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Home/Biblioteca/Demonologia/72 Daemons da Ars Goetia/Barbatos: história, origem e tradição do 8º espírito da Ars Goetia
Templo de Lúcifer Barbatos
72 Daemons da Ars Goetia

Barbatos: história, origem e tradição do 8º espírito da Ars Goetia

By Emrys
abril 8, 2026
0

Barbatos ocupa a oitava posição na Ars Goetia e reúne alguns dos atributos mais peculiares de todo o catálogo: compreensão das vozes dos animais, descoberta de tesouros escondidos por encantamento, conhecimento de acontecimentos passados e futuros, reconciliação entre pessoas e uma aparição acompanhada por quatro reis.

À primeira vista, sua descrição parece relativamente simples.

Quando voltamos às fontes, entretanto, encontramos uma história textual muito mais complexa.

Johann Weyer já registra Barbatos na Pseudomonarchia Daemonum, onde ocupa a sexta posição. Ali ele recebe simultaneamente os títulos de Grande Conde e Duque. A tradição posterior da Ars Goetia desloca-o para nº 8 e simplifica sua dignidade para Grande Duque.

Há ainda uma diferença muito mais importante.

Grande parte da literatura moderna afirma que Barbatos “aparece quando o Sol está em Sagitário”.

Essa frase realmente aparece na tradição manuscrita do Lemegeton.

Mas Joseph H. Peterson chama atenção para um problema: ela parece resultar de uma interpretação errada da expressão latina utilizada por Weyer.

Weyer escreve:

in signo Sagittarii sylvestris.

Peterson explica a passagem como algo mais próximo de:

“na imagem de um arqueiro das florestas.”

Portanto, o Barbatos originalmente descrito por Weyer parece ser muito mais próximo de um arqueiro ou caçador silvestre do que de uma entidade condicionada astrologicamente pela entrada do Sol em Sagitário.

Esse detalhe é extremamente importante porque mostra como uma tradução pode criar uma correspondência esotérica que séculos depois parece antiga e inevitável.

Barbatos é, por isso, uma figura exemplar para o método que adotamos nesta biblioteca:

primeiro identificamos aquilo que a fonte realmente diz;

depois acompanhamos as mudanças;

e somente então construímos interpretações contemporâneas.

Barbatos antes da Ars Goetia

Barbatos não surge originalmente como o oitavo espírito do Lemegeton.

Na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, ele ocupa a posição nº 6.

A sequência ajuda a visualizar a reorganização.

Em Weyer encontramos inicialmente Bael, Agares, Marbas, Pruflas, Amon e Barbatos.

Na Ars Goetia, a sequência torna-se Bael, Agares, Vassago, Gamigin, Marbas, Valefor, Amon e Barbatos.

Portanto, Barbatos passa de nº 6 para nº 8.

Essa alteração demonstra novamente que o número oito não deve ser tratado como uma identidade metafísica eterna de Barbatos.

É sua posição na organização específica da Ars Goetia.

Uma tradição moderna pode desenvolver simbolismo numerológico a partir do oito.

Historicamente, porém, Barbatos já ocupou outra posição.

Barbatos pode ser ainda anterior a Weyer

A tradição possui indícios anteriores particularmente interessantes.

Peterson registra no manuscrito Clm 849 uma figura denominada Barbarus cuja descrição corresponde a Barbatos de Weyer.

Esse testemunho é relevante porque o Clm 849 pertence a uma tradição demonológica anterior relacionada aos Offices of Spirits.

Também aparecem variantes em outros testemunhos:

Barbarus;

Barbates;

Barbares;

Barbais.

Isso demonstra que o nome não foi transmitido de maneira absolutamente estável.

Portanto, embora Weyer seja uma de nossas fontes fundamentais, a história textual de Barbatos provavelmente não começa com ele.

Barbatos significa “barbudo”?

Essa é uma hipótese frequentemente apresentada como certeza.

Existe uma razão linguística bastante compreensível para ela.

O latim barbatus significa literalmente “barbudo”, “que possui barba”. O dicionário latino Lewis & Short registra precisamente esse significado e também usos figurados relacionados a homens antigos e filósofos barbados.

A proximidade entre:

Barbatos

e

barbatus

é evidente.

Entretanto, uma etimologia rigorosa precisa fazer mais do que encontrar uma palavra parecida.

As variantes históricas Barbarus, Barbates, Barbares e Barbais complicam uma derivação absolutamente segura.

Por isso, eu não escreveria simplesmente:

“Barbatos significa barbudo.”

A formulação mais responsável é:

“O nome Barbatos tem sido relacionado ao latim barbatus, ‘barbudo’, uma associação linguisticamente plausível; contudo, as variantes manuscritas anteriores impedem tratar essa etimologia como definitivamente estabelecida.”

Essa nuance aumenta, e não diminui, a qualidade da pesquisa.

O que Weyer realmente diz sobre Barbatos

A descrição latina de Weyer apresenta Barbatos como:

Grande Conde e Duque.

Ele surge na figura de um arqueiro silvestre.

É acompanhado por quatro reis.

Compreende o canto dos pássaros, o latido dos cães, o mugido dos bois e as vozes de todos os animais.

Descobre tesouros escondidos por magos e encantadores.

É relacionado à ordem angelical das Virtudes.

Conhece passado e futuro.

Reconcilia disposições entre amigos e inimigos.

E governa trinta legiões.

Esse já é um perfil extremamente rico.

Não precisamos acrescentar dezenas de correspondências modernas para tornar Barbatos interessante.

Conde e Duque

Uma das primeiras diferenças entre Weyer e a Goetia está no título.

Weyer utiliza:

Comes & Dux.

Isto é:

Conde e Duque.

Scot traduz explicitamente Barbatos como um grande Count/Earl e também Duke.

No Sloane 3825, entretanto, Barbatos é apresentado simplesmente como:

Great Duke.

Grande Duque.

Portanto, o artigo não deveria afirmar que Barbatos “sempre foi apenas Duque”.

Historicamente, sua tradição anterior preserva dupla dignidade.

Por que o título mudou?

A fonte não explica.

Talvez o compilador do Lemegeton tenha simplificado a entrada.

Talvez dependesse de uma versão intermediária diferente.

Talvez o título de Conde tenha sido omitido durante cópia.

Não precisamos inventar uma razão.

O importante é registrar a mudança.

Weyer:

Conde e Duque.

Goétia:

Duque.

Essa diferença faz parte da história textual.

O arqueiro das florestas

Essa talvez seja a correção mais importante de toda a página.

Weyer escreve que Barbatos aparece:

in signo Sagittarii sylvestris.

Peterson interpreta a expressão como:

“na imagem de um arqueiro das florestas.”

Isso combina perfeitamente com a representação posterior de Barbatos como caçador ou arqueiro.

Collin de Plancy, em 1863, descreve-o como uma espécie de Robin Hood, aparecendo sob a figura de arqueiro ou caçador e sendo encontrado nas florestas.

Há, portanto, uma continuidade iconográfica bastante interessante:

Weyer: arqueiro silvestre.

Collin de Plancy: arqueiro ou caçador nas florestas.

E o Sol em Sagitário?

O Sloane 3825 apresenta outra leitura.

Ele diz que Barbatos aparece quando o Sol está em Sagitário.

Peterson observa explicitamente que o tradutor aparentemente não compreendeu corretamente o latim de Weyer.

A expressão que designava um arqueiro silvestre foi interpretada como referência ao signo zodiacal Sagitário.

Isso provavelmente produziu uma das correspondências astrológicas mais famosas de Barbatos.

O caso é metodologicamente valioso porque mostra como uma associação esotérica pode nascer.

Não necessariamente de uma antiga cosmologia secreta.

Às vezes de uma tradução.

Então Barbatos é de Sagitário?

A resposta precisa distinguir duas camadas.

Na tradição posterior da Ars Goetia, existe efetivamente uma referência ao Sol em Sagitário.

Em Weyer, a frase significa provavelmente arqueiro silvestre e não uma condição astrológica.

Portanto, dizer simplesmente:

“Barbatos é um espírito de Sagitário desde sua origem”

seria historicamente enganoso.

Uma formulação mais precisa seria:

“A associação explícita de Barbatos ao Sol em Sagitário aparece na transmissão goética posterior e parece decorrer de uma interpretação equivocada da descrição latina de Weyer.”

Os quatro reis

Outra característica marcante é a presença de quatro reis junto de Barbatos.

Weyer afirma que o arqueiro aparece com quatro reis que carregam trombetas.

Essa imagem muda durante a transmissão inglesa.

Scot fala dos quatro reis trazendo companhias e grandes tropas.

Peterson observa que provavelmente ocorreu outra leitura equivocada:

o latim possui tubas, “trombetas”;

Scot parece ter lido algo próximo de turmas, “tropas”.

Mais tarde, a Goetia combina a tradição e apresenta Barbatos com quatro nobres reis e seus companheiros em grandes tropas.

Esse é um extraordinário exemplo de transmissão textual.

Trombetas transformadas em tropas

A diferença de apenas algumas letras pode alterar uma imagem inteira.

Weyer:

quatro reis com trombetas.

Scot:

quatro reis trazendo companhias e grandes tropas.

Goétia:

quatro nobres reis acompanhados de grandes tropas.

Séculos depois, alguém pode interpretar esses exércitos como parte fundamental da metafísica de Barbatos.

Mas quando retornamos ao latim, vemos que parte dessa imagem pode ter surgido simplesmente de uma leitura errada.

Isso é exatamente por que crítica textual importa.

Quem são os quatro reis?

As fontes centrais examinadas não fornecem seus nomes.

Portanto, qualquer lista moderna afirmando:

“os quatro reis de Barbatos são X, Y, Z e W”

precisa apresentar uma fonte independente.

Não deveríamos preencher automaticamente essa lacuna.

O texto diz quatro reis.

Não diz quem são.

Barbatos compreende os animais

Esse é provavelmente o atributo mais conhecido de Barbatos e possui base histórica extremamente sólida.

Weyer afirma que ele compreende:

o canto dos pássaros;

o latido dos cães;

o mugido dos bois;

e as vozes de todos os animais.

Scot preserva praticamente a mesma descrição.

A Ars Goetia também.

Portanto, a associação de Barbatos à linguagem animal não é um acréscimo moderno.

É um dos elementos centrais de sua identidade textual.

Ele faz os animais falarem como humanos?

A fonte não formula exatamente dessa maneira.

Ela afirma que Barbatos entende seus sons e vozes.

Isso é diferente de dizer que transforma animais em falantes humanos.

A nuance importa.

Seu atributo é principalmente de compreensão.

Não necessariamente de alteração da natureza dos animais.

A linguagem animal na época de Weyer

Para um leitor moderno, “compreender pássaros e cães” pode parecer fantasia folclórica.

Mas a ideia de entender linguagens animais possui uma história muito antiga no folclore, na literatura religiosa e na magia.

O ponto importante para este artigo não é demonstrar que a capacidade exista empiricamente.

É reconhecer que Weyer a inclui como ofício de Barbatos.

Historicamente:

a fonte atribui a ele compreensão das vozes animais.

Isso é demonstrável.

A realidade sobrenatural dessa capacidade pertence a outro campo.

Compreender animais não é zoologia moderna

Também seria exagero transformar Barbatos em “Daemon da biologia”, “senhor da etologia” ou “mestre da zoologia”.

Essas são disciplinas modernas que trabalham através de observação sistemática e método científico.

A entrada do grimório fala de uma faculdade mágica de compreender vozes animais.

Uma interpretação contemporânea pode relacionar simbolicamente Barbatos à observação da natureza.

Não deve confundir isso com ciência zoológica.

Uma leitura contemporânea da linguagem animal

Dentro da perspectiva do Templo de Lúcifer, esse atributo oferece uma interpretação particularmente fértil.

Animais comunicam-se sem utilizar linguagem humana.

Postura.

Som.

Movimento.

Distância.

Ritmo.

Reação.

Contexto.

Aprender a observar antes de projetar nossas próprias interpretações sobre outro ser é uma disciplina de atenção.

Nesse sentido, Barbatos pode simbolizar capacidade de perceber linguagens que não foram construídas para nós.

Essa é uma interpretação contemporânea.

Não uma explicação histórica de Weyer.

Escutar antes de interpretar

Existe uma diferença importante entre ouvir e compreender.

Podemos ouvir um som e imediatamente projetar significado.

O mesmo acontece com pessoas.

Uma frase é dita.

Supomos intenção.

Uma expressão facial muda.

Criamos narrativa.

Barbatos pode fornecer uma metáfora para outra postura:

observe antes de concluir.

Compreensão exige contexto.

Isso vale para animais.

Pessoas.

Textos.

E tradições religiosas.

Tesouros escondidos por encantadores

Outro atributo histórico muito estável é a descoberta de tesouros escondidos por magos ou encantadores.

Weyer registra isso explicitamente.

Scot preserva.

A Goetia também.

Observe, porém, a especificidade.

Não é simplesmente:

“Barbatos dá dinheiro.”

Nem:

“Barbatos concede riqueza.”

A função é descobrir determinados tesouros ocultos.

Essa diferença precisa permanecer.

Tesouro escondido não significa riqueza garantida

Muitas páginas modernas ampliam essa atribuição até:

prosperidade;

dinheiro rápido;

aumento de renda;

sucesso financeiro;

atração de clientes.

Esses conceitos podem fazer parte de sistemas contemporâneos.

Não são automaticamente equivalentes à descrição histórica.

O texto fala de tesouro ocultado por encantamento.

Essa é uma imagem muito específica da cultura mágica do período.

Uma interpretação contemporânea do tesouro

Como símbolo, entretanto, o tesouro pode adquirir outra dimensão.

Informação valiosa pode estar escondida.

Uma fonte esquecida.

Uma capacidade não desenvolvida.

Um recurso subutilizado.

Uma oportunidade ignorada.

Mas essa metáfora só funciona quando é claramente apresentada como metáfora.

Não devemos dizer que Weyer estava “na realidade” falando de potencial psicológico.

Ele não diz isso.

Barbatos conhece o passado e o futuro

Esse é outro atributo preservado com grande estabilidade.

Weyer afirma que Barbatos conhece aquilo que passou e aquilo que virá.

A Goetia mantém a mesma função.

Collin de Plancy também.

Portanto, assim como Amon e Vassago, Barbatos integra o grupo de espíritos aos quais a tradição atribui conhecimento temporal.

O mesmo cuidado metodológico se aplica.

Podemos demonstrar que a fonte afirma isso.

Não podemos transformar uma descrição de grimório em prova empírica de previsão sobrenatural.

Barbatos e reconciliação

Weyer encerra sua descrição funcional dizendo que Barbatos reconcilia disposições entre amigos e inimigos.

Scot transmite a ideia como reconciliação entre amigos e poderes.

A Goetia apresenta Barbatos como capaz de reconciliar amigos e aqueles que estão em posição de poder.

Essa pequena mudança é interessante.

A tradição não fica limitada à reconciliação entre iguais.

Também aparece uma dimensão relacionada a pessoas poderosas.

Isso permite interpretar Barbatos como figura ligada a restauração de relações.

Mas novamente:

não existe garantia de que qualquer prática ritual faça outra pessoa mudar de vontade.

Consentimento e autonomia continuam existindo.

Reconciliação não significa controle

Esse ponto precisa permanecer claro numa leitura contemporânea.

Uma pessoa pode desejar resolver uma disputa.

Pode querer retomar uma amizade.

Pode querer melhorar uma relação com uma autoridade.

Isso não lhe concede o direito de controlar a decisão do outro.

Dentro da filosofia do Templo, reconciliação deveria significar criar condições para compreensão e diálogo.

Não eliminar a autonomia alheia.

Barbatos e a ordem das Virtudes

Weyer relaciona Barbatos à ordem das Virtudes.

Essa não é uma dedução moderna.

Está explicitamente no texto.

A Ars Goetia preserva a ideia, afirmando que ele era da ordem das Virtudes e acrescentando uma formulação obscura segundo a qual uma parte daquela ordem ainda conservaria autoridade.

Portanto, no caso de Barbatos é historicamente correto dizer:

a tradição demonológica afirma que ele pertenceu à ordem angelical das Virtudes.

O que não devemos fazer é inventar uma biografia completa de sua condição celestial.

E as Dominações?

Aqui existe uma nuance importante.

O latim de Weyer diz:

ex ordine Virtutum, partim Dominationum.

A construção é ambígua.

Scot traduz como alguém “da ordem das Virtudes, que em parte exercem domínio”.

A Goetia transmite algo semelhante.

Collin de Plancy, entretanto, transforma isso numa formulação segundo a qual Barbatos teria pertencido à ordem das Virtudes ou das Dominações.

Portanto, eu não escreveria categoricamente:

“Barbatos foi simultaneamente Virtude e Dominação.”

A leitura mais segura é:

Weyer o associa explicitamente às Virtudes; a redação seguinte é ambígua e foi reinterpretada posteriormente em relação às Dominações.

Por que Barbatos caiu?

As fontes centrais não explicam.

Não fornecem:

causa individual da queda;

nome angelical anterior;

papel numa guerra celestial;

relação pessoal com Lúcifer;

ou narrativa biográfica detalhada.

Portanto, histórias modernas sobre Barbatos seguindo Lúcifer numa rebelião podem fazer parte de sistemas demonolátricos ou luciferianos contemporâneos.

Não devem ser apresentadas como texto de Weyer.

Trinta legiões

Weyer atribui a Barbatos 30 legiões.

Scot preserva.

A Goetia também.

Collin de Plancy mantém o mesmo número.

Essa estabilidade faz das trinta legiões um dos elementos mais seguros de seu perfil.

Mas o número não representa uma unidade científica de força.

O texto não define exatamente quantos espíritos compõem cada legião.

Também não fornece uma fórmula na qual 30 legiões equivalem a determinado grau absoluto de poder.

O selo de Barbatos

A tradição do Lemegeton associa um selo ao oitavo espírito.

Esse sigilo tornou-se uma de suas principais representações modernas.

Como nos artigos anteriores, porém, existe uma questão cronológica.

Barbatos é documentado em Weyer e em tradições anteriores relacionadas aos Offices of Spirits antes da série goética de selos que conhecemos atualmente.

Portanto:

o personagem textual é mais antigo que a documentação do selo goético atualmente associado a ele.

O selo não vem da Antiguidade

Não existe fundamento suficiente para dizer que o sigilo de Barbatos:

é símbolo celta;

vem da Grécia antiga;

foi utilizado por caçadores medievais;

pertence a alguma antiga religião da floresta;

ou foi desenhado pelo Salomão histórico.

Ele pertence à tradição manuscrita goética posterior.

Isso é historicamente suficiente.

Não precisa de falsa antiguidade.

Barbatos no Dictionnaire Infernal

No século XIX, Collin de Plancy apresenta uma das imagens mais influentes de Barbatos.

Ele é um grande e poderoso demônio, Conde-Duque, comparado a Robin Hood e representado como arqueiro ou caçador encontrado nas florestas.

Quatro reis tocam trombetas diante dele.

Barbatos ensina a interpretar o canto dos pássaros, o mugido dos touros, o latido dos cães e os sons de diferentes animais.

Conhece tesouros enterrados por magos.

Reconcilia amigos.

Conhece passado e futuro.

E governa trinta legiões.

Essa descrição é importante porque preserva vários detalhes de Weyer que a Goetia havia modificado.

Especialmente:

arqueiro/caçador;

e

reis com trombetas.

O “Robin Hood infernal”

A comparação de Collin de Plancy com Robin Hood é uma imagem do século XIX.

Não aparece dessa maneira em Weyer.

Pode ser compreendida pela combinação:

arqueiro;

floresta;

caçador.

Mas não deveria ser transformada em título antigo de Barbatos.

“Robin Hood do Inferno” é uma caracterização literária posterior.

Não sua dignidade histórica.

Barbatos no Grand Grimoire

Barbatos também aparece em outra estrutura demonológica importante.

Na tradição do Grand Grimoire, Aamon, Pruflas e Barbatos aparecem entre os três espíritos subordinados a Satanachia.

Essa relação cria um excelente paralelo com Amon, estudado anteriormente.

No Grand Grimoire:

Satanachia governa Pruflas, Aamon e Barbatos.

Na Ars Goetia, Barbatos aparece simplesmente como Grande Duque nº 8.

São sistemas diferentes.

Barbatos é subordinado a Satanachia?

A resposta correta é:

no sistema do Grand Grimoire, sim.

Não devemos transformar essa hierarquia em característica universal de todas as tradições.

Essa diferença é especialmente útil para mostrar ao leitor que “a hierarquia infernal” não aparece de maneira uniforme nos grimórios.

As fontes discordam.

E essa discordância faz parte da história.

Barbatos possui relação individual com Lúcifer?

As entradas fundamentais de Weyer e da Ars Goetia não estabelecem uma relação individual especial entre Barbatos e Lúcifer.

No Grand Grimoire, Barbatos aparece numa estrutura hierárquica em que Satanachia pertence ao sistema dos grandes oficiais infernais.

Isso permite estudar uma relação indireta dentro daquela cosmologia.

Não autoriza afirmar:

“Barbatos é o caçador de Lúcifer.”

ou:

“Barbatos comanda a floresta luciferiana.”

Essas seriam formulações modernas.

Barbatos e a Caçada Selvagem

Alguns conteúdos contemporâneos relacionam Barbatos à Wild Hunt, a Caçada Selvagem.

Não encontrei essa atribuição em Weyer nem na pequena entrada da Ars Goetia.

Ela pertence a recepções modernas e deve ser tratada como tal.

A imagem do arqueiro silvestre e do caçador certamente torna a associação atraente.

Mas uma associação fazer sentido simbolicamente não demonstra sua antiguidade.

Barbatos era uma antiga divindade da floresta?

Também não existe documentação suficiente para afirmar isso.

O fato de aparecer como arqueiro silvestre ou caçador não demonstra que Barbatos tenha sido originalmente:

Cernunnos;

Herne;

Pan;

Ártemis;

Apolo;

ou qualquer outra divindade antiga ou folclórica.

Comparações simbólicas podem ser feitas.

Genealogias históricas exigem evidência.

Barbatos aparece na Bíblia?

Não como o espírito demonológico apresentado por Weyer e pelo Lemegeton.

O nome não aparece nos textos bíblicos com esse perfil.

A associação geral da tradição goética a Salomão é pseudoepigráfica e muito posterior aos textos bíblicos.

A etimologia novamente

O latim barbatus significa “barbudo”.

Isso torna a derivação tentadora.

Entretanto, um detalhe importante continua faltando:

as fontes não descrevem Barbatos como uma figura notavelmente barbada.

Weyer enfatiza arqueiro, animais, tesouros, reis e reconciliação.

Portanto, mesmo que a origem lexical seja barbatus, não sabemos por que esse nome teria sido aplicado ao personagem.

As variantes antigas como Barbarus também recomendam cautela.

A melhor classificação continua sendo:

etimologia plausível, mas não definitivamente demonstrada.

Barbatos e astrologia

O caso de Barbatos é especialmente importante porque a própria correspondência com Sagitário parece ter sido influenciada por erro de tradução.

Isso significa que qualquer tabela moderna baseada nessa passagem precisa reconhecer sua origem textual.

Uma escola posterior pode decidir trabalhar astrologicamente com Barbatos em Sagitário.

Isso faz parte daquele sistema.

Mas não deveria dizer:

“Weyer originalmente classificou Barbatos como espírito astrológico de Sagitário.”

Ele parece ter descrito um arqueiro da floresta.

Outras correspondências modernas

Também encontramos atualmente associações com:

planetas;

metais;

dias;

cores;

plantas;

incensos;

cartas do Tarô;

decanatos;

e anjos do Shem HaMephorash.

Essas estruturas pertencem a sistemas esotéricos posteriores.

Elas não estão na entrada básica de Weyer.

Por isso, eu não colocaria uma tabela definitiva nessa página.

O próprio caso Sagitário mostra por que precisamos saber quando e como uma correspondência surgiu antes de tratá-la como tradição.

Barbatos e Cahetel

Em sistemas posteriores de correspondência entre a Goetia e os 72 anjos do Shem HaMephorash, Barbatos é frequentemente colocado em relação com Cahetel.

Essa estrutura pertence à recepção ocultista posterior e deve ser apresentada com sua escola ou autor.

Não faz parte do núcleo textual de Weyer.

Portanto, a formulação adequada é:

“Em determinados sistemas posteriores, Barbatos é relacionado a Cahetel.”

Não:

“Cahetel é o anjo original de Barbatos.”

A interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer

Depois de reconstruída a documentação, podemos desenvolver nossa própria leitura.

Barbatos oferece quatro grandes eixos históricos:

escuta;

descoberta;

tempo;

reconciliação.

Ele compreende vozes que outras pessoas não compreendem.

Descobre aquilo que está escondido.

Conhece passado e futuro.

E reconcilia relações.

Dentro da perspectiva contemporânea do Templo, esses atributos podem ser reunidos numa ideia central:

compreender sinais antes de agir.

Essa interpretação é nossa.

Não uma doutrina escrita por Weyer.

Barbatos e a inteligência da observação

O caçador precisa observar.

Som.

Movimento.

Rastro.

Ambiente.

Tempo.

A imagem de Barbatos como arqueiro silvestre combina muito bem com seus demais atributos.

Não precisamos afirmar que Weyer tenha criado conscientemente uma filosofia sobre atenção.

Mas, como simbolismo contemporâneo, a relação é fértil.

O bom observador não impõe significado ao ambiente.

Primeiro recolhe sinais.

Depois interpreta.

Escutar aquilo que não fala nossa linguagem

A compreensão dos animais pode representar simbolicamente um princípio mais amplo.

Nem toda realidade se comunica na linguagem que preferimos.

Um sistema tecnológico comunica falhas por logs.

Um corpo comunica problemas por sintomas.

Uma pessoa pode comunicar desconforto sem dizer diretamente aquilo que sente.

Uma comunidade comunica problemas através de padrões de comportamento.

Uma fonte histórica comunica também através de diferenças, erros e lacunas.

Dentro dessa leitura, Barbatos pode simbolizar capacidade de aprender a linguagem do fenômeno que estamos tentando compreender.

Tesouros como informação escondida

O tesouro oculto também pode ser reinterpretado.

Não precisamos reduzi-lo a ouro.

Uma fonte esquecida pode ser um tesouro intelectual.

Uma solução já presente num sistema pode estar escondida porque ninguém a observou.

Uma habilidade ignorada pode tornar-se recurso.

Uma informação pode alterar uma decisão.

Mas a metáfora só possui valor quando continuamos reconhecendo que Weyer falava literalmente de tesouros escondidos por encantadores.

Passado, futuro e rastros

A imagem do caçador oferece ainda outra interpretação.

O rastro pertence ao passado.

Aquilo que o produziu já passou.

Mas através dele podemos inferir direção e antecipar aquilo que pode acontecer.

Nesse sentido, passado e futuro tornam-se ligados por sinais presentes.

Essa é uma analogia contemporânea particularmente adequada para Barbatos.

Não é profecia apresentada como ciência.

É reflexão sobre inferência.

Previsão não é certeza

Conhecer o futuro é um atributo mágico da fonte.

Na vida concreta, entretanto, nossas previsões normalmente dependem de probabilidade.

Observamos sinais.

Construímos cenários.

Estimamos tendências.

Podemos estar errados.

Uma interpretação madura de Barbatos pode, portanto, valorizar antecipação sem criar falsa certeza.

Ler sinais não significa controlar o resultado.

Reconciliação exige escuta

Aqui os atributos convergem novamente.

É difícil reconciliar pessoas sem compreender aquilo que cada uma está dizendo.

E muitas vezes aquilo que importa não aparece apenas nas palavras.

Tom.

Silêncio.

Contexto.

Histórico.

Expectativa.

Limites.

Assim, a capacidade simbólica de “entender diferentes vozes” pode ser conectada contemporaneamente à reconciliação.

Não como poder para controlar relações.

Mas como disciplina para compreender antes de responder.

Barbatos e pessoas em posição de poder

A Goetia possui uma formulação interessante ao relacionar Barbatos à reconciliação entre amigos e aqueles que estão em poder.

Isso permite uma leitura moderna sobre comunicação assimétrica.

É diferente conversar com um amigo e conversar com:

um chefe;

uma instituição;

uma autoridade;

uma organização.

Existem diferenças de poder.

Uma negociação madura precisa reconhecê-las.

Reconciliação não significa fingir que as partes possuem sempre a mesma capacidade de impor consequências.

Compreender poder também é compreender contexto

Essa reflexão é particularmente útil numa filosofia de autonomia.

Não basta dizer:

“fale sua verdade.”

Precisamos compreender:

quem possui poder de decisão?

quais consequências existem?

qual é o objetivo da conversa?

qual informação deve ou não ser revelada?

Essa leitura conecta Barbatos ao tema de estratégia sem precisar inventar para ele um cargo histórico de “Daemon da estratégia”.

O arqueiro como metáfora de direção

O arqueiro não dispara de qualquer maneira.

Existe alvo.

Distância.

Tempo.

Tensão.

Escolha.

Esse simbolismo pode ser usado contemporaneamente para representar ação direcionada.

Não agir apenas porque existe impulso.

Primeiro identificar aquilo que merece atenção.

Depois escolher direção.

Essa leitura torna a correção textual de “Sagitário” ainda mais interessante.

Barbatos não precisa ser reduzido a um signo zodiacal.

O arqueiro silvestre já oferece um símbolo muito mais rico.

Floresta e complexidade

A floresta também pode ser interpretada como ambiente de informação parcial.

Não vemos tudo ao mesmo tempo.

Árvores bloqueiam visão.

Sons chegam de diferentes direções.

Precisamos navegar por sinais.

Essa é uma boa metáfora para situações complexas.

Nem sempre temos um mapa completo.

Ainda assim precisamos tomar decisões.

A inteligência não consiste em fingir que enxergamos tudo.

Consiste em trabalhar corretamente com aquilo que conseguimos observar.

A luz luciferiana e Barbatos

Dentro da filosofia do Templo, Lúcifer é associado à luz do conhecimento.

Barbatos pode ser integrado a essa filosofia como figura de uma etapa anterior à conclusão:

percepção.

Antes de iluminar uma resposta, precisamos encontrar aquilo que realmente precisa ser observado.

A luz sem atenção pode apenas iluminar o lugar errado.

Nesse sentido, Barbatos pode simbolizar uma forma de inteligência extremamente concreta:

observar;

ouvir;

comparar;

identificar padrões;

descobrir aquilo que estava oculto;

e somente então agir.

Barbatos não precisa ser “senhor da natureza”

Essa expressão aparece com frequência em interpretações modernas.

Sua associação com animais e floresta torna a formulação atraente.

Mas as principais fontes não o apresentam como governante universal da natureza.

Ele compreende animais.

Aparece como arqueiro silvestre.

Descobre tesouros.

Isso é diferente de ser:

“deus da floresta”;

“Daemon supremo da natureza”;

ou “guardião de todos os animais”.

Esses títulos são ampliações posteriores.

O que sabemos com razoável segurança

Barbatos está documentado antes da Ars Goetia na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, onde ocupa a posição nº 6.

Na Ars Goetia, torna-se nº 8.

Weyer apresenta-o como Grande Conde e Duque; a Goetia passa a chamá-lo simplesmente Grande Duque.

Sua manifestação em Weyer é a de um arqueiro silvestre, acompanhado por quatro reis portando trombetas.

Durante a transmissão inglesa, essa descrição sofre alterações: o arqueiro é reinterpretado astrologicamente como “Sol em Sagitário” e as trombetas acabam relacionadas a tropas.

Barbatos compreende as vozes dos animais.

Descobre tesouros ocultos por encantadores.

Conhece passado e futuro.

Reconcilia relações.

É relacionado à ordem das Virtudes.

Governa trinta legiões.

No Grand Grimoire, aparece numa hierarquia diferente sob Satanachia.

O que permanece incerto

Não possuímos certeza absoluta sobre a etimologia de Barbatos, embora uma relação com o latim barbatus, “barbudo”, seja plausível.

Não conhecemos os nomes dos quatro reis que o acompanham nas principais entradas estudadas.

Não sabemos exatamente por que o arqueiro silvestre foi escolhido como sua forma.

A redação de Weyer relacionada a Virtudes e Dominações possui ambiguidade e não deve ser transformada numa biografia angelical detalhada.

Não sabemos o significado original de cada traço de seu selo.

E correspondências astrológicas, tarotísticas, planetárias, metálicas ou cabalísticas pertencem a sistemas posteriores que precisam ser analisados separadamente.

Perguntas frequentes sobre Barbatos

Quem é Barbatos?

Barbatos é o oitavo espírito da Ars Goetia, apresentado como Grande Duque associado à compreensão das vozes dos animais, descoberta de tesouros ocultos, conhecimento do passado e futuro e reconciliação.

Barbatos aparece antes da Ars Goetia?

Sim. Em Weyer ele aparece como nº 6.

Qual era seu título em Weyer?

Grande Conde e Duque.

Qual é seu título na Ars Goetia?

Grande Duque.

Por que Barbatos mudou de nº 6 para nº 8?

Porque a Ars Goetia reorganizou a sequência herdada de Weyer, incluindo outros espíritos em posições anteriores.

Barbatos aparece quando o Sol está em Sagitário?

A Ars Goetia posterior realmente apresenta essa leitura, mas Peterson observa que ela parece resultar de má interpretação do latim de Weyer, que descreve Barbatos na forma de um arqueiro das florestas.

Então Barbatos não tem relação com Sagitário?

A associação existe historicamente na tradição goética posterior. O que não devemos fazer é projetá-la retroativamente sobre Weyer como se fosse a redação original.

Barbatos é um caçador?

Weyer utiliza uma expressão relacionada a arqueiro silvestre, e Collin de Plancy posteriormente o representa como arqueiro ou caçador das florestas.

Quem são os quatro reis de Barbatos?

As principais entradas estudadas não fornecem seus nomes.

Os quatro reis possuem trombetas?

Em Weyer, sim. A transmissão de Scot parece ter transformado “trombetas” em “tropas”, erro observado por Peterson.

Barbatos entende animais?

É uma das atribuições mais estáveis de sua tradição.

Quais animais são mencionados?

Pássaros, cães, bois e, de maneira geral, as vozes dos animais.

Barbatos concede riqueza?

A fonte diz especificamente que ele descobre tesouros escondidos por magos ou encantadores. “Conceder riqueza” é uma ampliação posterior.

Barbatos conhece o passado?

Sim.

Conhece o futuro?

Sim, segundo a tradição do grimório.

Barbatos reconcilia pessoas?

Sim. Reconciliação aparece de maneira consistente nas fontes.

Barbatos pertenceu à ordem das Virtudes?

Weyer o relaciona explicitamente às Virtudes.

Barbatos pertenceu também às Dominações?

A redação de Weyer é ambígua nesse ponto. Collin de Plancy posteriormente fala em Virtudes ou Dominações. Não é prudente apresentar dupla pertença como fato simples.

Quantas legiões governa?

Trinta.

Qual é a origem do nome Barbatos?

Existe uma hipótese plausível relacionando-o ao latim barbatus, “barbudo”, mas as variantes manuscritas como Barbarus recomendam cautela.

Barbatos era uma antiga divindade?

Não existe documentação suficiente para identificá-lo com segurança como uma divindade antiga específica.

Barbatos é Cernunnos ou Herne?

Não existe evidência histórica suficiente para essas identificações.

Barbatos aparece na Bíblia?

Não.

Barbatos aparece no Grand Grimoire?

Sim. Nessa tradição aparece entre os espíritos subordinados a Satanachia.

Barbatos é subordinado a Satanachia?

No sistema do Grand Grimoire, sim. A Ars Goetia utiliza outra organização.

Barbatos participa da Caçada Selvagem?

Essa associação aparece em recepções modernas, mas não integra as pequenas entradas fundamentais de Weyer e da Ars Goetia.

Qual é o planeta de Barbatos?

As fontes históricas fundamentais não estabelecem uma correspondência planetária única.

Qual é o signo de Barbatos?

A relação com Sagitário aparece na tradição goética posterior, mas está associada a um provável erro de tradução da descrição de Weyer.

Qual é a carta do Tarô de Barbatos?

Weyer e a entrada básica da Goetia não fornecem carta de Tarô.

Barbatos é originalmente luciferiano?

Não no sentido contemporâneo. Correntes luciferianas modernas podem incorporá-lo e reinterpretá-lo conscientemente dentro de seus próprios sistemas.

A perspectiva do Templo de Lúcifer

Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Barbatos pode representar uma forma de conhecimento baseada na atenção aos sinais.

A interpretação parte de elementos históricos:

ele compreende vozes;

encontra aquilo que está escondido;

conhece aquilo que passou e aquilo que pode vir;

e reconcilia relações.

Esses atributos podem ser reunidos numa disciplina:

escutar antes de concluir.

Não significa acreditar em tudo aquilo que percebemos.

Significa desenvolver atenção suficiente para distinguir informação de projeção.

Barbatos e a percepção

Grande parte dos erros humanos nasce não da ausência completa de informação, mas da maneira como interpretamos os sinais que recebemos.

Vemos aquilo que esperávamos ver.

Ouvimos aquilo que confirma nossas crenças.

Ignoramos informações inconvenientes.

Barbatos pode simbolizar o exercício oposto.

Escutar.

Observar.

Comparar.

Verificar.

A principal lição simbólica de Barbatos

Talvez o próprio erro textual envolvendo Sagitário seja a melhor demonstração desse princípio.

Um tradutor encontrou uma expressão.

Interpretou-a de determinada maneira.

A tradução entrou no Lemegeton.

Séculos depois, leitores passaram a acreditar que Barbatos sempre possuíra uma correspondência astrológica explícita com Sagitário.

Quando retornamos ao texto anterior, descobrimos algo diferente:

um arqueiro na floresta.

A história de Barbatos demonstra, portanto, aquilo que sua própria interpretação contemporânea pode representar:

antes de construir significado, certifique-se de que realmente compreendeu o sinal.

Conclusão

Barbatos é muito mais interessante quando sua história é reconstruída do que quando é reduzido a uma ficha de correspondências.

Em Johann Weyer, ocupa a posição nº 6.

Na Ars Goetia, torna-se nº 8.

Em Weyer é Conde e Duque.

No Lemegeton, passa a ser Grande Duque.

Aparece originalmente como arqueiro silvestre.

Uma tradução transforma essa figura numa referência ao Sol em Sagitário.

Quatro reis originalmente associados a trombetas passam, durante a transmissão, a aparecer com grandes tropas.

Sua capacidade de compreender animais permanece.

Os tesouros escondidos permanecem.

Passado e futuro permanecem.

Reconciliação permanece.

As trinta legiões permanecem.

A tradição angelológica das Virtudes permanece, embora sua formulação posterior receba interpretações diferentes.

Séculos depois, Collin de Plancy recupera a imagem do arqueiro e do caçador, compara Barbatos a Robin Hood e preserva vários dos atributos de Weyer.

No Grand Grimoire, Barbatos é reorganizado novamente, agora sob Satanachia.

Tudo isso mostra que demonologia é também história de textos.

Nomes mudam.

Títulos mudam.

Posições mudam.

Imagens mudam.

Erros são transmitidos.

E interpretações posteriores podem tornar-se tão populares que acabam parecendo mais antigas que a própria fonte.

Dentro da leitura contemporânea do Templo de Lúcifer, Barbatos pode representar a inteligência que aprende a escutar o ambiente antes de impor-lhe uma resposta.

O pássaro não fala nossa língua.

O cão não argumenta como nós.

A floresta não entrega um manual.

O rastro não explica a si próprio.

É necessário observar.

Interpretar.

Comparar.

E reconhecer a possibilidade de erro.

Essa disciplina também serve à espiritualidade.

Antes de afirmar que uma entidade possui determinada correspondência, procure a fonte.

Antes de repetir uma etimologia, investigue a língua.

Antes de transformar uma experiência pessoal em verdade universal, reconheça aquilo que realmente sabemos.

E antes de concluir que encontrou um tesouro oculto, certifique-se de que não encontrou apenas aquilo que já esperava encontrar.

Nesse sentido, Barbatos pode ser interpretado como uma figura profundamente compatível com a ideia luciferiana de conhecimento:

não basta possuir olhos para enxergar; é preciso aprender a ler corretamente aquilo que está diante deles.

Leituras relacionadas

Consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia para compreender o catálogo completo.

Leia também Amon ou Aamon: história, origem e tradição do 7º espírito da Ars Goetia, cuja posição imediatamente anterior permite acompanhar a reorganização entre Weyer e a Goetia.

A próxima investigação é Paimon: história, origem e tradição do 9º espírito da Ars Goetia, uma das figuras mais complexas e populares de todo o catálogo.

Para compreender a hierarquia alternativa em que Barbatos aparece sob Satanachia, consulte também Lucifuge Rofocale: origem, Grand Grimoire, história e significado.

Referências e leituras para aprofundamento

WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Barbatos aparece como nº 6, Grande Conde e Duque, na imagem de um arqueiro silvestre acompanhado por quatro reis, associado às vozes dos animais, tesouros ocultos, passado e futuro, reconciliação, Virtudes e trinta legiões.

SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Sua tradução preserva grande parte da entrada de Weyer, mas também demonstra problemas de transmissão, especialmente na passagem referente às trombetas/tropas.

PETERSON, Joseph H. (ed.). The Lesser Key of Solomon — Lemegeton Clavicula Salomonis. Fundamental para Barbatos nº 8 e para identificar o erro que transformou o arqueiro silvestre de Weyer numa referência ao Sol em Sagitário.

COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed., 1863. Apresenta Barbatos como Conde-Duque, arqueiro ou caçador das florestas, acompanhado por quatro reis tocando trombetas, preservando vários elementos da tradição de Weyer.

LEWIS, Charlton T.; SHORT, Charles. A Latin Dictionary. O verbete barbatus registra o significado “barbudo”, útil para avaliar a hipótese etimológica do nome sem tratá-la automaticamente como genealogia demonstrada.

LE GRAND GRIMOIRE. Na hierarquia reproduzida por Collin de Plancy, Barbatos aparece ao lado de Pruflas e Aamon entre os espíritos subordinados a Satanachia.

TEMPLO DE LÚCIFER. Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.

TEMPLO DE LÚCIFER. Amon ou Aamon: história, origem e tradição do 7º espírito da Ars Goetia.

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Emrys

Emrys é autor, editor e pesquisador responsável pelo Templo de Lúcifer. Seu trabalho concentra-se em Luciferianismo, história das religiões, demonologia, simbolismo, ocultismo e esoterismo, com ênfase na análise e contextualização de fontes. Conheça o autor e a metodologia editorial →

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