Berith na Ars Goetia: origem, etimologia e o poder oculto do Senhor da Aliança sob a luz de Lúcifer
Entre os espíritos mais intrigantes da Ars Goetia, Berith ocupa um lugar singular. Ele não aparece apenas como mais um nome infernal de catálogo; seu perfil é o de uma potência ligada à palavra, à honra, à elevação social e à transmutação. Na tradição goética, ele surge como o vigésimo oitavo espírito, um grande e terrível duque, vestido de vermelho, coroado de ouro e montado em cavalo rubro. Fala com voz clara e sutil, responde sobre passado, presente e futuro, transforma metais em ouro, concede dignidades e governa 26 legiões. Essa descrição está no núcleo textual da tradição salomônica que, no século XVII, consolidou a Ars Goetia a partir de material já presente na Pseudomonarchia Daemonum do século XVI.
Mas Berith se torna realmente fascinante quando saímos da superfície do grimório e seguimos o rastro do nome. O termo remete com força a Baal-Berith e El-Berith, designações antigas associadas a Siquém, em Canaã. Em fontes de história das religiões e de exegese bíblica, Baal-Berith é entendido como “Senhor da Aliança”, enquanto El-Berith aparece como “Deus da Aliança”. Essa associação liga o nome Berith não apenas ao universo demonológico tardio, mas a uma camada muito mais antiga do imaginário semítico ocidental.
A palavra Baal não era originalmente um nome próprio exclusivo, mas um título semítico que significava “senhor”, “mestre” ou “possuidor”. Com o tempo, esse título foi aplicado a divindades locais em várias comunidades do antigo Oriente Próximo, especialmente entre os cananeus. Já berith é o termo hebraico usual para “aliança”, “pacto”, “acordo solene”. A etimologia exata de berith não é consensual entre os estudiosos, mas há longa tradição lexicográfica que a relaciona ao acadiano birītu, com o sentido de vínculo, laço ou amarração; em outras palavras, algo que liga duas partes sob obrigação mútua.
É justamente aí que Berith deixa de ser apenas um “demônio do ouro” e passa a revelar sua arquitetura simbólica mais profunda. Seu nome aponta para pacto, vínculo, juramento, autoridade legitimada. Não por acaso, na Goétia ele não é descrito como um espírito do caos bruto, mas como um espírito que confirma dignidades, outorga honras e fala com eloquência refinada. Sob uma ótica luciferiana, isso é revelador: Berith pode ser lido como uma inteligência da soberania pessoal, da palavra empenhada e da transmutação do valor — não apenas no sentido metálico, mas no sentido interior, social e iniciático.

Berith, Bolfry, Beal: a multiplicidade dos nomes
O próprio grimório salomônico preserva variantes importantes: Berith, Beale/Beal e Bofry/Bolfry. Essa multiplicação nominal é típica da literatura demonológica medieval e renascentista, na qual nomes antigos eram copiados, transliterados, adaptados e por vezes corrompidos entre hebraico, latim, francês e inglês. O resultado é um campo de ecos: o Berith da Goétia parece carregar, em forma rearranjada, a memória de Baal-Berith, enquanto a demonologia europeia o reinscreve dentro de uma hierarquia infernal própria.
Isso não significa que possamos afirmar, de modo simplista, que “o deus cananeu virou exatamente o mesmo demônio goético” em linha reta e sem mediações. O que as fontes permitem dizer, com mais rigor, é que houve um processo de reaproveitamento demonológico de nomes antigos, sobretudo quando a literatura cristã e pós-medieval passou a classificar antigas divindades estrangeiras como espíritos infernais. No caso de Berith, a conexão nominal e temática com Baal-Berith é forte demais para ser ignorada, mas a identidade entre ambos é uma reconstrução histórico-simbólica, não um dado bruto e incontestável.
A passagem de Canaã para a Goétia
No antigo cenário de Siquém, Baal-Berith aparece ligado a um espaço cultual estável, e o próprio nome sugere um deus relacionado a alianças, juramentos ou pactos comunitários. Já na demonologia renascentista, Berith reaparece como duque infernal que conhece o tempo, outorga prestígio e transmuta metais. O eixo permanece: pacto, legitimidade, poder reconhecido. O que muda é o enquadramento religioso. Aquilo que foi divino em um sistema torna-se demoníaco em outro.
Esse deslocamento é central para uma leitura luciferiana séria. Sob a luz de Lúcifer — entendido aqui não como caricatura moralista, mas como arquétipo de iluminação, revelação e consciência insurgente — Berith pode ser visto como um nome sobrevivente de poderes antigos que foram recodificados por tradições rivais. A demonização, nesse sentido, não apaga a energia original; apenas a reveste de medo, interdição e linguagem clerical. Ler Berith luciferianamente é retirar esse véu e perceber, por trás do rótulo de “terrível duque”, a inteligência do vínculo, da palavra eficaz e da ascensão por mérito espiritual e mental.
O vermelho, o ouro e a coroa: símbolos de Berith
A iconografia tradicional do espírito é extremamente eloquente: roupa vermelha, cavalo vermelho, coroa de ouro. Na chave simbólica, o vermelho é vontade, fogo, presença, autoridade manifestada. O ouro é incorruptibilidade, nobreza, culminação alquímica. A coroa indica soberania conferida e reconhecida. Nada disso parece acidental quando lembramos que Berith, na Goétia, concede dignidades e honras. Ele não é um espírito da marginalidade; é um espírito da entronização.
Por isso sua fama de transformar metais em ouro não deve ser lida apenas em chave literalista. Em linguagem esotérica, ouro é também a forma aperfeiçoada do ser. É o metal solar do valor realizado. Sob a ótica luciferiana, Berith aponta para uma alquimia da identidade: tornar o bruto em nobre, o opaco em luminoso, o comum em digno de coroa. A verdadeira transmutação não é apenas material; é ontológica.
A voz clara e a força da eloquência
Seu retrato textual enfatiza ainda outro traço decisivo: Berith fala com voz clara, macia, sutil. Isso o aproxima do domínio da linguagem eficaz, da retórica, da persuasão e da formulação precisa. Em termos iniciáticos, isso importa muito. A palavra é o primeiro pacto. Quem nomeia, vincula. Quem fala com nitidez, governa realidades. A aliança começa no verbo.
Aqui, mais uma vez, o nome confirma a função. Berith é pacto não apenas porque “firma” ou “concede”, mas porque opera no campo em que toda ordem humana se estabelece: fala, juramento, título, reconhecimento e confirmação. Seu poder sobre honras e dignidades faz dele um espírito profundamente ligado à estrutura social do prestígio — e também ao risco da falsidade quando a palavra é usada sem consciência. É por isso que Berith é menos um símbolo de ganância vulgar e mais um emblema da relação entre linguagem, valor e poder.
Berith na tradição moderna: correspondências e leituras esotéricas
No material esotérico contemporâneo, como o conjunto de correspondências que acompanha o seu verbete, Berith é ligado a Leão e, em alguns sistemas alternativos, a Capricórnio; ao fogo ou à terra; a Júpiter ou Vênus; ao estanho ou ao cobre; ao heliotrópio; ao roxo; ao 6 de Paus ou, em outra chave, ao 2 de Ouros. Essas variações mostram algo importante: as tradições modernas não preservam uma única grade fixa, mas constroem leituras por afinidade simbólica.
Em chave luciferiana, essas correspondências fazem sentido quando vistas como camadas, não como dogmas. Leão e o 6 de Paus falam de honra, visibilidade e triunfo. Capricórnio e a terra apontam estrutura, status e escalada. Júpiter sugere expansão, nobreza e legitimação; Vênus, magnetismo e refinamento. O roxo reforça majestade ritual. O heliotrópio traz a ideia de orientação pela luz. Assim, mesmo quando os sistemas divergem, todos gravitam em torno de um mesmo centro: Berith como potência de elevação, distinção e transmutação consciente.
Do “demônio” ao portador de um pacto de poder
No século XIX, a tradição demonológica ainda continuou a reelaborar esse nome. O Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy registra Balberith como “grande pontífice” e “senhor das alianças”, formulação que preserva de forma explícita o núcleo semântico do pacto mesmo dentro de uma burocracia infernal imaginada nos moldes de uma corte europeia. Isso mostra que, ao longo do tempo, Berith jamais perdeu sua associação com o vínculo solene e com a legitimação de autoridade.
E é justamente aqui que a leitura luciferiana se torna mais potente: Lúcifer, como entidade de Luz, não destrói o conhecimento oculto — ele o revela. Sob essa luz, Berith não é apenas um nome a ser temido, mas um espelho iniciático. Ele recorda que todo poder real exige pacto; que toda ascensão cobra responsabilidade; que toda coroa pesa; e que nem todo ouro é riqueza, porque às vezes o ouro é clareza, soberania, lucidez e domínio da própria palavra.
Conclusão
Berith é um dos casos mais ricos da Ars Goetia porque concentra várias camadas históricas ao mesmo tempo. Ele é o 28º espírito do grimório salomônico, o duque escarlate que concede honras e transmutação. Mas também é herdeiro de um nome antiquíssimo, ligado a Baal-Berith e El-Berith, ao campo semântico da aliança e às transformações pelas quais antigas divindades foram demonizadas e reclassificadas. Seu nome fala de pacto; sua imagem fala de soberania; seu poder fala de valor.
Sob uma ótica luciferiana, Berith pode ser compreendido como uma inteligência de luz perigosa e nobre: não a luz domesticada, mas a que revela o preço da elevação. Ele ensina que riqueza sem consciência é escória, honra sem verdade é teatro, e ouro sem fogo interior é apenas metal. A verdadeira aliança que ele guarda talvez não seja entre homem e espírito, mas entre vontade e destino.