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Luciferianismo, História e Filosofia

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Home/Biblioteca/Demonologia/72 Daemons da Ars Goetia/Beleth, Bileth ou Byleth: história, origem e tradição do 13º espírito da Ars Goetia
Templo de Lúcifer Belet
72 Daemons da Ars Goetia

Beleth, Bileth ou Byleth: história, origem e tradição do 13º espírito da Ars Goetia

By Emrys
abril 12, 2026
0

Beleth, Bileth ou Byleth: história, origem e tradição do 13º espírito da Ars Goetia

Beleth, também registrado como Bileth, Byleth e Bilet, ocupa a décima terceira posição na Ars Goetia e é apresentado como um poderoso e terrível Rei.

Sua chegada é uma das mais elaboradas de todo o catálogo.

Beleth aparece montado sobre um cavalo pálido enquanto trombetas e outros instrumentos musicais soam diante dele. Sua primeira manifestação é descrita como furiosa, e a tradição dedica uma quantidade incomum de texto à maneira como o operador deveria recebê-lo, demonstrar autoridade e, ao mesmo tempo, reconhecer sua dignidade real.

Seu principal ofício na pequena entrada da Ars Goetia é relacionado ao amor entre homens e mulheres. Também lhe são atribuídas 85 legiões, e o texto afirma que ele pertenceu à ordem angelical das Potestades ou Powers.

Esse perfil já seria suficiente para transformar Beleth numa das figuras mais marcantes dos 72.

Mas sua história documental é ainda mais interessante.

Antes de ocupar a posição nº 13 na Ars Goetia, Byleth aparece como nº 20 na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer. E existem testemunhos ainda anteriores: um manuscrito florentino do século XV preserva uma obra chamada Liber Bileth, na qual Bileth já é qualificado como rex, “rei”. Jean-Patrice Boudet chama atenção explicitamente para esse testemunho ao discutir os antecedentes medievais dos catálogos demonológicos renascentistas.

Isso significa que Beleth não começa na Ars Goetia.

Também não começa necessariamente em Weyer.

Estamos diante de uma figura cuja tradição pode ser recuada para a magia ritual do final da Idade Média.

E, como veremos, essa tradição é muito mais complexa que a simples fórmula moderna:

“Beleth é o demônio do amor.”

Quem é Beleth na Ars Goetia?

Na Ars Goetia, Beleth é o 13º espírito.

Recebe o título de Grande Rei.

Manifesta-se montado num cavalo pálido, precedido por trombetas e outros instrumentos musicais.

Sua primeira aparição é apresentada como extremamente furiosa.

A entrada dedica uma longa passagem à relação ritual entre Beleth e o operador, envolvendo demonstração de coragem, reconhecimento de sua posição régia e elementos cerimoniais específicos.

Depois disso, a descrição resume seu principal ofício:

Beleth provoca ou proporciona aquilo que o texto chama de todo amor possível entre homens e mulheres, até que a intenção do operador seja satisfeita.

Também afirma que pertenceu à ordem das Powers/Potestades e governa 85 legiões de espíritos.

Esse é o núcleo da entrada goética.

Tudo aquilo que vem depois — planeta, signo, elemento, carta do Tarô, cor, incenso, “enn”, gênero moderno, psicologia detalhada ou títulos como “Rei da Paixão” — precisa ser identificado segundo a tradição que criou essas correspondências.

Beleth antes da Ars Goetia

Johann Weyer registra a figura sob as formas Byleth e Bileth na Pseudomonarchia Daemonum.

Em Weyer, porém, ele não é nº 13.

É nº 20.

Peterson registra diretamente a correspondência:

Weyer nº 20: Byleth/Bileth.

Ars Goetia nº 13: Beleth.

Isso confirma novamente um padrão que estamos acompanhando desde os primeiros artigos desta biblioteca:

os números dos espíritos mudaram durante a transmissão.

Portanto, a posição 13 não é uma característica eterna de Beleth.

É sua posição na organização específica da Ars Goetia.

Uma tradição numerológica contemporânea pode construir interpretações a partir do número treze.

Historicamente, porém, Byleth já ocupava outra posição.

Bileth no século XV: o Liber Bileth

Aqui encontramos uma informação particularmente importante.

O manuscrito Florence, Biblioteca Nazionale Centrale, II.III.214, datado do século XV, contém uma obra denominada Liber Bileth. O catálogo do manuscrito registra o texto nos fólios finais do códice, após diversos tratados de magia astral, salomônica e hermética.

Jean-Patrice Boudet chama atenção para esse mesmo Liber Bileth e observa que Bileth aparece nele qualificado como rex, “rei”.

Isso é extremamente relevante.

A dignidade real de Bileth, portanto, não surgiu simplesmente quando Weyer publicou a Pseudomonarchia no século XVI.

Já encontramos um Bileth-Rei numa tradição manuscrita do século XV.

Isso significa que o Liber Bileth é exatamente a origem da entrada da Goetia?

Não podemos fazer essa afirmação de maneira automática.

Possuímos uma proximidade nominal muito forte.

Temos a dignidade régia.

Temos uma tradição mágica que claramente antecede Weyer.

E Boudet trata o Liber Bileth como material relevante para compreender esses catálogos demonológicos.

Mas a transmissão medieval é complexa.

Não possuímos necessariamente uma única linha simples:

Liber Bileth → Weyer → Scot → Ars Goetia.

Textos circulavam em versões diferentes.

Materiais eram copiados.

Traduzidos.

Fundidos.

Reorganizados.

Portanto, a formulação mais rigorosa é:

o Liber Bileth demonstra que uma figura demonológica chamada Bileth e classificada como rei já circulava no século XV, constituindo um antecedente importante para a tradição posteriormente representada por Byleth/Beleth.

Isso é historicamente muito mais sólido que começar sua história em 1577.

Beleth, Bileth, Byleth ou Bilet?

As variantes são numerosas, mas relacionadas.

Weyer utiliza:

Byleth

e

Bileth.

A tradição manuscrita do Lemegeton preserva principalmente:

Beleth,

mas também encontramos:

Bileth

e

Bilet.

Peterson registra ainda Bileth em Coxe 25 e no manuscrito Folger, além de Byleth em outro testemunho.

Portanto, não existe razão histórica suficiente para transformar cada grafia numa entidade diferente.

São variantes pertencentes à tradição textual do mesmo personagem.

A etimologia de Beleth

A origem linguística do nome permanece problemática.

É tentador aproximá-lo de:

Bel;

Baal;

Bêlit;

Lilith;

ou formas semelhantes encontradas em línguas e religiões antigas.

Mas semelhança sonora não estabelece genealogia.

A existência das formas medievais Bileth e de tradições relacionadas como o Liber Bileth demonstra que o nome possui uma história própria dentro da magia ritual europeia.

Além disso, o próprio Liber Bileth pertence a um ambiente de circulação cultural particularmente complexo, no qual elementos árabes, judaicos e cristãos se cruzaram. Estudos sobre essa tradição mostram justamente essa mistura de materiais.

Por isso, eu não recomendaria uma frase como:

“Beleth significa senhor”

ou:

“Beleth vem definitivamente de Baal.”

A posição mais segura continua sendo:

a etimologia exata de Beleth permanece incerta.

Beleth é Lilith?

Essa identificação merece uma seção específica porque ela aparece em determinados estudos e conteúdos modernos.

Richard Kieckhefer aproximou Byleth de Lilith ao examinar algumas tradições manuscritas.

Jean-Patrice Boudet, porém, discorda explicitamente dessa identificação e afirma considerar que estamos diante de dois demônios diferentes. Como argumento adicional, destaca justamente a existência do Liber Bileth, no qual Bileth aparece como rei.

Isso é importante porque demonstra como uma semelhança gráfica pode induzir a fusões.

Byleth.

Lilith.

Os nomes possuem alguma aproximação visual em determinados manuscritos e transliterações.

Mas isso não basta para declarar identidade.

Portanto:

Beleth não deve ser identificado com Lilith como fato estabelecido.

Existe uma história acadêmica de comparação, mas Boudet rejeita a fusão e oferece boas razões para tratá-los separadamente.

Beleth é Baal?

A mesma cautela se aplica.

A proximidade entre:

Bel;

Baal;

Beleth

pode estimular comparações.

Mas não possuímos evidência suficiente para dizer que o Beleth da tradição demonológica seja simplesmente uma antiga divindade Baal transformada em demônio.

“Baal” era originalmente um título semítico que significa “senhor” e foi aplicado a diferentes divindades e figuras.

A simples semelhança de nomes não determina qual delas, se alguma, estaria por trás de Beleth.

Portanto, uma página histórica não deveria declarar:

“Beleth era originalmente o deus Baal.”

Seria mais do que a documentação permite.

Byleth em Johann Weyer

A entrada de Weyer é extraordinariamente detalhada.

Byleth é apresentado como:

Grande e Terrível Rei.

Monta um cavalo pálido.

É precedido por trombetas e por diferentes formas de música.

Surge inicialmente inflamado por ira e furor.

A relação entre espírito e operador é apresentada como uma disputa ritual de autoridade.

O operador não deveria demonstrar medo, mas também deveria receber Byleth com cortesia e reconhecer sua dignidade régia.

Weyer acrescenta finalmente que Byleth possui domínio relacionado ao amor entre homens e mulheres, pertenceu à ordem das Potestades e governa 85 legiões.

Grande parte dessa entrada será posteriormente incorporada ao Lemegeton.

O cavalo pálido

A imagem é extremamente estável.

Weyer utiliza equo pallido:

cavalo pálido.

A Ars Goetia mantém a mesma característica.

Portanto, a montaria de Beleth pertence ao núcleo antigo da tradição, e não à iconografia moderna.

Collin de Plancy, no século XIX, muda ligeiramente a descrição para um cavalo branco.

Essa pequena alteração é um ótimo exemplo de como imagens podem se deslocar ao longo da recepção.

Pálido não é exatamente o mesmo que branco.

Beleth é o cavaleiro da Morte do Apocalipse?

A imagem de um cavalo pálido naturalmente pode lembrar o famoso cavalo associado à Morte no livro do Apocalipse.

Mas isso não demonstra identidade.

Weyer não chama Byleth de Cavaleiro do Apocalipse.

A Ars Goetia também não.

A semelhança visual pode inspirar uma comparação moderna.

Não deve ser transformada em genealogia sem documentação.

Trombetas e música

Beleth possui uma das entradas mais musicais de todo o catálogo.

Antes dele vêm:

trombetas;

e diferentes tipos de instrumentos musicais.

Weyer já registra essa procissão.

A Goetia mantém.

Portanto, a música faz parte da figura séculos antes das interpretações demonolátricas contemporâneas.

Mas a fonte não explica simbolicamente essa música.

Não afirma que represente:

frequências espirituais;

vibrações;

chakras;

ressonância quântica;

ou conceitos semelhantes.

A tradição simplesmente descreve uma entrada régia e sonora.

A música como procissão real

A interpretação mais simples dentro do contexto histórico é também a mais prudente.

Reis chegam acompanhados.

Há anúncio.

Cerimônia.

Cortejo.

Som.

A própria entrada enfatiza constantemente a dignidade real de Beleth.

Portanto, é razoável compreender a música como parte de sua representação régia.

Isso não exige qualquer pseudociência.

Beleth aparece furioso

Essa é uma característica fundamental.

Weyer afirma que Byleth aparece inflamado de ira e furor.

Scot preserva.

A Goetia preserva.

A tradição posterior repete.

Mas precisamos ter cuidado ao interpretar o motivo.

Sites contemporâneos frequentemente escrevem:

“Beleth finge raiva para testar a coragem do magista.”

A ideia é plausível porque Weyer diz que ele aparece dessa maneira “para enganar” ou intimidar.

Mas transformar isso numa personalidade psicológica fixa — “Beleth sempre testa iniciados” — já é uma interpretação.

Historicamente, sabemos apenas que a cena ritual descreve sua primeira manifestação como furiosa e potencialmente enganadora.

A entrada de Beleth é uma das mais ritualizadas da Goetia

A maioria dos 72 recebe uma descrição relativamente curta.

Nome.

Título.

Forma.

Ofícios.

Legiões.

Selo.

Beleth é diferente.

Sua entrada dedica grande espaço à etiqueta ritual.

A vara de aveleira.

O triângulo fora do círculo.

As fórmulas de constrangimento.

A demonstração de firmeza.

A recepção cortês.

O reconhecimento de sua dignidade.

O anel de prata apresentado diante do rosto.

Esses elementos aparecem em grande parte já em Weyer e são preservados pela Ars Goetia.

Isso torna Beleth uma das melhores figuras para compreender que a Goetia não é apenas um catálogo de “poderes”.

É também literatura ritual.

O artigo precisa virar um manual de evocação?

Não.

Uma página histórica consegue explicar que esses elementos existem sem transformar a seção numa receita operacional.

O ponto mais interessante não é ensinar ao leitor como executar cada gesto.

É compreender aquilo que esses gestos revelam sobre a mentalidade do texto.

O operador deve, ao mesmo tempo:

afirmar autoridade;

controlar medo;

reconhecer hierarquia;

e seguir uma etiqueta específica diante de um Rei.

Essa combinação mostra uma relação muito mais complexa que simplesmente “mandar num demônio”.

Poder e protocolo

A cena de Beleth pode ser interpretada como um problema de autoridade ritual.

O texto exige firmeza.

Mas também cortesia.

Constrangimento.

Mas também homenagem.

Uma pessoa que demonstra medo perderia autoridade.

Uma pessoa que ignora a posição de Beleth também violaria o protocolo.

Essa tensão é bastante interessante.

Dentro da própria cosmologia do grimório:

autoridade não elimina protocolo.

O anel de prata

A Goetia manda manter um anel de prata no dedo médio da mão esquerda diante do rosto, comparando o procedimento ao utilizado diante de Amaymon.

Em edições posteriores, surgem explicações adicionais para a função desse anel.

O importante para nosso artigo histórico é registrar:

o anel pertence à etiqueta ritual da tradição goética.

Não precisamos transformá-lo automaticamente numa correspondência astrológica lunar ou afirmar que sua prata representa uma determinada energia sem outra fonte.

A vara de aveleira

A vara de aveleira também está presente em Weyer.

Ela participa da cena de constrangimento e posicionamento ritual de Byleth.

Isso não significa que “aveleira seja a planta sagrada de Beleth” no sentido de uma correspondência botânica universal.

Uma coisa é um instrumento aparecer num procedimento.

Outra é concluir que a planta representa eternamente a essência do espírito.

Essas duas ideias precisam permanecer separadas.

A taça de vinho

Weyer acrescenta outra curiosidade.

Quando o local não permite a disposição ritual desejada, sua entrada menciona um recipiente cheio de vinho dentro da cena cerimonial. Scot preserva a passagem.

Collin de Plancy repete posteriormente a tradição, chegando a afirmar que Byleth serviria mais voluntariamente aquele que o recebesse dessa forma.

Isso demonstra novamente como elementos operativos são preservados e reinterpretados ao longo dos séculos.

Receber um Rei

Um dos detalhes mais interessantes é a insistência em receber Beleth com cortesia.

A entrada não permite uma postura única de hostilidade.

Depois do confronto inicial, o operador deve reconhecer que está diante de um grande Rei e tratá-lo conforme essa dignidade.

Esse aspecto geralmente desaparece nas fichas modernas.

Elas reduzem tudo a:

“Beleth = amor.”

Mas a maior parte do texto histórico está dedicada à relação entre autoridade e respeito.

Beleth e o amor

Finalmente chegamos ao atributo pelo qual ele se tornou mais conhecido.

A Ars Goetia afirma que Beleth causa todo o amor possível entre homens e mulheres até que a intenção do operador seja satisfeita.

Weyer também preserva o eixo do amor.

Portanto, não estamos diante de uma atribuição moderna.

Ela pertence genuinamente ao núcleo da tradição.

O problema começa quando transformamos isso em slogans contemporâneos:

“faz qualquer pessoa se apaixonar”;

“traz seu ex em 24 horas”;

“domina quem você quiser”;

“amor garantido”.

Nada disso é demonstrado historicamente ou empiricamente pela existência do texto.

Amor, atração e coerção

A linguagem do grimório não foi escrita segundo conceitos contemporâneos de consentimento e autonomia relacional.

Isso precisa ser reconhecido.

A fonte descreve influência sobre o amor alheio de forma instrumental.

Registrar isso é história.

Reproduzir a mesma ética hoje é outra questão.

Dentro de uma interpretação luciferiana contemporânea que valoriza soberania pessoal, existe uma tensão evidente:

se minha vontade merece autonomia, a vontade do outro também merece.

Beleth não deve virar ferramenta de “amarração”

Uma página séria não deveria transformar a entrada numa promessa comercial.

Especialmente não em:

“obrigue alguém a amar você.”

“quebre a resistência.”

“prenda uma pessoa para sempre.”

Mesmo que alguém interprete espiritualmente os poderes de Beleth de maneira literal, uma filosofia moderna precisa lidar com consentimento.

Amor imposto deixa de possuir grande parte das características que tornam uma relação significativa:

reciprocidade;

escolha;

confiança;

e liberdade.

O amor como experiência versus posse

Essa distinção oferece uma interpretação contemporânea muito melhor.

É possível desejar amor.

É possível querer intimidade.

É possível sentir paixão.

Mas existe diferença entre:

querer uma relação

e

querer possuir uma pessoa.

Beleth pode ser utilizado simbolicamente para investigar essa fronteira.

Não precisamos negar a intensidade do desejo.

Precisamos perguntar o que fazemos com ela.

Amor não é apenas emoção

Outra leitura importante é reconhecer que amor não se sustenta exclusivamente através de intensidade.

Uma relação pode começar com atração extrema.

Sem:

respeito;

comunicação;

compatibilidade;

limites;

e confiança,

a intensidade pode não ser suficiente.

Nesse sentido, o “todo amor possível” do grimório pode ser reinterpretado contemporaneamente não como garantia de vínculo, mas como oportunidade de refletir sobre a diferença entre:

sentir muito

e

construir algo que possa durar.

Beleth e a ordem das Potestades

A tradição de Weyer afirma explicitamente que Byleth pertenceu à ordem das Potestades, Potestates.

A Ars Goetia preserva essa classificação como Order of Powers.

Essa é uma atribuição histórica legítima.

Portanto, diferentemente de espíritos cujas antigas ordens angelicais são inteiramente acrescentadas por autores modernos, no caso de Beleth a associação está documentada.

O que não devemos fazer é criar automaticamente toda uma biografia celestial a partir dessa única informação.

O que são as Potestades?

Na angelologia cristã medieval, as Potestades ou Powers fazem parte das hierarquias angelicais desenvolvidas a partir da tradição pseudo-dionisiana e de outras sistematizações cristãs.

A demonologia posterior frequentemente apresenta espíritos caídos como antigos membros dessas ordens.

No caso de Beleth, a associação textual é explícita.

Mas a entrada não nos diz:

qual era seu antigo nome celestial;

qual função específica possuía;

quando caiu;

ou exatamente por que caiu.

Essas lacunas não deveriam ser preenchidas sem fonte.

Beleth espera retornar ao “sétimo trono”

Weyer preserva ainda uma afirmação extraordinária.

Byleth seria da ordem das Potestades e esperaria retornar ao sétimo trono.

Mas a frase possui algo ainda mais importante:

Weyer imediatamente acrescenta que isso é pouco crível.

Scot traduz:

“which is not altogether credible.”

Ou seja, a própria fonte não apresenta a afirmação sem reservas.

Isso é extremamente valioso.

A própria Pseudomonarchia duvida da tradição

Esse detalhe deve permanecer no artigo porque demonstra que textos antigos não são internamente uniformes.

Weyer não copia tudo com o mesmo grau de aceitação.

Ele transmite determinada tradição e, em seguida, expressa dúvida.

Portanto, seria incorreto escrever:

“Beleth definitivamente retornará ao sétimo trono.”

A própria fonte que preserva a história considera-a pouco convincente.

A formulação correta é:

“Weyer registra uma tradição segundo a qual Byleth esperaria retornar ao sétimo trono, mas ele próprio demonstra ceticismo em relação a essa afirmação.”

O que é o “sétimo trono”?

A passagem não fornece uma explicação suficiente.

Também não devemos confundir automaticamente “sétimo trono” com a ordem angelical dos Tronos.

Byleth é explicitamente classificado como Potestade/Pouvoir.

A expressão pode estar relacionada a uma posição, assento ou condição celeste dentro de outra construção hierárquica.

Sem documentação adicional, transformar “sétimo trono” numa elaborada cartografia do céu seria especulativo.

Beleth era um anjo caído?

Dentro da própria cosmologia demonológica de Weyer, a associação às Potestades cria claramente uma origem angelológica.

Portanto, podemos afirmar:

a tradição apresenta Byleth como antigo membro da ordem das Potestades.

Isso é diferente de afirmar que sabemos toda a narrativa individual de sua queda.

A segunda afirmação ultrapassaria a fonte.

Beleth e o vaso dos 72 reis

Existe ainda um detalhe extraordinário fora de sua própria entrada.

Na descrição de Belial, Weyer preserva uma narrativa segundo a qual Salomão teria reunido espíritos e suas legiões num grande recipiente.

A passagem fala de 72 reis e afirma:

Bileth era o primeiro, Belial o segundo e Asmoday o terceiro.

Essa informação merece destaque porque oferece uma tradição na qual Bileth ocupa uma posição excepcional.

Mas precisa ser lida com cuidado.

Beleth é, então, o chefe dos 72 espíritos?

Não podemos simplificar dessa maneira.

A passagem diz que, entre 72 reis aprisionados naquela narrativa, Bileth era o primeiro.

Isso não significa automaticamente que a Ars Goetia posterior apresente Beleth como comandante supremo de todos os seus 72 espíritos.

A organização da Goetia não faz essa afirmação na entrada nº 13.

Estamos diante de outra tradição inserida por Weyer em um contexto narrativo diferente.

Por isso, uma formulação profissional seria:

“Weyer preserva ainda uma narrativa em que Bileth é apresentado como o primeiro entre 72 reis confinados por Salomão, mas isso não equivale a uma declaração goética universal de que Beleth comanda todos os 72 espíritos.”

O vaso era de bronze?

Aqui existe ainda uma curiosidade textual.

A tradução inglesa de Scot fala em recipiente de bronze.

Peterson observa que o latim de Weyer é vase vitreo, isto é, recipiente de vidro, e registra testemunho semelhante em Coxe 25.

Esse detalhe não pertence diretamente ao perfil de Beleth, mas é um excelente exemplo de como traduções posteriores podem alterar imagens que depois se tornam “tradicionais”.

Cham, filho de Noé, e a “Arte de Bileth”

Weyer preserva outra narrativa extraordinária na seção relacionada a Gaap.

Segundo esse relato, certos necromantes atribuíam determinada arte a Salomão.

Weyer rejeita essa atribuição e diz que teria sido Cham, filho de Noé, quem primeiro invocou Bileth depois do Dilúvio e compôs uma arte e um livro em seu nome.

É importante compreender o estatuto dessa informação.

Isso é uma tradição lendária transmitida por Weyer.

Não documentação histórica de que o personagem bíblico Cam realmente escreveu um grimório.

A lenda coincide com a existência do Liber Bileth?

A comparação é irresistível.

Weyer fala de uma antiga arte ou livro de Bileth.

Séculos antes da impressão de sua obra, existe de fato um manuscrito contendo um Liber Bileth.

Isso demonstra que livros ou tradições mágicas com esse nome realmente circulavam antes de Weyer.

Mas não podemos dar um salto e concluir:

“Este manuscrito é o livro escrito por Cam depois do Dilúvio.”

Isso seria história transformada em lenda.

O que podemos afirmar é muito mais interessante:

a referência de Weyer a uma “arte de Bileth” não ocorre num vazio; uma tradição manuscrita medieval chamada Liber Bileth realmente existiu.

O Liber Bileth e a circulação intercultural da magia

Estudos modernos mostram que o Liber Bileth pertence a um ambiente no qual materiais mágicos árabes, judaicos e cristãos se encontraram e foram reelaborados.

Boudet estudou precisamente esse caráter intercultural da obra na Florença do Quattrocento. Pesquisas posteriores sobre a tradição também identificam versões e materiais hebraicos relacionados a Bilar/Bilad/Bilid.

Isso significa que a origem de Beleth provavelmente é muito mais complexa do que uma resposta simples do tipo:

“era originalmente o deus X”.

A tradição pode ter passado por múltiplos ambientes linguísticos e religiosos.

Beleth e Bilar são a mesma figura?

Também não devemos afirmar isso de forma automática.

Existem tradições relacionadas ao Liber Bileth e formas como Bilar/Bilid em materiais judaico-arábicos estudados por Scholem e pesquisadores posteriores.

A relação histórica é relevante.

Mas transformar todos esses nomes em uma entidade única sem estudar cuidadosamente os manuscritos eliminaria justamente a complexidade do problema.

Por isso, no artigo-base, eu mencionaria essa tradição como contexto para a possível genealogia do nome, não como identidade concluída.

O selo de Beleth

A Ars Goetia associa ao décimo terceiro espírito um selo próprio.

Esse símbolo tornou-se hoje uma das formas mais reconhecíveis de Beleth.

Mas sua história precisa ser posicionada corretamente.

Bileth já aparece como Rei no século XV.

Weyer registra Byleth no século XVI.

Essas tradições antecedem a conhecida série de selos do Lemegeton.

Portanto:

o personagem Beleth/Bileth é documentalmente anterior ao selo goético atualmente utilizado para representá-lo.

O selo não é prova de uma religião antiga

Não existe fundamento suficiente para chamar o selo de Beleth de:

símbolo cananeu;

sigilo de Baal;

símbolo de Lilith;

marca medieval de uma antiga religião pagã;

ou desenho realizado pelo Salomão histórico.

Ele pertence à tradição manuscrita da magia salomônica posterior.

Isso já lhe confere importância histórica.

Não precisamos atribuir-lhe uma antiguidade não demonstrada.

Oitenta e cinco legiões

Weyer atribui a Byleth 85 legiões.

A Ars Goetia mantém 85.

Esse é, portanto, um elemento extremamente estável da tradição.

Curiosamente, Collin de Plancy registra 80 legiões no Dictionnaire Infernal de 1863.

Isso oferece mais um exemplo de como uma fonte posterior pode preservar quase toda a estrutura de uma entrada e ainda assim modificar um detalhe numérico.

Para a ficha da Ars Goetia, o número correto é:

85 legiões.

Na seção histórica, vale registrar a variante de 80 em Collin de Plancy.

Collin de Plancy e Byleth

O Dictionnaire Infernal preserva um Byleth extremamente reconhecível.

Ele continua:

Rei;

terrível;

montado a cavalo;

precedido por instrumentos;

difícil de controlar;

associado a etiqueta ritual;

ligado às antigas Potestades;

e relacionado à expectativa do “sétimo trono”.

Mas existem mudanças.

O cavalo torna-se branco.

O número passa para 80 legiões.

E Collin de Plancy amplia literariamente determinados aspectos da recepção.

Essa é uma camada do século XIX.

Não a descrição original de Weyer.

A imagem de Louis Le Breton

Beleth também recebeu representação na célebre iconografia associada à edição de 1863 do Dictionnaire Infernal.

Como nos demais artigos, é importante diferenciar:

descrição textual do século XVI

de

representação artística do século XIX.

Uma gravura de Louis Le Breton pode ser historicamente importantíssima.

Não significa que seja “retrato original” produzido por Weyer ou pelos manuscritos medievais.

Beleth e a cultura moderna

Atualmente, Beleth recebe diversas características em sistemas contemporâneos:

gênero feminino em algumas correntes;

Sol ou Mercúrio como planeta;

Fogo ou Ar como elemento;

Gêmeos ou outros setores zodiacais;

cartas específicas do Tarô;

cores;

incensos;

plantas;

“enns”;

e descrições detalhadas de personalidade.

Esses sistemas frequentemente discordam entre si.

Por exemplo, páginas demonolátricas modernas apresentam combinações completamente diferentes de planeta, elemento, carta e gênero.

Isso demonstra por que essas correspondências não devem ser misturadas com Weyer e a Goetia numa única ficha sem atribuição.

Beleth é masculino ou feminino?

As principais fontes históricas aqui estudadas utilizam linguagem masculina e classificam Beleth como Rei.

Algumas correntes demonolátricas modernas descrevem Beleth como feminino.

Essas experiências podem ter significado religioso para seus praticantes.

Não devem ser retroprojetadas sobre Weyer como se o texto do século XVI dissesse:

“Byleth é uma Rainha.”

Historicamente:

Rei.

Contemporaneamente:

existem interpretações diferentes.

Beleth e Iezalel

Em sistemas posteriores associados a Thomas Rudd, os 72 espíritos da Goetia foram relacionados aos 72 anjos do Shem HaMephorash.

Beleth nº 13 é pareado nesse arranjo com Iezalel/Yezalel, conforme a transliteração utilizada.

Essa relação pertence à sistematização posterior.

Não aparece na entrada original de Weyer.

Por isso, a formulação correta é:

“No sistema associado a Thomas Rudd, Beleth é colocado em oposição ou correspondência com Iezalel.”

Não:

“Iezalel é o anjo original de Beleth.”

Beleth possui relação explícita com Lúcifer?

Não da mesma maneira que Paimon.

A entrada fundamental de Byleth em Weyer não diz que ele seja especialmente obediente a Lúcifer.

Sua antiga ordem é mencionada.

Sua posição régia é enfatizada.

Mas uma relação individual particular com Lúcifer não constitui o núcleo da descrição.

Portanto, uma corrente luciferiana moderna pode incorporar Beleth.

Não precisa inventar uma relação textual que não está presente.

Beleth é originalmente luciferiano?

Não no sentido religioso contemporâneo.

O Liber Bileth, Weyer e o Lemegeton pertencem a contextos diferentes do Luciferianismo moderno.

Dentro do Templo, Beleth pode receber uma interpretação contemporânea luciferiana.

Isso deve ser apresentado exatamente dessa forma:

interpretação contemporânea.

Não religião antiga reconstruída.

Beleth e o tema da autoridade

Aqui começa uma das leituras filosóficas mais fortes para o Templo.

A entrada de Beleth dedica enorme atenção à autoridade.

Ele aparece furioso.

O operador não deve ceder ao medo.

Ao mesmo tempo, precisa reconhecer sua dignidade.

Não basta força.

Não basta reverência.

Existe tensão entre:

firmeza;

protocolo;

respeito;

e vontade.

Dentro de uma leitura contemporânea, Beleth pode representar autoridade que não depende de submissão psicológica ao medo.

Essa interpretação é nossa.

Coragem não é ausência de medo

O texto insiste que demonstrar medo compromete a relação ritual com Byleth.

Podemos transformar isso numa reflexão mais madura.

Coragem não exige ausência completa de medo.

Exige capacidade de agir conscientemente mesmo quando existe pressão.

Uma pessoa pode sentir:

insegurança;

ansiedade;

receio;

e ainda manter limite e decisão.

Isso é diferente de fingir que nada a afeta.

Beleth e soberania diante do desejo

O segundo grande eixo é o amor.

E existe uma ligação interessante entre os dois temas.

Desejo intenso frequentemente reduz nossa autoridade sobre nós mesmos.

Uma pessoa pode agir contra seus próprios princípios por medo de perder alguém.

Pode tolerar manipulação.

Humilhação.

Dependência.

Pode abandonar limites apenas para preservar um vínculo.

Dentro dessa leitura, Beleth reúne duas perguntas:

como manter soberania diante de uma força que desperta medo?

e

como manter soberania diante de uma força que desperta desejo?

Medo e desejo possuem algo em comum

Ambos podem dominar atenção.

Quando estamos aterrorizados, tudo gira em torno da ameaça.

Quando estamos apaixonados de maneira obsessiva, tudo pode girar em torno do objeto de desejo.

Nos dois casos, capacidade de julgamento pode diminuir.

Isso torna Beleth simbolicamente muito mais interessante que simplesmente “Rei do Amor”.

Ele pode representar aquilo que acontece quando emoções extremamente intensas pressionam nossa capacidade de decidir.

Amor não deveria destruir soberania

Uma relação saudável exige abertura.

E abertura traz vulnerabilidade.

Mas vulnerabilidade não precisa significar perda completa de autonomia.

Dentro da filosofia do Templo:

amar alguém não exige deixar de possuir limites.

Não exige abrir mão de pensamento.

Não exige aceitar violência.

Não exige transformar o outro em centro absoluto de toda identidade.

Essa leitura permite trabalhar o tema de Beleth sem romantizar dependência.

Beleth como teste de dignidade

A insistência do texto em reconhecer sua realeza também permite outro simbolismo.

Dignidade não é arrogância.

Uma pessoa digna não precisa humilhar os outros para demonstrar força.

Também não precisa diminuir-se para receber aprovação.

Esse equilíbrio é difícil.

Dentro da interpretação do Templo, Beleth pode representar presença soberana:

nem submissão;

nem necessidade compulsiva de dominar.

Respeito não é submissão

Esse princípio aparece de maneira curiosamente adequada na própria entrada.

O operador reconhece Beleth como Rei.

Mas não abandona sua posição.

Cortesia e autoridade existem simultaneamente.

Isso oferece uma reflexão moderna útil:

é possível respeitar alguém sem entregar a própria vontade.

É possível discordar sem desumanizar.

É possível reconhecer autoridade sem transformá-la em infalibilidade.

Autoridade que exige medo é frágil

Uma liderança que só consegue existir quando todos têm medo demonstra uma forma limitada de poder.

Da mesma maneira, alguém que precisa destruir a dignidade dos outros para sentir-se forte depende constantemente dessa destruição.

Uma leitura contemporânea de Beleth pode separar:

autoridade

de

intimidação.

O grimório apresenta ambas na mesma cena.

Isso nos permite examiná-las.

Amor e reciprocidade

O campo afetivo oferece a mesma necessidade de distinção.

Uma pessoa pode sentir amor por alguém que não corresponde.

Isso pode ser doloroso.

Mas o sentimento de uma pessoa não cria automaticamente obrigação na outra.

A reciprocidade transforma uma relação.

Sua ausência também precisa ser reconhecida.

Dentro da leitura contemporânea:

amor pode ser oferecido; não pode ser legitimamente exigido como dívida.

Beleth e o desejo de controle

Às vezes a busca por “magia de amor” esconde outra coisa.

Não o desejo de amar.

O desejo de controlar.

A pessoa não pergunta:

“Como me torno alguém capaz de construir uma boa relação?”

Pergunta:

“Como faço aquela pessoa específica não conseguir me recusar?”

Essas duas perguntas pertencem a éticas completamente diferentes.

Beleth pode servir justamente para examinar essa diferença.

O amor de outra pessoa não é propriedade

Essa talvez seja uma das conclusões centrais da interpretação contemporânea.

O amor recebido é valioso precisamente porque poderia não ter sido dado.

Escolha cria significado.

Se removemos completamente a possibilidade de escolha, transformamos relação em posse.

Uma filosofia luciferiana baseada em soberania precisa ser coerente:

não podemos exigir liberdade para nós e negar liberdade ao outro quando ela nos desagrada.

Beleth e o “sétimo trono” como esperança

A curiosa tradição do retorno ao sétimo trono também pode receber uma leitura simbólica contemporânea.

Não como profecia.

Nem como fato angelológico demonstrado.

Mas como imagem de:

restauração;

retorno;

ou recuperação de dignidade perdida.

Weyer duvida da história.

Nós também não precisamos tomá-la literalmente.

Mas simbolicamente ela oferece uma pergunta interessante:

uma identidade definida por queda pode ser reconstruída?

Redenção não precisa significar retorno ao passado

Uma pessoa que muda não precisa voltar a ser exatamente aquilo que era antes.

Às vezes crescimento significa tornar-se algo novo.

Portanto, a ideia de retorno ao trono pode ser reinterpretada não como regressão, mas como recuperação de dignidade.

Isso é uma elaboração filosófica do Templo.

Não conteúdo explícito da Pseudomonarchia.

A perspectiva do Templo de Lúcifer

Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Beleth pode representar a relação entre:

amor;

intensidade;

autoridade;

coragem;

dignidade;

e soberania emocional.

Essa leitura nasce de seu perfil histórico sem fingir que estava escrita dessa maneira no século XV ou XVI.

A procissão e a presença

A música, o cavalo e a chegada régia podem representar simbolicamente presença.

Há pessoas que entram num ambiente e imediatamente atraem atenção.

Às vezes por cargo.

Às vezes por carisma.

Às vezes por medo.

Às vezes por competência.

Dentro da leitura contemporânea de Beleth, a pergunta não é:

“Como faço todos me obedecerem?”

É:

“Que tipo de presença eu construo e de onde ela vem?”

Presença sem espetáculo

É possível possuir presença sem precisar criar espetáculo permanente.

A procissão de Beleth é grandiosa.

Mas uma interpretação moderna também pode funcionar como contraste.

Quem depende integralmente de símbolos externos de poder pode descobrir que não possui a mesma autoridade quando esses símbolos desaparecem.

Cargo.

Roupa.

Título.

Seguidores.

Status.

O que sobra quando a procissão termina?

Essa pergunta pode produzir uma leitura interessante de dignidade.

Beleth e maturidade afetiva

Uma interpretação madura do campo amoroso exige reconhecer que paixão é apenas uma parte de uma relação.

A atração pode iniciar um vínculo.

O que sustenta uma relação inclui:

comunicação;

confiabilidade;

compatibilidade;

responsabilidade;

consentimento;

e capacidade de lidar com conflito.

Nesse sentido, Beleth pode representar a força que inicia, enquanto a maturidade humana precisa decidir o que será construído com essa força.

Beleth não precisa ser transformado em “Rei bondoso do amor”

Assim como fizemos com Valefor, não devemos apagar os elementos desconfortáveis para produzir um personagem moderno benevolente.

Beleth é descrito como terrível.

Furioso.

Enganador na primeira apresentação.

Sua entrada pertence a uma magia ritual de constrangimento.

Esses elementos fazem parte da fonte.

Uma releitura luciferiana não precisa fingir que nunca existiram.

Pode dialogar criticamente com eles.

Tampouco precisa virar “demônio maligno da obsessão”

O extremo oposto também simplifica demais.

Seu ofício está ligado ao amor.

A entrada possui uma noção de protocolo, dignidade e ordem.

A figura não é reduzida a destruição.

Portanto, as classificações modernas:

“bom”;

“mau”;

“perigoso”;

“benevolente”

podem ser menos úteis que simplesmente examinar aquilo que a tradição realmente preserva.

O que sabemos com razoável segurança

Beleth possui tradição anterior à Ars Goetia.

Um manuscrito florentino do século XV contém um Liber Bileth no qual Bileth é qualificado como Rei.

Johann Weyer registra Byleth/Bileth como nº 20 da Pseudomonarchia Daemonum.

A Ars Goetia reorganiza Beleth como nº 13.

Sua dignidade de Rei é extremamente antiga e estável.

Weyer e a Goetia o apresentam montado sobre cavalo pálido e precedido por música.

Sua primeira manifestação é furiosa.

A entrada possui uma extensa etiqueta ritual.

Seu principal ofício goético está ligado ao amor entre homens e mulheres.

A tradição o coloca entre as Potestades.

Weyer registra uma tradição segundo a qual esperaria retornar ao “sétimo trono”, mas expressa dúvida sobre essa afirmação.

Weyer e a Goetia atribuem-lhe 85 legiões.

Existe ainda uma tradição em Weyer segundo a qual Bileth seria o primeiro entre 72 reis confinados por Salomão num recipiente, e outra segundo a qual Cam teria criado uma “arte de Bileth”.

O que permanece incerto

Não conhecemos uma etimologia definitiva de Beleth.

Não existe base suficiente para identificá-lo automaticamente com Lilith, Baal ou outra divindade específica.

Embora exista um Liber Bileth medieval, a cadeia completa entre essa obra e a entrada posterior de Weyer ainda precisa ser tratada cuidadosamente.

Não sabemos o significado preciso do “sétimo trono”.

Não possuímos uma biografia detalhada de sua condição angelical anterior além da referência às Potestades.

A história de Cam invocando Bileth depois do Dilúvio pertence à tradição lendária do grimório, não à história demonstrável.

Correspondências modernas com planetas, signos, Tarô, elementos, cores, gêneros e enns precisam ser atribuídas às tradições que as desenvolveram.

Perguntas frequentes sobre Beleth

Quem é Beleth?

Beleth é o décimo terceiro espírito da Ars Goetia, apresentado como um poderoso e terrível Rei associado principalmente ao amor e governante de 85 legiões.

Beleth aparece antes da Ars Goetia?

Sim. Weyer registra Byleth/Bileth como nº 20, e existe ainda um Liber Bileth preservado num manuscrito florentino do século XV.

Qual era sua posição em Weyer?

Nº 20.

Qual é sua posição na Ars Goetia?

Nº 13.

Beleth, Bileth e Byleth são a mesma figura?

São variantes históricas da mesma tradição textual.

Qual é seu título?

Rei ou Grande Rei.

Beleth aparece montado em cavalo?

Sim. Weyer e a Goetia descrevem um cavalo pálido.

Beleth é acompanhado por música?

Sim. Trombetas e outros instrumentos precedem sua chegada.

Beleth aparece furioso?

Essa característica está explicitamente nas fontes principais.

Beleth é “Rei do Amor”?

Ele possui forte atribuição histórica relacionada ao amor, mas “Rei do Amor” é uma síntese moderna, não seu título formal.

Beleth pode obrigar alguém a amar?

O grimório atribui influência sobre o amor entre pessoas. Isso é uma afirmação histórica da tradição mágica, não demonstração empírica nem justificativa ética para violar consentimento.

Beleth pertenceu às Potestades?

Sim. Weyer e a Goetia preservam essa associação angelológica.

Beleth espera retornar ao sétimo trono?

Weyer registra essa tradição, mas imediatamente demonstra ceticismo e diz que ela não é muito crível.

Beleth é Lilith?

A identificação foi sugerida por Richard Kieckhefer em relação a certos manuscritos, mas Jean-Patrice Boudet considera Byleth e Lilith figuras distintas. Não deve ser apresentada como identidade estabelecida.

Beleth é Baal?

Não existe cadeia documental suficiente para estabelecer essa identidade como fato.

Existe um Livro de Beleth?

Sim. Um manuscrito florentino do século XV preserva um Liber Bileth.

Foi Cam, filho de Noé, quem escreveu o Liber Bileth?

Weyer preserva uma lenda segundo a qual Cam teria invocado Bileth após o Dilúvio e produzido uma arte ou livro em seu nome. Isso pertence à narrativa grimorial e não constitui fato histórico demonstrado.

Beleth era o primeiro dos 72 reis?

Weyer preserva uma narrativa específica em que Bileth é o primeiro entre 72 reis confinados por Salomão. Isso não significa automaticamente que ele seja o comandante geral dos 72 espíritos da Ars Goetia.

Quantas legiões Beleth governa?

Weyer e a Ars Goetia dão 85 legiões. Collin de Plancy posteriormente registra 80.

Beleth aparece no Dictionnaire Infernal?

Sim. Collin de Plancy preserva grande parte de sua tradição e registra Byleth como Rei montado em cavalo branco, associado à etiqueta ritual e às Potestades.

Qual é o planeta de Beleth?

Weyer e a entrada básica da Ars Goetia não fornecem uma única correspondência planetária universal. Sistemas modernos discordam.

Qual é o signo de Beleth?

Correspondências zodiacais pertencem a sistematizações posteriores e variam conforme a escola.

Qual é a carta de Tarô de Beleth?

Não existe uma carta de Tarô na descrição fundamental de Weyer ou da Goetia.

Qual anjo é associado a Beleth?

No sistema posterior associado a Thomas Rudd, Beleth é colocado em relação com Iezalel/Yezalel.

Beleth é masculino ou feminino?

As principais fontes históricas o classificam como Rei e empregam linguagem masculina. Algumas tradições demonolátricas modernas o interpretam de modo feminino, mas isso pertence à recepção contemporânea.

Beleth é originalmente luciferiano?

Não no sentido religioso contemporâneo. Sua incorporação pelo Luciferianismo moderno constitui uma interpretação posterior.

A perspectiva do Templo de Lúcifer

Dentro da interpretação contemporânea do Templo, Beleth pode representar a relação entre amor, intensidade e soberania.

A tradição o apresenta como Rei.

Chega com poder.

Som.

Fúria.

Protocolo.

E amor.

Essa combinação permite uma leitura muito mais profunda que simplesmente “entidade para relacionamentos”.

Beleth pode representar aquilo que acontece quando emoções intensas encontram vontade consciente.

Amor e soberania emocional

Amar alguém inevitavelmente produz algum grau de vulnerabilidade.

A pessoa passa a importar.

Suas ações podem afetar nosso estado emocional.

Isso não significa que soberania desapareça.

Uma relação madura exige aprender a sustentar simultaneamente:

abertura;

e limite.

Vulnerabilidade;

e dignidade.

Desejo;

e discernimento.

Essa tensão combina profundamente com a figura de Beleth.

A grande pergunta de Beleth

Dentro da leitura do Templo, sua questão central poderia ser formulada assim:

“Você continua dono de si quando aquilo que deseja desperta emoções suficientemente fortes para fazê-lo abandonar seus próprios limites?”

Essa pergunta não demoniza o amor.

Pelo contrário.

Leva o amor a sério o suficiente para não confundi-lo com dependência.

O amor não precisa nascer do medo

A entrada de Beleth começa com fúria e termina no campo amoroso.

Isso produz uma oposição simbolicamente interessante.

Relações humanas muitas vezes confundem:

medo;

ciúme;

dependência;

controle;

e intensidade

com amor.

Não são a mesma coisa.

Uma relação pode ser intensa e ainda ser destrutiva.

Pode ser tranquila e profundamente sólida.

Portanto, intensidade não é medida suficiente de qualidade.

Beleth e dignidade

A realeza constante de Beleth também permite interpretá-lo como figura da dignidade afetiva.

Buscar amor não deveria exigir humilhação permanente.

Nem abandono completo de autoestima.

Nem tolerância ilimitada a desrespeito.

Existe diferença entre fazer concessões numa relação e destruir a própria identidade para impedir que alguém vá embora.

Dentro dessa leitura:

amor sem dignidade pode tornar-se dependência.

Beleth segundo o Método das Seis Camadas

Na primeira camada, observamos a Ars Goetia: Beleth é nº 13, poderoso e terrível Rei, cavalo pálido, música, aparição furiosa, extensa etiqueta ritual, amor, Potestades, 85 legiões e selo.

Na segunda camada, voltamos a Weyer: Byleth é nº 20 e preserva praticamente todo o núcleo, além de detalhes adicionais sobre sua relação ritual e a afirmação duvidosa do retorno ao sétimo trono.

Na terceira camada, recuamos à tradição medieval: um manuscrito do século XV preserva o Liber Bileth, no qual Bileth já é chamado Rei.

Na quarta camada, separamos Rudd, astrologia, Tarô, planetas, elementos, enns, gêneros e correspondências contemporâneas.

Na quinta camada, analisamos a recepção: Collin de Plancy preserva Byleth no século XIX, altera o cavalo para branco e registra 80 legiões; demonolatrias modernas desenvolvem novas identidades e correspondências.

Na sexta camada, apresentamos a leitura autoral do Templo: Beleth como símbolo de intensidade afetiva submetida à soberania, dignidade e reciprocidade.

Conclusão

Beleth possui uma das histórias mais profundas entre os primeiros treze espíritos da Ars Goetia.

Ele não começa no Lemegeton.

Nem sequer começa em Weyer.

No século XV, existe um Liber Bileth preservado em Florença, dentro de uma coleção de textos mágicos, no qual Bileth já aparece como Rei.

No século XVI, Johann Weyer apresenta Byleth como nº 20 da Pseudomonarchia Daemonum.

Ele é Grande e Terrível Rei.

Monta cavalo pálido.

É precedido por música.

Chega furioso.

Possui uma extensa etiqueta ritual.

Está relacionado ao amor.

Pertenceu às Potestades.

Governa 85 legiões.

E, segundo uma tradição que o próprio Weyer considera pouco crível, espera retornar ao sétimo trono.

Em outro ponto da mesma obra, Bileth assume importância ainda maior.

Entre os 72 reis que teriam sido confinados por Salomão, ele é citado como o primeiro, antes de Belial e Asmoday.

Weyer preserva ainda uma lenda sobre Cam, filho de Noé, ter invocado Bileth e produzido uma arte e um livro em seu nome — tradição particularmente interessante porque um verdadeiro Liber Bileth medieval sobrevive.

No século XVII, a Ars Goetia reorganiza-o como nº 13.

Grande parte do perfil é preservada.

Surge o selo que hoje se tornou inseparável de sua iconografia.

No século XIX, Collin de Plancy continua transmitindo Byleth, agora sobre cavalo branco e com oitenta legiões.

No ocultismo contemporâneo, novas camadas surgem:

astrologia;

Tarô;

Demonolatria;

novas formas de gênero;

correspondências elementais;

e interpretações psicológicas.

Nenhuma dessas camadas precisa ser simplesmente rejeitada.

Mas precisa ser identificada.

Esse é o princípio editorial que transforma esta biblioteca em pesquisa e não apenas repetição.

Dentro da interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer, Beleth pode ocupar um território muito específico.

Não simplesmente amor.

Soberania diante do amor.

A capacidade de desejar intensamente sem destruir o próprio discernimento.

A capacidade de aceitar vulnerabilidade sem abandonar dignidade.

A capacidade de reconhecer autoridade sem confundi-la com submissão.

E, principalmente, a capacidade de entender que autonomia precisa ser recíproca.

Se minha vontade possui valor, a vontade do outro também possui.

Se desejo liberdade para escolher quem amo, preciso reconhecer o direito do outro de fazer a mesma escolha.

Isso transforma Beleth numa figura muito mais profunda que um “Rei usado para magia amorosa”.

Seu simbolismo pode apontar para uma das experiências humanas mais difíceis:

permanecer soberano quando aquilo que sentimos é suficientemente intenso para nos fazer querer entregar nossa soberania.

Amor pode aproximar.

Pode transformar.

Pode vulnerabilizar.

Pode criar coragem.

Pode também produzir obsessão, dependência e medo.

A consciência não exige abandonar o amor.

Exige aprender a enxergá-lo sem perder a capacidade de enxergar a si mesmo.

Talvez essa seja uma interpretação contemporânea digna de um Rei cuja tradição atravessa manuscritos medievais, demonologia renascentista, magia salomônica e séculos de recepção:

não é a intensidade do amor que determina seu valor, mas aquilo que nos tornamos enquanto o vivemos.

Leituras relacionadas

Consulte Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia como página principal desta biblioteca.

Leia também Sitri, Sytry ou Bitru: história, origem e tradição do 12º espírito da Ars Goetia, imediatamente anterior na sequência e igualmente relacionado a desejo e atração, mas com desenvolvimento textual muito diferente.

Para aprofundar a dimensão ética, relacione esta página com A ética no Luciferianismo: princípios para uma vida consciente.

O próximo estudo será Leraje/Leraie/Oray: história, origem e tradição do 14º espírito da Ars Goetia.

Referências e leituras para aprofundamento

Florence, Biblioteca Nazionale Centrale, MS II.III.214. Manuscrito do século XV que contém, nos fólios finais, o Liber Bileth, demonstrando a existência de uma tradição medieval com esse nome anterior a Weyer.

BOUDET, Jean-Patrice. “La magie au carrefour des cultures dans la Florence du Quattrocento: le Liber Bileth et sa démonologie”. Em Penser avec les démons, 2015. Estudo fundamental sobre o Liber Bileth e a circulação intercultural de materiais mágicos na Itália do século XV.

BOUDET, Jean-Patrice. “Les who’s who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux”. Médiévales, nº 44. Boudet destaca Bileth como Rei no Liber Bileth e contesta a identificação de Byleth com Lilith.

WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Byleth/Bileth aparece como nº 20, Grande e Terrível Rei montado em cavalo pálido, precedido por música, relacionado ao amor, às Potestades e a 85 legiões.

SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. Importante transmissão inglesa da entrada de Bileth e elo textual para o material posteriormente absorvido pelo Lemegeton.

PETERSON, Joseph H. (ed.). Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia. Beleth aparece como nº 13, Grande Rei, cavalo pálido, cortejo musical, aparição furiosa, extensa etiqueta ritual, amor, ordem das Powers e 85 legiões.

COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed., 1863. Mantém Byleth como Rei, preserva a tradição ritual e angelológica, mas descreve cavalo branco e oitenta legiões.

SOFER, Gal. Estudos contemporâneos sobre a rede textual do Liber Bileth. A pesquisa moderna demonstra a complexidade da transmissão entre materiais latinos, hebraicos, árabes e cristãos relacionados a essa tradição.

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Author

Emrys

Emrys é autor, editor e pesquisador responsável pelo Templo de Lúcifer. Seu trabalho concentra-se em Luciferianismo, história das religiões, demonologia, simbolismo, ocultismo e esoterismo, com ênfase na análise e contextualização de fontes. Conheça o autor e a metodologia editorial →

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