Malphas: o espírito-corvo da Goetia e seu verdadeiro significado sob a ótica luciferiana
Poucos nomes da tradição goética carregam uma imagem tão imediata quanto Malphas: o espírito que surge como corvo, assume forma humana quando compelido e fala com voz áspera. Na tradição clássica, ele aparece como o trigésimo nono espírito da Ars Goetia, classificado entre os Presidentes, com autoridade sobre 40 legiões. Seu campo de atuação reúne construção, estratégia, revelação dos desígnios do inimigo e concessão de familiares espirituais. Antes de entrar na Goetia em sua forma mais conhecida, Malphas já circulava na tradição demonológica ligada à Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.

Quem é Malphas nas fontes clássicas?
Na descrição tradicional preservada pela Goetia, Malphas primeiro se manifesta como corvo e depois pode adotar figura humana. Seu ofício é claro: erguer casas e torres altas, trazer ao operador conhecimento sobre os pensamentos e desejos dos inimigos e conceder bons familiares. Ao mesmo tempo, a tradição adverte que ele é um espírito enganador, porque aceita sacrifícios com aparente boa vontade, mas depois ilude quem os oferece. Essa ambivalência é central para compreender Malphas: ele não é apenas “construtor”, mas também um teste de discernimento.
Essa imagem não surgiu do nada. A Pseudomonarchia Daemonum foi acrescentada por Johann Weyer como apêndice de De praestigiis daemonum em 1577, dentro de um contexto renascentista em que a demonologia, a magia ritual e a crítica às perseguições por feitiçaria conviviam de modo tenso. Weyer não publicou esse material para exaltar a prática mágica, mas para expor as pretensões e ilusões associadas a ela; ao mesmo tempo, sua obra ajudou a fixar uma hierarquia infernal que depois seria reutilizada pela tradição grimórica posterior. Já o Lemegeton, conhecido modernamente como The Lesser Key of Solomon, foi compilado no século XVII a partir de materiais mais antigos e se relaciona ao imaginário solomônico de domínio sobre espíritos.
Malphas, Malpas, Malthas ou Malthous? A questão da nomenclatura
Aqui existe um ponto importante que muita gente repete sem checar: Malphas e Malpas são variantes usuais do mesmo nome, mas Malthas e Malthous aparecem em manuscritos e edições ligados sobretudo ao espírito anterior da lista, Halphas/Halphus/Malthus. A própria edição clássica da Goetia coloca o 38º espírito como Halphus ou Malthus (ou Malthas), enquanto o 39º é Malphas. Isso mostra que houve, ao longo da transmissão textual, uma contaminação entre nomes próximos, ambos aviários e ambos ligados a construção e guerra. Em outras palavras: parte da confusão moderna entre Malphas e “Malthas/Malthous” nasce da tradição manuscrita e editorial, não de uma identidade sólida e antiga entre eles.
Collin de Plancy, no Dictionnaire Infernal, preserva a imagem de Malphas como grande presidente dos infernos, em forma de corvo, voz rouca, construtor de cidadelas e destruidor das defesas do inimigo. A edição de 1863 ajudou a popularizar visualmente o personagem por meio das célebres ilustrações de Louis Le Breton, e foi essa camada oitocentista que sedimentou a iconografia de Malphas para o imaginário popular posterior. O Dictionnaire Infernal havia sido publicado originalmente em 1818 e passou por várias reedições e reformulações ao longo do século XIX.
A origem de Malphas: antiga divindade ou construção grimórica?
Do ponto de vista histórico, o mais seguro é dizer que Malphas pertence à tradição grimórica e demonológica tardo-medieval/renascentista tal como ela foi preservada por Weyer, Scot, Collin de Plancy e, depois, pela Goetia. As listas demonológicas têm raízes mais fundas em tradições medievais de catálogos de espíritos e textos salomônicos, mas o perfil reconhecível de Malphas, como o conhecemos hoje, é o de um personagem textual consolidado na passagem do Renascimento para a modernidade ocidental.
Quanto à etimologia, a resposta honesta é: não existe consenso firme. Nas fontes clássicas consultadas, o nome é transmitido com variantes ortográficas, mas sem explicação etimológica segura. Por isso, as tentativas modernas de derivar “Malphas” de raízes latinas ou de supostas palavras antigas devem ser tratadas com cautela. Historicamente, é mais sólido falar em tradição textual e variação manuscrita do que em uma origem linguística comprovada. Essa incerteza, longe de enfraquecer o tema, reforça o caráter enigmático do nome.
O que significa o título de “Presidente”?
Na hierarquia da Goetia, Malphas não é chamado de rei, duque ou marquês, mas de Presidente. Esse termo não deve ser lido com sentido político moderno. Dentro da lógica demonológica do grimório, “Presidente” indica uma função hierárquica específica entre os 72 espíritos principais. A lista classificada da Goetia coloca Malphas entre os Presidentes e associa essa classe ao Mercúrio, ao menos no sistema de selos metálicos da edição Mathers/Crowley. Isso é importante porque corrige uma confusão comum: no texto clássico, o grupo dos Presidentes não é ligado ao chumbo; o chumbo aparece para o único Cavaleiro, Furcas.
E o seu texto-base com Libra, 3 de Espadas, Saturno, chumbo, ar e marigold?
Essas correspondências modernas são valiosas dentro do ocultismo contemporâneo e da prática ritual de certas correntes, e você fez bem em preservá-las. Elas ajudam a construir uma “ficha operativa” de Malphas:
10–14 graus de Libra, 3 de outubro a 7 de outubro, 3 de Espadas, Saturno, chumbo, Ar, marigold/calêndula, vela azul-clara, além da classificação como Demônio da Noite.
Mas historicamente é crucial distinguir camadas: essas associações não aparecem na descrição clássica de Weyer, nem no verbete resumido de Collin de Plancy, nem no texto-base da Ars Goetia. O que as fontes clássicas efetivamente preservam é o nome, o posto, a forma de manifestação, as funções e o número de legiões. As correspondências zodiacais, tarológicas, cromáticas e botânicas pertencem a sistemas esotéricos posteriores, fruto de releituras ritualísticas modernas.
O mesmo vale para a descrição contemporânea de Malphas como uma entidade de pele bronzeada, olhos azuis, aura azul e grandes asas cinzentas. Essa imagem é perfeitamente legítima como visualidade moderna, gnose pessoal ou releitura luciferiana, mas não pertence ao núcleo textual clássico da demonologia renascentista. O Malphas histórico é, acima de tudo, o corvo que se torna homem, o estrategista das estruturas e o revelador de hostilidade oculta.
O simbolismo do corvo e das torres
É aqui que uma leitura luciferiana se torna especialmente poderosa. O corvo, em várias tradições, é ave de fronteira: inteligência, vigília, mensagem, sombra e travessia entre mundos. As torres e casas atribuídas a Malphas não precisam ser lidas apenas como edifícios literais; elas também falam de arquitetura invisível: fortificação mental, estratégia, proteção do próprio espaço e leitura fria do terreno hostil.
Sob uma ótica luciferiana, que entende Lúcifer em seu sentido clássico de portador da luz e estrela da manhã, Malphas deixa de ser apenas um “demônio traiçoeiro” e passa a ser uma inteligência de lucidez estratégica. Lúcifer, no mundo clássico, designava a estrela da manhã, Vênus ao amanhecer, antes de ser rigidamente fundido ao imaginário cristão do anjo caído. Nessa chave, a luz não é moralismo; é consciência, clareza, desvelamento. E Malphas opera precisamente nisso: ele torna visível o que estava oculto — os planos do inimigo, a fragilidade da fortaleza, a engenharia da defesa, a arquitetura da queda.
Por isso, Malphas pode ser lido como uma potência luciferiana da inteligência aplicada ao conflito. Ele constrói, mas também expõe. Ele ergue, mas também derruba. Ele protege, mas exige discernimento. A advertência tradicional sobre seu caráter enganador, vista dessa perspectiva, não precisa ser tratada como mero terror religioso. Ela pode ser entendida como uma lição iniciática: quem procura poder sem clareza torna-se presa da própria ilusão. Malphas, então, não seria o inimigo da luz, e sim o guardião duro de uma luz que não tolera ingenuidade.
Malphas hoje: por que o nome continua forte?
Malphas segue vivo porque saiu dos grimórios e entrou de vez na cultura pop. Um exemplo recente é Diablo IV: Season of the Construct, onde Malphas aparece como ameaça central ligada a construções mecânicas e destruição subterrânea. Essa permanência em jogos, séries e ficção ajuda a explicar por que o nome volta e meia ressurge nas buscas: ele combina visual forte, história obscura e simbolismo arquetípico poderoso.
Conclusão: quem é Malphas sob a luz de Lúcifer?
Malphas é, historicamente, um espírito da tradição goética consolidado entre os séculos XVI e XVII, depois reforçado pela imaginação demonológica do século XIX. É o Presidente-corvo, senhor de estruturas, segredos e contraestratégia. Seu nome chegou até nós por manuscritos, traduções, variações e confusões editoriais; sua imagem se fixou entre o grimório e o bestiário; seu valor simbólico, porém, continua aberto.
Sob uma leitura luciferiana, Malphas não é apenas um ser sombrio associado ao medo. Ele é uma força de revelação tática. Em vez de representar trevas cegas, ele expressa a luz que penetra fortalezas, lê intenções ocultas e ensina que toda construção externa depende de uma arquitetura interna. Lúcifer, entendido como Luz, não elimina o mistério: ele o ilumina. E Malphas, nessa senda, é menos o monstro da superstição e mais o arquiteto severo da visão estratégica.