistema apenas porque funcionou no passado.
Algumas estruturas precisam:
ser atualizadas,
substituídas,
desativadas.
A dualidade goética de construir torres e derrubar muralhas encaixa-se perfeitamente nessa leitura.
VINE COMO SÍMBOLO DO LEGACY
Em tecnologia, sistemas legados podem ser extremamente resistentes a mudanças.
Foram construídos para resolver problemas reais.
Depois tornam-se dependências críticas.
A muralha que protege também pode impedir modernização.
Vine pode simbolicamente representar esse dilema.
QUAL MURALHA AINDA PROTEGE?
Essa pergunta é mais útil que simplesmente glorificar construção ou destruição.
Uma barreira pode ser necessária.
Outra pode existir apenas porque ninguém teve coragem de removê-la.
VINE COMO SÍMBOLO DA DESCOBERTA
Sua função de revelar coisas escondidas oferece outro eixo.
Antes de mudar uma estrutura, é necessário entender aquilo que não está imediatamente visível.
Dependências ocultas.
Riscos ocultos.
Custos ocultos.
Motivações ocultas.
Sem investigação, a reforma pode criar novos problemas.
VINE COMO SÍMBOLO DA AUDITORIA
Auditar significa tornar visível aquilo que estava escondido.
Contas.
Configurações.
Permissões.
Processos.
Vine pode simbolicamente representar essa etapa investigativa anterior à transformação.
NÃO DERRUBE A MURALHA ANTES DE SABER O QUE ELA SUSTENTA
Essa frase resume uma importante aplicação moderna.
Uma estrutura pode parecer desnecessária.
Mas possuir dependências invisíveis.
Antes de remover:
mapeie.
Teste.
Entenda.
A capacidade de descobrir coisas ocultas deve vir antes da capacidade de destruir.
VINE COMO SÍMBOLO DO ROOT CAUSE ANALYSIS
Quando um problema aparece, a causa imediata pode não ser a causa fundamental.
É necessário investigar camadas.
O que aconteceu?
Por que aconteceu?
Qual decisão anterior produziu isso?
Vine conhece simbolicamente:
passado,
presente,
e futuro.
Isso corresponde muito bem a uma abordagem de análise de causa.
PASSADO, PRESENTE E FUTURO COMO CICLO DE DECISÃO
O passado fornece evidência.
O presente fornece estado atual.
O futuro fornece cenário.
Uma decisão profissional de qualidade precisa considerar os três.
Não basta perguntar:
“o que aconteceu?”
É necessário perguntar:
“o que está acontecendo agora?”
e:
“o que acontecerá se não mudarmos nada?”
VINE COMO SÍMBOLO DO PENSAMENTO ESTRATÉGICO
Estratégia depende exatamente dessa capacidade.
Compreender o estado atual.
Reconhecer a história.
Antecipar consequências.
Vine reúne simbolicamente esses três horizontes.
A VÍBORA COMO RISCO
Sem transformar a serpente numa doutrina fixa, podemos utilizá-la simbolicamente como representação de risco.
A víbora é pequena quando comparada ao leão.
Ainda assim, pode ser perigosa.
Isso lembra que tamanho não determina impacto.
Uma pequena vulnerabilidade pode comprometer uma grande infraestrutura.
O MAIOR SISTEMA PODE CAIR POR UM PEQUENO PONTO
Uma empresa enorme pode ser comprometida por:
uma senha fraca,
uma configuração esquecida,
uma dependência antiga.
A víbora na mão do rei leonino oferece uma imagem adequada dessa desproporção.
VINE COMO SÍMBOLO DE CONTROLE DO RISCO
O detalhe mais interessante é que a víbora está em sua mão.
Não simplesmente solta.
Simbolicamente, isso pode representar risco conhecido e controlado.
O risco não desapareceu.
Está identificado.
VINE COMO SÍMBOLO DO FLUXO
A água acrescenta uma dimensão oposta à pedra.
Uma infraestrutura pode ser sólida.
Mas precisa funcionar num ambiente em movimento.
Clientes mudam.
Tráfego muda.
Tecnologia muda.
Necessidades mudam.
A estrutura precisa resistir sem tornar-se imóvel.
PEDRA SEM ADAPTAÇÃO TORNA-SE RUÍNA
Uma construção pode durar séculos.
Mas uma organização não pode permanecer congelada.
Estabilidade não significa imobilidade.
Vine reúne simbolicamente essas duas exigências.
VINE COMO SÍMBOLO DO STRESS TEST
Águas crescentes testam estruturas.
Uma ponte parece segura até a enchente.
Um sistema parece escalável até o pico de demanda.
Uma empresa parece sólida até uma crise.
A água elevada de Weyer pode simbolizar o teste que revela a qualidade real da construção.
A TEMPESTADE DA GOETIA COMO TESTE MAIS EXTREMO
A tradição posterior torna a imagem ainda mais dramática.
Tempestade.
Muralhas derrubadas.
Essa versão pode simbolizar situações de pressão extrema.
O sistema construído corretamente permanece.
O mal construído falha.
VINE COMO SÍMBOLO DA RESILIÊNCIA
Resiliência não significa que uma estrutura nunca sofrerá impacto.
Significa que consegue:
resistir,
adaptar-se,
recuperar-se.
A torre e a tempestade produzem uma metáfora natural para esse conceito.
VINE COMO SÍMBOLO DO CONHECIMENTO OCULTO EM SEGURANÇA
Em cibersegurança, aquilo que não sabemos pode ser mais perigoso do que aquilo que já conhecemos.
Shadow IT.
Credenciais esquecidas.
Portas abertas.
Serviços antigos.
Dependências desconhecidas.
Vine pode simbolizar a necessidade de descobrir esses elementos antes que sejam explorados.
ASSET DISCOVERY
Uma organização não consegue proteger aquilo que nem sabe que possui.
Mapear ativos é uma etapa básica de segurança.
Essa função corresponde simbolicamente de maneira direta ao Vine que revela coisas escondidas.
VINE COMO SÍMBOLO DO THREAT HUNTING
Threat hunting procura sinais de ameaça que ainda não produziram alerta evidente.
É investigação ativa.
Em vez de esperar o problema aparecer, procura-se aquilo que está oculto.
Novamente, a analogia é moderna, mas coerente.
VINE COMO SÍMBOLO DA REMOÇÃO DE BARREIRAS
A tradição goética oferece também uma leitura organizacional.
Alguns problemas não surgem porque falta capacidade.
Surgem porque existe uma barreira.
Processo excessivo.
Permissão inadequada.
Burocracia.
Dependência.
A muralha precisa ser identificada antes de ser removida.
DESTRUIR COM CRITÉRIO
Vine não precisa simbolizar destruição indiscriminada.
Uma interpretação mais útil é:
remover aquilo que impede uma estrutura melhor.
Isso coloca construção e destruição numa mesma estratégia.
VINE COMO SÍMBOLO DA REFACTORING
Em desenvolvimento de software, refatorar significa alterar a estrutura interna sem necessariamente mudar a função externa.
Código antigo é reorganizado.
Dependências são reduzidas.
Componentes desnecessários são removidos.
É quase literalmente:
derrubar algumas paredes para construir melhor.
VINE COMO SÍMBOLO DA MIGRAÇÃO
Às vezes não é possível reformar a estrutura existente.
É necessário construir uma nova e migrar.
Essa é outra leitura possível da combinação:
torre,
muralha,
água.
Uma estrutura precisa ser abandonada enquanto o fluxo de operação continua.
VINE COMO SÍMBOLO DA AUTORIDADE DUPLA
Seus títulos de Rei e Conde oferecem ainda outra interpretação.
Uma pessoa pode ocupar mais de um papel.
Estratégico.
Operacional.
Visão ampla.
Execução específica.
Vine pode representar simbolicamente a necessidade de conectar esses níveis.
VISÃO SEM EXECUÇÃO NÃO CONSTRÓI TORRES
Uma estratégia pode ser excelente.
Sem execução permanece documento.
Da mesma maneira, execução sem visão pode produzir uma estrutura eficiente na direção errada.
O título duplo pode simbolicamente representar essa combinação.
VINE COMO SÍMBOLO DA LIDERANÇA TÉCNICA
Em ambientes tecnológicos, líderes eficazes frequentemente precisam compreender:
estratégia,
arquitetura,
risco,
operação.
Não precisam fazer tudo pessoalmente.
Mas precisam entender como as partes se relacionam.
A figura de Vine combina autoridade e conhecimento estrutural de maneira particularmente adequada a essa leitura.
VINE COMO SÍMBOLO DA INVESTIGAÇÃO ANTES DA AÇÃO
Este talvez seja o ponto mais importante.
Vine primeiro possui conhecimento.
Coisas ocultas.
Passado.
Presente.
Futuro.
Depois possui capacidade estrutural.
Construir.
Derrubar.
Alterar água.
A sequência simbólica sugere:
compreenda antes de modificar.
NÃO DESTRUA O QUE VOCÊ AINDA NÃO ENTENDE
Esse princípio vale para:
sistemas,
empresas,
código,
instituições,
relações.
Uma estrutura aparentemente absurda pode ter surgido para resolver um problema antigo.
Antes de removê-la, descubra por que existe.
VINE COMO SÍMBOLO DA CERCA DE CHESTERTON
Existe um princípio moderno conhecido como “cerca de Chesterton”: não remova uma regra ou estrutura antes de compreender por que ela foi criada.
Vine encaixa-se simbolicamente de maneira extraordinária nessa lógica.
Descobrir o oculto.
Conhecer o passado.
Depois decidir se a muralha deve permanecer.
Essa analogia é moderna e não pertence ao grimório.
VINE EXISTE?
Historicamente, Vine existe claramente como tradição textual.
Podemos localizar a entidade em:
Weyer,
Scot,
manuscritos do Lemegeton,
Mathers/Crowley,
Collin de Plancy.
Também podemos compará-la à tradição paralela de Royne.
É possível rastrear suas mudanças de função, aparência secundária e número de legiões.
Isso demonstra a existência histórica da tradição.
A existência objetiva de uma entidade sobrenatural correspondente ao personagem é uma questão diferente e não é demonstrada simplesmente pela presença em manuscritos.
POR QUE VINE É IMPORTANTE PARA O ESTUDO DA GOETIA?
Vine é uma das entradas mais interessantes para crítica textual justamente porque parece, inicialmente, muito estável.
Mesmo nome.
Mesmo número.
Mesmo título.
Mesma aparência básica.
Mas, quando examinamos as palavras, descobrimos profundas alterações.
Casas de pedra tornam-se muralhas destruídas.
Cursos de água inchados tornam-se tempestades.
Uma tradição paralela, Royne, apresenta funções adicionais que desapareceram.
O número de legiões varia drasticamente.
26 numa tradição relacionada.
19 em Collin de Plancy.
E Weyer não fornece número algum.
Isso mostra que estabilidade aparente pode esconder profunda transformação textual.
CONCLUSÃO
Vine ocupa a posição nº 45 da Ars Goetia, e essa é uma das raras situações nesta parte do catálogo em que o número coincide exatamente com Johann Weyer.
Na Pseudomonarchia Daemonum, Vine já é o nº 45.
É Grande Rei e Conde.
Aparece como leão montado num cavalo negro.
Carrega uma víbora.
Constrói grandes torres.
Ergue casas de pedra.
Faz cursos de água incharem.
Responde sobre coisas ocultas, sobre pessoas ligadas à feitiçaria e sobre acontecimentos presentes, passados e futuros.
A tradição parece extremamente simples.
Mas a tradução muda tudo.
Reginald Scot transforma as casas de pedra construídas por Vine em muralhas derrubadas.
Os rios inchados tornam-se águas revoltas.
Depois, a Ars Goetia acrescenta tempestades e grandes muralhas.
O Vine construtor de Weyer torna-se o Vine construtor e destruidor que domina a tradição moderna.
Isso não significa que toda dimensão destrutiva seja artificial.
Royne, figura paralela preservada no manuscrito Folger, já possui capacidade de destruir inimigos e suas casas. Ele também possui rosto de leão, cavalo negro, serpente e poder para construir torres e fortificações.
Portanto, uma tradição destrutiva existe.
Mas ela não justifica atribuir a Weyer uma frase que seu latim não contém.
O mesmo cuidado precisa ser aplicado às legiões.
Weyer não informa quantas legiões Vine governa.
Scot também não.
O Sloane 3825 registra 35.
Mathers/Crowley popularizam 36.
Collin de Plancy escreve 19.
A tradição paralela de Royne apresenta outra quantidade.
Assim, repetir “Vine governa 36 legiões” sem identificar a edição transforma uma variante moderna numa falsa unanimidade histórica.
A forma da entidade também merece cuidado.
O leão completo é a leitura direta de Weyer.
Alguns códices posteriores permitem uma figura com cabeça de leão.
Royne oferece justamente uma forma intermediária, aparecendo como soldado de rosto leonino.
A iconografia moderna humanoide, portanto, possui antecedentes documentais, mas não deve substituir silenciosamente a redação mais antiga.
A possível etimologia através de vinea é igualmente fascinante.
Em latim, a palavra pode designar uma vinha, mas também uma cobertura militar utilizada em cercos.
A associação parece quase perfeita com um espírito posteriormente famoso por derrubar muralhas.
Mas justamente aí surge uma advertência metodológica: a derrubada das muralhas não está na frase latina de Weyer.
Uma interpretação extremamente elegante ainda pode estar errada.
Vine ensina isso até através de sua própria história textual.
No campo simbólico, poucas figuras combinam tão bem investigação e arquitetura.
Ele descobre aquilo que está oculto.
Conhece o passado.
Observa o presente.
Antecipa o futuro.
Depois constrói.
E, na tradição posterior, também destrói.
Essa ordem produz uma interpretação contemporânea particularmente valiosa:
compreenda a estrutura antes de modificá-la.
Isso vale para sistemas de tecnologia.
Código.
Empresas.
Processos.
Instituições.
Relações.
Antes de remover uma barreira, descubra por que ela existe.
Antes de construir uma nova torre, compreenda o terreno.
Antes de concluir que uma estrutura está falhando, investigue as dependências ocultas.
Vine também reúne duas forças aparentemente opostas.
Pedra e água.
A pedra procura permanecer.
A água está sempre em movimento.
Toda boa arquitetura precisa resolver justamente esse problema.
Criar estabilidade suficiente para funcionar sem tornar-se incapaz de adaptar-se.
Uma organização totalmente rígida quebra diante da mudança.
Uma organização sem estrutura dissolve-se.
O equilíbrio está entre:
forma
e
fluxo.
Por isso, numa leitura contemporânea, Vine pode representar mais que construção ou destruição.
Pode representar arquitetura consciente.
Saber o que existe.
Saber por que existe.
Saber aquilo que precisa permanecer.
Saber aquilo que precisa ser removido.
E saber que uma estrutura realmente forte não é aquela que nunca muda, mas aquela capaz de mudar sem perder aquilo que a mantém de pé.
Historicamente, Vine permanece o Grande Rei e Conde nº 45 de Weyer e da Ars Goetia, associado ao leão, ao cavalo negro, à víbora, às coisas ocultas, ao conhecimento temporal, às torres e às águas.
Simbolicamente, pode representar uma ideia ainda mais precisa:
antes de construir uma nova estrutura ou derrubar uma antiga muralha, descubra primeiro aquilo que está escondido dentro dela.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E BIBLIOGRÁFICAS
WEYER, JOHANN. De Praestigiis Daemonum. Obra inicialmente publicada em 1563 e ampliada em edições posteriores.
WEYER, JOHANN. Pseudomonarchia Daemonum. Apresenta Vine como nº 45, Grande Rei e Conde em forma de leão montado num cavalo negro e portando uma víbora, associado à construção de grandes torres e casas de pedra, ao aumento dos cursos de água e ao conhecimento de coisas ocultas, feitiçaria, presente, passado e futuro.
SCOT, REGINALD. The Discoverie of Witchcraft. Londres, 1584. Sua tradução constitui etapa decisiva na transformação das casas de pedra de Weyer em muralhas derrubadas e dos rios elevados em águas revoltas.
FOLGER SHAKESPEARE LIBRARY, MS V.b.26. Manuscrito mágico elisabetano que preserva Royne, figura estreitamente relacionada a Vine, com rosto leonino, cavalo negro, serpente, torres, casas, fortificações militares, destruição de inimigos, consagração de objetos e revelação de segredos.
LEMEGETON CLAVICULA SALOMONIS. Tradição manuscrita posteriormente conhecida como The Lesser Key of Solomon, especialmente sua primeira parte, Ars Goetia.
BRITISH LIBRARY, SLOANE MS 3825. Importante testemunho da Ars Goetia, no qual Vine ocupa a posição nº 45, recebe selo próprio e governa 35 legiões.
MATHERS, S. L. MACGREGOR; CROWLEY, ALEISTER. The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King. 1904. Edição que popularizou os nomes Vine/Vinea, a leitura de 36 legiões e a versão moderna da descrição.
COLLIN DE PLANCY, JACQUES. Dictionnaire Infernal. Sexta edição, Paris, 1863. Apresenta Vine como Grande Rei e Conde leonino, construtor de casas, capaz de aumentar rios e comandante de 19 legiões.
PETERSON, JOSEPH H. Edições críticas e comparações da Pseudomonarchia Daemonum, da Ars Goetia e dos manuscritos relacionados aos Offices of Spirits.
LEWIS, CHARLTON T.; SHORT, CHARLES. A Latin Dictionary. Referência para os sentidos da palavra latina vinea, incluindo seu emprego como estrutura protetora utilizada em operações militares de cerco.