Saleos, Sallos ou Zaleos na Ars Goetia: Origem, Caleos, Amor, Crocodilo, História e Significado

Quem é Saleos na Ars Goetia?
Saleos, também conhecido como Sallos e Zaleos, é o décimo nono espírito da Ars Goetia. O Lemegeton o apresenta como um Grande e Poderoso Duque que aparece sob a forma de um belo e galante soldado montado sobre um crocodilo, usando uma coroa ducal e manifestando-se de maneira pacífica.
Sua principal atribuição é igualmente direta. Saleos provoca o amor de mulheres por homens e de homens por mulheres e governa trinta legiões de espíritos.
Essa curta descrição fez com que Saleos se tornasse conhecido quase exclusivamente como um espírito relacionado ao amor. Entretanto, sua história textual apresenta problemas muito mais interessantes.
Em Johann Weyer, a entidade aparece como Zaleos e recebe o título de Grande Conde, não de Duque. A iconografia do soldado, do crocodilo e da coroa ducal já está presente, assim como seu comportamento pacífico. Porém, a descrição de Weyer termina simplesmente com uma abreviação equivalente a “etc.”. O texto não registra explicitamente nem a faculdade de provocar amor nem a quantidade de trinta legiões.
Essa diferença é fundamental.
A tradição moderna frequentemente lê Weyer como se ele já tivesse escrito toda a entrada posteriormente encontrada na Ars Goetia. Não escreveu.
O Lemegeton ampliou uma descrição que, na versão preservada da Pseudomonarchia Daemonum, é muito mais curta.
Ao mesmo tempo, outro ramo da tradição dos Offices of Spirits preserva um personagem chamado Caleos, cuja aparência e função social são suficientemente próximas para sugerir uma relação textual importante.
Saleos é, portanto, um excelente caso para observar como uma entidade pode adquirir uma função muito mais definida conforme diferentes ramos manuscritos são combinados e reorganizados.
Saleos em resumo
| Elemento | Informação documental |
|---|---|
| Posição na Ars Goetia | 19 |
| Nome na Ars Goetia | Saleos / Sallos |
| Nome em Weyer | Zaleos |
| Variante posterior | Zaebos |
| Paralelo importante | Caleos |
| Hierarquia em Weyer | Grande Conde |
| Hierarquia na Ars Goetia | Grande e Poderoso Duque |
| Aparência | Belo soldado |
| Montaria | Crocodilo |
| Coroa | Ducal |
| Comportamento | Pacífico |
| Função amorosa em Weyer | Não explicitada na entrada preservada |
| Função amorosa na Ars Goetia | Amor de mulheres por homens e de homens por mulheres |
| Caleos | Torna alguém amado e obtém familiaridade |
| Legiões em Weyer | Não informadas na pequena entrada preservada |
| Legiões na Ars Goetia | 30 |
| Collin de Plancy | Zaebos, Grande Conde de caráter doce |
| Selo | Presente na tradição do Lemegeton |
| Etimologia | Incerta |
A primeira dificuldade está na própria numeração
Muitos conteúdos afirmam que Saleos é o número 64 em Weyer.
Outros informam número 65.
Essa divergência possui uma explicação textual.
Na enumeração latina da Pseudomonarchia Daemonum disponibilizada por Joseph H. Peterson, Zaleos aparece na seção 65. Entretanto, Reginald Scot omitiu Pruflas de sua tradução inglesa. Quando a sequência é contada sem Pruflas, os espíritos posteriores deslocam-se uma posição, e Saleos passa a aparecer como 64.
É por isso que encontramos as duas numerações.
Se estivermos falando especificamente da organização latina de Weyer que inclui Pruflas, Zaleos aparece como nº 65.
Na sequência derivada de Scot sem Pruflas, ele corresponde ao nº 64.
Na Ars Goetia, o catálogo é reorganizado de maneira muito mais radical e Saleos passa para a posição 19.
Esse detalhe pode parecer secundário, mas demonstra novamente que os números goéticos não representam uma ordem imutável preservada desde a Antiguidade.
Zaleos em Johann Weyer
A descrição de Zaleos em Weyer é extraordinariamente curta.
O latim afirma essencialmente que Zaleos é um Grande Conde, aparece como um belíssimo soldado montado sobre um crocodilo, usa uma coroa ducal e possui natureza pacífica.
Depois disso, encontramos simplesmente:
et cetera.
A entrada termina.
Isso significa que duas das características hoje consideradas fundamentais para Saleos não estão escritas explicitamente nessa descrição.
Weyer não informa quantas legiões Zaleos governa.
Também não declara ali que ele provoca amor entre homens e mulheres.
Essa constatação deve modificar a maneira como o artigo é escrito.
Não podemos dizer que “Weyer descreve Saleos como espírito do amor de 30 legiões” porque isso introduziria no texto de Weyer informações pertencentes claramente à tradição posterior.
O enigmático “etc.” de Weyer
O encerramento pacificus, &c. é especialmente interessante.
Ele demonstra que a entrada publicada está incompleta ou deliberadamente abreviada.
O próprio Weyer declara na introdução da Pseudomonarchia que omitiu partes do material que utilizava, visando tornar a obra impraticável como manual operacional de magia.
Isso não nos autoriza a preencher livremente tudo aquilo que estaria escondido sob o “etc.”.
Também não nos autoriza a concluir que a versão posterior da Ars Goetia reproduz exatamente aquilo que Weyer removeu.
Mas cria uma questão legítima.
A tradição de Zaleos possuía informações adicionais que Weyer não publicou?
Outro manuscrito relacionado oferece uma pista importante.
Caleos no Liber Officiorum Spirituum
O Folger Shakespeare Library MS V.b.26 preserva uma versão dos Offices of Spirits copiada no ambiente inglês do final do século XVI.
Nesse manuscrito encontramos Caleos entre doze espíritos associados ao rei Paimon.
Sua descrição é extremamente relevante.
Caleos possui conhecimento e poder sobre inúmeros tesouros. Ele torna uma pessoa amada e obtém familiaridade ou favor. Aparece como um cavaleiro montado sobre um crocodilo e possui duas coroas sobre a cabeça. O texto acrescenta que ele é pouco confiável em suas respostas se não for devidamente constrangido pelo operador.
Compare isso com Zaleos.
Zaleos é soldado.
Caleos é cavaleiro.
Zaleos monta um crocodilo.
Caleos monta um crocodilo.
Zaleos usa uma coroa ducal.
Caleos usa duas coroas.
Zaleos é pacífico.
Caleos torna alguém amado e produz familiaridade.
A semelhança nominal e iconográfica é considerável.
Caleos é definitivamente Saleos?
A resposta mais prudente é que Caleos constitui um paralelo textual fortemente relacionado, mas não devemos apagar as diferenças.
Caleos possui funções que não aparecem em Saleos na Ars Goetia, especialmente conhecimento de tesouros e a característica de oferecer respostas falsas caso não seja constrangido.
Também possui duas coroas, não apenas uma.
Por outro lado, a montaria de crocodilo e a proximidade dos nomes tornam uma relação textual muito difícil de ignorar. O próprio conjunto editorial moderno do Liber Officiorum Spirituum trata Caleos entre os espíritos compartilhados ou relacionados a outros catálogos goéticos.
O correto, portanto, é apresentar Caleos como parte importante da história textual de Saleos sem afirmar uma identidade absolutamente demonstrada.
A função amorosa pode ser mais antiga que a Ars Goetia
A pequena entrada publicada por Weyer não menciona amor.
Mas Caleos, em um ramo contemporâneo da tradição dos Offices of Spirits, já possui uma função relacionada a ser amado e conquistar familiaridade.
Isso é importante porque impede uma conclusão simplista.
Não podemos dizer que o compilador do Lemegeton simplesmente inventou do nada a função amorosa de Saleos.
Existia material relacionado no mesmo universo textual que já associava uma figura extremamente próxima ao favor e ao amor.
Contudo, a formulação específica do Lemegeton é nova em sua clareza.
Saleos agora produz o amor de mulheres por homens e de homens por mulheres.
Essa reciprocidade explícita é uma característica fundamental da versão goética.
Não encontramos um antecedente seguro no Livre des Esperitz
Alguns espíritos anteriores desta biblioteca possuem correspondentes claros no Livre des Esperitz.
Gusion possui Gazon.
Sitri possui Bitur.
Bathin possui Machin.
No caso de Saleos, a situação é diferente.
A comparação de Jean-Patrice Boudet registra Zaleos como Grande Conde na lista de Weyer, mas não oferece para ele um correspondente claramente estabelecido entre as entradas do Livre des Esperitz ou nas listas medievais comparadas naquele estudo.
Isso precisa ser respeitado.
Não há necessidade de inventar um ancestral apenas porque outros espíritos possuem um.
A documentação conhecida permite chegar a Zaleos e ao paralelo Caleos, mas uma genealogia medieval anterior permanece obscura.
Admitir isso aumenta a qualidade da pesquisa.
Saleos na Ars Goetia
No Lemegeton ocorre uma transformação substancial.
Saleos passa a ser o décimo nono espírito.
Seu título deixa de ser Grande Conde e torna-se Grande e Poderoso Duque.
A aparência permanece muito próxima da encontrada em Weyer. Ele continua sendo um soldado galante montado sobre um crocodilo e usando uma coroa ducal. Também continua sendo descrito como pacífico.
Mas agora surgem duas informações explícitas.
Saleos faz mulheres amarem homens e homens amarem mulheres.
Além disso, governa trinta legiões de espíritos.
Essa é a versão que se tornou dominante.
De Conde para Duque
A alteração da hierarquia merece atenção.
Weyer chama Zaleos de magnus Comes, Grande Conde.
A Ars Goetia chama Saleos de Grande e Poderoso Duque.
Curiosamente, mesmo quando Zaleos ainda é chamado de Conde em Weyer, já utiliza uma coroa ducal.
Isso produz uma pequena tensão textual.
Temos um Conde usando uma coroa de Duque.
O Lemegeton elimina a inconsistência ao promover Saleos a Duque.
Não podemos demonstrar que essa foi deliberadamente a razão da mudança, mas a coincidência é interessante.
O compilador pode ter harmonizado título e coroa, ou pode ter seguido outro ramo textual no qual Saleos já possuía posição ducal.
Sem documentação adicional, a causalidade permanece aberta.
A coroa ducal é anterior ao título de Duque
Esse ponto merece ser destacado.
A coroa não apareceu depois que Saleos se tornou Duque.
Ela já estava em Zaleos quando Weyer ainda o classificava como Conde.
Por isso, não devemos interpretar automaticamente a coroa como simples ilustração de seu título goético posterior.
Historicamente, a coroa precede a mudança hierárquica.
Isso demonstra novamente como aparência e cargo nem sempre evoluem juntos.
O soldado pacífico
Outra característica excepcional é a combinação entre aparência militar e comportamento pacífico.
Zaleos aparece como um belo soldado.
Mas é descrito como pacificus.
O Lemegeton preserva a mesma ideia.
Essa combinação diferencia Saleos de Zepar.
Zepar também aparece como soldado, mas o texto não enfatiza explicitamente uma manifestação pacífica.
Eligos possui aparência cavalheiresca ligada à guerra.
Leraje é um arqueiro relacionado a batalhas.
Saleos, em contraste, possui imagem militar, mas uma disposição descrita como tranquila.
A fonte não explica a contradição.
É justamente por isso que ela é interessante.
“Pacífico” não significa necessariamente benevolente
É preciso evitar outro salto comum.
A palavra pacificus descreve sua maneira de aparecer ou seu caráter dentro da entrada.
Isso não prova que Saleos seja moralmente “bom”, benevolente ou incapaz de causar dano segundo todas as tradições.
Também não significa que seja uma entidade moderna de “paz universal”.
A formulação correta é mais simples.
Weyer o descreve como pacífico.
Collin de Plancy posteriormente conserva essa característica ao chamá-lo de doce ou gentil de caráter.
Qualquer teologia moral adicional pertence a interpretações posteriores.
O crocodilo de Saleos
O crocodilo é uma das características mais estáveis da tradição.
Zaleos monta um crocodilo em Weyer.
Caleos também monta um crocodilo no Folger MS V.b.26.
Saleos continua montando um crocodilo na Ars Goetia.
Zaebos preserva a mesma montaria em Collin de Plancy.
Isso torna o crocodilo um elemento iconográfico muito mais antigo e estável que as trinta legiões ou mesmo a função amorosa explicitamente formulada no Lemegeton.
O crocodilo significa água, tempo ou fertilidade?
As fontes clássicas consultadas não fornecem essa explicação.
Weyer não explica o crocodilo.
O Lemegeton também não.
Collin de Plancy simplesmente preserva a imagem.
Por isso, interpretações contemporâneas que relacionam o crocodilo a água, tempo, fertilidade, eras, sexualidade ou força primitiva podem pertencer a sistemas modernos, mas não devem ser apresentadas como significado original documentado.
Esse é um ponto importante para a revisão do conteúdo atual do site.
A presença do crocodilo é histórica.
Sua interpretação simbólica permanece aberta.
Saleos, Agares e a repetição do crocodilo
Saleos não é o único espírito goético montado em crocodilo.
Agares também possui essa montaria.
Isso não significa automaticamente que ambos pertençam ao mesmo “tipo espiritual”, à mesma origem religiosa ou ao mesmo elemento.
Os textos não fornecem essa classificação.
O melhor procedimento é reconhecer a repetição iconográfica e investigar cada espírito individualmente.
Repetição de animal não equivale a identidade de função.
Agares ensina línguas, move pessoas e está relacionado a dignidades e movimentos.
Saleos possui um perfil completamente diferente.
O amor de Saleos
A Ars Goetia utiliza uma formulação relativamente equilibrada.
Saleos provoca o amor de mulheres por homens e de homens por mulheres.
A frase é importante porque apresenta reciprocidade formal entre os sexos no texto.
Isso diferencia Saleos de Zepar, cuja tradição de Weyer é direcionada especificamente para mulheres desejando homens.
Também o diferencia de algumas formulações de Vual, que enfatizam o amor das mulheres.
Saleos apresenta uma estrutura bilateral.
Bilateral não significa necessariamente recíproco entre duas pessoas específicas
Existe uma distinção importante.
O texto diz que Saleos pode causar o amor de mulheres por homens e de homens por mulheres.
Isso não afirma necessariamente que duas pessoas específicas passarão automaticamente a amar uma à outra de maneira igualmente livre e recíproca.
É uma descrição de seu campo de atuação.
Transformar isso em “Saleos garante amor mútuo perfeito” seria ampliar a fonte.
Da mesma forma, fidelidade, casamento, cura de relacionamento e sexualidade não são explicitamente mencionados na pequena entrada da Ars Goetia.
Esses temas pertencem principalmente a desenvolvimentos posteriores.
Saleos não é explicitamente um espírito de fidelidade
Esse é outro ponto importante para o texto atual.
Algumas páginas contemporâneas atribuem a Saleos poder específico sobre fidelidade conjugal.
A descrição clássica não afirma isso.
Ela fala em produzir amor.
Pode haver tradições demonolátricas posteriores que desenvolvem fidelidade como extensão desse domínio.
Mas isso precisa ser identificado como interpretação moderna.
O artigo de referência não deve transformar a extensão posterior numa função original.
Saleos não aparece como espírito de fertilidade
A mesma cautela vale para fertilidade.
O texto clássico não menciona gravidez, reprodução, colheita ou fertilidade.
A tentativa de conectar Saleos a antigas deusas de grãos ou fertilidade depende de associações etimológicas e simbólicas bastante especulativas.
Até o momento, não existe cadeia documental suficiente para identificar Zaleos/Saleos como uma antiga divindade agrícola demonizada.
Essa hipótese não deve ocupar o mesmo nível das informações encontradas nos manuscritos.
Saleos é a deusa Shala?
Não existe evidência histórica suficiente.
Shala possui tradição mesopotâmica própria.
Saleos aparece dentro da demonologia europeia renascentista sob grafias como Zaleos e posteriormente Saleos/Sallos.
Sem uma cadeia textual que explique como Shala teria se transformado em Zaleos, a semelhança de som não demonstra identidade.
A mesma regra vale para Salus, Salomé, Scylla e outros nomes modernamente aproximados de Saleos.
Comparação fonética não é genealogia.
A etimologia de Saleos permanece obscura
Weyer não explica o nome.
O Lemegeton também não.
Boudet registra Zaleos em seu catálogo comparativo sem oferecer uma origem linguística segura.
Por isso, traduções como “sulco para plantar”, derivações sumérias ou supostas raízes semíticas não devem ser apresentadas como etimologia estabelecida.
O mais responsável é dizer que a origem do nome permanece incerta.
Essa resposta é menos espetacular, mas possui maior valor documental.
Sallos, Saleos, Zaleos e Zaebos
A grafia também sofreu transformações importantes.
Weyer utiliza Zaleos.
A tradição inglesa transmite Saleos.
O Lemegeton preserva Saleos, enquanto a edição Mathers/Crowley popularizou especialmente Sallos.
No século XIX, Collin de Plancy registra Zaebos.
A forma Zaebos não deve ser tratada como entidade separada.
Collin de Plancy preserva claramente a mesma iconografia.
Belo soldado.
Crocodilo.
Coroa ducal.
Caráter suave.
Estamos diante de uma nova transformação do nome.
Zaebos em Collin de Plancy
A entrada do Dictionnaire Infernal é muito curta.
Zaebos é um Grande Conde dos infernos. Aparece como belo soldado montado sobre um crocodilo, possui coroa ducal e é descrito como tendo caráter doce ou gentil.
Observe algo particularmente interessante.
Collin de Plancy aproxima-se de Weyer, não da versão ampliada da Ars Goetia.
Ele volta ao título de Conde.
Preserva aparência e temperamento.
Mas sua pequena entrada não enfatiza o poder amoroso nem registra as trinta legiões.
Isso demonstra que a recepção do século XIX não é simplesmente uma cópia linear do Lemegeton.
Diferentes autores continuaram utilizando diferentes ramos da tradição.
A ilustração de Louis Le Breton
A edição de 1863 do Dictionnaire Infernal inclui uma ilustração de Zaebos produzida por Louis Le Breton.
Ela representa uma interpretação visual do século XIX da figura descrita por Collin de Plancy e tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis associadas a Saleos. A obra é documentada como ilustração de 1863 para a entrada Zaebos.
Isso precisa aparecer na legenda caso a imagem seja utilizada no WordPress.
Uma legenda adequada seria:
Zaebos, representação de Louis Le Breton para o Dictionnaire Infernal, 1863. Trata-se de uma interpretação artística do século XIX, não de uma imagem proveniente da Ars Goetia medieval ou renascentista.
Essa simples legenda aumenta muito a qualidade documental do site.
Caleos e as duas coroas
O paralelo Caleos adiciona outro problema iconográfico interessante.
Enquanto Zaleos usa uma coroa ducal, Caleos utiliza duas coroas.
Não existe razão suficiente para misturar as imagens e afirmar que Saleos “possui duas coroas”.
Essa característica pertence ao ramo Caleos.
Entretanto, a existência das duas versões mostra que a ideia de realeza ou dignidade elevada era suficientemente importante para sobreviver com variações.
Mais uma vez, diferentes testemunhos preservaram elementos diferentes.
Caleos e os tesouros
Caleos possui conhecimento de inúmeros tesouros.
Essa faculdade não aparece na entrada de Saleos da Ars Goetia.
Portanto, ela não deve ser adicionada automaticamente à ficha de Saleos.
Pode ser estudada numa seção dedicada ao paralelo Caleos, como fazemos aqui.
Essa abordagem é muito mais útil que criar uma única lista de “poderes” juntando tudo o que qualquer espírito semelhante recebeu em qualquer manuscrito.
A história da transmissão fica visível.
Caleos e as respostas falsas
Outro aspecto ausente de Saleos é a desconfiança.
Caleos é descrito como falso ou pouco confiável em suas respostas, salvo quando devidamente constrangido.
A Ars Goetia não atribui explicitamente essa característica a Saleos.
Portanto, também não devemos adicioná-la à sua ficha principal.
Essa diferença reforça a cautela ao tratar Caleos e Saleos como perfeitamente idênticos.
São claramente relacionados, mas a tradição não é uniforme.
Saleos e Paimon
No Folger MS V.b.26, Caleos aparece numa lista de doze espíritos principais associados a Paimon.
Essa informação pertence ao sistema específico do Liber Officiorum Spirituum preservado nesse manuscrito.
Não significa que a Ars Goetia coloque Saleos formalmente sob Paimon.
O Lemegeton não apresenta sua lista de 72 simplesmente como subordinados diretos dos reis nas mesmas divisões encontradas no Folger.
Por isso, frases como “Saleos serve ao rei Paimon” precisam sempre indicar a tradição utilizada.
Saleos é diretamente subordinado a Lúcifer?
Não existe essa afirmação na pequena entrada da Ars Goetia.
Também não encontramos em Weyer uma declaração de que Zaleos seja subordinado diretamente a Lúcifer.
Correntes luciferianas e demonolátricas contemporâneas podem organizar seus espíritos de outra maneira.
Isso pertence à sua própria teologia.
Historicamente, devemos evitar fundir sistemas diferentes num único organograma infernal.
Saleos é um espírito bíblico?
Não.
Saleos não aparece na Bíblia como o espírito descrito pela Ars Goetia.
Sua documentação conhecida pertence à tradição europeia de catálogos ritualísticos e demonológicos.
Isso o diferencia de nomes como Asmodeus ou Belial, que possuem histórias textuais muito mais antigas fora dos grimórios modernos.
A atribuição salomônica da Ars Goetia faz parte da tradição pseudepigráfica.
Não constitui prova de que Saleos seja uma figura da época do Salomão histórico.
O selo de Saleos
A Ars Goetia associa Saleos a um selo próprio.
Esse símbolo tornou-se extremamente popular no ocultismo contemporâneo.
Entretanto, Zaleos já está documentado por Weyer sem que o conhecido selo apareça junto à descrição da mesma maneira.
Caleos também possui sua tradição sem esse caractere goético.
Isso demonstra que o nome e a iconografia de Saleos são anteriores ao conhecido sigilo.
Não existe evidência historiográfica suficiente para afirmar que esse desenho tenha sido produzido pelo rei Salomão histórico.
As trinta legiões aparecem apenas claramente na tradição goética
Esse é outro diferencial importante.
A entrada preservada de Weyer não fornece número de legiões para Zaleos.
O Lemegeton atribui claramente trinta legiões a Saleos.
Por isso, devemos evitar escrever:
“Weyer e a Ars Goetia concordam que Saleos governa 30 legiões.”
Não podemos demonstrar isso pela entrada publicada de Weyer.
A forma correta é:
A Ars Goetia atribui trinta legiões. A pequena descrição de Zaleos publicada por Weyer não informa essa quantidade.
Essa correção aparentemente pequena diferencia bastante o artigo de conteúdos derivados uns dos outros.
O amor foi acrescentado ou restaurado?
Essa pergunta não possui resposta definitiva.
Se consultarmos apenas Weyer e depois o Lemegeton, parece que a função amorosa foi acrescentada.
Mas Caleos complica o problema.
Um ramo relacionado já apresenta um cavaleiro de nome semelhante montado sobre crocodilo que torna alguém amado e conquista familiaridade.
Assim, existem pelo menos duas possibilidades.
O compilador da Ars Goetia pode ter ampliado livremente Zaleos.
Também pode ter utilizado material relacionado que preservava funções omitidas ou ausentes da pequena entrada de Weyer.
A documentação disponível não permite escolher com segurança.
O mais importante é reconhecer que a evolução não foi necessariamente uma simples invenção linear.
Saleos, Sitri, Beleth e Zepar não são quatro versões do mesmo espírito
Esse é um ponto fundamental para a biblioteca.
Todos possuem alguma relação com amor ou desejo.
Mas seus perfis documentais são diferentes.
Sitri envolve desejo, nudez, exposição e segredos.
Beleth envolve intensidade emocional e uma forma de paixão que Weyer descreve através de linguagem próxima ao delírio.
Zepar envolve atração, união, alteração de forma e esterilidade.
Saleos é diferente.
A Ars Goetia oferece uma formulação muito mais simples, simétrica e pacífica.
Ele produz amor de mulheres por homens e de homens por mulheres.
Não existe esterilidade.
Não existe nudez.
Não existe zombaria.
Não existe delírio.
Não existe guerra.
Essa ausência de elementos coercitivos adicionais não transforma automaticamente Saleos num modelo moderno de relacionamento saudável, mas define uma identidade textual própria.
O diferencial de Saleos é a reciprocidade formal
A característica que melhor separa Saleos dos outros espíritos amorosos é a estrutura bilateral de sua descrição.
Mulheres por homens.
Homens por mulheres.
Essa simetria permite que a interpretação contemporânea do Templo seja construída em torno de reciprocidade afetiva, e não apenas de sedução.
Essa formulação é nossa.
Não pertence literalmente ao manuscrito.
Mas deriva de uma característica real do texto, em vez de impor um arquétipo genérico sem fundamento.
Amor não é posse
Assim como ocorre nos demais textos mágicos históricos, a função de Saleos é descrita do ponto de vista do operador que deseja produzir determinado resultado.
O grimório não desenvolve uma teoria contemporânea de consentimento.
Não há motivo para esconder isso.
Ao mesmo tempo, uma interpretação luciferiana moderna baseada em autonomia não precisa adotar o paradigma coercitivo do texto como norma moral.
A liberdade do praticante não pode depender da anulação da liberdade alheia.
Reciprocidade não pode ser fabricada unilateralmente
Esse princípio oferece uma distinção importante.
Uma pessoa pode desejar profundamente determinada relação.
Pode demonstrar interesse.
Pode criar oportunidade de aproximação.
Pode comunicar aquilo que sente.
Mas reciprocidade depende também da existência de uma resposta do outro lado.
Quando apenas uma vontade existe, ainda não existe vínculo recíproco.
Existe desejo.
Confundir essas duas coisas produz muitos conflitos afetivos.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Na interpretação contemporânea do Templo, Saleos representa a Reciprocidade Afetiva.
Essa leitura nasce da combinação entre três elementos da tradição.
Sua manifestação é pacífica.
Sua função amorosa é formulada bilateralmente.
Sua iconografia apresenta um soldado que não chega como combatente agressivo.
Esses elementos permitem construir uma filosofia diferente daquela utilizada para Sitri, Beleth ou Zepar.
Saleos não representa a conquista.
Representa a possibilidade de encontro.
O paradoxo do soldado pacífico
O soldado possui capacidade de combate.
Mas Saleos manifesta-se pacificamente.
Essa imagem pode ser utilizada como símbolo contemporâneo de algo importante nas relações.
Uma pessoa pode possuir limites fortes sem transformar toda divergência em guerra.
Pode afirmar o que deseja sem atacar.
Pode recusar sem humilhar.
Pode proteger-se sem precisar controlar.
Força e agressividade não são sinônimos.
Esse é um princípio particularmente adequado para Saleos.
O crocodilo e a estabilidade
A fonte não oferece significado simbólico para o crocodilo.
Por isso, qualquer interpretação precisa ser reconhecida como moderna.
Dentro da leitura do Templo, entretanto, podemos utilizar a imagem sem inventar uma origem histórica.
O crocodilo é uma criatura capaz de permanecer imóvel por longos períodos e agir no momento oportuno.
Isso pode funcionar como metáfora de paciência relacional.
Atração não precisa ser constantemente forçada.
Nem toda conexão precisa ser acelerada.
Mas essa interpretação pertence exclusivamente à nossa camada filosófica, não a Weyer.
Reciprocidade exige espaço para a recusa
Esse é talvez o ponto mais importante.
Se o outro lado não pode dizer “não”, então aquilo que parece reciprocidade é apenas obediência.
Relacionamentos baseados em liberdade precisam incluir a possibilidade de não haver relacionamento.
Essa ideia parece paradoxal.
Mas a capacidade de aceitar uma recusa é justamente aquilo que demonstra respeito pela autonomia.
Dentro do Templo, Saleos deve representar essa maturidade.
Interesse não é compromisso
Outro erro comum ocorre quando sinais iniciais de atração são tratados como promessa de relação.
Uma pessoa pode sentir interesse e ainda não desejar compromisso.
Pode sentir carinho e não desejar sexualidade.
Pode sentir desejo sem desejar relacionamento.
Pode desejar relacionamento e depois mudar de decisão.
Reciprocidade precisa ser continuamente reconhecida, não presumida.
Essa compreensão diferencia afeto consciente de posse.
O Princípio da Reciprocidade Afetiva
A formulação contemporânea do Templo pode ser resumida da seguinte maneira:
um vínculo só existe de maneira plena quando as partes envolvidas podem escolher permanecer nele.
A intensidade de uma pessoa não substitui a decisão da outra.
A promessa passada não elimina autonomia presente.
O desejo não cria obrigação.
Esse princípio é particularmente adequado para Saleos porque sua descrição goética possui a formulação amorosa mais simétrica entre os espíritos que estudamos até agora.
Saleos e comunicação
Embora a fonte não lhe atribua explicitamente eloquência ou comunicação, reciprocidade depende de comunicação suficiente.
Muitos relacionamentos fracassam não por ausência de sentimento, mas por expectativas incompatíveis que nunca foram expressas.
Uma pessoa acredita que a relação é casual.
Outra considera exclusiva.
Uma procura companhia.
Outra projeta futuro.
Nenhuma das duas necessariamente está mentindo.
Elas podem simplesmente estar vivendo interpretações diferentes do mesmo vínculo.
O trabalho da reciprocidade começa quando essas diferenças são trazidas para a linguagem.
Saleos e o consentimento
Consentimento não deve ser tratado apenas como autorização pontual.
Dentro de relações humanas, ele é processo.
Pode ser concedido.
Pode ser limitado.
Pode ser retirado.
Pode existir para uma atividade e não para outra.
Uma filosofia contemporânea de autonomia precisa incorporar isso.
Esse desenvolvimento não pertence à Ars Goetia.
É nossa resposta ética ao fato de estudarmos textos históricos que frequentemente tratam vontades humanas como objetos de operações mágicas.
Saleos e relações abusivas
É possível utilizar a ideia de reciprocidade para discutir relações abusivas sem afirmar que Saleos “historicamente liberta pessoas de abuso”.
Essa função não aparece nas fontes clássicas.
O que podemos fazer é construir uma reflexão contemporânea.
Uma relação em que apenas uma pessoa define regras, controla contatos, ameaça abandono, manipula culpa ou invalida sistematicamente a autonomia da outra não é recíproca, mesmo que exista afeto.
O conceito é útil.
A atribuição histórica inexistente não precisa ser inventada.
O Teste de Saleos
Na filosofia contemporânea do Templo, uma relação pode ser analisada por cinco perguntas.
A primeira verifica se existe desejo efetivamente compartilhado ou apenas insistência de uma das partes. A segunda observa se ambas conseguem expressar limites sem medo de retaliação. A terceira pergunta se aquilo que cada pessoa chama de relacionamento significa aproximadamente a mesma coisa para ambas.
A quarta examina se afeto e compromisso estão sendo demonstrados por comportamento, não apenas prometidos verbalmente. A quinta pergunta se qualquer uma das partes pode mudar de decisão sem ser tratada como propriedade da outra.
Esse conjunto constitui o Teste de Saleos.
É uma ferramenta autoral contemporânea e não uma operação extraída de grimórios.
Saleos e Beleth
Beleth trabalha intensidade emocional.
Saleos trabalha reciprocidade.
Essa diferença é fundamental.
Uma relação pode possuir intensidade enorme e pouca reciprocidade.
Pode também possuir reciprocidade estável sem dramaticidade constante.
Confundir intensidade com profundidade é um erro frequente.
A filosofia de Beleth pergunta se o sentimento tomou controle da vontade.
A filosofia de Saleos pergunta se o sentimento realmente existe nos dois lados.
Saleos e Sitri
Sitri trabalha desejo, atração e vulnerabilidade.
Saleos trabalha aquilo que acontece quando o interesse precisa tornar-se bilateral.
Atração pode existir unilateralmente.
Reciprocidade não.
Por isso, os artigos não precisam competir por “demônio do amor”.
Eles respondem a questões diferentes.
Saleos e Zepar
Zepar concentra-se em união, transformação e continuidade.
Saleos não possui a esterilidade de Zepar nem sua função de alterar a aparência.
Sua formulação é muito mais simples.
Na arquitetura do Templo, Zepar pergunta o que acontece depois que o vínculo é conseguido.
Saleos pergunta se o vínculo existe realmente dos dois lados.
Saleos e Amon
Amon atua numa fase posterior das relações.
Conflito.
História.
Reconciliação.
Saleos pertence a uma etapa mais básica.
A existência ou não de reciprocidade.
É difícil reconciliar uma relação cuja própria natureza nunca foi compreendida igualmente pelas pessoas envolvidas.
Saleos segundo o Método das Seis Camadas da Goétia
Na primeira camada encontramos a Ars Goetia. Saleos é o espírito número 19, Grande e Poderoso Duque, belo soldado montado sobre crocodilo, coroado, pacífico, capaz de provocar amor entre homens e mulheres e senhor de trinta legiões.
Na segunda camada encontramos Weyer e Scot. Zaleos é Grande Conde, possui praticamente a mesma aparência e disposição pacífica, mas sua entrada termina abreviadamente e não registra de maneira explícita nem amor nem legiões.
Na terceira camada examinamos tradições relacionadas. O Folger MS V.b.26 preserva Caleos, cavaleiro sobre crocodilo que torna alguém amado e conquista familiaridade, usa duas coroas, conhece tesouros e pode responder falsamente. É um paralelo textual extremamente importante, embora não deva ser fundido automaticamente com Saleos.
Na quarta camada separamos correspondências posteriores. Vênus, signos zodiacais, cartas de Tarô, metais, cores, anjos, grãos, flores e supostas equivalências com antigas divindades não pertencem à pequena descrição de Weyer nem ao núcleo da Ars Goetia.
Na quinta camada estudamos a recepção. Collin de Plancy transforma o nome em Zaebos, retorna ao título de Grande Conde e preserva soldado, crocodilo, coroa e temperamento suave. Louis Le Breton fornece posteriormente a famosa representação visual de 1863.
Na sexta camada aparece a interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer, centrada em reciprocidade afetiva, autonomia, consentimento, comunicação e força sem agressividade.
Quadro de confiabilidade das principais afirmações
| Afirmação | Avaliação |
|---|---|
| Saleos é nº 19 da Ars Goetia | Documentado |
| Zaleos aparece em Weyer | Documentado |
| A numeração de Weyer/Scot pode aparecer como 65 ou 64 | Explicável pela omissão de Pruflas em Scot |
| Weyer chama Zaleos de Grande Conde | Documentado |
| Ars Goetia chama Saleos de Grande Duque | Documentado |
| Zaleos aparece como belo soldado | Documentado |
| Zaleos monta um crocodilo | Documentado |
| Usa coroa ducal | Documentado |
| É descrito como pacífico | Documentado |
| Weyer afirma explicitamente que Zaleos provoca amor | Não na entrada preservada |
| Weyer registra explicitamente 30 legiões | Não na entrada preservada |
| Ars Goetia registra amor entre homens e mulheres | Documentado |
| Ars Goetia registra 30 legiões | Documentado |
| Caleos monta crocodilo | Documentado |
| Caleos torna alguém amado | Documentado |
| Caleos possui duas coroas | Documentado |
| Caleos conhece tesouros | Documentado |
| Caleos é definitivamente idêntico a Saleos | Relação forte, identidade total não demonstrada |
| Existe correspondente seguro no Livre des Esperitz | Não demonstrado |
| Zaebos é forma usada por Collin de Plancy | Documentado |
| Zaebos é Grande Conde | Documentado |
| Louis Le Breton ilustrou Zaebos em 1863 | Documentado |
| Saleos é uma antiga divindade suméria identificada | Não demonstrado |
| Saleos deriva comprovadamente de Shala | Não |
| Saleos governa fidelidade segundo a Ars Goetia | Não explicitamente |
| Saleos governa fertilidade segundo Weyer | Não |
| Etimologia do nome está resolvida | Não |
| O conhecido selo já aparece na entrada de Weyer | Não |
Mitos e erros comuns sobre Saleos
Saleos sempre foi o espírito número 19?
Não. A posição nº 19 pertence à Ars Goetia. Zaleos aparece muito mais tarde na sequência de Weyer.
Saleos era número 64 ou 65 em Weyer?
A diferença está relacionada às tradições de enumeração. Weyer inclui Pruflas; Scot o omite. Isso desloca os números posteriores em uma posição.
Weyer diz que Saleos governa 30 legiões?
Não na curta entrada preservada de Zaleos.
Weyer diz que Saleos faz homens e mulheres se amarem?
Também não explicitamente nessa entrada. Essa formulação aparece claramente na Ars Goetia.
Então o poder amoroso foi inventado pela Goétia?
Não podemos afirmar isso. Caleos, numa tradição relacionada dos Offices of Spirits, já possui poder para tornar alguém amado e obter familiaridade.
Saleos é Conde ou Duque?
Em Weyer é Grande Conde. Na Ars Goetia é Grande e Poderoso Duque.
Por que usa coroa ducal se Weyer o chama de Conde?
A fonte não explica. A coroa ducal já aparece antes da mudança de título.
Saleos monta um crocodilo?
Sim. Essa é uma das características mais estáveis da tradição.
O crocodilo simboliza tempo?
Essa interpretação não é fornecida por Weyer ou pela Ars Goetia.
Saleos é um espírito de fidelidade?
Essa função aparece em algumas tradições modernas, mas não é explicitamente dada na entrada clássica.
Saleos é um espírito de fertilidade?
Também não existe essa atribuição no núcleo clássico.
Saleos é Shala?
Não existe evidência documental suficiente.
Saleos é Caleos?
Existe uma forte relação textual e iconográfica, mas não devemos apagar as diferenças entre as duas descrições.
Saleos é Zaebos?
Zaebos é claramente a forma utilizada por Collin de Plancy para a mesma figura tradicional.
Perguntas frequentes sobre Saleos
Quem é Saleos?
Saleos é o décimo nono espírito da Ars Goetia, um Grande e Poderoso Duque descrito como soldado pacífico montado sobre crocodilo e associado ao amor entre homens e mulheres.
Saleos e Sallos são o mesmo espírito?
Sim. Sallos tornou-se uma grafia especialmente conhecida através da recepção moderna da Goétia.
E Zaleos?
É a forma utilizada por Weyer.
E Zaebos?
É a forma encontrada no Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy.
Quem é Caleos?
Caleos é um espírito de um ramo do Liber Officiorum Spirituum com nome e aparência muito próximos de Zaleos/Saleos. Ele monta um crocodilo, utiliza duas coroas e possui funções relacionadas a amor, familiaridade e tesouros.
Quantas legiões Saleos governa?
A Ars Goetia atribui-lhe trinta legiões.
Weyer também informa trinta?
Não. Sua curta entrada não apresenta quantidade de legiões.
Como Saleos aparece?
Como um belo e galante soldado montado sobre crocodilo e usando coroa ducal.
Saleos é agressivo?
As fontes clássicas o descrevem como pacífico ou de caráter suave.
Saleos produz amor?
A Ars Goetia afirma que sim.
O amor de Saleos é recíproco?
O texto apresenta a faculdade nas duas direções, mas não desenvolve uma teoria moderna de reciprocidade ou consentimento.
Saleos é espírito de casamento?
A entrada clássica não afirma especificamente isso.
Saleos aumenta desejo sexual?
Pode ser uma interpretação posterior do campo amoroso, mas sexualidade explícita não é enfatizada como ocorre em Sitri.
Saleos trabalha fidelidade?
Não é uma função explicitamente dada na descrição clássica.
Saleos possui sigilo?
Sim, na tradição da Ars Goetia.
O sigilo já aparece com Zaleos em Weyer?
Não da mesma forma encontrada no Lemegeton.
Saleos possui origem suméria?
Nenhuma origem suméria específica foi demonstrada.
Qual é a etimologia de Saleos?
Permanece incerta.
Saleos é luciferiano?
Não originalmente no sentido religioso contemporâneo. A leitura desenvolvida pelo Templo de Lúcifer é moderna e assumidamente autoral.
O que Saleos representa no Templo de Lúcifer?
Reciprocidade afetiva, autonomia, limites, comunicação e capacidade de construir vínculos sem transformar desejo em posse.
Linha do tempo de Saleos
| Período | Desenvolvimento |
|---|---|
| Tradições medievais comparadas | Não existe antecedente identificado com segurança nas listas analisadas por Boudet |
| 1577 | Weyer publica Zaleos como Grande Conde, soldado sobre crocodilo, coroado e pacífico |
| 1577–1583 aproximadamente | Folger MS V.b.26 registra Caleos, paralelo relacionado que produz amor/familiaridade e monta crocodilo |
| 1584 | Scot transmite Saleos ao inglês, com a mesma descrição abreviada |
| Século XVII | Ars Goetia reorganiza Saleos como nº 19, Grande Duque, atribui-lhe 30 legiões e explicita seu poder amoroso |
| 1863 | Collin de Plancy utiliza Zaebos e retorna ao título de Grande Conde |
| 1863 | Louis Le Breton cria a conhecida ilustração de Zaebos |
| 1904 | Mathers e Crowley popularizam a forma Sallos e a versão goética moderna |
| Séculos XX e XXI | Demonolatria e ocultismo contemporâneo acrescentam astrologia, Tarô, fidelidade, oferendas e outras correspondências |
O lugar de Saleos na biblioteca dos 72 Daemons
A diferenciação editorial dos espíritos relacionados ao amor precisa ser mantida com rigor.
Sitri trabalha desejo, exposição e vulnerabilidade.
Beleth trabalha intensidade afetiva.
Zepar trabalha união, identidade e consequência.
Saleos trabalha reciprocidade.
Essa distinção não é apenas uma estratégia de SEO.
Ela nasce de diferenças reais entre as fontes.
O resultado é uma biblioteca em que cada artigo possui razão própria para existir.
A perspectiva do Templo de Lúcifer
Na leitura contemporânea do Templo, Saleos representa a Reciprocidade Afetiva.
A ideia parte de uma observação simples.
Amor unilateral pode existir como sentimento.
Relacionamento unilateral não.
Um vínculo depende da participação de mais de uma vontade.
Isso significa que autonomia não é obstáculo ao amor.
É condição para que o amor seja uma escolha.
Quando alguém permanece porque não acredita poder sair, existe dependência ou coerção.
Quando permanece porque continua escolhendo o vínculo, existe algo qualitativamente diferente.
A reciprocidade não significa que duas pessoas sentirão tudo na mesma intensidade.
Relacionamentos não funcionam como equações matemáticas.
Em certos períodos, uma pessoa precisará oferecer mais apoio.
Em outros, a situação se inverterá.
A questão não é igualdade mecânica.
É existência de consideração mútua.
A força de Saleos não precisa ser agressiva
O soldado pacífico oferece uma das imagens mais interessantes da tradição.
Poder não precisa ser demonstrado permanentemente através de confronto.
Uma pessoa segura de seus limites pode falar com firmeza sem violência.
Pode abandonar uma relação incompatível sem necessidade de destruir o outro.
Pode defender sua dignidade sem transformar cada discordância em guerra.
Essa é uma forma de força muito diferente daquela representada por Leraje.
Saleos não elimina limites.
Ele elimina a ideia de que todo limite exige agressão.
O princípio contemporâneo de Saleos
A síntese filosófica do Templo pode ser formulada assim:
não persiga aquilo que precisa ser coagido para permanecer. Não confunda intensidade com reciprocidade. Diga claramente aquilo que deseja, permita que o outro faça o mesmo e reconheça que um vínculo livre só existe enquanto houver escolha dos dois lados.
Essa interpretação não pertence a Weyer.
Não pertence à Ars Goetia.
É uma construção contemporânea do Templo de Lúcifer feita depois de separar cuidadosamente a documentação histórica da elaboração filosófica.
Conclusão
Saleos é frequentemente apresentado como um dos espíritos mais simples da Ars Goetia.
Número 19.
Duque.
Soldado.
Crocodilo.
Coroa.
Amor.
Trinta legiões.
Quando examinamos as fontes, essa simplicidade desaparece.
Em Weyer encontramos Zaleos.
Ele é Grande Conde.
Não Duque.
Aparece como belíssimo soldado montado sobre crocodilo.
Usa coroa ducal.
É pacífico.
E então sua entrada termina abruptamente com um “etc.”.
Não encontramos ali trinta legiões.
Não encontramos ali a formulação explícita do amor entre homens e mulheres.
Reginald Scot preserva a mesma descrição abreviada.
Ao mesmo tempo, outro ramo da tradição dos Offices of Spirits apresenta Caleos.
Caleos também é cavaleiro.
Também monta crocodilo.
Mas usa duas coroas.
Conhece tesouros.
Torna alguém amado.
Produz familiaridade.
E pode mentir se não for devidamente constrangido.
Não podemos simplesmente dizer que Caleos é Saleos.
Mas também não podemos ignorar uma semelhança tão profunda.
Depois surge a Ars Goetia.
Zaleos/Saleos deixa sua posição tardia na antiga lista e torna-se o espírito número 19.
O Conde transforma-se em Duque.
A coroa ducal permanece.
O crocodilo permanece.
O comportamento pacífico permanece.
E agora surge uma função claramente definida.
Saleos produz amor de mulheres por homens e de homens por mulheres.
Também recebe trinta legiões e o conhecido selo goético.
No século XIX, Collin de Plancy transforma novamente o nome.
Saleos torna-se Zaebos.
O título volta a ser Grande Conde.
A pequena descrição volta a se aproximar de Weyer.
Belo soldado.
Crocodilo.
Coroa.
Caráter gentil.
Louis Le Breton transforma essa versão numa imagem que continuará sendo reproduzida até hoje.
Depois chegam os sistemas modernos.
Vênus.
Câncer.
Libra.
Tarô.
Cobre.
Cores.
Flores.
Grãos.
Fidelidade.
Fertilidade.
Shala.
Etimologias propostas.
Gnose pessoal.
Essas camadas podem possuir valor para as tradições que as utilizam.
Mas não devem ser apresentadas como se estivessem todas escritas na Pseudomonarchia Daemonum.
Quando retiramos essas sobreposições, Saleos continua possuindo uma identidade extraordinariamente interessante.
Ele é o soldado que chega pacificamente.
É o Conde que já usa uma coroa de Duque.
É a pequena entrada incompleta de Weyer que se transforma numa função amorosa muito mais clara no Lemegeton.
É também a entidade cuja formulação posterior apresenta amor nas duas direções.
No Templo de Lúcifer, essa característica será o fundamento de sua interpretação.
Saleos representa a Reciprocidade Afetiva.
Não a obtenção de uma pessoa.
Não a submissão da vontade alheia.
Não a ideia de que intensidade cria propriedade.
Mas a compreensão de que vínculo exige encontro entre autonomias.
Por isso, sua síntese final pode ser formulada da seguinte maneira:
Deseje sem possuir. Demonstre interesse sem exigir resposta. Preserve seus limites sem transformar força em agressão. E nunca chame de reciprocidade aquilo que somente continua existindo porque alguém perdeu a liberdade de escolher.
Esse é o lugar de Saleos dentro da biblioteca do Templo de Lúcifer.
Navegação pela Ars Goetia
O estudo anterior é Bathin/Bathym nº 18 da Ars Goetia.
O hub principal é Os 72 Daemons da Ars Goetia.
O próximo estudo será Purson/Pursan nº 20 da Ars Goetia.
Para aprofundamento interno, Saleos deve apontar especialmente para Sitri, Beleth, Zepar, Amon/Aamon e A Ética no Luciferianismo. Esses links ajudam o leitor a diferenciar desejo, intensidade afetiva, continuidade, reconciliação e reciprocidade.
Fontes e bibliografia
Johann Weyer — Pseudomonarchia Daemonum. Zaleos aparece como Grande Conde, belo soldado montado sobre crocodilo, usando coroa ducal e descrito como pacífico. A entrada preservada termina abreviadamente e não informa explicitamente nem função amorosa nem quantidade de legiões.
Reginald Scot — The Discoverie of Witchcraft, 1584. Transmite Saleos para o inglês e preserva o núcleo abreviado da descrição de Weyer. A omissão de Pruflas em Scot também ajuda a explicar divergências modernas na numeração dos espíritos posteriores.
Folger Shakespeare Library MS V.b.26 — Liber Officiorum Spirituum / Book of Oberon. Preserva Caleos como espírito relacionado ao círculo de Paimon. Caleos monta um crocodilo, utiliza duas coroas, conhece tesouros, torna uma pessoa amada e produz familiaridade, mas pode responder falsamente quando não é devidamente constrangido.
Jean-Patrice Boudet — “Les who’s who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux”. Fundamental para reconstruir as famílias textuais dos catálogos demonológicos. Zaleos aparece no inventário de Weyer, mas sem correspondente medieval claramente identificado nas listas comparadas por Boudet.
Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia, Sloane MS 3825. Reorganiza Saleos como espírito nº 19, muda seu título para Grande e Poderoso Duque, mantém soldado, crocodilo, coroa e manifestação pacífica e acrescenta explicitamente o amor entre homens e mulheres, trinta legiões e o selo.
Jacques Collin de Plancy — Dictionnaire Infernal, 1863. Utiliza a forma Zaebos e o título de Grande Conde. Preserva o belo soldado, crocodilo, coroa ducal e caráter gentil.
Louis Le Breton — Zaebos, 1863. Autor da famosa ilustração produzida para a sexta edição do Dictionnaire Infernal. A obra pertence ao século XIX e deve ser identificada como recepção artística posterior, não como imagem original da Goétia.
S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley — The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904. A edição ajudou a popularizar internacionalmente Sallos/Saleos nº 19, seu poder amoroso, as trinta legiões e seu selo.