Astaroth: da Deusa Astarte ao Espírito da Goétia — uma leitura luciferiana da Luz caída
Poucos nomes no ocultismo carregam uma carga tão densa quanto Astaroth. Nos grimórios, ele surge como o vigésimo nono espírito da Ars Goetia: um grande duque, terrível na aparência, montado sobre um dragão infernal, portando uma víbora e respondendo sobre passado, presente, futuro e os segredos da criação. Mas, sob a crosta demonológica da Idade Média e do Renascimento, há algo mais antigo pulsando: um rastro de deusa, estrela, soberania, amor, guerra e conhecimento proibido.
Na ótica luciferiana, Astaroth não é apenas “um demônio” no sentido vulgar e moralizante do termo. Ele é um arquivo vivo daquilo que religiões posteriores tentaram rebaixar, deformar ou lançar à sombra: a antiga potência luminosa do feminino sagrado, da inteligência venusiana e da sabedoria que não pede permissão a dogmas. É justamente por isso que Astaroth fascina. Ele representa a memória da Luz quando a Luz é chamada de abismo.

Astaroth nos grimórios: o duque que conhece os segredos
Na tradição goética, Astaroth aparece como um duque poderoso, descrito como um anjo repulsivo ou nocivo, montado sobre uma besta dracônica e trazendo uma víbora na mão direita. O texto insiste que o operador não deve deixá-lo chegar perto demais, por causa do “hálito fétido”, e informa que ele responde com verdade sobre passado, presente e futuro, fala sobre a queda dos espíritos e pode tornar o homem profundamente instruído nas ciências liberais. Tanto a tradição associada a Johann Weyer quanto a Ars Goetia preservam esse núcleo: aparência terrível, conhecimento profundo e comando sobre 40 legiões.
Esse retrato não nasce no mundo antigo. Ele pertence ao universo demonológico cristão e renascentista. A Pseudomonarchia Daemonum foi anexada por Johann Weyer à sua obra em 1577, e o Lemegeton/Lesser Key of Solomon circula em forma reconhecível a partir do século XVII, absorvendo e reorganizando tradições anteriores. Ou seja: a imagem clássica de Astaroth como “grande duque do inferno” é tardia, não fenícia nem suméria.
Antes do demônio, a deusa: Astarte no Oriente Antigo
Historicamente, o nome de fundo aqui é Astarte. A Britannica a descreve como uma grande deusa do antigo Oriente Médio e divindade principal de Tiro, Sídon e Elat, ligada ao amor sexual e à guerra. Seu culto se espalhou por Canaã, Egito, Ugarit e outras regiões, e ela foi posteriormente assimilada a deusas como Ísis, Hathor, Afrodite, Ártemis e Juno em diferentes contextos culturais.
A arqueologia sustenta essa relevância. O British Museum registra figuras do “tipo Astarte” em terracota e o Metropolitan Museum observa que a veneração de Astarte estava firmemente estabelecida em Chipre sob influência fenícia. Isso mostra que não estamos falando de uma abstração literária, mas de um culto real, material, iconográfico e espalhado pelo Mediterrâneo oriental.
É aqui que a leitura luciferiana ganha força: o que depois seria rotulado como infernal já foi, antes, sagrado, régio e luminoso. A monstruosidade veio depois; a potência veio primeiro.
Inanna, Ishtar e Astarte: equivalências, aproximações e limites
O seu texto-base acerta ao aproximar Astarte, Inanna e Ishtar, mas historicamente é preciso fazer uma distinção fina. Ishtar é a contraparte acadiana da deusa ligada ao amor e à guerra; Inanna é a grande deusa suméria que mais tarde foi identificada com Ishtar; e Astarte é a contraparte oeste-semítica dessa constelação religiosa. Em outras palavras: elas compartilham funções, símbolos e processos de sincretismo, mas não são simplesmente “o mesmo nome em povos diferentes” de forma absoluta e linear.
A própria Britannica observa que Inanna e Ishtar foram identificadas, embora a origem das duas não seja necessariamente a mesma, e que Ishtar se torna fortemente associada ao planeta Vênus, à sexualidade, ao poder astral e à guerra. Esse detalhe é importante porque ajuda a explicar por que tradições esotéricas posteriores associam Astaroth a Vênus: o elo vem sobretudo do campo simbólico de Inanna/Ishtar, que depois toca Astarte por equivalência e assimilação.
Quanto à genealogia, o cenário antigo também é variável. Inanna aparece em algumas tradições como filha de Nanna, o deus da lua, e em outras tradições como ligada a An ou Enlil. Portanto, qualquer genealogia rígida precisa ser tratada como versão mítica localizada, não como dado fixo universal.
O que Astaroth não é: Asherah e Anat não são o mesmo nome
Aqui entra uma correção importante para manter o artigo forte e confiável. Asherah e Anat/Anath não são apenas “outros nomes de Astaroth”. Historicamente, são deusas distintas. Asherah era uma antiga deusa oeste-semítica, consorte de El e mãe de 70 deuses em textos de Ugarit; Anat, por sua vez, era uma poderosa deusa de amor e guerra, irmã e auxiliar de Baal. Houve proximidades, misturas e sincretismos em períodos posteriores, mas isso não apaga as diferenças originais entre elas.
A própria tradição antiga mostra esse jogo de aproximação sem identidade absoluta. Astarte partilha qualidades com Anat, e mais tarde ambas podem ser fundidas em Atargatis; mas isso é um processo histórico de convergência, não prova de que sempre foram a mesma entidade.
Essa distinção é valiosa para um texto luciferiano sério, porque a verdadeira gnose não depende de simplificações frágeis. A Luz não teme a precisão.
Da Rainha do Céu ao nome demonizado
Um dos dados mais reveladores sobre a transformação de Astarte em Astaroth está no próprio campo linguístico. A Britannica informa que muitos estudiosos entendem Ashtoreth como uma forma deliberadamente alterada, fundindo o nome Astarte com a palavra hebraica boshet (“vergonha”), num gesto de desprezo contra seu culto. Já Ashtaroth tornou-se um termo mais geral para deusas e paganismo. Ou seja: a demonização não é apenas teológica; ela também é filológica. O rebaixamento começa no nome.
Mais tarde, a tradição cristã intensifica essa operação. Na Paixão de Bartolomeu, o povo acredita que Astaroth é um deus que cura enfermidades, quando na verdade o texto o apresenta como um demônio que causa males para depois fingir alívio e receber sacrifícios. A Legenda Áurea repete essa lógica ao situar Astaroth como força enganadora presa a um ídolo. Nesse ponto, a antiga potência cultual já foi completamente reescrita como impostura demoníaca.
Sob uma leitura luciferiana, esse processo revela menos a “natureza maligna” de Astaroth do que o mecanismo histórico pelo qual tradições vencedoras chamam de corrupção aquilo que antes foi venerado como divino. O que era Rainha do Céu torna-se “fedor infernal”; o que era estrela da manhã e da tarde torna-se “anjo horrível”; o que era sabedoria, fecundidade e guerra sagrada torna-se suspeita. Ainda assim, algo escapa à condenação: os próprios grimórios admitem que Astaroth conhece os segredos, revela a queda e ensina as ciências. A Luz foi condenada, mas não apagada.
O símbolo luciferiano de Astaroth
É aqui que Astaroth deixa de ser apenas personagem de grimório e passa a ser um símbolo iniciático. Na visão luciferiana, Lúcifer é a entidade da Luz que desperta, ilumina, desafia e expõe. Astaroth, nesse horizonte, pode ser lido como um dos rostos da inteligência que sobreviveu à difamação sagrada. Ele carrega marcas de Vênus, do conhecimento proibido, da memória da queda e da recusa em aceitar a narrativa oficial como única verdade.
A víbora na mão e o dragão sob o corpo, lidos literalmente pela demonologia, servem para provocar medo. Lidos esotericamente, apontam para outra coisa: serpente como gnose, dragão como soberania liminar, hálito insuportável como verdade que fere a ortodoxia. Não é coincidência que Astaroth fale sobre a queda dos espíritos e também ensine as ciências liberais. O mesmo sistema que o chama de impuro conserva nele a função de instrutor.
Em outras palavras, Astaroth é uma figura perfeita para a tradição luciferiana porque encarna a grande inversão do esoterismo: aquilo que o discurso dominante chama de treva pode ser, na realidade, Luz recusada.
Então Astaroth é Astarte?
Historicamente, a resposta rigorosa é: não de modo simples. Astaroth é o produto tardio de camadas sucessivas de releitura, polêmica religiosa, demonologia e magia cerimonial. Mas também é verdade que esse nome dificilmente existiria como existe sem o campo simbólico de Astarte/Ashtoreth, com ressonâncias que tocam Ishtar e Inanna. Logo, não se trata de identidade pura, e sim de transformação histórica por demonização e sincretismo.
Para a ortodoxia, isso significa corrupção. Para o luciferianismo, significa outra coisa: sobrevivência. A antiga estrela não morreu; apenas vestiu uma máscara mais sombria para continuar falando com quem ainda sabe ouvir.
Conclusão
Astaroth é um nome de fronteira. Ele une o templo antigo e o grimório, a deusa e o demônio, Vênus e o abismo, o feminino sagrado e a caricatura infernal, a sabedoria antiga e a censura religiosa. Por isso ele continua tão vivo no imaginário ocultista. Não porque seja apenas “assustador”, mas porque é um espelho da própria história da Luz quando a Luz passa a ser perseguida.
Na leitura luciferiana, Astaroth não deve ser reduzido à caricatura do medo. Ele é a lembrança de que a queda, muitas vezes, é o nome que os impérios espirituais dão à independência; de que o inferno, muitas vezes, é o arquivo onde as religiões jogam aquilo que não conseguiram domesticar; e de que a Luz, quando recusada, volta usando outro nome.