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Luciferianismo, História e Filosofia

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Home/Biblioteca/Demonologia/72 Daemons da Ars Goetia/Amon ou Aamon: história, origem e tradição do 7º espírito da Ars Goetia
Templo de Lúcifer Amon
72 Daemons da Ars GoetiaEgito Antigo

Amon ou Aamon: história, origem e tradição do 7º espírito da Ars Goetia

By Emrys
abril 8, 2026
0

Amon, também registrado como Aamon, ocupa a sétima posição na Ars Goetia e é uma das figuras mais interessantes da lista para compreender como pequenas diferenças entre manuscritos e edições podem alterar profundamente a interpretação de um espírito.

Na tradição goética, Amon recebe o título de Grande Marquês. Sua primeira manifestação é descrita como um lobo com cauda de serpente, expelindo chamas pela boca. Posteriormente assume forma humana, conservando elementos animalescos: dentes de cão e uma cabeça comparada a uma ave semelhante a corvo. Ele conhece acontecimentos passados e futuros, possui funções ligadas às relações entre pessoas e governa quarenta legiões de espíritos.

Mas quase todos esses elementos já existiam antes da Ars Goetia.

Johann Weyer registra Amon vel Aamon na Pseudomonarchia Daemonum do século XVI. Ali ele não ocupa a posição sete.

É o nº 5.

Essa mudança de nº 5 em Weyer para nº 7 na Ars Goetia oferece mais um exemplo de algo que estamos demonstrando artigo por artigo: a sequência dos 72 não foi transmitida como uma ordem fixa e imutável desde a Antiguidade. O catálogo foi reorganizado.

Há ainda uma segunda camada histórica muito mais antiga que precisa ser estudada com extremo cuidado.

O nome Amon/Aamon se aproxima evidentemente de Amun, nome de uma das principais divindades do Egito antigo.

A proximidade é real.

A identificação completa, entretanto, é outra questão.

É justamente aí que precisamos separar aquilo que conseguimos documentar daquilo que tradições posteriores passaram a afirmar.

Amon antes da Ars Goetia

Na comparação de Joseph H. Peterson entre Weyer e o Lemegeton, encontramos a correspondência direta:

Weyer: nº 5 — Amon/Aamon.

Ars Goetia: nº 7 — Amon.

Portanto, ao contrário de Vassago, Amon não constitui uma adição posterior desconhecida em Weyer.

Ele já está claramente presente na Pseudomonarchia Daemonum.

Sua posição apenas muda.

Essa diferença também torna problemática qualquer interpretação numerológica que apresente o número sete como parte da “essência original e eterna” de Amon.

Uma tradição moderna pode utilizar simbolicamente o número sete.

Mas historicamente Amon nem sempre foi o sétimo espírito.

Amon ou Aamon?

As duas formas já são antigas dentro da tradição demonológica.

Weyer escreve explicitamente:

Amon vel Aamon.

A tradução de Reginald Scot mantém:

Amon, or Aamon.

A tradição manuscrita da Ars Goetia posteriormente favorece principalmente Amon. A tabela comparativa de Peterson mostra que a maioria dos testemunhos do Lemegeton utiliza essa forma, enquanto Aamon permanece importante como variante transmitida por Weyer e Scot.

Portanto, Amon e Aamon não devem ser tratados como duas entidades diferentes apenas porque existe uma letra adicional.

São variantes históricas do mesmo personagem na tradição que estamos estudando.

O que Johann Weyer diz sobre Amon?

A descrição de Weyer é relativamente compacta, mas contém quase todos os elementos que posteriormente definirão o espírito.

Amon ou Aamon é apresentado como Grande e Poderoso Marquês.

Surge sob a forma de um lobo com cauda de serpente e expele fogo.

Quando assume aparência humana, mostra dentes caninos e possui uma cabeça comparada a um grande nycticorax.

Ele conhece passado e futuro, obtém favor, reconcilia amigos e inimigos e governa quarenta legiões.

Isso já nos permite separar um núcleo histórico relativamente sólido de muitos atributos acrescentados posteriormente.

O núcleo inclui:

Marquês;

lobo;

cauda serpentina;

fogo;

forma humana híbrida;

conhecimento de passado e futuro;

relações e reconciliação;

quarenta legiões.

Planetas, signos, cartas de Tarô, metais, velas, incensos e interpretações psicológicas pertencem a outras camadas.

Marquês ou Príncipe?

Aqui existe um detalhe linguístico capaz de produzir confusão.

Weyer chama Amon formalmente de Marchio, Marquês.

Mas posteriormente utiliza a expressão latina Princeps omnium fortissimus est, traduzida por Scot como algo semelhante a “o mais forte príncipe de todos”.

Isso não significa necessariamente que sua hierarquia formal tenha mudado de Marquês para Príncipe.

Princeps também pode funcionar num sentido mais amplo de chefe, principal ou personagem eminente.

Na Ars Goetia, a classificação formal permanece inequivocamente:

Marquês.

Portanto, a página não deveria classificar Amon simultaneamente como “Marquês e Príncipe” sem explicar essa nuance.

Seu título goético é Marquês.

Amon é “o mais poderoso dos Marqueses”?

Também precisamos evitar outra extrapolação.

A expressão de Weyer ressalta sua força, e a Goetia o chama de Marquês “grande em poder” e extremamente forte.

Mas isso não produz uma classificação matemática de todos os Marqueses.

Não existe tabela histórica demonstrando que Amon seja objetivamente nº 1 em força entre eles.

É possível registrar a linguagem superlativa da fonte sem transformá-la num ranking moderno.

A forma do lobo

A primeira manifestação de Amon é extremamente estável entre Weyer e a Goetia.

Ele aparece como lobo.

Essa parte não depende de interpretação moderna.

Já está na documentação do século XVI e permanece na tradição posterior.

O que o lobo significa, entretanto, é outra questão.

A fonte não afirma:

“o lobo representa instinto”.

Não diz:

“o lobo significa independência”.

Não apresenta uma psicologia do animal.

Esses significados podem ser construídos dentro de uma interpretação contemporânea.

Não deveriam ser apresentados como explicação histórica dada por Weyer.

A cauda de serpente

O segundo elemento também é consistente.

O lobo possui cauda serpentina.

Isso cria uma criatura híbrida antes mesmo da transformação humana.

Novamente, a fonte fornece a aparência.

Não a chave simbólica.

Podemos contemporaneamente pensar serpente em relação a mudança, perigo, conhecimento, veneno, renovação ou inúmeros outros temas presentes em diferentes culturas.

Mas escolher qualquer uma dessas associações e dizer:

“é por isso que Amon possui cauda de serpente”

exigiria evidência que a entrada não oferece.

As chamas

Amon também expele chamas.

Weyer utiliza linguagem correspondente a vomitar ou expelir fogo.

A Ars Goetia preserva praticamente a mesma imagem.

Isso torna o fogo parte antiga de seu perfil iconográfico.

Não significa, entretanto, que possamos automaticamente classificá-lo como “Daemon elemental do Fogo”.

Uma coisa é possuir fogo na descrição.

Outra é integrar formalmente uma taxonomia esotérica de quatro elementos.

Essa segunda etapa pertence a sistemas posteriores.

Da forma animal para a forma humana

Quando ordenado dentro da narrativa ritual, Amon assume forma humana.

Mas a forma humana continua sendo híbrida.

A fonte preserva dentes semelhantes aos de cão e uma cabeça associada a uma ave.

Isso é especialmente interessante porque a transformação não elimina completamente a animalidade.

A figura torna-se humana apenas parcialmente.

Contemporaneamente podemos desenvolver interpretações sobre razão e instinto.

Historicamente, porém, o texto não oferece essa explicação.

Corvo, ave noturna ou garça?

Aqui aparece outra excelente questão de crítica textual.

Weyer utiliza o termo latino nycticorax.

Peterson observa que o termo pode ser traduzido como “night raven”, algo como corvo noturno, mas que zoologicamente não designa necessariamente um verdadeiro corvo; pode referir-se a uma ave noturna semelhante a uma garça.

Scot transmite “mighty raven”.

A Ars Goetia utiliza raven, corvo.

Mas Collin de Plancy, no século XIX, descreve a cabeça humana de Amon como semelhante à de um hibou, uma coruja.

Portanto, novamente encontramos uma tradição visual que muda.

Corvo noturno.

Corvo.

Coruja.

Essas diferenças não devem ser apagadas.

Amon não possui uma única iconografia imutável

É comum uma ilustração contemporânea escolher apenas uma dessas versões e apresentar:

“Esta é a verdadeira aparência de Aamon.”

Historicamente, essa linguagem é inadequada.

O que conseguimos dizer é:

Weyer descreve determinada forma.

O Lemegeton transmite e adapta essa forma.

Collin de Plancy utiliza outra identificação da ave.

Artistas posteriores acrescentam ainda novos elementos.

O método histórico acompanha essas representações.

Não decide qual aparência sobrenatural seria metafisicamente “verdadeira”.

Quarenta legiões

A quantidade permanece particularmente estável.

Weyer atribui a Amon 40 legiões.

Scot preserva quarenta.

A Goetia preserva quarenta.

Collin de Plancy continua registrando quarenta no século XIX.

Portanto, esse é um dos elementos mais seguros de sua tradição textual.

Como nos demais artigos, porém, não sabemos através dessas entradas quantos espíritos corresponderiam exatamente a cada “legião”.

Também não existe uma escala matemática segundo a qual quarenta legiões produzam determinado “nível de poder”.

Amon conhece o passado e o futuro

Essa função também atravessa as principais fontes.

Weyer diz que Amon compreende as coisas passadas e futuras.

A Goetia afirma que revela ou fala sobre tudo aquilo que passou e aquilo que virá.

Collin de Plancy continua preservando esse atributo.

Portanto, a associação de Amon a conhecimento temporal não é uma criação moderna.

Ela pertence ao núcleo histórico.

O cuidado começa quando transformamos isso em afirmações como:

“Amon prevê infalivelmente todo futuro.”

Isso já ultrapassa aquilo que o método histórico consegue demonstrar.

Podemos provar que o texto atribui a capacidade.

Não que a capacidade funcione empiricamente.

Weyer: favor e reconciliação

É na parte relacional que a transmissão se torna especialmente interessante.

O latim de Weyer fala em conciliar gratia, favor, entre amigos e inimigos.

A tradução de Scot apresenta Amon como alguém que:

obtém favor;

e reconcilia amigos e inimigos.

Isso constrói um perfil predominantemente conciliador.

Weyer não apresenta nessa entrada Amon como especialista em provocar conflitos.

Esse ponto é importante porque muita literatura moderna afirma:

“Amon causa brigas e depois as resolve.”

Essa formulação deriva de outra etapa textual.

O manuscrito Sloane 3825: amor e reconciliação

Na versão da Ars Goetia transcrita por Peterson a partir do Sloane 3825, a entrada diz que Amon:

conhece passado e futuro;

procura amor;

e reconcilia controvérsias entre amigos e inimigos.

Isso continua relativamente próximo ao eixo de Weyer:

favor;

amor;

reconciliação.

Até aqui não encontramos uma oposição explícita entre criar conflito e restaurá-lo.

Mathers/Crowley: “provoca conflitos”

Em 1904, a edição Mathers/Crowley popularizou uma redação diferente:

Amon “procureth feuds”, isto é, provoca ou produz disputas, e depois reconcilia controvérsias entre amigos.

Peterson registra em nota que sua leitura principal é love, amor, enquanto a tradição editorial representada pela edição de Crowley traz feuds.

Essa única palavra muda profundamente o perfil.

Com love, Amon favorece relações e reconciliação.

Com feuds, Amon possui os dois polos:

criar conflito;

resolver conflito.

Grande parte da interpretação ocultista contemporânea de Amon como espírito que domina simultaneamente guerra relacional e reconciliação depende dessa segunda redação.

Qual versão devemos considerar correta?

Não precisamos fingir que a questão é mais simples do que é.

A cadeia anterior favorece fortemente um eixo de favor e reconciliação.

Weyer fala em favor.

Scot preserva favor.

O Sloane 3825 utilizado por Peterson traz amor.

A leitura “feuds” tornou-se extremamente influente através de Mathers/Crowley.

Portanto, eu escreveria:

A associação de Amon à reconciliação é muito estável; sua atribuição como provocador de conflitos depende principalmente de uma variante editorial posterior popularizada por Mathers/Crowley.

Essa frase é muito mais precisa que simplesmente listar:

“poderes: causar discórdia e reconciliar inimigos”.

Isso muda o simbolismo contemporâneo?

Muda bastante.

Se construirmos nossa interpretação exclusivamente sobre Mathers, Amon se torna senhor de duas polaridades:

conflito e reconciliação.

Se retornarmos a Weyer e ao Sloane 3825, o centro histórico está muito mais em:

favor;

relações;

reconciliação;

conhecimento do passado e do futuro.

O Templo pode continuar desenvolvendo uma filosofia sobre conflitos.

Mas precisa dizer de onde parte.

Essa transparência é exatamente aquilo que estamos estabelecendo como padrão.

Uma variante ainda mais estranha: as almas dos afogados

Peterson registra que o manuscrito Harley 6483 acrescenta à entrada de Amon uma frase segundo a qual ele poderia fazer com que almas de pessoas afogadas assumissem corpos aéreos, aparecessem e respondessem perguntas.

Esse atributo lembra fortemente material que encontramos anteriormente na tradição de Gamigin.

Por isso, não deveria ser apresentado como se fosse igualmente estável em todos os testemunhos de Amon.

É uma variante manuscrita específica.

Esse detalhe mostra novamente como manuscritos podem incorporar ou deslocar materiais.

Amon e a reconciliação

A reconciliação é provavelmente a característica relacional mais segura da figura.

Weyer a registra.

Scot a preserva.

O Lemegeton a mantém.

Collin de Plancy ainda a menciona no século XIX.

Mas “reconciliar” não significa necessariamente obrigar duas pessoas a voltarem a uma relação.

Essa é uma leitura moderna importante.

Às vezes reconciliação significa retomar vínculo.

Às vezes significa resolver uma disputa.

Às vezes significa simplesmente chegar a um entendimento suficiente para que o conflito termine.

E às vezes a conclusão mais saudável de um conflito é a separação com limites claros.

Essa já é nossa elaboração contemporânea.

Conhecer o passado antes de reconciliar o presente

Aqui surge uma interpretação especialmente coerente para o Templo.

Amon conhece o passado e está relacionado à reconciliação.

Podemos unir esses dois atributos numa pergunta:

é possível resolver um conflito sem compreender como ele começou?

Muitas disputas não existem apenas por aquilo que acabou de acontecer.

Há histórico.

Expectativas.

Promessas anteriores.

Ressentimentos acumulados.

Interpretações diferentes do mesmo acontecimento.

Dentro dessa leitura contemporânea, Amon pode representar a necessidade de reconstruir a história de uma relação antes de tentar resolver sua crise.

Essa interpretação é nossa.

As fontes apenas fornecem os dois elementos que a inspiram.

Reconciliação sem conhecimento pode repetir o problema

Dizer:

“esqueçam tudo e façam as pazes”

pode produzir apenas uma pausa.

Se a causa permanece.

Se ninguém reconhece aquilo que aconteceu.

Se responsabilidades não são discutidas.

O mesmo conflito pode reaparecer.

Nesse sentido, uma leitura madura de Amon não deveria limitar-se a:

“energia para fazer as pessoas voltarem”.

Pode tornar-se uma filosofia de resolução de conflito baseada em compreensão.

O futuro também participa da reconciliação

Amon não conhece apenas o passado.

As fontes também o relacionam ao futuro.

Isso permite acrescentar outra questão.

Resolver uma disputa não depende apenas de entender:

“O que aconteceu?”

Também exige decidir:

“Como será a relação daqui para frente?”

Algumas reconciliações fracassam porque discutem incessantemente o passado sem criar novas regras para o futuro.

Outras fracassam porque querem planejar o futuro sem reconhecer aquilo que aconteceu.

A combinação de passado, futuro e reconciliação oferece uma leitura contemporânea muito mais profunda que uma simples associação com “amor”.

Amon não garante reconciliação amorosa

Também devemos evitar linguagem comercial.

“Traga seu amor de volta.”

“Reconciliação garantida.”

“Faça seu ex retornar.”

Nada disso é conclusão histórica.

Os grimórios atribuem determinados poderes à figura.

Não fornecem evidência moderna de garantia de resultados.

Além disso, qualquer reflexão contemporânea séria sobre relações precisa preservar consentimento.

Reconciliação não significa obrigar alguém a retornar a uma relação que não deseja.

Amon e o conflito

Mesmo reconhecendo que feuds é uma variante posterior, ela se tornou historicamente influente e pode ser estudada como parte da recepção.

A edição Mathers/Crowley criou ou fortaleceu a imagem de um espírito associado tanto ao surgimento quanto ao encerramento das controvérsias.

Como simbolismo moderno, isso pode ser interessante.

A mesma inteligência que compreende como relações se rompem poderia ser imaginada como capaz de compreender como são reconstruídas.

Mas precisamos escrever:

“Na tradição popularizada por Mathers/Crowley…”

e não:

“Weyer originalmente ensinava…”

porque Weyer não utiliza essa formulação.

Amon e Amun do Egito: a grande questão

Chegamos agora ao ponto mais delicado.

É impossível ignorar a semelhança dos nomes:

Amon.

Aamon.

Amun.

Amoun.

Mas semelhança nominal não resolve genealogia.

O antigo Amun egípcio está documentado milhares de anos antes da Pseudomonarchia Daemonum.

Sua história religiosa pertence a um contexto completamente diferente.

O Metropolitan Museum descreve Amun como uma divindade tebana que ganhou enorme importância, especialmente a partir do Reino Médio e do Reino Novo, tornando-se uma espécie de deus nacional e “rei dos deuses”. Seu principal centro cultual estava em Karnak.

Isso está muito distante da pequena entrada de um Marquês demonológico europeu do século XVI.

O que significa Amun?

O nome do deus egípcio Amun é tradicionalmente relacionado à ideia de “o Oculto” ou “o Escondido”.

O Metropolitan Museum registra explicitamente Amun como “the hidden one”.

Esse significado combina profundamente com a teologia egípcia da divindade.

Mas precisamos tomar cuidado.

Não podemos simplesmente transferir a etimologia de Amun para Amon goético e afirmar:

“Amon significa O Oculto.”

Para isso precisaríamos primeiro demonstrar que o nome goético foi efetivamente derivado do nome egípcio.

A proximidade existe.

A derivação ainda precisa ser demonstrada.

Como Amun era representado?

A iconografia também mostra a diferença entre os perfis.

Amun é frequentemente apresentado antropomorficamente, portando uma alta coroa com duas plumas. Em determinadas formas e tradições, também aparece associado ao carneiro ou com cabeça de carneiro. Foi ainda associado ao deus solar Re, formando Amun-Re.

Compare isso com o Amon de Weyer:

lobo;

cauda de serpente;

chamas;

dentes caninos;

cabeça de ave noturna.

Os perfis iconográficos não são simplesmente iguais.

Amon goético é Amun demonizado?

Essa hipótese aparece com enorme frequência.

Mas a formulação precisa ser cuidadosa.

Podemos afirmar:

há evidente proximidade entre os nomes Amon/Aamon e Amun/Amoun.

Podemos afirmar:

autores posteriores estabeleceram explicitamente a identificação.

Podemos investigar se a recepção europeia de divindades egípcias contribuiu para a formação do nome demonológico.

O que não podemos afirmar com a mesma segurança é:

“está provado que Weyer simplesmente pegou o deus Amun e o transformou no sétimo espírito da Goétia.”

A documentação atualmente utilizada não demonstra uma cadeia tão simples.

Collin de Plancy identifica os dois

A identificação aparece de maneira explícita no século XIX.

No Dictionnaire Infernal de 1863, Collin de Plancy descreve Amon/Aamon como poderoso Marquês e, depois de apresentar seu perfil demonológico, acrescenta que os egípcios viam Amon ou Amoun como sua divindade suprema.

Isso é historicamente muito importante.

Mostra que, no século XIX, a associação entre o espírito demonológico e a antiga divindade egípcia estava efetivamente sendo realizada por um autor influente.

Mas observe a diferença entre duas afirmações:

“Collin de Plancy identificou ou associou as duas figuras em 1863.”

e:

“Amon da Goétia foi comprovadamente Amun desde sua origem.”

A primeira possui documentação.

A segunda continua exigindo uma genealogia anterior.

Collin de Plancy não pode provar retroativamente Weyer

Esse princípio é fundamental.

Um autor de 1863 pode dizer que duas figuras são a mesma.

Isso nos informa aquilo que ele acreditava ou transmitia.

Não demonstra automaticamente aquilo que Weyer pretendia em 1577.

Muito menos aquilo que sacerdotes egípcios acreditavam mais de dois milênios antes.

A recepção posterior é fonte para a história da recepção.

Não uma máquina do tempo capaz de estabelecer identidade original.

Amun não era um “demônio” para os antigos egípcios

Dentro de sua própria religião, Amun era uma divindade central.

No Reino Novo tornou-se uma das figuras mais importantes do panteão egípcio e foi amplamente cultuado. Seu complexo em Karnak permanece uma das grandes evidências arqueológicas dessa posição religiosa.

Portanto, dizer simplesmente:

“Amon era um antigo demônio egípcio”

é historicamente errado.

Uma tradição posterior pode demonizar ou reinterpretar uma divindade de outra religião.

Isso não altera o significado que ela possuía no sistema religioso original.

Demonização é um processo histórico, não uma essência

Este ponto merece ser mantido em toda nossa biblioteca.

Se uma divindade antiga aparece posteriormente numa demonologia, não significa que seus antigos adoradores secretamente cultuassem um demônio cristão.

Significa que nomes e figuras podem ser reinterpretados quando passam de uma cultura para outra.

Astaroth será um caso ainda mais claro quando chegarmos a ele.

No caso de Amon/Amun, precisamos investigar se realmente ocorreu esse processo específico e em que etapa.

Não basta presumir.

Amon também é Baal Hammon?

Outra hipótese popular aproxima Amon ou Aamon de Baal Hammon, divindade associada especialmente à tradição púnica e cartaginesa.

Novamente, a semelhança nominal estimula a hipótese.

Mas sem uma cadeia textual e linguística suficientemente estabelecida, eu não apresentaria:

Aamon = Baal Hammon

como fato.

Uma seção comparativa futura pode investigar Amun, Ammon e Baal Hammon com maior profundidade.

Nesta página-base, o padrão deve continuar:

possibilidade não é identidade demonstrada.

Amon no Grand Grimoire

Amon também aparece noutra estrutura demonológica importante.

Na tradição do Grand Grimoire, encontramos Aamon entre dezoito espíritos subordinados aos seis grandes oficiais infernais.

A distribuição especifica que:

Lucifuge comanda Bael, Agares e Marbas;

Satanachia comanda Pruflas, Aamon e Barbatos;

Agaliarept comanda Buer, Gusoyn e Botis;

e os demais são distribuídos entre Fleurety, Sargatanas e Nebiros.

Isso cria novamente um excelente exemplo de diferenças entre grimórios.

Amon é subordinado a Satanachia?

No sistema do Grand Grimoire, sim.

Na Ars Goetia, essa não é a estrutura hierárquica apresentada.

Portanto, uma frase como:

“Amon serve Satanachia”

precisa sempre acrescentar:

“segundo a hierarquia do Grand Grimoire.”

Sem essa qualificação, o leitor acredita estar vendo uma hierarquia demonológica universal.

Não existe uma única organização compartilhada de maneira idêntica por todos os textos.

Amon e Lúcifer

A entrada de Amon em Weyer e a pequena descrição da Ars Goetia não desenvolvem uma relação individual específica com Lúcifer.

No Grand Grimoire, ele entra numa cadeia hierárquica em que Satanachia pertence a uma estrutura maior subordinada aos poderes superiores daquele sistema.

Portanto, frases como:

“Amon é o Marquês da reconciliação de Lúcifer”

ou:

“Amon age diretamente como emissário de Lúcifer”

são construções teológicas modernas se uma corrente desejar utilizá-las.

Não são simplesmente a redação da Goetia.

Amon no Dictionnaire Infernal

Collin de Plancy preserva vários dos elementos antigos.

Amon/Aamon continua poderoso Marquês.

Surge como lobo de cauda serpentina.

Expulsa chamas.

Na forma humana, sua cabeça é associada a uma coruja e possui dentes caninos.

Conhece o passado e o futuro.

Reconcilia amigos.

Governa quarenta legiões.

A entrada também introduz ou consolida a identificação com o Amun egípcio, como vimos.

Isso faz do Dictionnaire Infernal uma fonte extremamente importante para entender não apenas a continuidade do perfil, mas também a maneira como o século XIX reinterpretou sua origem.

A ilustração de Louis Le Breton

A edição de 1863 do Dictionnaire Infernal também ajudou a fixar visualmente inúmeras figuras demonológicas através das famosas ilustrações de Louis Le Breton.

Como nos artigos anteriores, precisamos distinguir a imagem do século XIX da descrição textual anterior.

Uma gravura de 1863 é historicamente importante.

Não é um retrato vindo do Egito antigo.

Não é uma imagem feita por Weyer.

E não é necessariamente reprodução de uma figura presente nos manuscritos do Lemegeton.

É uma etapa da recepção visual.

O selo de Amon

A Ars Goetia associa um selo específico ao sétimo espírito.

Esse símbolo tornou-se atualmente uma de suas principais formas de identificação visual.

Mas Weyer documenta Amon no século XVI sem a série de selos que encontramos posteriormente no Lemegeton.

Consequentemente, a história do nome e da descrição de Amon é anterior à documentação do sigilo goético atualmente popular.

Esse princípio é exatamente o mesmo utilizado para Bael, Agares, Gamigin, Marbas e Valefor.

O selo de Amon não é símbolo egípcio antigo

Mesmo que alguém acredite na identificação espiritual entre Amon e Amun, isso não transforma automaticamente o selo da Goetia em hieróglifo egípcio.

Não existe evidência de que o sigilo goético tenha sido utilizado pelos sacerdotes de Karnak.

Não deve ser denominado:

“antigo selo de Amun”;

“sigilo dos sacerdotes egípcios”;

ou expressão equivalente,

sem documentação arqueológica ou textual que demonstre isso.

A história do nome e a história do símbolo gráfico são questões diferentes.

Amon e Achaiah

Sistemas posteriores estabeleceram pares entre os espíritos goéticos e os 72 anjos associados ao Shem HaMephorash.

Na tradição atribuída a Thomas Rudd, Amon é colocado em relação com Achaiah.

Essa correspondência pode ser importante para o estudo da recepção esotérica posterior.

Não deve ser retroprojetada sobre Weyer.

Portanto:

“no sistema posterior associado a Rudd, Amon é pareado com Achaiah”

é uma formulação correta.

“Achaiah é o anjo original de Amon”

é muito mais problemática.

Planeta, signo e Tarô

As correspondências modernas de Amon são particularmente úteis para demonstrar por que decidimos não colocar uma tabela definitiva nesses artigos.

Uma tradição online associa Amon a Lua, prata, Gêmeos e 8 de Espadas.

Outra associação contemporânea apresenta Sol, ouro, Touro e 5 de Ouros.

As duas não podem ser simultaneamente a única correspondência antiga original.

A discordância demonstra aquilo que já identificamos em outros Daemons:

essas tabelas resultam de sistemas posteriores diferentes.

Não existe necessidade de escolher arbitrariamente uma tabela

Em vez de escrever:

“Planeta de Amon: Lua”,

a página-base deveria explicar:

“Sistemas ocultistas posteriores atribuem diferentes correspondências astrológicas e tarotísticas a Amon; elas não integram o núcleo da entrada de Weyer e variam conforme a escola.”

No futuro, uma página específica pode comparar os sistemas.

Isso produz pesquisa.

Escolher a primeira tabela encontrada produz apenas aparência de certeza.

Amon é um espírito do amor?

Essa formulação também exige nuance.

O Sloane 3825 apresenta a expressão procureth love.

Weyer fala de favor e reconciliação.

Portanto, existe base textual para um aspecto ligado a relações favoráveis.

Mas isso não significa que Amon deva ser reduzido a:

“Daemon do amor”.

Sua entrada também envolve passado, futuro, reconciliação e um perfil iconográfico bastante severo.

Transformar cada espírito numa categoria de serviço — dinheiro, amor, cura, proteção — simplifica demais os textos.

Amon é espírito da guerra?

Também seria exagero.

A edição Mathers/Crowley populariza sua capacidade de provocar conflitos, mas as fontes anteriores examinadas não estabelecem Amon como espírito militar ou senhor da guerra.

“Provocar feudos” não equivale automaticamente a governar guerra.

Devemos resistir à expansão contínua de atributos.

Amon é espírito da raiva?

Essa associação aparece em algumas demonologias e sistemas modernos.

Não é seu título nas pequenas entradas de Weyer ou da Goetia.

Pode integrar uma interpretação posterior baseada em conflito, fogo, severidade ou outras correspondências.

Precisa ser atribuída à corrente que a utiliza.

Amon como “Daemon da reconciliação”

Essa expressão é mais defensável como resumo moderno porque a reconciliação possui forte continuidade documental.

Mesmo assim, continua sendo descrição, não título formal.

Seu título histórico é:

Grande Marquês.

Seu ofício inclui reconciliação.

A distinção parece pequena, mas manter esse padrão evita transformar interpretações em títulos históricos inventados.

A interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer

Depois da reconstrução documental, podemos desenvolver nossa própria leitura.

Para Amon, os elementos mais férteis são:

passado; futuro; favor; conflito e reconciliação.

Com uma ressalva importante:

o conflito explícito como função criadora é mais forte na variante Mathers/Crowley que nas fontes anteriores.

Nossa interpretação pode reconhecer isso.

Dentro do Templo, Amon pode ser compreendido como uma figura relacionada à inteligência dos conflitos e à reconstrução consciente das relações.

Não porque o século XVI tenha escrito essa filosofia.

Mas porque os atributos históricos fornecem material para ela.

Nenhuma disputa começa apenas no presente

Quando duas pessoas entram em conflito, normalmente existe uma história.

Uma palavra pode ser apenas o gatilho final.

Por trás dela podem existir meses ou anos de:

expectativas;

frustrações;

silêncios;

promessas;

erros;

interpretações.

A atribuição de Amon ao passado e à reconciliação permite pensar justamente nisso.

Antes de perguntar:

“Como faço as pazes?”

talvez seja necessário perguntar:

“O que realmente aconteceu entre nós?”

Reconciliação exige duas versões da história

Cada pessoa interpreta acontecimentos através de sua própria perspectiva.

Duas pessoas podem relatar a mesma discussão de maneiras sinceramente diferentes.

Isso não significa que toda versão seja igualmente correta em todos os detalhes.

Significa que compreender conflito exige separar:

fato;

interpretação;

memória;

intenção;

e consequência.

Dentro da leitura do Templo, Amon pode simbolizar essa análise.

Conhecer o passado não é apenas lembrar.

É reconstruir.

Nem todo conflito deve terminar em reaproximação

Essa é uma correção importante para qualquer espiritualidade centrada em reconciliação.

Há relações que podem ser reparadas.

Há relações que precisam mudar.

Há relações das quais alguém precisa afastar-se.

Reconciliação não deve ser utilizada como justificativa para obrigar alguém a retomar contato com quem o prejudicou.

Às vezes reconciliar significa apenas compreender o acontecimento, encerrar a hostilidade e seguir caminhos separados.

Autonomia continua importando.

Reconciliar não é apagar responsabilidade

“Fazer as pazes” não deveria significar fingir que nada aconteceu.

Se houve erro, responsabilidade continua relevante.

Se houve dano, pode existir necessidade de reparação.

Se houve quebra de confiança, confiança pode precisar ser reconstruída.

A reconciliação sem reconhecimento da causa torna-se apenas silêncio temporário.

Nesse sentido, o passado atribuído a Amon adquire especial importância.

Amon e previsão de conflitos

Sua associação ao futuro também pode receber uma leitura contemporânea.

Compreender padrões permite antecipar consequências.

Se determinada forma de comunicação sempre produz escalada, podemos reconhecê-la.

Se um mesmo problema retorna em todas as discussões, existe estrutura.

Se determinados limites nunca são respeitados, o futuro não precisa ser adivinhado sobrenaturalmente para que alguns riscos sejam visíveis.

Nesse sentido, “conhecer o futuro” pode ser utilizado simbolicamente como capacidade de pensar consequências.

Novamente: essa é nossa interpretação.

Não uma tradução literal do ofício mágico atribuído pela fonte.

A variante “feuds” e o ciclo do conflito

Embora historicamente mais tardia, a leitura de Mathers/Crowley oferece um simbolismo particularmente forte.

Uma mesma figura aparece relacionada à criação e à resolução do conflito.

Isso permite refletir sobre algo desconfortável:

às vezes somos participantes ativos dos problemas que depois queremos resolver.

Provocamos.

Respondemos impulsivamente.

Alimentamos ressentimento.

Compartilhamos informação que amplia a disputa.

Depois procuramos reconciliação.

Uma leitura contemporânea de Amon pode exigir não apenas perguntar:

“Quem começou?”

mas também:

“O que estou fazendo que mantém o conflito vivo?”

Conhecimento sem reconciliação pode tornar-se arma

Amon também conhece passado e futuro.

Conhecimento sobre outra pessoa pode ser utilizado para compreender.

Pode também ser utilizado para atacar.

Conhecer vulnerabilidades.

Erros anteriores.

Segredos.

Medos.

Isso cria uma questão ética importante.

Quanto mais sabemos sobre alguém, maior pode ser nossa capacidade de feri-lo.

Dentro de uma filosofia luciferiana centrada em conhecimento, esse ponto é fundamental.

Conhecimento não possui apenas poder libertador.

Também pode ser instrumentalizado.

Reconciliação não significa manipulação

Uma pessoa pode desejar que duas pessoas façam as pazes.

Mas não possui direito automático de decidir por elas.

Uma pessoa pode desejar recuperar uma relação.

Isso não elimina o consentimento do outro.

Uma tradição espiritual pode realizar práticas simbólicas de reflexão, intenção ou reconciliação.

Não deveria utilizar isso para justificar coerção.

Amon pode ser simbolicamente associado à reconciliação sem transformar reconciliação em controle sobre vontade alheia.

A forma animal como leitura contemporânea

Se quisermos trabalhar simbolicamente com a aparência de Amon, podemos fazê-lo de maneira declaradamente moderna.

O lobo pode representar impulso ou dimensão instintiva.

A cauda serpentina pode representar complexidade ou transformação.

As chamas podem representar intensidade.

A forma humana pode representar capacidade de elaborar essa intensidade através de linguagem.

Mas nenhuma dessas associações é apresentada como “o significado secreto original”.

São ferramentas interpretativas contemporâneas.

Dentes caninos e linguagem

Há ainda uma metáfora possível.

Amon assume forma humana, mas mantém dentes de animal.

Aquilo que fala continua capaz de ferir.

Isso combina de maneira particularmente interessante com seu eixo de conflitos.

Palavras podem reconciliar.

Também podem destruir relações.

Essa leitura é moderna, mas possui coerência com o perfil textual.

Dentro do Templo, poderíamos formular assim:

não basta assumir forma racional se a linguagem continua sendo utilizada como mordida.

O fogo como intensidade emocional

Da mesma maneira, o fogo pode ser utilizado contemporaneamente como metáfora para intensidade emocional.

Raiva.

Paixão.

Impulsividade.

Desejo de resposta.

Não porque Weyer tenha explicado o fogo dessa forma.

Mas porque o símbolo permite refletir sobre aquilo que acontece quando conflito encontra intensidade.

O objetivo não é apagar emoção.

É impedir que emoção determine sozinha a decisão.

Amon e Amun numa interpretação contemporânea

O Templo também pode estudar comparativamente Amon e Amun sem precisar fundi-los.

Amun oferece uma tradição religiosa antiquíssima relacionada ao oculto, à soberania divina e posteriormente a Amun-Re.

Amon goético oferece outro conjunto: lobo, serpente, fogo, conhecimento temporal e reconciliação.

Podemos comparar os dois historicamente.

Podemos estudar como Collin de Plancy os aproximou.

Podemos investigar se sistemas modernos os consideram manifestações de uma mesma potência.

O que não precisamos fazer é resolver à força uma questão que a documentação ainda não resolveu.

Semelhança não é prova, diferença não é impossibilidade

Esse princípio vale para muitas figuras desta biblioteca.

Nomes iguais não demonstram automaticamente identidade.

Perfis diferentes também não demonstram necessariamente que nenhuma relação histórica exista.

O método correto é investigar a cadeia intermediária.

No caso de Amon e Amun, temos uma associação explícita no século XIX.

Ainda precisamos ser mais cautelosos ao retroceder até Weyer e, especialmente, até o Egito antigo.

Por isso, a conclusão profissional não é:

“são definitivamente iguais.”

Nem necessariamente:

“não possuem qualquer relação.”

É:

“a relação nominal e a identificação posterior são documentáveis; a continuidade histórica completa permanece insuficientemente demonstrada.”

O que sabemos com razoável segurança

Amon ou Aamon já aparece na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer como nº 5.

Na Ars Goetia, torna-se nº 7.

É Grande Marquês.

Manifesta-se inicialmente como lobo com cauda de serpente e expelindo fogo.

Depois assume forma humana híbrida, com dentes caninos e cabeça ligada à tradição do nycticorax, posteriormente transmitida como corvo e, em Collin de Plancy, coruja.

Conhece passado e futuro.

Está fortemente associado a favor e reconciliação nas fontes anteriores e no Sloane 3825.

A leitura segundo a qual também provoca conflitos tornou-se especialmente influente através de Mathers/Crowley.

Governa quarenta legiões.

Seu selo pertence à tradição posterior do Lemegeton.

No Grand Grimoire, Aamon aparece subordinado a Satanachia.

O que permanece incerto

Não possuímos uma etimologia segura do nome goético independente da questão Amun.

Não conseguimos demonstrar que todas as características de Amon derivem do antigo Amun egípcio.

Não sabemos exatamente por que o lobo, a serpente e a ave foram reunidos em sua aparência.

Não devemos tratar “feuds” como se fosse a única redação histórica.

Não sabemos o significado original de cada traço de seu selo.

E as correspondências modernas com planeta, signo, Tarô, metal, elemento, cor e incenso não formam um único sistema histórico original.

Perguntas frequentes sobre Amon ou Aamon

Quem é Amon na Ars Goetia?

Amon é o sétimo espírito da Ars Goetia, um poderoso Marquês associado ao conhecimento do passado e futuro, relações e reconciliação, governando quarenta legiões.

Amon aparece antes da Goetia?

Sim. Johann Weyer já o registra como Amon ou Aamon na Pseudomonarchia Daemonum.

Qual era sua posição em Weyer?

Nº 5.

Qual é sua posição na Ars Goetia?

Nº 7.

Amon e Aamon são a mesma figura?

Sim, dentro da tradição demonológica estudada aqui são variantes do mesmo nome.

Qual é o título de Amon?

Grande Marquês.

Quantas legiões governa?

Quarenta.

Como Amon aparece?

Como lobo com cauda de serpente, expelindo chamas; depois assume forma humana híbrida, com dentes caninos e cabeça relacionada na tradição textual a uma ave semelhante ao corvo.

Amon possui cabeça de corvo ou coruja?

A tradição varia. Weyer utiliza nycticorax, Scot e a Goetia aproximam a figura de um corvo, enquanto Collin de Plancy utiliza coruja.

Amon conhece o passado?

Sim, essa atribuição está claramente presente nas principais fontes.

Amon conhece o futuro?

Também.

Amon reconcilia amigos e inimigos?

Sim. Essa é uma das funções mais estáveis em Weyer, Scot e no Lemegeton.

Amon provoca brigas?

A edição Mathers/Crowley de 1904 diz que ele “procura feuds”, isto é, provoca disputas. O Sloane 3825 utilizado por Peterson traz “procura amor”, enquanto Weyer fala em obter favor. Portanto, a função de criar conflitos depende de variante textual posterior e não deve ser apresentada sem essa explicação.

Amon é um espírito do amor?

Uma versão importante da Goetia realmente traz “procura amor”, e Weyer o associa a favor e reconciliação. “Espírito do amor”, porém, é uma simplificação moderna.

Amon é Amun do Egito?

Existe proximidade nominal e Collin de Plancy identifica ou associa explicitamente os dois no século XIX. Entretanto, os perfis históricos são muito diferentes e ainda não existe base suficiente para afirmar que o Amon de Weyer seja simplesmente Amun preservado sem transformação.

Quem era Amun?

Amun era uma importante divindade egípcia, especialmente associada a Tebas, que ganhou enorme importância no Reino Novo e foi considerada rei dos deuses. Seu nome é tradicionalmente interpretado como “o Oculto”.

Amun era um demônio para os egípcios?

Não. Era uma divindade central de sua religião.

O selo de Amon é egípcio?

Não há evidência de que o selo da Goetia tenha sido utilizado no antigo Egito.

Amon aparece no Grand Grimoire?

Sim. Nessa hierarquia, Aamon aparece entre os espíritos subordinados a Satanachia.

Amon é subordinado a Satanachia?

Segundo o sistema específico do Grand Grimoire, sim. A Ars Goetia não utiliza essa mesma estrutura.

Qual é o planeta de Amon?

A entrada histórica básica não estabelece um planeta único. Sistemas modernos divergem.

Qual é o signo de Amon?

Também varia conforme o sistema posterior. Não faz parte do núcleo da entrada de Weyer.

Qual é a carta de Tarô de Amon?

Weyer e a entrada básica da Goetia não fornecem carta de Tarô.

Qual anjo é associado a Amon?

Na tradição posterior associada a Thomas Rudd, Amon é relacionado a Achaiah.

Amon é originalmente luciferiano?

Não no sentido contemporâneo. Ele pertence documentalmente à tradição demonológica e salomônica posteriormente incorporada ao Lemegeton. Correntes luciferianas modernas podem reinterpretá-lo.

A perspectiva do Templo de Lúcifer

Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Amon pode ser compreendido como uma figura da compreensão histórica dos conflitos e da possibilidade consciente de reconstrução das relações.

Essa formulação é deliberadamente contemporânea.

Não atribuímos a Weyer uma filosofia que ele não escreveu.

Partimos de atributos realmente documentados:

passado;

futuro;

favor;

reconciliação;

e, na influente variante Mathers/Crowley, conflito.

A partir deles, podemos desenvolver uma reflexão sobre aquilo que acontece entre pessoas quando memória, expectativa, emoção e comunicação entram em choque.

O passado explica parte da disputa.

O presente exige decisão.

O futuro depende daquilo que será feito com o conhecimento adquirido.

O princípio central de Amon

A leitura contemporânea do Templo pode ser resumida numa frase:

não tente reconciliar aquilo cuja história você ainda se recusa a compreender.

Essa formulação diferencia Amon de uma visão simplista de “espírito que traz amor”.

Reconciliar exige conhecimento.

Exige memória.

Exige capacidade de enxergar a própria participação na situação.

E exige pensar no que será diferente daqui para frente.

Sem isso, a reconciliação pode tornar-se apenas repetição.

Amon segundo o Método das Seis Camadas

Na primeira camada, observamos a Ars Goetia: Amon é nº 7, Grande Marquês, possui forma lupina e serpentina, assume aparência humana híbrida, conhece passado e futuro, está relacionado a relações e reconciliação e governa quarenta legiões.

Na segunda camada, voltamos a Weyer e Scot: Amon/Aamon é nº 5, conserva praticamente a mesma aparência e quarenta legiões, mas o eixo relacional aparece principalmente como favor e reconciliação.

Na terceira camada, investigamos as variantes manuscritas: Sloane 3825 traz “amor”, enquanto Mathers/Crowley popularizam “feuds”; Harley 6483 ainda acrescenta uma passagem peculiar sobre almas de afogados.

Na quarta camada, separamos astrologia, Tarô, planetas, metais e correspondências com Achaiah, que pertencem a organizações posteriores.

Na quinta camada, analisamos a recepção: Collin de Plancy modifica a ave para coruja e estabelece explicitamente a aproximação entre Amon/Aamon e o Amun egípcio; o Grand Grimoire reorganiza Aamon sob Satanachia.

Na sexta camada, apresentamos a interpretação autoral do Templo: Amon como símbolo de memória relacional, compreensão do conflito e reconciliação consciente.

Conclusão

Amon demonstra por que os 72 espíritos não devem ser estudados apenas através de tabelas modernas.

Uma pequena ficha poderia dizer:

“Amon. Nº 7. Marquês. Quarenta legiões. Passado e futuro. Causa conflitos e reconcilia pessoas.”

Mas essa ficha esconderia quase toda a história.

Amon já aparece em Weyer como nº 5.

Seu nome também aparece como Aamon.

Seu lobo, sua cauda de serpente, o fogo, os dentes e a ave noturna possuem uma história textual própria.

A ave torna-se corvo.

Depois coruja.

Seu papel relacional passa de favor e reconciliação em Weyer para amor e reconciliação no Sloane 3825 e para feuds e reconciliação na influente edição Mathers/Crowley.

Séculos depois da primeira documentação demonológica conhecida, Collin de Plancy associa explicitamente Amon ao antigo Amun do Egito.

Esse Amun histórico, porém, pertence a outro mundo religioso: Tebas, Karnak, o Reino Novo, a ideia do “Oculto”, a realeza divina e posteriormente Amun-Re.

Portanto, o estudo sério não precisa escolher entre duas simplificações.

Não precisamos dizer:

“Amon não possui absolutamente nenhuma relação possível com Amun.”

Nem:

“Amon é comprovadamente Amun demonizado e tudo sobre eles é a mesma tradição.”

Podemos dizer exatamente aquilo que a evidência permite:

existe uma proximidade nominal antiga dentro da recepção europeia, existe uma identificação explícita no século XIX, mas a genealogia completa entre a divindade egípcia e o Marquês de Weyer permanece insuficientemente demonstrada.

Essa é uma resposta mais forte porque consegue sobreviver à investigação.

Dentro do Templo de Lúcifer, também não precisamos transformar Amon em simples “espírito do amor” ou “Daemon das brigas”.

Sua tradição oferece uma questão muito mais interessante.

Passado.

Futuro.

Conflito.

Favor.

Reconciliação.

Tudo isso gira em torno das relações humanas e daquilo que fazemos com a memória delas.

Uma disputa raramente começa no momento em que alguém levanta a voz.

Ela possui história.

E uma reconciliação raramente se sustenta apenas porque duas pessoas decidiram parar de discutir.

Ela precisa possuir futuro.

Nesse sentido, a interpretação contemporânea de Amon pode ser resumida assim:

compreenda o que aconteceu, reconheça o que mantém o conflito e somente então decida se existe algo que realmente pode ser reconstruído.

Não é apagar o passado.

É utilizar conhecimento do passado para impedir que ele determine automaticamente o futuro.

Essa leitura é nossa.

O lobo, a serpente, as chamas, o conhecimento temporal, a reconciliação e as quarenta legiões pertencem às fontes que recebemos.

Manter essa diferença é justamente aquilo que permite que história e espiritualidade coexistam sem que uma precise falsificar a outra.

Leituras relacionadas

A página deve apontar para Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia, que funciona como hub de toda a biblioteca.

Também vale ligar para Valefor: história, origem e tradição do 6º espírito da Ars Goetia e, quando publicado, para Barbatos: história, origem e tradição do 8º espírito da Ars Goetia.

Eu acrescentaria ainda um link para Lucifuge Rofocale e Lúcifer: qual é a relação entre essas entidades?, porque o estudo do Grand Grimoire ajuda o leitor a entender por que uma mesma figura pode ocupar hierarquias diferentes conforme a fonte.

Referências e leituras para aprofundamento

WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Amon/Aamon aparece como nº 5, Grande e Poderoso Marquês, em forma de lobo com cauda serpentina e fogo; posteriormente assume forma humana híbrida, conhece passado e futuro, concilia favor entre amigos e inimigos e governa quarenta legiões.

SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Preserva Amon/Aamon, sua iconografia e o eixo de favor e reconciliação, sendo importante etapa intermediária entre Weyer e a tradição do Lemegeton.

PETERSON, Joseph H. (ed.). The Lesser Key of Solomon — Lemegeton Clavicula Salomonis. Fundamental para Amon nº 7, variantes manuscritas, leitura “love” do Sloane 3825, variante “feuds” da edição Crowley e o acréscimo do Harley 6483.

MATHERS, S. L. MacGregor; CROWLEY, Aleister. The Book of the Goetia of Solomon the King. 1904. Edição de enorme influência que popularizou a formulação segundo a qual Amon provoca conflitos e posteriormente os reconcilia.

COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed., 1863. Preserva o perfil demonológico de Amon/Aamon, modifica a ave para coruja e estabelece explicitamente uma associação com o antigo Amon/Amoun egípcio.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Registros e materiais sobre Amun. Documentam Amun como importante divindade tebana, posteriormente rei dos deuses, associada a Karnak e à forma Amun-Re; o nome é tradicionalmente interpretado como “o Oculto”.

THE BRITISH MUSEUM. Materiais educativos sobre Amun e Amun-Re. Úteis para distinguir iconografia e história religiosa egípcia das descrições demonológicas muito posteriores.

LE GRAND GRIMOIRE. Na hierarquia dessa tradição, Aamon aparece entre os espíritos subordinados a Satanachia, mostrando novamente que diferentes grimórios reorganizam as mesmas figuras.

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Author

Emrys

Emrys é autor, editor e pesquisador responsável pelo Templo de Lúcifer. Seu trabalho concentra-se em Luciferianismo, história das religiões, demonologia, simbolismo, ocultismo e esoterismo, com ênfase na análise e contextualização de fontes. Conheça o autor e a metodologia editorial →

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