Valefor: história, origem e tradição do 6º espírito da Ars Goetia

Valefor: história, origem e tradição do 6º espírito da Ars Goetia
Valefor ocupa a sexta posição na Ars Goetia e apresenta uma das descrições mais paradoxais de todo o catálogo dos 72 espíritos. Ele é chamado de poderoso Duque e descrito como um bom familiar, mas a mesma entrada imediatamente adverte que tenta aqueles com quem mantém familiaridade a roubar.
É difícil encontrar exemplo melhor para demonstrar por que a demonologia histórica não deve ser reduzida a uma tabela de “poderes”.
Valefor não é simplesmente descrito como útil.
Também não é simplesmente descrito como hostil.
O texto constrói uma relação de proximidade que contém risco.
Essa tensão já existia antes da Ars Goetia. Johann Weyer registra Valefar — também chamado Malaphar — na Pseudomonarchia Daemonum, mas em posição muito diferente: nº 14, não nº 6. Ali, Valefar aparece como forte Duque em forma leonina e estabelece familiaridade com determinadas pessoas até conduzi-las à forca. A tradução inglesa de Reginald Scot mantém essencialmente essa advertência. (esotericarchives.com)
Quando chegamos à tradição manuscrita do Lemegeton, encontramos outra formulação. Valefor torna-se nº 6, continua Duque, passa a ser explicitamente chamado de bom familiar, mas tenta aqueles que lhe são próximos a roubar. Governa dez legiões.
Até sua aparência muda conforme a fonte consultada.
Weyer fala em um leão com cabeça de ladrão.
O manuscrito Sloane 3825, utilizado por Joseph H. Peterson como principal testemunho de sua edição crítica, apresenta um leão com cabeça humana carrancuda ou ameaçadora.
Já a famosa edição de S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley, publicada em 1904 e responsável por enorme parte da recepção moderna da Goétia, apresenta Valefor como leão com cabeça de asno, berrando. (esotericarchives.com) (en.wikisource.org)
Portanto, antes de perguntar “qual é a verdadeira aparência de Valefor?”, precisamos compreender que a própria tradição textual preserva variantes.
Esse é precisamente o tipo de problema que transforma Valefor numa figura importante para nossa biblioteca.
Valefor antes da Ars Goetia
Valefor está claramente documentado antes do Lemegeton.
Na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, aparece sob a forma Valefar, acompanhada pelo nome alternativo Malaphar.
É a entrada nº 14 na organização de Weyer.
Isso significa que, assim como aconteceu com Gamigin e outros espíritos, sua posição foi drasticamente alterada durante a formação da lista goética posterior.
Na comparação textual de Joseph H. Peterson, Valefar nº 14 em Weyer corresponde diretamente ao Valefor nº 6 da Ars Goetia. (esotericarchives.com)
A reorganização é significativa.
Bael permaneceu nº 1.
Agares permaneceu nº 2.
Vassago foi inserido como nº 3.
Gamigin foi deslocado de uma posição muito posterior para nº 4.
Marbas passou de nº 3 em Weyer para nº 5.
Valefar, originalmente nº 14 na lista de Weyer, é então trazido para a sexta posição.
Esse processo demonstra novamente que a numeração dos 72 é uma característica editorial da Ars Goetia, não uma sequência metafísica imutável.
Por isso, qualquer numerologia construída sobre o número seis precisa reconhecer que Valefor nem sempre ocupou essa posição.
O que Weyer realmente diz sobre Valefar
A entrada latina de Weyer é extremamente curta.
Valefar, também chamado Malaphar, é um forte Duque.
Surge na forma de um leão com capite latronis.
Cria familiaridade com aqueles que lhe pertencem até levá-los à forca.
Governa dez legiões.
Esse é praticamente todo o perfil.
Não encontramos nessa entrada histórica:
medicina oculta;
cura de doenças;
transformação de homens em animais;
ensino de técnicas de furto;
astrologia;
Tarô;
Júpiter;
Vênus;
estanho;
cobre;
velas;
plantas;
ou uma longa teologia psicológica.
Essas características foram acrescentadas por tradições posteriores ou por compilações contemporâneas.
O núcleo de Weyer é muito mais austero:
Duque, leão, cabeça de ladrão, familiaridade perigosa e dez legiões.
O problema de “capite latronis”
Essa pequena expressão latina é uma das partes mais interessantes da história textual de Valefor.
Weyer escreve capite latronis.
Reginald Scot traduz a expressão como “cabeça de um ladrão”.
À primeira vista, parece simples.
Mas Peterson chama atenção para uma ambiguidade linguística: a forma latina relacionada a latro pode aproximar-se tanto do campo de “ladrão” quanto de uma ideia relacionada a ladrar ou produzir som ameaçador em determinadas leituras textuais.
A Ars Goetia preservada no Sloane 3825 não escreve simplesmente “cabeça de ladrão”. Ela apresenta a figura como leão com cabeça humana lowring — isto é, carrancuda, ameaçadora ou furiosa. Peterson observa precisamente essa divergência e a considera uma das passagens curiosas na relação entre Weyer, Scot e a Goetia. (jamesparsonslakebucket.s3-us-west-1.amazonaws.com)
Portanto, a tradição não nos oferece apenas uma imagem.
Oferece uma pequena história de interpretação textual.
Cabeça de ladrão
Na versão de Weyer transmitida por Scot, a imagem possui uma coerência evidente com o restante da entrada.
Valefar conduz aqueles com quem estabelece familiaridade a um destino associado ao crime e à forca.
Um leão com cabeça de ladrão combina visualmente com essa narrativa.
Entretanto, não devemos transformar essa coerência numa prova de simbolismo intencional elaborado.
Weyer não oferece uma explicação como:
“a cabeça de ladrão simboliza astúcia”.
Ele simplesmente descreve a aparência.
Toda interpretação posterior precisa permanecer identificada como interpretação.
Cabeça humana carrancuda
O Sloane 3825 preserva outra forma.
Valefor aparece como leão com cabeça humana ameaçadora ou carrancuda.
Essa é uma informação especialmente importante porque grande parte dos conteúdos online afirma simplesmente que a Ars Goetia descreve uma cabeça de asno.
Isso depende da edição utilizada.
Na edição crítica de Peterson baseada principalmente no Sloane 3825, não é essa a leitura.
É um leão com cabeça humana.
A expressão lowring indica aspecto severo, furioso ou ameaçador. (esotericarchives.com)
Isso não significa que Mathers “inventou Valefor”.
Significa que existem diferentes testemunhos e decisões editoriais.
E a famosa cabeça de asno?
A imagem do leão com cabeça de asno, berrando tornou-se provavelmente a representação textual mais difundida de Valefor durante os séculos XX e XXI.
Sua enorme popularidade está ligada à edição Mathers/Crowley de 1904.
Ali encontramos explicitamente o sexto espírito como leão com cabeça de asno e voz semelhante a um bramido. (en.wikisource.org)
Essa edição foi reproduzida incontáveis vezes.
Sites copiaram.
Livros repetiram.
Tabelas resumiram.
Jogos e artistas utilizaram a imagem.
Com o tempo, a cabeça de asno começou a parecer a descrição única e original.
Não é.
A formulação é historicamente importante, mas pertence a determinada etapa da transmissão editorial.
Portanto, nesta página utilizaremos uma formulação mais precisa:
A aparência de Valefor varia entre as fontes: Weyer apresenta um leão com cabeça de ladrão; o Sloane 3825, um leão com cabeça humana ameaçadora; e Mathers/Crowley popularizaram o leão com cabeça de asno, berrando.
Essa frase preserva a história em vez de escolher arbitrariamente uma versão e apagar as outras.
O asno possui significado simbólico?
Pode receber interpretações modernas.
Teimosia.
Obstinação.
Impulso.
Humilhação.
Contraste entre força leonina e comportamento considerado tolo.
Mas nenhuma dessas explicações deve ser atribuída automaticamente ao compilador original.
A própria cabeça de asno nem sequer é a leitura mais antiga que possuímos.
Portanto, construir toda uma psicologia histórica de Valefor a partir desse detalhe seria particularmente arriscado.
Podemos utilizar o contraste leão–asno numa leitura contemporânea.
Precisamos apenas dizer que estamos fazendo isso.
Valefor é Duque
O título é bastante estável.
Weyer apresenta Valefar como Dux fortis, forte Duque.
A Ars Goetia mantém Valefor como poderoso Duque.
Mathers/Crowley também.
Portanto, o título ducal pertence ao núcleo histórico da figura. (esotericarchives.com)
Como nos demais espíritos, isso não significa que possamos transformar o sistema nobiliárquico em escala matemática absoluta de força.
Agares, Focalor, Astaroth, Amdusias e muitos outros recebem igualmente o título de Duque.
Cada um possui funções diferentes.
Dez legiões
Também existe forte continuidade na quantidade.
Weyer atribui dez legiões.
A Goetia preserva dez.
Mathers/Crowley preservam dez.
Essa estabilidade torna o número parte segura da descrição histórica.
Mas dez legiões não significa que Valefor seja necessariamente “mais fraco” que um espírito com quarenta ou sessenta.
A fonte não apresenta uma fórmula de poder baseada na quantidade de legiões.
Legiões fazem parte da linguagem hierárquica.
Não de uma unidade mensurável de potência sobrenatural.
O que é um familiar?
Esse conceito precisa de atenção porque é essencial para compreender Valefor.
Na linguagem popular contemporânea, “familiar” pode lembrar um animal mágico de uma bruxa em obras de fantasia.
Historicamente, o tema é mais complexo.
Na Grã-Bretanha moderna inicial, relatos de bruxaria, magia popular e julgamentos frequentemente descreviam espíritos familiares que estabeleciam relações prolongadas com praticantes, podiam aparecer em forma humana ou animal e oferecer auxílio mágico. Historiadores como Emma Wilby e Helen Parish mostram que o familiar estava no cruzamento entre crença popular, magia, demonologia erudita e narrativas de bruxaria. (jstor.org) (mdpi.com)
Portanto, quando a Goetia chama Valefor de familiar, estamos diante de um conceito histórico específico de relação entre espírito e operador.
Não simplesmente de “amigo espiritual”.
“Bom familiar” significa bom moralmente?
Não necessariamente.
Esse é provavelmente o erro interpretativo mais comum da entrada.
A Goetia chama Valefor de bom familiar e, imediatamente depois, afirma que tenta aqueles com quem se relaciona a roubar. (esotericarchives.com)
A própria frase impede uma leitura moralmente simplista.
“Bom” aqui pode ser entendido de maneira funcional.
Eficiente como familiar.
Útil dentro da relação.
Apropriado para determinada função.
Não necessariamente moralmente benevolente.
Transformar a expressão em:
“Valefor é um Daemon bondoso”
não corresponde à tensão do próprio texto.
A versão de Weyer é ainda mais severa
Weyer nem sequer utiliza a formulação moderna “bom familiar”.
Sua entrada diz que Valefar produz ou estabelece familiaridade com os seus até que sejam levados à forca. (esotericarchives.com)
Scot transmite essencialmente essa mesma ideia.
Essa versão é significativamente mais sombria.
A familiaridade não é apenas acompanhada de risco.
Parece conduzir a um desfecho destrutivo.
A Goetia posterior reorganiza a ideia:
Valefor é um bom familiar, mas tenta seus associados a roubar.
É uma diferença sutil, mas importante.
Da forca à tentação
Podemos observar uma transformação narrativa.
Em Weyer, temos:
familiaridade → forca.
Na Goetia:
bom familiar → tentação ao roubo.
A segunda formulação explica melhor o mecanismo que levaria ao primeiro resultado.
Uma pessoa é conduzida ao roubo e, dentro da ordem jurídica do período, o roubo podia terminar em execução.
Não podemos demonstrar que o compilador conscientemente realizou essa interpretação causal.
Mas a continuidade temática é evidente.
Valefor “protege ladrões”?
Essa ideia aparece com frequência em textos modernos.
A fonte histórica é mais complicada.
Weyer não apresenta Valefar simplesmente protegendo ladrões.
Pelo contrário, sua familiaridade acaba na forca.
A Goetia tampouco afirma que protege criminosos da captura.
Diz que é bom familiar, mas tenta ao roubo.
Portanto, expressões como:
“patrono dos ladrões”;
“protetor dos criminosos”;
“Daemon que garante sucesso em furtos”;
ultrapassam aquilo que as principais fontes permitem afirmar.
Além de historicamente imprecisas, essas formulações empobrecem justamente a ambiguidade mais interessante da figura.
O roubo é literal na fonte
Também precisamos evitar o erro contrário.
Uma interpretação contemporânea pode utilizar roubo como metáfora.
Mas não devemos fingir que o texto antigo já estava falando apenas de:
roubar oportunidades;
apropriar-se de conhecimento;
tomar poder interior;
ou recuperar partes reprimidas da personalidade.
A linguagem histórica refere-se a roubo de maneira muito mais direta.
O contexto de Weyer, Scot e da Goetia não exige uma leitura exclusivamente psicológica.
Portanto:
historicamente, a associação é com roubo.
Contemporaneamente, podemos construir metáforas sobre desejo, apropriação e limites.
Manter essa ordem preserva integridade.
O artigo não deve romantizar o roubo
Uma leitura luciferiana responsável não precisa transformar transgressão em virtude automática.
Autonomia não significa autorização para violar propriedade, confiança ou direitos alheios.
A tradição de Valefor pode ser intelectualmente interessante justamente porque mostra uma forma de relação em que vantagem imediata e consequência futura entram em conflito.
Isso fornece material filosófico muito mais profundo que a caricatura de um “espírito ladrão”.
Valefor e a tentação
A palavra “tenta” é central na entrada goética.
Valefor não é descrito simplesmente como alguém que rouba.
Ele tenta aqueles com quem possui familiaridade.
Isso desloca a atenção da ação externa para a influência exercida sobre o associado.
Historicamente, essa influência é apresentada dentro de uma cosmologia demonológica.
Numa interpretação contemporânea, podemos utilizar esse motivo para pensar como proximidade modifica julgamento.
Pessoas raramente fazem escolhas apenas através de reflexão abstrata.
Grupos.
Amigos.
Autoridades.
Ambientes.
Incentivos.
Oportunidades.
Tudo isso influencia comportamento.
Familiaridade reduz vigilância
Existe uma intuição humana muito forte na narrativa de Valefor.
Quando algo nos parece familiar, nossa vigilância frequentemente diminui.
Confiamos mais.
Questionamos menos.
Aceitamos atalhos que rejeitaríamos de um estranho.
Isso não é uma doutrina do grimório.
É uma leitura contemporânea baseada no paradoxo da entrada.
Valefor não chega descrito simplesmente como inimigo.
É justamente a familiaridade que torna o risco interessante.
Essa ideia possui aplicação muito ampla.
Um golpe cometido por alguém desconhecido pode ser fácil de reconhecer.
Manipulação vinda de alguém em quem confiamos é muito mais difícil.
“Bom para mim” não significa “bom para mim a longo prazo”
Outra maneira de expressar a tensão é distinguir benefício imediato de consequência.
Uma pessoa pode oferecer algo útil agora.
Ainda assim, a relação pode empurrar gradualmente para decisões ruins.
Isso vale para:
amizades;
sociedades;
grupos;
comunidades;
hábitos;
modelos de negócio;
e até crenças.
Dentro da leitura contemporânea do Templo, Valefor pode simbolizar precisamente esse problema:
uma relação não deve ser avaliada apenas pelo benefício que entrega, mas também pelo comportamento que começa a normalizar.
Essa interpretação deriva do contraste entre “bom familiar” e “tentação ao roubo”.
A forca como consequência
Na entrada de Weyer, o fim é explícito.
A familiaridade continua até a forca.
Não precisamos transformar essa imagem num destino sobrenatural.
Historicamente, ela provavelmente fazia sentido dentro de um mundo em que determinadas formas de furto podiam receber punições extremamente severas.
Simbolicamente, a forca pode representar a consequência que chega depois do benefício imediato.
A pessoa recebeu ajuda.
Obteve vantagem.
Aceitou transgressões sucessivas.
Até que o preço apareceu.
Essa é uma leitura moderna, mas nasce de uma característica real da fonte.
Desejo e atalho
Esse talvez seja o eixo filosófico mais útil para a interpretação contemporânea.
Todo objetivo cria a possibilidade de atalho.
Dinheiro sem trabalho.
Prestígio sem competência.
Autoridade sem responsabilidade.
Conhecimento sem estudo.
Intimidade sem confiança construída.
Resultado sem processo.
Valefor pode simbolizar a sedução desse atalho.
Não porque o grimório formule uma filosofia sobre meritocracia ou desenvolvimento pessoal.
Mas porque a relação entre benefício, roubo e punição fornece matéria para essa reflexão.
Nem tudo precisa ser “conquistado” para ser legítimo
Também é importante não exagerar a metáfora.
A vida não é uma competição em que todo recurso precisa ser “merecido” por sofrimento.
Pessoas recebem ajuda.
Heranças.
Bolsas.
Oportunidades.
Presentes.
Cooperação.
Tudo isso pode ser legítimo.
A questão não é romantizar dificuldade.
É distinguir receber legitimamente de apropriar-se violando direitos e limites.
Essa diferença torna a interpretação mais ética e menos moralista.
Valefor e confiança
O tema do familiar também permite refletir sobre confiança.
Confiança saudável não é ausência de critérios.
Podemos confiar e continuar verificando questões importantes.
Podemos amar alguém e ainda manter limites.
Podemos participar de uma comunidade sem entregar controle sobre todas as decisões.
Podemos respeitar uma liderança e ainda perguntar por fontes.
Essa leitura conversa diretamente com outros artigos institucionais do Templo sobre manipulação espiritual e comunidades confiáveis.
Valefor fornece uma versão demonológica antiga de um problema extremamente atual:
o que acontece quando proximidade começa a substituir julgamento?
O que as fontes não atribuem a Valefor
Essa seção é importante porque o artigo anterior incorporava várias características modernas.
As entradas centrais de Weyer e da Ars Goetia não apresentam Valefor como especialista em:
medicina;
cura;
engenharia;
destreza manual;
inteligência técnica;
transformação de homens em animais;
necromancia;
recuperação de objetos;
ou ensino sistemático da arte do furto.
Algumas dessas características aparecem em páginas demonolátricas contemporâneas e compilações recentes. (templodelucifer.blog)
Não devem ser colocadas no mesmo nível histórico que:
Duque;
familiaridade;
roubo;
dez legiões.
Medicina oculta
Essa atribuição é particularmente problemática porque parece ter sido repetida por páginas modernas sem base clara nas entradas antigas.
Marbas possui associação histórica explícita com doença e cura.
Valefor, nas fontes centrais aqui estudadas, não.
Transportar funções de outros espíritos ou de sistemas contemporâneos para sua entrada cria um personagem composto que não corresponde à documentação.
Portanto, eu retiraria completamente de sua página histórica frases como:
“Valefor cura qualquer mal magicamente.”
Não há suporte suficiente para isso nas fontes clássicas fundamentais.
Transformação em animais
O mesmo vale para a alegação de transformar pessoas em animais.
Marbas possui capacidade de transformação na tradição.
Ose possui outra forma de transformação.
Valefor não recebe esse ofício nas pequenas entradas de Weyer ou da Goetia.
Se uma corrente moderna lhe atribui metamorfose, ela precisa ser citada como sistema contemporâneo.
Não como atributo goético original.
Valefor não precisa de dezenas de poderes modernos
Existe uma tendência em conteúdos esotéricos contemporâneos de ampliar cada espírito.
Um Daemon começa com dois atributos.
Depois passa a possuir quinze.
No fim, todos eles:
curam;
protegem;
ensinam magia;
dão dinheiro;
revelam futuro;
transformam;
aumentam inteligência;
fortalecem vontade.
Quando todos fazem tudo, a especificidade histórica desaparece.
Valefor é mais interessante justamente porque seu perfil é pequeno e estranho.
Familiaridade.
Tentação.
Roubo.
Consequência.
Isso já é suficiente.
O selo de Valefor
O Lemegeton associa um selo específico ao sexto espírito.
O próprio texto do Sloane 3825 acrescenta uma observação incomum sobre seu uso dentro da operação ritual quando existe familiaridade com Valefor. (esotericarchives.com)
Esse detalhe pertence ao sistema ritual do grimório.
Não precisamos reproduzir instruções operativas numa página histórica para reconhecer que o selo exerce uma função dentro da tradição.
Mais importante para nossa investigação é a cronologia.
Weyer já documenta Valefar no século XVI.
A série goética de selos aparece na tradição posterior do Lemegeton.
Portanto, mais uma vez:
o nome e o perfil textual são anteriores ao selo goético hoje popular.
O selo não é medieval ou antigo apenas porque parece arcano
Não existe base para afirmar que o selo de Valefor:
foi utilizado por civilizações antigas;
era símbolo de uma religião pagã;
pertencia a um culto pré-cristão;
ou tenha sido desenhado pelo rei Salomão histórico.
Ele pertence à tradição de magia salomônica documentada muito posteriormente.
Isso já é historicamente relevante.
Não precisamos ampliar artificialmente sua idade.
Valefar no Grand Grimoire
Valefar também aparece em uma hierarquia diferente, associada ao Grand Grimoire.
Nesse sistema, os dezoito espíritos inferiores são distribuídos sob seis grandes oficiais.
Valafar aparece no grupo comandado por Sargatanas, juntamente com Loray e Foray. (fr.wikisource.org)
Isso oferece uma comparação muito útil.
Na Ars Goetia, Valefor é poderoso Duque e nº 6.
No Grand Grimoire, integra outra estrutura hierárquica, subordinado a Sargatanas.
Novamente, não existe uma única burocracia infernal universal compartilhada de maneira idêntica por todos os grimórios.
Cada sistema organiza seus personagens conforme sua própria tradição.
Valefor é subordinado a Sargatanas?
Segundo essa estrutura específica do Grand Grimoire, sim.
Isso não significa que toda tradição sobre Valefor precise utilizar essa relação.
A Ars Goetia não organiza seus 72 da mesma maneira.
Portanto, uma frase profissional precisa sempre acrescentar a fonte:
“No sistema do Grand Grimoire, Valafar aparece subordinado a Sargatanas.”
Essa precisão evita misturar tradições diferentes.
Uma anomalia no Dictionnaire Infernal
O Dictionnaire Infernal de 1863 produz um problema especialmente interessante.
Collin de Plancy registra Valafar ou Malafar, mas a descrição é drasticamente diferente da tradição de Weyer e da Goetia.
Seu Valafar pode aparecer como anjo ou como criatura leonina com características de ganso e cauda de lebre. Conhece passado e futuro, concede inteligência e audácia e governa 36 legiões. (fr.wikisource.org)
Essas características entram em conflito com o perfil tradicional de Valefor.
E existe um detalhe ainda mais intrigante.
Elas correspondem muito de perto ao perfil que Weyer atribui a Ipes/Ipos: aparência angelical combinada com cabeça leonina, pés de ganso e cauda de lebre, conhecimento do passado e futuro, concessão de inteligência e audácia e 36 legiões. (esotericarchives.com)
Essa semelhança sugere uma possível confusão ou transferência de perfil na recepção de Collin de Plancy.
Sem documentação adicional, não precisamos afirmar exatamente como o erro ocorreu.
Mas também não devemos utilizar a entrada de 1863 como prova de que Valefor historicamente possuía todos esses atributos.
Ela deve ser tratada como uma anomalia importante na recepção textual.
Isso ensina algo maior sobre demonologia
Livros posteriores não apenas preservam tradição.
Também podem:
misturar;
simplificar;
corrigir;
errar;
reinterpretar;
ou atribuir a uma figura características de outra.
Por isso, uma obra ser antiga não significa estar automaticamente correta em relação a uma fonte anterior.
Collin de Plancy é historicamente valioso.
Mas continua precisando ser comparado com Weyer.
É exatamente dessa comparação que percebemos o problema.
Valefor e Ipos não são a mesma entidade
A semelhança entre a entrada de Valafar em Collin de Plancy e o perfil de Ipos não autoriza simplesmente fundir as duas figuras.
Weyer possui entradas distintas para Valefar e Ipes.
A Ars Goetia também possui Valefor nº 6 e Ipos nº 22.
Portanto, o mais provável é que estejamos diante de um problema de recepção ou transmissão na entrada de Collin de Plancy, não de uma identidade originalmente estabelecida entre os dois.
Essa distinção precisa permanecer clara.
A etimologia de Valefor
Não possuímos uma etimologia segura.
Isso é importante porque circulam explicações modernas que tentam derivar Valefor do latim valere, “ser forte”, ou construir Malaphar a partir de raízes árabes, hebraicas ou latinas.
Essas propostas geralmente não apresentam cadeia filológica suficiente.
A tradição preserva diferentes grafias:
Valefar;
Valefor;
Valafar;
Malaphar;
Malephar.
Peterson registra diretamente Valefar/Malaphar em Weyer, Malephar em Scot e Valefor/Valefar em diferentes testemunhos posteriores. (esotericarchives.com)
Quando o próprio nome varia dessa forma, qualquer etimologia precisa ser especialmente cuidadosa.
Portanto:
a origem precisa do nome Valefor permanece incerta.
Malaphar não significa automaticamente “portador do mal”
Dividir uma palavra desconhecida em partes familiares e produzir uma tradução convincente não constitui filologia.
Esse método cria numerosas falsas etimologias no ocultismo.
Se uma explicação realmente existir, precisará demonstrar:
a língua;
a forma mais antiga;
as transformações fonéticas;
os testemunhos intermediários;
e a coerência histórica.
Sem isso, uma tradução é apenas hipótese.
Valefor era uma divindade antiga?
Não existe atualmente documentação suficiente para afirmar isso.
Não possuímos uma cadeia histórica segura ligando Valefor a:
uma divindade mesopotâmica;
um deus egípcio;
uma figura grega;
uma entidade cananeia;
ou outro culto antigo específico.
A ausência de origem antiga conhecida não torna Valefor menos relevante.
Ele já possui uma história documentada na demonologia europeia moderna.
Não precisa ser artificialmente transformado em “deus pagão demonizado” para adquirir importância.
Valefor aparece na Bíblia?
Não.
O nome e o perfil de Valefor não aparecem nos textos bíblicos como entidade reconhecível dessa maneira.
A relação da Goetia com Salomão pertence à tradição pseudo-salomônica.
Isso não torna os 72 personagens bíblicos.
Valefor é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo.
Weyer e o Lemegeton pertencem a outros contextos religiosos e mágicos.
Uma corrente luciferiana moderna pode estudar Valefor, reinterpretá-lo ou desenvolver uma relação religiosa com ele.
Essa é uma recepção contemporânea.
O erro seria transformar essa recepção numa origem histórica.
Existe relação explícita entre Valefor e Lúcifer?
A entrada central de Weyer e a pequena entrada da Ars Goetia não desenvolvem uma relação individual particular entre Valefor e Lúcifer.
Portanto, frases como:
“Valefor testa o iniciado de Lúcifer”;
“Valefor é um aspecto sombrio da luz luciferiana”;
ou:
“Valefor é o guardião da cobiça na corrente de Lúcifer”
são construções teológicas contemporâneas se uma tradição as utiliza.
Elas podem fazer parte da filosofia do Templo.
Precisam apenas ser identificadas como nossas interpretações.
Valefor e o sistema de Thomas Rudd
Sistemas posteriores também relacionaram os espíritos da Goetia aos 72 nomes ou anjos do Shem HaMephorash.
Em reconstruções da tradição associada a Thomas Rudd, Valefor costuma ser relacionado a Lelahel/Jelahel, dependendo da transliteração e da edição moderna utilizada.
Essa correspondência pertence a uma camada posterior.
Não está na entrada de Weyer.
Também não integra o pequeno perfil básico de Valefor no Sloane 3825.
Portanto, não deve ser apresentada como relação universal ou original.
Correspondências astrológicas conflitantes
O artigo antigo apresentava um conjunto como:
Áries;
4 de Paus;
Júpiter;
estanho;
Fogo;
determinadas datas.
Esse conjunto não representa uma única tradição antiga.
Sistemas modernos diferentes oferecem correspondências diferentes.
Uma linha posterior influenciada pela Golden Dawn, por exemplo, associa Valefor ao terceiro decanato de Touro, a Vênus e ao 7 de Ouros/Discos, enquanto sistemas derivados de outras combinações Shem–Goétia podem colocá-lo em graus de Áries e associá-lo ao 4 de Paus. (goeticimpressions.com)
A discordância é extremamente útil.
Ela demonstra que não estamos diante de um atributo original único.
Estamos diante de sistemas de correspondência posteriores.
Não existe um “planeta verdadeiro” de Valefor demonstrado pela entrada antiga
Por isso, eu retiraria da página-base uma tabela que simplesmente declare:
Planeta: Júpiter.
ou:
Planeta: Vênus.
Uma página histórica deveria escrever:
“Determinados sistemas modernos atribuem diferentes correspondências planetárias a Valefor; essas associações não fazem parte da descrição fundamental de Weyer ou da Ars Goetia.”
Depois, em outro estudo, podemos comparar as escolas.
Essa metodologia preserva a história.
A gnose contemporânea
Praticantes modernos relatam diversas experiências com Valefor.
Alguns descrevem forma humana.
Outros grandes asas.
Outros cores específicas.
Outros características semelhantes a Lucifuge.
Essas experiências podem possuir valor religioso para quem as vivencia.
Mas precisam ser claramente identificadas como:
gnose pessoal;
experiência visionária;
tradição demonolátrica moderna;
ou interpretação artística.
Elas não alteram automaticamente Weyer.
Também não devem ser utilizadas para decidir qual das descrições históricas é “a verdadeira aparência espiritual”.
Uma experiência não resolve uma variante manuscrita
Esse princípio parece simples, mas é importante.
Se Weyer diz cabeça de ladrão e Mathers diz cabeça de asno, uma experiência contemporânea com uma entidade que aparece como homem alado não resolve a questão filológica.
São categorias diferentes.
A crítica textual pergunta:
o que os manuscritos e edições dizem?
A experiência religiosa pergunta:
o que o praticante acredita ter vivenciado?
Ambas podem ser estudadas.
Não substituem uma à outra.
A interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer
Depois de estabelecer as fontes, podemos desenvolver nossa leitura.
Para Valefor, o elemento mais importante não é o furto isoladamente.
É a combinação:
familiaridade + benefício + tentação + consequência.
Essa sequência possui enorme potencial filosófico.
Uma relação pode oferecer benefício e ainda assim degradar nossos critérios.
Uma vantagem pode ser real e ainda possuir custo oculto.
Uma oportunidade pode parecer excelente e ainda exigir uma transgressão que não estamos dispostos a assumir.
Uma pessoa pode ser leal a nós e ainda incentivar comportamentos destrutivos.
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Valefor pode representar exatamente esse problema:
a capacidade de perceber quando aquilo que nos beneficia também começa a nos corromper.
Essa leitura é nossa.
Não é uma doutrina explicitamente escrita por Weyer.
Valefor e o teste da familiaridade
Quanto mais próxima uma relação, mais difícil pode tornar-se analisá-la objetivamente.
Isso vale para relações pessoais.
Grupos.
Comunidades.
Empresas.
Ideologias.
Hábitos.
E até para nossa própria espiritualidade.
Podemos começar uma prática porque ela ajuda.
Com o tempo, ela passa a justificar comportamentos que antes consideraríamos inaceitáveis.
Nesse ponto, a familiaridade tornou-se uma blindagem contra crítica.
Valefor fornece uma metáfora especialmente poderosa para essa transição.
A ajuda que cobra um preço
O fato de ser descrito como bom familiar impede que reduzamos a narrativa a:
“perigo evidente que deve ser evitado.”
O risco mais interessante não é aquele que se apresenta claramente como risco.
É aquilo que funciona.
Ajuda.
Entrega vantagem.
Cria confiança.
E somente depois altera o limite daquilo que estamos dispostos a fazer.
Essa é uma dinâmica humana profundamente real.
Por isso, o simbolismo contemporâneo de Valefor pode ser desenvolvido sem afirmar nada sobrenatural.
Atalho e competência
Outra leitura importante envolve a diferença entre vantagem adquirida e capacidade construída.
Uma pessoa pode conseguir acesso a algo sem possuir competência para sustentá-lo.
Cargo.
Dinheiro.
Reputação.
Informação.
Autoridade.
O problema não está necessariamente em receber oportunidade.
Está em tentar substituir permanentemente desenvolvimento por apropriação.
Dentro do Templo, Valefor pode simbolizar a pergunta:
estou construindo capacidade ou apenas procurando obter o resultado sem construir aquilo que o sustenta?
A luz luciferiana não transforma transgressão em virtude
Se utilizamos Lúcifer como símbolo de conhecimento, autonomia e consciência, então uma interpretação de Valefor não deveria simplesmente glorificar a violação de limites.
Autonomia exige responsabilidade.
A pessoa livre continua vivendo num mundo composto por outras pessoas igualmente dotadas de interesses, direitos e autonomia.
Tomar aquilo que pertence ao outro sem consentimento não é automaticamente “ato luciferiano de rebeldia”.
Às vezes é apenas roubo.
Uma filosofia madura precisa conseguir distinguir transgressão crítica de comportamento predatório.
O proibido nem sempre é libertador
Existe uma tendência em certas formas superficiais de ocultismo de romantizar tudo aquilo que é proibido.
Se é proibido, deve ser poderoso.
Se é transgressor, deve libertar.
Se desafia norma, deve ser iniciático.
Essa conclusão não segue.
Algumas normas são injustas e merecem ser desafiadas.
Outras protegem pessoas contra exploração, violência e fraude.
O discernimento está justamente em compreender a diferença.
Valefor oferece um bom símbolo para perguntar:
estou quebrando uma regra porque ela é injusta ou porque simplesmente desejo aquilo que ela impede que eu tome?
Valefor e ética
Esse aspecto também dialoga diretamente com nossa página sobre ética no Luciferianismo.
Uma ética de autonomia não precisa depender de obediência cega.
Mas também não pode reduzir-se à ideia de que toda escolha individual é legítima simplesmente porque foi escolhida.
Consequências importam.
Consentimento importa.
Responsabilidade importa.
Reciprocidade importa.
A própria tradição de Valefor contém uma narrativa simples:
há uma vantagem;
há uma tentação;
há uma transgressão;
e existe uma consequência.
Isso é material filosófico muito mais útil que transformá-lo em patrono romântico de ladrões.
Valefor e autossabotagem
Podemos também interpretar a forca de Weyer como imagem de autossabotagem.
Algumas escolhas oferecem prazer ou vantagem imediata enquanto aumentam progressivamente a probabilidade de desastre.
A pessoa sabe.
Mas continua.
O hábito passa a justificar a próxima decisão.
A relação passa a proteger o comportamento.
Até que as consequências acumuladas aparecem.
Isso não significa que Weyer estivesse escrevendo psicologia.
É uma aplicação contemporânea do motivo narrativo.
O risco de terceirizar responsabilidade
Outra questão fundamental é a frase:
“Valefor me tentou.”
Dentro da cosmologia religiosa, alguém pode compreender influência espiritual literalmente.
Mas uma filosofia de responsabilidade não deveria utilizar essa crença para eliminar agência.
“Uma entidade mandou.”
“O oráculo disse.”
“Meu guia pediu.”
Nenhuma dessas frases deveria funcionar automaticamente como licença moral para violar terceiros.
Mesmo dentro de uma espiritualidade que reconhece entidades, decisões humanas continuam exigindo responsabilidade humana.
Um familiar não deve tornar-se dono da vontade
Essa é provavelmente a formulação contemporânea mais forte para a figura.
Uma relação espiritual pode ser importante.
Um mestre pode ser importante.
Uma comunidade pode ser importante.
Um símbolo pode ser importante.
Mas nenhum deles deveria substituir completamente capacidade de escolha e julgamento.
Valefor pode representar justamente o perigo existente quando a relação que deveria auxiliar começa a governar decisões.
Dez legiões e nenhuma escala de poder
A pequena quantidade de legiões em comparação a outros espíritos também não deve ser utilizada para tratá-lo como “fraco”.
A tradição chama Valefor de poderoso Duque.
Isso basta para mostrar que número de legiões e linguagem de dignidade não podem ser reduzidos a uma única escala.
Da mesma maneira, ele não precisa receber dezenas de atribuições adicionais para parecer importante.
A importância de uma figura não depende da quantidade de poderes que conseguimos colocar numa tabela.
O que sabemos com razoável segurança
Valefor está documentado antes da Ars Goetia como Valefar alias Malaphar na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.
Em Weyer ocupa a posição nº 14.
Na Ars Goetia, passa à posição nº 6.
Recebe o título de poderoso Duque.
Governa dez legiões.
Está associado a familiaridade e roubo.
Weyer descreve sua familiaridade como conduzindo os associados à forca.
A Goetia o descreve como bom familiar que tenta seus associados a roubar.
Sua aparência varia conforme a tradição: cabeça de ladrão em Weyer/Scot, cabeça humana ameaçadora no Sloane 3825 e cabeça de asno berrando na edição Mathers/Crowley de 1904. (esotericarchives.com) (esotericarchives.com)
No Grand Grimoire, Valafar aparece em uma estrutura diferente sob Sargatanas. (fr.wikisource.org)
Esse é o núcleo histórico mais sólido.
O que permanece incerto
Não possuímos uma etimologia segura para Valefor, Valefar ou Malaphar.
Não sabemos exatamente como surgiu cada variante de sua aparência.
Não podemos demonstrar que a cabeça de asno represente uma simbologia específica pretendida pela tradição mais antiga.
Não existe evidência suficiente para identificá-lo como antiga divindade pagã.
Não sabemos o significado original de cada traço de seu selo.
E correspondências com planeta, signo, Tarô, metal, cor, planta ou anjo pertencem a sistemas posteriores que precisam ser identificados individualmente.
Também não devemos atribuir a Valefor medicina, cura, metamorfose ou inúmeras outras funções contemporâneas como se estivessem presentes em Weyer.
Perguntas frequentes sobre Valefor
Quem é Valefor?
Valefor é o sexto espírito da Ars Goetia, apresentado como poderoso Duque, bom familiar e figura associada à tentação ao roubo.
Valefor aparece antes da Ars Goetia?
Sim. Johann Weyer registra Valefar, também chamado Malaphar, na Pseudomonarchia Daemonum.
Qual é sua posição em Weyer?
Nº 14.
Qual é sua posição na Ars Goetia?
Nº 6.
Qual é seu título?
Duque.
Quantas legiões governa?
Dez.
Valefor e Valefar são a mesma figura?
Sim, são variantes textuais do mesmo personagem dentro da tradição que estamos estudando.
E Malaphar ou Malephar?
São também variantes históricas. Weyer utiliza Malaphar; Scot registra Malephar.
Qual é a origem do nome Valefor?
Permanece incerta. Explicações derivadas diretamente de valere ou outras raízes precisam ser tratadas como hipóteses, não como etimologia estabelecida.
Como Valefor aparece?
Depende da fonte. Weyer apresenta um leão com cabeça de ladrão; o Sloane 3825 apresenta um leão com cabeça humana carrancuda; Mathers/Crowley popularizam um leão com cabeça de asno, berrando.
Qual dessas aparências é a “verdadeira”?
O método histórico não pode decidir uma aparência metafísica objetiva. Pode apenas mostrar aquilo que cada fonte preserva.
A cabeça de asno aparece em Weyer?
Não. Ela é especialmente conhecida através da edição Mathers/Crowley de 1904.
Valefor é um bom familiar?
A Ars Goetia utiliza essa expressão, mas imediatamente afirma que ele tenta seus associados a roubar. Portanto, “bom” não deve ser traduzido automaticamente como moralmente benevolente.
Weyer também o chama de bom familiar?
Não da mesma maneira. Weyer enfatiza que estabelece familiaridade até conduzir seus associados à forca.
Valefor ensina roubo?
As fontes principais relacionam-no ao roubo e à tentação. Elas não fornecem um manual de técnicas de furto, nem este artigo interpreta a tradição como autorização para atividade ilegal.
Valefor protege ladrões?
As principais fontes não sustentam de forma simples essa afirmação. Weyer, inclusive, liga sua familiaridade à forca.
Valefor cura doenças?
Esse atributo não faz parte das entradas centrais de Weyer ou da Ars Goetia. Ele aparece em algumas compilações modernas e não deve ser apresentado como ofício histórico básico.
Valefor transforma pessoas em animais?
Também não é uma atribuição central das fontes históricas fundamentais.
Valefor aparece no Dictionnaire Infernal?
Sim, mas a entrada de 1863 apresenta um perfil bastante diferente, muito próximo daquele que Weyer atribui a Ipos. Por isso, deve ser tratada como uma divergência ou possível confusão na recepção posterior, não como núcleo seguro da tradição de Valefor. (fr.wikisource.org)
Valefor aparece no Grand Grimoire?
Sim. Na estrutura reproduzida por Collin de Plancy a partir do Grand Grimoire, Valafar aparece subordinado a Sargatanas junto de Loray e Foray.
Valefor aparece na Bíblia?
Não como a entidade demonológica descrita por Weyer e pelo Lemegeton.
Valefor era um deus antigo?
Não existe documentação suficiente para identificá-lo com segurança como uma divindade antiga específica.
Qual é o planeta de Valefor?
A entrada histórica fundamental não fornece uma correspondência planetária única. Sistemas posteriores discordam entre Vênus, Júpiter e outras organizações.
Qual é o signo de Valefor?
Não há signo zodiacal na pequena entrada de Weyer. Correspondências modernas também divergem entre sistemas.
Qual carta do Tarô corresponde a Valefor?
Não existe carta de Tarô na descrição original. Sistemas posteriores atribuem cartas diferentes conforme o método utilizado.
Qual anjo corresponde a Valefor?
Sistemas posteriores associados à tradição de Rudd costumam relacioná-lo a Lelahel/Jelahel. Isso não pertence à entrada original de Weyer.
Valefor é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo. Correntes luciferianas modernas podem reinterpretá-lo dentro de suas próprias filosofias.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Valefor pode representar o problema da vantagem que modifica silenciosamente nossos limites.
Não o tratamos simplesmente como “Daemon do roubo”.
Também não o transformamos num mentor benevolente cuja função real teria sido mal compreendida pelos autores antigos.
Mantemos a tensão.
Ele é útil.
É familiar.
E existe perigo dentro dessa familiaridade.
Isso permite uma reflexão muito mais madura sobre autonomia.
A pergunta não é apenas:
“O que eu quero?”
Também é:
“O que estou disposto a tornar-me para conseguir aquilo que quero?”
Uma vantagem pode ser desejável.
Um atalho pode funcionar.
Uma pessoa pode ajudar.
Uma comunidade pode oferecer pertencimento.
Uma oportunidade pode abrir portas.
Mas nada disso elimina a necessidade de observar aquilo que a relação começa a normalizar.
Essa talvez seja a melhor forma de traduzir filosoficamente a advertência de Valefor.
A familiaridade como ponto cego
Aquilo que conhecemos bem parece menos perigoso.
Essa é justamente a razão pela qual familiaridade merece vigilância.
Não vigilância paranoica.
Critério.
Se uma relação exige que você comece a fazer coisas que antes reconheceria como injustas, talvez seja importante perguntar o que mudou.
Se um grupo transforma pequenas transgressões em prova de lealdade, isso merece atenção.
Se uma autoridade espiritual oferece benefícios, mas gradualmente exige abandono de autonomia, a utilidade inicial não elimina o problema.
Valefor oferece uma imagem antiga para uma questão muito moderna:
até que ponto algo continua sendo auxílio quando começa a alterar sua capacidade de dizer não?
A luz como exame das consequências
Dentro da filosofia luciferiana do Templo, luz não significa que toda coisa iluminada seja boa.
Luz permite ver.
Por isso, uma leitura luciferiana de Valefor não precisa absolvê-lo.
Nem condená-lo automaticamente.
Pode utilizá-lo como símbolo para iluminar relações entre:
desejo;
oportunidade;
transgressão;
e consequência.
Conhecimento permite perceber a estrutura da escolha.
Autonomia permite decidir.
Responsabilidade exige assumir aquilo que acontece depois.
Nesse sentido, Valefor pode representar uma etapa desconfortável do autoconhecimento:
perceber que muitas vezes aquilo que nos ameaça não chega com aparência de inimigo.
Às vezes chega oferecendo ajuda.
Conclusão
Valefor demonstra perfeitamente por que estudar os 72 espíritos exige crítica textual.
Em Johann Weyer, aparece como Valefar alias Malaphar, forte Duque, nº 14, em forma leonina com cabeça de ladrão, criando familiaridade que termina na forca e governando dez legiões.
Na Ars Goetia, torna-se nº 6.
Continua Duque.
Continua com dez legiões.
Agora é chamado de bom familiar, mas tenta seus associados a roubar.
No Sloane 3825, aparece como leão com cabeça humana ameaçadora.
Na edição Mathers/Crowley de 1904, torna-se o famoso leão com cabeça de asno, berrando.
No Grand Grimoire, ocupa outra hierarquia sob Sargatanas.
E no Dictionnaire Infernal de 1863 surge uma descrição anômala que parece reproduzir grande parte do perfil de Ipos, mostrando como a recepção posterior pode também confundir personagens.
Esse percurso é muito mais interessante que uma tabela de poderes.
Ele nos mostra:
transmissão;
tradução;
variação;
reorganização;
recepção;
e interpretação.
Também corrige diversas atribuições contemporâneas sem base no núcleo histórico.
Não precisamos afirmar que Valefor cura doenças.
Não precisamos atribuir-lhe metamorfose.
Não precisamos criar uma falsa divindade antiga.
Não precisamos escolher arbitrariamente um planeta ou carta do Tarô.
E não precisamos decidir que toda ambiguidade do texto seja um código iniciático secreto.
Podemos começar por aquilo que sabemos.
Valefor é um Duque cuja narrativa histórica gira em torno da familiaridade e do risco moral dessa familiaridade.
Essa característica é suficientemente poderosa.
Dentro da leitura contemporânea do Templo de Lúcifer, ela pode ser formulada assim:
nem toda ajuda preserva sua autonomia; nem toda vantagem merece o preço que cobra; e nenhuma relação deveria tornar-se tão familiar que você deixe de examinar aquilo que ela está ensinando você a normalizar.
Talvez seja exatamente essa contradição que torna Valefor digno de estudo.
Não porque ofereça uma resposta fácil.
Mas porque coloca lado a lado duas afirmações que normalmente gostaríamos de separar:
é útil.
é perigoso.
Maturidade não consiste em escolher apenas uma delas.
Consiste em conseguir enxergar as duas ao mesmo tempo.
Leituras relacionadas
Para compreender a estrutura completa da lista, consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.
Leia também Marbas: história, origem e tradição do 5º espírito da Ars Goetia, que ocupa a posição imediatamente anterior na sequência.
Consulte Agares: história, origem e tradição do 2º espírito da Ars Goetia e Bael: história, origem e tradição do 1º espírito da Ars Goetia para acompanhar as alterações entre a lista de Weyer e a organização posterior do Lemegeton.
Para compreender como avaliamos relações de confiança e risco, leia O que observar antes de confiar em uma comunidade espiritual e Sinais de manipulação espiritual: como se proteger.
Referências e leituras para aprofundamento
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Valefar, também chamado Malaphar, aparece como nº 14, forte Duque em forma de leão com cabeça de ladrão, associado a uma familiaridade que conduz seus associados à forca e governante de dez legiões. (esotericarchives.com)
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Preserva o nome Valefar/Malephar e a imagem da cabeça de ladrão, constituindo etapa fundamental na transmissão inglesa do material de Weyer.
PETERSON, Joseph H. (ed.). The Lesser Key of Solomon — Lemegeton Clavicula Salomonis. Edição crítica essencial para compreender Valefor como nº 6, a forma “cabeça humana carrancuda” do Sloane 3825, variantes do nome e a complicada relação da passagem com Weyer e Scot. (esotericarchives.com)
MATHERS, S. L. MacGregor; CROWLEY, Aleister. The Book of the Goetia of Solomon the King. 1904. Edição responsável por popularizar amplamente a descrição de Valefor como leão com cabeça de asno, berrando. (en.wikisource.org)
COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed. Paris, 1863. Sua entrada “Valafar ou Malafar” diverge fortemente de Weyer e da Goetia e apresenta atributos muito próximos dos de Ipos, devendo ser examinada como problema de recepção textual. (fr.wikisource.org)
LE GRAND GRIMOIRE. Na hierarquia reproduzida por Collin de Plancy, Valafar aparece entre os espíritos subordinados a Sargatanas, ao lado de Loray e Foray. (fr.wikisource.org)
WILBY, Emma. Cunning Folk and Familiar Spirits. Estudo histórico sobre crenças e relações envolvendo espíritos familiares na Grã-Bretanha moderna inicial. (jstor.org)
PARISH, Helen. “‘Paltrie Vermin, Cats, Mise, Toads, and Weasils’: Witches, Familiars, and Human-Animal Interactions in the English Witch Trials”. Religions, 2019. Estudo sobre familiares no encontro entre cultura popular, demonologia e processos por bruxaria. (mdpi.com)
DAVIES, Owen. Grimoires: A History of Magic Books. Oxford University Press, 2009. Referência histórica para a circulação e transformação das tradições de grimórios.
TEMPLO DE LÚCIFER. Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.
TEMPLO DE LÚCIFER. Marbas: história, origem e tradição do 5º espírito da Ars Goetia.
TEMPLO DE LÚCIFER. O que observar antes de confiar em uma comunidade espiritual.