Marbas: história, origem e tradição do 5º espírito da Ars Goetia

Marbas ocupa a quinta posição na Ars Goetia e reúne alguns dos atributos mais incomuns de todo o catálogo: conhecimento de coisas ocultas, doença e cura, sabedoria, artes mecânicas e transformação da forma humana.
Sua descrição é curta, mas extraordinariamente densa.
Na tradição goética, Marbas é um Grande Presidente. Surge inicialmente como um grande leão e, quando solicitado pelo operador, assume forma humana. Responde sobre aquilo que está oculto ou secreto, recebe atribuições relacionadas a causar e remover doenças, concede sabedoria e conhecimento das artes mecânicas, transforma seres humanos em outras formas e governa 36 legiões de espíritos.
Quase todos esses elementos já aparecem antes da Ars Goetia.
Johann Weyer registra Marbas, também chamado Barbas, em sua Pseudomonarchia Daemonum. Nessa lista, entretanto, ele não é o quinto espírito.
É o terceiro.
Essa diferença é particularmente importante para o estudo histórico da Goétia.
Bael aparece como nº 1 tanto em Weyer quanto na Goetia.
Agares permanece nº 2.
Weyer então apresenta Marbas como nº 3.
A Ars Goetia, porém, introduz Vassago na terceira posição, move Gamigin para a quarta e coloca Marbas em quinto lugar.
Marbas, portanto, oferece mais uma demonstração concreta de que a lista dos 72 espíritos não foi simplesmente copiada intacta da Pseudomonarchia Daemonum. Ela foi reorganizada durante sua transmissão.
Compreender Marbas exige justamente separar essas camadas: aquilo que Weyer registra no século XVI, aquilo que o Lemegeton preserva posteriormente, a recepção do século XIX e as muitas interpretações desenvolvidas pelo ocultismo contemporâneo.
Também exige um cuidado especial.
As fontes atribuem a Marbas poder sobre doenças e cura. Isso é um dado histórico sobre aquilo que os grimórios afirmam, não demonstração médica de que rituais, entidades ou práticas espirituais diagnostiquem ou tratem doenças.
Essa distinção será mantida ao longo deste artigo.
Marbas antes da Ars Goetia
Marbas está claramente documentado antes da forma conhecida da Ars Goetia.
Johann Weyer o registra na Pseudomonarchia Daemonum como sua terceira entrada.
O texto latino apresenta:
Marbas, alias Barbas.
Ele recebe o título de Grande Presidente.
Manifesta-se inicialmente como um leão muito forte.
Quando chamado pelo exorcista, assume forma humana.
Responde plenamente a respeito de assuntos ocultos.
A tradição lhe atribui capacidade de causar e remover doenças, promover sabedoria, fornecer conhecimento das artes mecânicas e transformar seres humanos em outras formas.
Finalmente, governa 36 legiões.
A tradução inglesa transmitida por Reginald Scot preserva praticamente todo esse núcleo.
Portanto, diferentemente de algumas correspondências modernas associadas a Marbas, seus atributos fundamentais possuem uma continuidade textual bastante forte.
De nº 3 em Weyer a nº 5 na Ars Goetia
Essa mudança de posição merece atenção.
Na Pseudomonarchia, a sequência inicial é aproximadamente:
Bael, Agares, Marbas, Pruflas, Amon e assim por diante.
Na Ars Goetia, encontramos:
Bael, Agares, Vassago, Gamigin, Marbas, Valefor, Amon.
Vassago não aparece em Weyer.
Gamigin, que ocupa uma posição muito posterior na lista de Weyer, é deslocado para o quarto lugar.
Pruflas não entra na lista final dos 72.
Marbas, consequentemente, passa da terceira para a quinta posição.
Joseph H. Peterson registra essa correspondência diretamente: Marbas nº 3 em Weyer corresponde ao Marbas nº 5 da Goetia.
Isso produz uma consequência metodológica importante.
O número cinco não deve ser tratado como uma característica eterna ou metafísica de Marbas.
É sua posição dentro de uma organização textual específica.
Sistemas modernos podem desenvolver interpretações numerológicas a partir desse número, mas precisam reconhecer que a própria posição de Marbas mudou durante a história documental.
Marbas ou Barbas?
Weyer registra explicitamente:
Marbas, alias Barbas.
Portanto, Barbas não é uma invenção recente nem precisa ser tratado como uma entidade separada.
Outros testemunhos relacionados preservam ainda variantes como Barbarius, Barthas e, no manuscrito Folger, Barbas alias Corbas.
Essas variações mostram como nomes demonológicos podiam mudar durante cópia, tradução e transmissão manuscrita.
A forma Marbas tornou-se dominante na tradição goética moderna.
Barbas continua historicamente importante porque já aparece junto de Marbas em Weyer.
Marbas e Barbas são dois espíritos?
Não existe boa razão textual para tratá-los dessa maneira.
Na própria Pseudomonarchia, “Barbas” é apresentado como nome alternativo de Marbas.
Isso é diferente de duas entradas independentes com funções separadas.
Uma corrente religiosa contemporânea poderia desenvolver uma teologia que distinguisse as duas formas.
Nesse caso, essa distinção pertenceria àquela corrente.
Historicamente, porém, o material fundamental trata Barbas como variante de Marbas.
A etimologia de Marbas
A origem exata do nome permanece incerta.
Essa é a resposta mais segura.
Encontramos diferentes tentativas modernas de derivar Marbas ou Barbas de palavras latinas, semíticas ou de outras línguas. O problema é que semelhança fonética não constitui, por si só, uma etimologia.
Além disso, as variantes Barbarius, Barbas, Barthas e Corbas mostram que a forma do nome sofreu alterações.
Sem uma cadeia linguística demonstrável, qualquer tradução definitiva seria especulativa.
Portanto, o padrão editorial do Templo é simples:
não possuímos uma etimologia historicamente segura para Marbas.
Não existe necessidade de inventar uma.
Marbas é um Grande Presidente
Tanto Weyer quanto a Ars Goetia concedem a Marbas o título de Grande Presidente.
Presidente é uma das dignidades que aparecem na estrutura goética, ao lado de Reis, Duques, Príncipes, Marqueses, Condes e do Cavaleiro Furcas.
Marbas não é o único Presidente.
Buer, Foras, Malphas, Haagenti, Caim, Ose, Amy e outros compartilham essa categoria, enquanto determinados espíritos combinam mais de um título.
O termo não deve ser interpretado através da função política contemporânea de “presidente de uma república”.
Dentro do catálogo, faz parte da linguagem hierárquica utilizada para organizar os espíritos.
Presidente significa menos poderoso que Rei?
A Goetia não fornece uma escala matemática que permita essa conclusão.
Os títulos estabelecem hierarquias e categorias, mas não produzem automaticamente uma pontuação absoluta de poder.
Da mesma maneira, Marbas governar 36 legiões não permite calcular que seja objetivamente “mais poderoso” que um espírito com 30 e menos poderoso que outro com 40.
Esse tipo de ranking é posterior.
Marbas e o Leste
Peterson observa ainda que o manuscrito Folger coloca Barbas alias Corbas entre os Presidentes relacionados ao Leste.
Essa associação é interessante para a história manuscrita, mas não deve ser transformada numa correspondência universal sem indicar a fonte.
É um ótimo exemplo de como diferentes testemunhos podem acrescentar informações que não aparecem com o mesmo destaque em todas as versões.
A forma do grande leão
A aparência inicial de Marbas é extremamente estável.
Weyer o apresenta como um leão muito forte.
A Ars Goetia preserva a figura de um grande leão.
Collin de Plancy ainda o descreve no século XIX sob a forma de um leão furioso.
Portanto, a associação leonina possui uma base histórica muito mais sólida do que muitas correspondências esotéricas contemporâneas.
O que o leão significa?
A fonte não explica.
Isso precisa vir antes de qualquer simbolismo.
O leão pode ser relacionado em diferentes culturas a:
realeza;
força;
ferocidade;
coragem;
autoridade;
solaridade.
Mas não temos uma explicação de Weyer dizendo que Marbas aparece como leão porque representa qualquer um desses conceitos específicos.
Uma tradição contemporânea pode utilizar essas associações.
Deve apenas identificá-las como interpretação.
Da forma de leão à forma humana
Quando solicitado pelo operador, Marbas assume forma humana.
Essa transformação também aparece de maneira consistente entre Weyer e a Goetia.
O fato histórico é simples:
a fonte descreve uma mudança de forma.
O significado dessa mudança não é explicado.
Podemos contemporaneamente interpretá-la como passagem entre potência e inteligibilidade, entre força e linguagem ou entre natureza e conhecimento.
Mas isso já é filosofia moderna.
Não descrição do grimório.
A aparência humana de Marbas não é detalhada
O artigo antigo do Templo preservava uma descrição moderna de Marbas como possuindo determinados cabelos, olhos, orelhas e altura. Essa descrição não pertence ao núcleo de Weyer nem da Ars Goetia.
Portanto, eu a retiraria da página histórica.
Caso o Templo futuramente queira publicar experiências ou iconografias contemporâneas, poderá utilizar uma seção claramente identificada como:
“Representações e gnoses contemporâneas.”
Mas o leitor não deve sair da página acreditando que o grimório descreve Marbas dessa maneira.
Marbas responde sobre coisas escondidas ou secretas
Esse atributo aparece tanto em Weyer quanto na Goetia.
O Sloane 3825 utilizado por Peterson afirma que Marbas responde verdadeiramente sobre coisas escondidas ou secretas.
Esse é um dos eixos históricos mais seguros da figura.
Marbas pertence, portanto, ao conjunto de espíritos aos quais os grimórios atribuem acesso a informação oculta.
Mas “oculto” precisa ser compreendido dentro do texto.
Não significa automaticamente “ocultismo” no sentido moderno.
Pode significar simplesmente aquilo que está escondido, secreto ou não conhecido.
“Revelador de segredos” é uma descrição útil?
Sim, desde que não seja transformada num título antigo formal.
Marbas realmente possui esse ofício.
Portanto, chamá-lo de “revelador de segredos” numa introdução moderna é uma síntese razoável.
Mas seu título histórico continua sendo:
Grande Presidente.
Verdade sobre o oculto
A Goetia utiliza uma formulação particularmente interessante ao dizer que Marbas responde verdadeiramente sobre assuntos secretos.
Isso não significa que possamos verificar historicamente a existência de uma capacidade sobrenatural de revelar qualquer segredo.
Significa que o texto atribui a ele essa confiabilidade.
A distinção é a mesma que utilizamos para Vassago e outros espíritos relacionados a conhecimento.
História demonstra aquilo que uma fonte afirma.
Não demonstra automaticamente a realidade metafísica da atribuição.
Marbas, doença e cura
Esse é o aspecto que exige maior responsabilidade editorial.
Weyer diz que Marbas introduz doenças e as remove.
A tradução de Scot formula de maneira equivalente que ele traz doenças e as cura.
A Ars Goetia preserva praticamente a mesma afirmação: Marbas causa doenças e depois as cura novamente.
Portanto, a associação histórica é indiscutivelmente real dentro da tradição.
O que precisamos evitar é um salto.
O fato de um grimório do período atribuir cura a um espírito não demonstra clinicamente que invocar Marbas trate doenças.
Fonte histórica não é recomendação médica
Essa distinção precisa aparecer explicitamente no artigo.
Se alguém possui sintomas, doença diagnosticada, dor persistente, alteração física ou sofrimento mental, práticas espirituais não devem substituir avaliação de profissionais de saúde.
Uma pessoa pode possuir crenças religiosas.
Pode realizar uma prática espiritual se isso fizer parte de sua tradição.
Ainda assim, diagnóstico e tratamento médico pertencem ao campo da saúde.
Essa fronteira não diminui a religião.
Evita transformar uma descrição de grimório em promessa terapêutica.
Marbas não deve ser apresentado como médico sobrenatural comprovado
Expressões como:
“Marbas diagnostica a origem verdadeira da doença”;
“Marbas conhece a estrutura do mal e por isso cura”;
“Marbas revela a causa oculta de qualquer enfermidade”;
são interpretações muito mais fortes do que aquilo que a fonte demonstra.
O artigo anterior do Templo caminhava nessa direção ao transformar a dupla atribuição doença/cura numa ideia de “diagnóstico profundo”.
Eu removeria essa linguagem.
O que podemos dizer historicamente é suficiente:
a tradição demonológica atribui a Marbas tanto a produção quanto a remoção de doenças.
Por que uma mesma figura causa e cura?
A dupla atribuição pode parecer contraditória ao leitor moderno.
Historicamente, porém, ela não é incompreensível.
Em diferentes sistemas religiosos e mágicos, uma potência associada a determinado tipo de dano também pode ser considerada capaz de removê-lo.
Conhecimento de uma força e domínio sobre essa força aparecem ligados.
Mas é importante não transformar essa observação geral numa explicação definitiva da intenção de Weyer.
A entrada não fornece uma teoria detalhada explicando por que Marbas recebe ambas as funções.
Ela apenas preserva ambas.
Uma interpretação simbólica responsável da doença
Dentro da filosofia contemporânea do Templo, podemos trabalhar esse atributo sem fazer alegações médicas.
Doença e cura podem ser utilizados simbolicamente como imagens de disfunção e restauração.
Um projeto pode adoecer metaforicamente.
Uma instituição pode desenvolver processos disfuncionais.
Um sistema tecnológico pode falhar.
Uma crença pode produzir consequências nocivas.
Uma relação pode perder equilíbrio.
Nesse nível claramente metafórico, Marbas pode oferecer um símbolo para investigar:
o que está funcionando mal, por quê e o que precisaria ser corrigido?
Isso é interpretação filosófica.
Não medicina.
Marbas e as artes mecânicas
Esse é outro atributo que merece forte correção em relação ao título atual do artigo.
As fontes dizem mechanical arts, artes mecânicas.
Não “artes ocultas”.
A diferença é importante.
“Artes ocultas” faria o leitor pensar em magia, astrologia, alquimia ou conhecimentos esotéricos.
“Artes mecânicas” pertence a uma história intelectual distinta.
O que eram as artes mecânicas?
Na tradição medieval e moderna inicial, as artes mecânicas, artes mechanicae, estavam ligadas a conhecimentos práticos, produtivos e técnicos.
Elas eram frequentemente contrastadas às artes liberais.
Hugo de São Vítor, no século XII, elaborou uma classificação influente em que as artes mecânicas integravam o campo do conhecimento humano e incluíam atividades relacionadas a produção material, proteção, comércio, agricultura, caça, medicina e entretenimento.
A categoria estava profundamente relacionada ao saber fazer, à produção e às necessidades concretas da vida. Estudos contemporâneos sobre a história das artes mechanicae ressaltam justamente essa dimensão de conhecimento operativo e produtivo.
Portanto, quando Weyer e a Goetia atribuem a Marbas conhecimento das artes mecânicas, estamos diante de algo muito mais próximo de ofícios, técnica, fabricação e conhecimento aplicado do que de “artes ocultas”.
Artes mecânicas não significam apenas mecânica moderna
Também precisamos evitar o erro contrário.
A expressão histórica não deve ser reduzida imediatamente a:
engenharia mecânica;
motores;
automóveis;
robótica;
máquinas industriais;
programação.
Essas aplicações podem inspirar leituras modernas.
Mas não correspondem exatamente ao campo semântico histórico.
“Artes mecânicas” designava uma categoria muito mais ampla de saberes práticos.
Marbas como espírito da tecnologia?
Essa é uma interpretação contemporânea possível.
Não um título histórico.
Uma corrente moderna poderia observar a associação de Marbas com artes mecânicas e relacioná-lo simbolicamente a:
engenharia;
manutenção;
máquinas;
infraestrutura;
sistemas;
tecnologia;
solução de problemas técnicos.
Essa extensão possui lógica.
Mas precisa ser formulada assim:
“Em interpretações contemporâneas, a antiga associação com artes mecânicas pode ser ampliada simbolicamente para tecnologias e conhecimentos técnicos modernos.”
Não:
“Weyer diz que Marbas rege computadores e engenharia.”
Não diz.
Marbas e sabedoria
Weyer utiliza uma formulação segundo a qual Marbas promove sabedoria e conhecimento das artes mecânicas.
A Goetia preserva “grande sabedoria” ao lado do conhecimento mecânico.
Isso cria uma combinação interessante.
Não se trata apenas de habilidade manual.
Existe também uma dimensão de compreensão.
Conhecer uma técnica significa saber como algo funciona.
Essa característica oferece um material simbólico muito mais forte do que simplesmente dizer que Marbas “dá inteligência”.
Saber como algo funciona
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, a associação com artes mecânicas pode ser lida como uma disciplina de compreensão estrutural.
Diante de um sistema, pergunte:
quais são suas partes?
Como interagem?
Onde existe dependência?
O que acontece quando uma parte falha?
Qual é a causa e qual é apenas o sintoma?
Essa maneira de pensar é extremamente relevante para tecnologia, administração, segurança, pesquisa e vida cotidiana.
Ela não é uma descrição do poder sobrenatural de Marbas.
É uma interpretação filosófica moderna inspirada por seu atributo histórico.
O oculto e o mecanismo
Aqui surge uma combinação particularmente interessante.
Marbas conhece aquilo que está escondido.
E conhece artes mecânicas.
Uma leitura contemporânea pode reunir essas duas características numa pergunta:
o que existe por trás da superfície e como aquilo realmente funciona?
Esse é um princípio de investigação.
Uma interface de software pode parecer simples.
Por trás dela existem processos.
Uma instituição pode apresentar determinada imagem.
Por trás existem estruturas de decisão.
Um sintoma técnico aparece.
Por trás existe uma causa.
Nesse sentido, Marbas pode simbolizar o impulso de não se contentar com a superfície.
Investigar não é imaginar causas ocultas
Existe, porém, uma diferença decisiva.
Procurar causas não significa assumir que toda coisa possui uma causa secreta, espiritual ou conspiratória.
Investigar exige evidência.
Se um servidor cai, primeiro verificamos logs, recursos, rede, armazenamento e configurações.
Não precisamos começar atribuindo o problema a uma força invisível.
Se alguém possui sintomas físicos, a investigação adequada é médica.
Uma filosofia de revelação precisa ser também uma filosofia contra explicações imaginárias.
Transformar seres humanos em outras formas
A última grande atribuição de Marbas é a capacidade de transformar homens em outras formas.
Weyer registra esse atributo.
A Goetia também.
A formulação pertence claramente à cosmologia mágica da fonte.
Não deveria ser apagada ou imediatamente reinterpretada como se os autores quisessem falar apenas de desenvolvimento pessoal.
Eles apresentam uma capacidade de metamorfose.
Historicamente, esse é o dado.
A metamorfose é física na fonte?
O texto não fornece uma teoria suficientemente detalhada para estabelecermos todo o mecanismo imaginado.
Mas também não existe razão para presumir que Weyer estivesse secretamente descrevendo apenas transformação psicológica.
Essa interpretação é moderna.
A abordagem correta é manter as duas camadas separadas.
A fonte atribui transformação de forma.
Nós podemos, posteriormente, utilizar metamorfose como símbolo filosófico.
Metamorfose como interpretação contemporânea
Dentro da leitura do Templo, a mudança de forma pode representar capacidade de reorganização.
Uma identidade não precisa ser completamente imóvel.
Uma pessoa aprende.
Muda de profissão.
Abandona uma crença.
Corrige um comportamento.
Adquire competências.
Modifica sua maneira de se apresentar ao mundo.
Isso não significa que toda transformação seja positiva.
Algumas mudanças são perdas.
Outras são adaptações necessárias.
A questão central torna-se:
o que precisa mudar sem que a transformação destrua aquilo que desejamos preservar?
Forma e função
A associação de Marbas com artes mecânicas torna essa interpretação ainda mais interessante.
Em sistemas técnicos, forma e função estão frequentemente relacionadas.
Alterar uma estrutura pode modificar aquilo que ela consegue fazer.
Na vida humana, porém, essa relação é mais complexa.
A aparência não determina integralmente capacidade.
Mas organização, hábito, ambiente e estrutura podem influenciar fortemente o comportamento.
Marbas oferece um símbolo útil para perguntar como mudanças estruturais modificam resultados.
Essa é uma interpretação moderna.
Marbas possui 36 legiões
O número permanece estável entre Weyer e a Goetia.
Marbas governa 36 legiões.
Collin de Plancy também preserva essa quantidade.
Assim como nos demais artigos, isso não significa que saibamos exatamente quantas entidades compõem cada legião.
Nem permite calcular objetivamente o poder de Marbas em comparação a outros espíritos.
As legiões fazem parte da linguagem hierárquica do catálogo.
O selo de Marbas
A tradição do Lemegeton associa um selo próprio ao quinto espírito.
Esse selo tornou-se uma das representações mais reconhecíveis de Marbas no ocultismo moderno.
Entretanto, Weyer registra Marbas sem a série de selos posteriormente associada aos espíritos na Ars Goetia.
Portanto, a descrição textual de Marbas é documentalmente anterior ao selo goético conhecido.
Isso é importante.
O selo não deve ser chamado de símbolo utilizado “desde a Antiguidade”.
O selo não é prova de um culto antigo
Não há evidência nas fontes utilizadas aqui de que o selo de Marbas:
tenha sido utilizado na Mesopotâmia;
no Egito antigo;
em cultos romanos;
por sacerdotes cananeus;
ou pelo Salomão histórico.
Ele pertence à tradição manuscrita goética.
Isso já lhe concede relevância histórica.
Não precisamos inventar uma antiguidade maior.
O significado das linhas do selo
Como nos demais selos, não possuímos uma chave histórica segura que explique cada elemento gráfico.
Interpretações modernas podem atribuir significados a curvas, cruzamentos e segmentos.
Essas interpretações podem ser utilizadas dentro de sistemas contemporâneos.
Mas precisam ser apresentadas como tais.
Marbas no Dictionnaire Infernal
No século XIX, Jacques Collin de Plancy preserva Marbas ou Barbas como Grande Presidente.
Ele aparece como leão furioso e assume figura humana diante do exorcista.
Responde sobre assuntos escondidos.
Envia doenças.
Concede conhecimento das artes mecânicas.
Transforma seres humanos.
E comanda 36 legiões.
É interessante observar que a pequena entrada de Collin de Plancy não repete todos os atributos de Weyer com a mesma extensão.
Isso mostra novamente que recepção não significa reprodução perfeita.
Autores selecionam e resumem.
O leão de Louis Le Breton
A edição de 1863 do Dictionnaire Infernal é célebre também pelas imagens de Louis Le Breton.
Essas ilustrações tiveram enorme impacto sobre a iconografia moderna dos espíritos demonológicos.
Quando encontramos hoje imagens de Marbas inspiradas num leão estilizado do século XIX, estamos observando uma etapa de recepção artística.
Não uma representação proveniente da Pseudomonarchia original.
Marbas no Grand Grimoire
Marbas aparece também na tradição do Grand Grimoire.
Lá, encontra-se entre dezoito espíritos subordinados aos seis grandes oficiais infernais.
O texto especifica que Lucifuge Rofocale comanda Bael, Agares e Marbas.
Essa informação cria uma excelente comparação com os artigos anteriores da biblioteca.
Na Ars Goetia, Marbas é Grande Presidente e nº 5.
No Grand Grimoire, entra numa estrutura diferente, subordinado a Lucifuge.
Esses sistemas não precisam ser forçados a formar uma única hierarquia universal.
Marbas é subordinado a Lucifuge?
A resposta correta é:
no Grand Grimoire, sim.
Na Ars Goetia, essa relação não constitui a organização principal apresentada.
Portanto, dizer simplesmente:
“Marbas é subordinado a Lucifuge”
sem indicar a fonte mistura sistemas.
Sempre precisamos perguntar:
segundo qual grimório?
Marbas possui relação especial com Lúcifer?
As principais entradas de Weyer e da Ars Goetia não desenvolvem uma relação individual especial entre Marbas e Lúcifer.
Já o Grand Grimoire coloca Marbas sob Lucifuge, que por sua vez é descrito naquele sistema como subordinado a Lúcifer.
Isso produz uma relação hierárquica indireta dentro do Grand Grimoire.
Não devemos transportar essa estrutura automaticamente para toda tradição sobre Marbas.
Marbas é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo.
Weyer não escreve um manual de Luciferianismo moderno.
A Ars Goetia pertence à tradição de magia salomônica.
O Grand Grimoire possui outro contexto demonológico e ritual.
Luciferianos contemporâneos podem estudar ou reinterpretar Marbas.
Essa é uma recepção moderna.
Não uma identidade histórica original.
Marbas aparece na Bíblia?
Não como o personagem demonológico descrito nesses grimórios.
Não existe uma entrada bíblica sobre Marbas com seus atributos de leão, artes mecânicas, doenças e 36 legiões.
A associação do Lemegeton a Salomão pertence à tradição pseudo-salomônica muito posterior.
Marbas era uma divindade antiga?
Não existe documentação suficiente para afirmar isso.
Diversas páginas modernas procuram encontrar uma divindade antiga por trás de cada um dos 72 espíritos.
Esse método é historicamente frágil.
Alguns nomes realmente possuem histórias anteriores claramente identificáveis.
Outros não.
No caso de Marbas, não temos uma genealogia segura que permita dizer:
“Marbas era originalmente o deus X.”
Sem cadeia documental, linguística ou histórica, essa afirmação deve ser evitada.
Marbas e o leão não provam origem solar antiga
O leão possui inúmeras associações religiosas e culturais.
Pode aparecer relacionado ao Sol.
À realeza.
À guerra.
A divindades específicas.
Mas o simples fato de Marbas aparecer como leão não demonstra que tenha sido originalmente uma divindade solar antiga.
Símbolos semelhantes podem surgir em contextos completamente diferentes.
Comparação não é genealogia.
Correspondências astrológicas posteriores
O artigo antigo do Templo apresentava Marbas ligado a:
Júpiter;
estanho;
Fogo;
Áries;
4 de Paus;
vela amarela;
chicória;
e determinadas datas.
Essas correspondências não pertencem todas ao núcleo histórico de Weyer ou da Ars Goetia. O próprio artigo já reconhecia isso, mas acabava incorporando-as novamente à conclusão como se formassem um perfil consolidado.
Eu retiraria essa tabela da página-base.
Se quisermos estudar correspondências, faremos isso atribuindo cada sistema.
Marbas e Mercúrio
Alguns sistemas posteriores relacionam Presidentes da Goetia a Mercúrio.
Outras tabelas utilizam relações zodiacais ou planetárias diferentes e podem produzir outras associações.
A divergência mostra que perguntar:
“Qual é o planeta verdadeiro de Marbas?”
não é a melhor pergunta histórica.
A pergunta adequada é:
“Qual autor ou escola atribuiu qual planeta a Marbas?”
Marbas e o 4 de Paus
A mesma regra vale para o Tarô.
Weyer não atribui carta de Tarô a Marbas.
A entrada original da Goetia também não.
Correspondências com o 4 de Paus pertencem a sistemas posteriores que integram a Goétia a estruturas astrológicas e cartomânticas.
Elas podem ser estudadas.
Não devem ser colocadas na mesma categoria documental que:
Grande Presidente;
36 legiões;
leão;
artes mecânicas.
Marbas e Mahasiah
Na tradição posterior associada a Thomas Rudd, os espíritos goéticos foram relacionados aos 72 anjos do Shem HaMephorash.
Nesse arranjo, Marbas é relacionado a Mahasiah.
Isso é historicamente relevante para a recepção posterior.
Não é parte da entrada original de Weyer.
Portanto, a formulação correta seria:
“No sistema associado a Thomas Rudd, Marbas é pareado com Mahasiah.”
Não:
“O anjo de Marbas é Mahasiah”
como se essa fosse uma relação universalmente presente em todas as fontes.
A leitura contemporânea do Templo de Lúcifer
Depois de reconstruir as fontes, podemos desenvolver uma interpretação própria.
Em Marbas existem quatro eixos históricos particularmente férteis:
o oculto;
a disfunção e a restauração;
o conhecimento mecânico;
a mudança de forma.
Esses elementos podem ser reunidos numa ideia contemporânea central:
compreender estruturas para transformá-las conscientemente.
Essa formulação pertence ao Templo.
Não ao texto de Weyer.
Revelar antes de transformar
Uma alteração realizada sem compreender o sistema pode produzir mais problemas.
Antes de corrigir, precisamos saber:
o que está acontecendo?
onde está a falha?
o que é causa?
o que é consequência?
qual elemento pode ser alterado sem romper o restante?
Essa maneira de pensar combina muito bem com Marbas.
Ele responde sobre o escondido.
Possui conhecimento mecânico.
Está ligado a alteração de formas.
A interpretação contemporânea natural não precisa ser “poder sobrenatural”.
Pode ser diagnóstico estrutural no sentido não médico da palavra: compreender um sistema antes de modificá-lo.
Conhecimento aplicado
Marbas também pode representar uma diferença importante entre conhecer e saber fazer.
Uma pessoa pode compreender uma teoria.
Outra consegue aplicá-la.
O ideal é reunir os dois.
As artes mecânicas lembram que conhecimento possui dimensão operativa.
Construir.
Consertar.
Configurar.
Projetar.
Testar.
Revisar.
Dentro de uma filosofia luciferiana orientada ao conhecimento, isso é extremamente relevante.
Luz que apenas revela, mas nunca produz ação, permanece contemplativa.
Transformação baseada em conhecimento
A metamorfose de Marbas pode então ser interpretada como consequência dessa compreensão.
Não mudar por impulso.
Mudar porque entendemos melhor a estrutura.
Uma organização descobre um problema e modifica seus processos.
Um profissional identifica uma deficiência de conhecimento e aprende.
Um projeto reconhece que determinada arquitetura não funciona e é redesenhado.
Uma pessoa percebe que um hábito produz consequências ruins e o altera.
Esse tipo de transformação não depende de fantasia.
Depende de investigação e vontade.
Marbas e a responsabilidade de conhecer limites
Existe, porém, outra dimensão.
Uma pessoa tecnicamente competente precisa saber onde termina sua competência.
Um especialista em servidores não se torna médico porque entende sistemas.
Um pesquisador de religião não se torna automaticamente historiador de todas as épocas.
Um líder espiritual não se torna psicólogo por lidar com sofrimento humano.
Essa capacidade de reconhecer limites é uma forma elevada de conhecimento aplicado.
Dentro da interpretação do Templo, Marbas pode simbolizar também essa responsabilidade:
saber como algo funciona inclui saber quando precisamos de outra área de conhecimento.
A doença como fronteira ética
É exatamente por isso que a atribuição histórica de doença e cura precisa permanecer cercada de clareza.
Podemos estudar.
Podemos interpretar simbolicamente.
Podemos reconhecer a crença religiosa de um praticante.
Mas não devemos utilizar Marbas para:
diagnosticar uma doença;
determinar a causa médica de sintomas;
orientar suspensão de medicamentos;
substituir atendimento profissional;
ou prometer cura.
Se alguém deseja manter uma prática espiritual paralelamente ao tratamento, essa é uma escolha religiosa pessoal.
O cuidado clínico continua pertencendo a profissionais habilitados.
Gnose pessoal e experiência contemporânea
Praticantes modernos podem relatar experiências próprias com Marbas.
Podem descrevê-lo com aparência diferente.
Podem associá-lo a determinados aromas, cores ou sensações.
Podem acreditar ter recebido ensinamentos.
Esses relatos podem possuir significado religioso.
Mas devem ser identificados como:
gnose pessoal;
experiência devocional;
ou tradição contemporânea específica.
Não como documentação histórica da Ars Goetia.
O que sabemos com razoável segurança
Marbas está claramente documentado na Pseudomonarchia Daemonum de Weyer antes da Ars Goetia.
Weyer o apresenta como nº 3.
A Goetia o reorganiza como nº 5.
Marbas também aparece sob o nome Barbas.
É um Grande Presidente.
Sua primeira forma é a de um poderoso leão.
Depois assume forma humana.
Responde sobre coisas escondidas ou secretas.
A tradição lhe atribui tanto causar quanto remover doenças.
Está associado à sabedoria e ao conhecimento das artes mecânicas.
Pode transformar seres humanos em outras formas.
E governa 36 legiões.
O Grand Grimoire posteriormente o insere numa hierarquia diferente sob Lucifuge Rofocale.
O que permanece incerto
Não conhecemos uma etimologia segura de Marbas.
Não sabemos qual significado o autor pretendia atribuir à forma leonina.
Não existe base para a descrição moderna detalhada de cabelos, olhos e altura ser tratada como aparência goética original.
Não possuímos evidência suficiente para identificá-lo como antiga divindade específica.
Não sabemos o significado original de cada traço de seu selo.
E correspondências com planetas, signos, Tarô, metais, cores e plantas pertencem a sistemas posteriores que precisam ser analisados segundo suas fontes.
Também não existe evidência clínica de que práticas envolvendo Marbas curem doenças.
Perguntas frequentes sobre Marbas
Quem é Marbas?
Marbas é o quinto espírito da Ars Goetia e recebe o título de Grande Presidente. Já aparece anteriormente na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.
Qual é a posição de Marbas em Weyer?
É o nº 3 da lista de Weyer.
Por que ele é nº 5 na Ars Goetia?
Porque a lista foi reorganizada. Vassago entra como nº 3 e Gamigin é colocado na quarta posição, deslocando Marbas para nº 5.
Marbas e Barbas são a mesma entidade?
Nas fontes históricas utilizadas, Barbas aparece explicitamente como nome alternativo de Marbas.
Existem outras variantes do nome?
Sim. Testemunhos relacionados registram formas como Barbarius, Barthas e Corbas.
O que significa Marbas?
Não existe uma etimologia historicamente segura estabelecida.
Qual é o título de Marbas?
Grande Presidente.
Como Marbas aparece?
Primeiramente como um grande ou poderoso leão. Depois assume forma humana quando solicitado dentro da narrativa ritual.
A Goetia descreve a aparência humana de Marbas?
Não em detalhes como cabelo, olhos, altura ou formato de orelhas. Descrições desse tipo são posteriores.
Marbas revela segredos?
As fontes lhe atribuem respostas verdadeiras sobre coisas escondidas ou secretas.
Marbas causa doenças?
É isso que Weyer e a Goetia afirmam dentro de sua cosmologia mágica histórica.
Marbas cura doenças?
As mesmas fontes também lhe atribuem a capacidade de removê-las ou curá-las. Isso é uma afirmação do grimório, não evidência médica de eficácia terapêutica.
Posso substituir tratamento médico por trabalho espiritual com Marbas?
Não. Descrições históricas de grimórios não substituem diagnóstico nem tratamento de profissionais de saúde.
O que são as artes mecânicas de Marbas?
Historicamente, artes mechanicae se refere a conhecimentos práticos, produtivos, técnicos e artesanais. Não significa simplesmente “artes ocultas”.
Marbas ensina engenharia?
A fonte fala de artes mecânicas dentro do vocabulário histórico de seu período. Relacioná-las diretamente à engenharia moderna é uma extensão contemporânea.
Marbas está relacionado à tecnologia?
Pode ser interpretado simbolicamente dessa forma em sistemas modernos devido à associação com conhecimento técnico, mas tecnologia moderna não aparece na fonte original.
Marbas transforma pessoas?
A tradição atribui a ele capacidade de mudar seres humanos para outras formas. Interpretações psicológicas dessa metamorfose são posteriores.
Quantas legiões Marbas governa?
O selo de Marbas aparece em Weyer?
Não como parte da série de selos goéticos posteriormente presente no Lemegeton.
Marbas aparece no Dictionnaire Infernal?
Sim. Collin de Plancy preserva Marbas ou Barbas como Grande Presidente em forma de leão, associado a segredos, doenças, artes mecânicas, metamorfose e 36 legiões.
Marbas aparece no Grand Grimoire?
Sim. Nessa tradição, Marbas aparece ao lado de Bael e Agares entre os espíritos subordinados a Lucifuge Rofocale.
Marbas é subordinado a Lucifuge?
No sistema específico do Grand Grimoire, sim. Essa não é a organização principal da Ars Goetia.
Marbas aparece na Bíblia?
Não como a entidade demonológica apresentada nos grimórios.
Marbas era uma divindade pagã?
Não existe documentação suficiente para identificá-lo com segurança como antiga divindade específica.
Qual é o planeta de Marbas?
A descrição histórica básica não fornece uma correspondência planetária única. Sistemas posteriores apresentam diferentes atribuições.
Qual é o signo de Marbas?
Correspondências zodiacais são posteriores à entrada de Weyer e precisam ser atribuídas aos sistemas que as utilizam.
Qual é a carta de Tarô de Marbas?
Weyer e a entrada básica da Goetia não fornecem carta de Tarô.
Qual anjo corresponde a Marbas?
No sistema posterior associado a Thomas Rudd, Marbas é relacionado a Mahasiah. Essa relação não pertence à entrada original da Pseudomonarchia.
Marbas é originalmente luciferiano?
Não no sentido contemporâneo. Correntes luciferianas modernas podem reinterpretá-lo dentro de seus próprios sistemas.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Marbas pode ser compreendido como uma figura do conhecimento estrutural aplicado à transformação.
Não porque Weyer tenha utilizado essa expressão.
Mas porque quatro de seus principais atributos históricos convergem de maneira interessante:
ele revela aquilo que está escondido;
possui conhecimento das artes mecânicas;
está relacionado a estados de disfunção e restauração;
e transforma formas.
Essa combinação permite construir uma interpretação luciferiana centrada em investigação.
Antes de modificar, compreenda.
Antes de concluir, procure aquilo que está oculto.
Antes de corrigir, descubra como o sistema funciona.
Antes de reivindicar conhecimento, reconheça os limites daquilo que consegue demonstrar.
Esse princípio possui aplicação muito mais ampla que uma prática ritual.
Serve para tecnologia.
Pesquisa.
Administração.
Relações.
Filosofia.
E para a própria espiritualidade.
Uma tradição que não compreende os mecanismos pelos quais produz suas próprias crenças torna-se vulnerável à repetição.
Uma tradição que investiga suas fontes consegue transformar-se sem perder consciência daquilo que está mudando.
Marbas e a luz luciferiana
Dentro da filosofia do Templo, Lúcifer é associado à luz enquanto símbolo de conhecimento e consciência.
Marbas pode ser integrado a essa leitura não como “entidade que cura pela luz”, porque isso criaria uma afirmação que as fontes e a medicina não sustentam.
Uma formulação mais rigorosa seria:
Marbas pode simbolizar a aplicação da luz do conhecimento sobre aquilo que ainda não compreendemos.
O oculto é investigado.
O mecanismo é estudado.
A falha é localizada.
A estrutura é modificada.
Nesse sentido, sua contribuição simbólica não está em prometer respostas mágicas.
Está em exigir compreensão antes da transformação.
Conclusão
Marbas oferece um dos perfis mais densos entre os primeiros espíritos da Ars Goetia.
É documentado antes dela, na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, onde ocupa a terceira posição sob os nomes Marbas e Barbas.
Com a reorganização posterior do catálogo, torna-se o quinto espírito da Ars Goetia.
Seu título permanece Grande Presidente.
A forma do leão permanece.
A transformação para forma humana permanece.
As 36 legiões permanecem.
Seu conhecimento de coisas ocultas permanece.
Sua relação com doença e cura permanece.
As artes mecânicas permanecem.
E sua capacidade de mudar formas permanece.
Isso nos oferece um núcleo histórico excepcionalmente consistente.
Ao redor desse núcleo, séculos posteriores acrescentaram novas camadas:
iconografia;
correspondências astrológicas;
Tarô;
metais;
cores;
plantas;
Shem HaMephorash;
Demonolatria;
Luciferianismo;
e experiências pessoais de praticantes.
Essas camadas podem ser estudadas.
Não precisam ser descartadas.
Mas devem ser datadas e identificadas.
Marbas não precisa ser transformado em antigo deus desconhecido.
Não precisa possuir uma falsa etimologia.
Não precisa receber poderes tecnológicos que Weyer nunca mencionou.
E, principalmente, não precisa ser apresentado como substituto sobrenatural da medicina para que sua figura permaneça interessante.
A tradição já nos oferece algo suficientemente profundo.
Um espírito associado ao conhecimento do oculto.
À compreensão de técnicas e ofícios.
À sabedoria.
À transformação.
E ao estranho paradoxo de causar e remover a doença dentro da cosmologia do grimório.
Dentro da leitura contemporânea do Templo de Lúcifer, esse conjunto pode ser resumido numa disciplina muito concreta:
compreender antes de transformar.
Quando algo está oculto, investigue.
Quando um sistema falha, descubra seu funcionamento.
Quando precisar mudar alguma coisa, conheça primeiro a estrutura que pretende alterar.
Quando uma questão ultrapassar seu campo de conhecimento, procure quem realmente possui competência para tratá-la.
E quando uma tradição afirma algo extraordinário, pergunte novamente:
o que a fonte realmente diz?
Nesse sentido, Marbas pode representar não uma promessa de cura ou poder, mas uma forma exigente de inteligência aplicada:
aquela que não se contenta em olhar para a superfície, mas também não inventa aquilo que acredita existir por baixo dela.
Leituras relacionadas
Para compreender a organização geral do catálogo, consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.
Leia também Gamigin ou Samigina: história, origem e tradição do 4º espírito da Ars Goetia, cuja posição imediatamente anterior também demonstra a reorganização entre Weyer e o Lemegeton.
Consulte Bael: história, origem e tradição do 1º espírito da Ars Goetia e Agares: história, origem e tradição do 2º espírito da Ars Goetia para acompanhar a sequência anterior da Pseudomonarchia.
Para compreender a hierarquia alternativa em que Marbas aparece sob Lucifuge, leia Lucifuge Rofocale: origem, Grand Grimoire, história e significado.
Referências e leituras para aprofundamento
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Marbas, também chamado Barbas, aparece como terceiro espírito e Grande Presidente, manifestando-se inicialmente como poderoso leão e posteriormente em forma humana. A fonte atribui-lhe conhecimento de coisas ocultas, doença e cura, sabedoria, artes mecânicas, metamorfose e 36 legiões.
SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Sua tradução inglesa preserva grande parte da descrição de Marbas transmitida por Weyer e constitui etapa importante na genealogia textual da posterior Ars Goetia.
PETERSON, Joseph H. (ed.). Lemegeton Clavicula Salomonis — The Lesser Key of Solomon. Edição comparativa fundamental para verificar Marbas como quinto espírito da Ars Goetia, sua correspondência com o terceiro espírito de Weyer, variantes manuscritas e o selo goético.
MATHERS, S. L. MacGregor; CROWLEY, Aleister. The Book of the Goetia of Solomon the King. 1904. Edição de grande influência na recepção moderna dos 72 espíritos.
COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed. Paris, 1863. Preserva Marbas ou Barbas como Grande Presidente, na forma inicial de leão e relacionado a assuntos ocultos, doenças, artes mecânicas, metamorfose e trinta e seis legiões.
LE GRAND GRIMOIRE. Tradição francesa de grimórios na qual Marbas aparece, juntamente com Bael e Agares, entre os espíritos subordinados a Lucifuge Rofocale.
BURGON, Anya Erica Jane. The Mechanical Arts and Poiesis in the Philosophy and Literature of the Twelfth-Century Schools. University of Cambridge. Estudo sobre a história intelectual das artes mechanicae e sua relação com conhecimento produtivo e técnico.
SALVESTRINI, Amalia. “Arti liberali e meccaniche secondo Ugo di san Vittore”. Firenze University Press, 2024. Estudo sobre a classificação das artes mecânicas e sua posição dentro da filosofia medieval.
DAVIES, Owen. Grimoires: A History of Magic Books. Oxford University Press, 2009. Referência ampla sobre a circulação, transformação e utilização histórica da literatura de grimórios.
TEMPLO DE LÚCIFER. Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.
TEMPLO DE LÚCIFER. Gamigin ou Samigina: história, origem e tradição do 4º espírito da Ars Goetia.
TEMPLO DE LÚCIFER. Lucifuge Rofocale: origem, Grand Grimoire, história e significado.