Vual (Uvall, Uvuall ou Voval): o duque da Goetia sob a luz luciferiana
Quando se fala em Goetia, muita gente encara os espíritos apenas como caricaturas do medo, da queda e da punição. Mas essa leitura é incompleta. Sob uma ótica luciferiana, em que Lúcifer é compreendido como inteligência luminosa, revelação e consciência que rompe a noite da ignorância, certos nomes da tradição grimórica deixam de ser apenas “demônios” no sentido vulgar e passam a ser vistos como potências simbólicas da revelação interior. Vual é um desses nomes.
O quadragésimo sétimo espírito da Ars Goetia aparece nos manuscritos e edições como Uvall, Vual ou Voval, sendo descrito como um duque grande, forte e poderoso, que surge primeiro na forma de um dromedário e, após o comando do magista, assume forma humana. Seu ofício tradicional é atrair o amor das mulheres, revelar coisas do passado, presente e futuro, e promover amizade ou conciliação entre amigos e inimigos. O texto também afirma que ele foi da ordem das Potestades e governa 37 legiões de espíritos.

Quem é Vual nas fontes clássicas?
Historicamente, Vual não nasce na internet, nem em fórmulas esotéricas recentes. Ele pertence a uma linhagem textual muito mais antiga. A descrição que ficou famosa na Ars Goetia, parte do Lemegeton ou Lesser Key of Solomon, ecoa material demonológico já transmitido por Johann Weyer. Um estudo da KU Leuven observa que a Pseudomonarchia daemonum foi publicada por Weyer em 1577 e 1583 como edição de um manuscrito demonológico que já circulava em sua época; antes disso, Weyer já havia publicado o influente De praestigiis daemonum em 1563.
Esse contexto é importante porque Weyer não era apenas um compilador de demônios. Ele ficou conhecido justamente por criticar a perseguição às supostas bruxas. O mesmo estudo ressalta que ele se tornou célebre por sua oposição aos julgamentos de feitiçaria, e descreve o De praestigiis daemonum como marco da literatura sobre bruxaria. Em outras palavras: Vual chega até nós por meio de uma tradição que mistura demonologia, crítica religiosa e disputa intelectual sobre o que era ilusão, delírio, superstição e poder espiritual.
Nomes, variantes e a questão da nomenclatura
Uma das coisas mais fascinantes em Vual é justamente a instabilidade do nome. Nas tradições textuais aparecem formas como Wal, Vuall, Uvall, Vual e Voval. Joseph Peterson, ao comparar manuscritos e versões, mostra que Weyer traz a forma Wal/Vuall, enquanto a Goetia posterior estabiliza variantes como Uvall, Vual, Voval. Já a tradição iconográfica do Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy, no século XIX, também registra a forma Wall associada à imagem do espírito.
Por isso, a postura mais séria sobre a etimologia de Vual é a prudência. Não existe, nas fontes clássicas mais sólidas, uma etimologia consensual e estável para o nome. O que há, com clareza, é um rastro de variação ortográfica entre latim, inglês moderno inicial e compilações ocultistas posteriores. Em vez de uma origem linguística pacífica, Vual nos chega como um nome deformado pelo trânsito entre manuscritos, copistas, traduções e escolas mágicas.
O “egípcio” de Vual: língua, voz ou oráculo?
A tradição popular costuma repetir que Vual “fala a língua egípcia, mas não perfeitamente”. Só que a questão é mais sutil. Peterson observa que essa formulação da Goetia provavelmente deriva de uma má leitura da frase latina de Weyer, cujo sentido se aproxima mais de algo como “entoa/soa em língua egípcia com voz grave” do que simplesmente “fala egípcio de forma imperfeita”. Reginald Scot, em inglês, já o traduzia como alguém que “soa” a língua egípcia em voz profunda.
Essa nuance é decisiva. Num plano simbólico, Vual deixa de ser apenas um espírito “que fala mal uma língua antiga” e passa a ser uma figura que emite uma fala oracular, arcaica, pesada, sepulcral, quase litúrgica. Sob uma ótica luciferiana, isso é belíssimo: a luz nem sempre chega como claridade suave; às vezes ela irrompe como voz antiga, como idioma esquecido, como revelação que precisa ser decifrada.
Vual e a ordem das Potestades
A referência de que Vual “era da ordem das Potestades” o insere na gramática da angelologia cristã. A tradição hierárquica mais influente do Ocidente, derivada do Pseudo-Dionísio Areopagita entre o fim do século V e início do VI, organiza os seres celestes em tríades. Nessa estrutura, a segunda hierarquia é composta por Dominações, Virtudes e Potestades/Powers. A tradição posterior da Igreja latina consolidou a ideia dos nove coros angélicos, incluindo explicitamente as Powers.
Isso quer dizer que Vual, no imaginário grimórico, não é um ser qualquer do caos. Ele é descrito como uma potência que pertenceu a uma ordem ligada a autoridade, transmissão de força e governo espiritual. Numa leitura luciferiana, esse detalhe é central: Vual não representa somente sedução ou adivinhação; ele representa uma força decaída, mas ainda luminosa em sua estrutura, uma inteligência que conserva traços de ordem, memória e comando.
O dromedário, o deserto e a revelação
O primeiro corpo de Vual é o do dromedário. Isso, no texto clássico, não é decorativo. O dromedário pertence ao deserto, ao peso, à travessia, à resistência e à capacidade de transportar valor através de ambientes extremos. Quando, depois, Vual assume forma humana, vemos o movimento de passagem entre o instinto bruto e a inteligência articulada.
Essa metamorfose permite uma leitura muito rica. O deserto é o lugar da provação e da visão. O animal do deserto é o portador daquilo que sobrevive ao excesso e à escassez. Sob a luz luciferiana, Vual se torna um arquétipo da consciência que atravessa a aridez do mundo profano para trazer memória, desejo e reconciliação. Ele conhece o passado, percebe o presente e antecipa o futuro porque habita, simbolicamente, o território da travessia.
Amor, amizade e inimizade: o verdadeiro domínio de Vual
Os textos clássicos insistem em três poderes: amor, conhecimento temporal e reconciliação entre amigos e inimigos. Isso não deve ser lido apenas como “magia amorosa”. Em sentido mais profundo, Vual governa o campo das alianças, da atração, da reversão de hostilidade e daquilo que o desejo humano faz com a memória.
Na ótica luciferiana, esse ponto muda tudo. Lúcifer, como entidade de Luz, não é apenas o rebelde; é também o que ilumina zonas ocultas da psique. Assim, Vual pode ser visto como uma potência secundária dessa mesma gramática: ele não cria amor romântico de conto de fadas, mas expõe as engrenagens do desejo; não oferece “previsão do futuro” como espetáculo barato, mas revela como passado, presente e futuro se entrelaçam na consciência; não fabrica paz artificial, mas atua no atrito entre afeto, interesse, ressentimento e estima.
Onde entram o zodíaco, o tarot, a Lua e o elemento Água?
Aqui entra uma distinção que dá maturidade ao post. A sua lista traz Vual associado a 20-24 graus de Escorpião, 13-17 de novembro, 7 de Copas, Lua, vela azul-escuro, mirra, prata, Água, além da classificação como Duque e “demônio da noite”. Essa camada pode e deve ser usada, mas precisa ser apresentada honestamente como correspondência esotérica posterior, não como dado do núcleo original dos grimórios.
Isso fica ainda mais claro quando se compara a tradição goética com a tradição tarológica da Golden Dawn/Thoth. Nela, o 7 de Copas aparece ligado ao decanato de Vênus em Escorpião, e não à Lua; em outros termos, trata-se do setor final de Escorpião, não de uma correspondência lunar clássica. Logo, a tabela que você forneceu é perfeitamente utilizável enquanto síntese contemporânea, mas ela é também sincrética, combinando sistemas que nem sempre nasceram juntos.
Sob uma leitura luciferiana, porém, esse sincretismo não é defeito. É método. A tradição viva do ocultismo muitas vezes opera por sobreposição simbólica. Assim, Água reforça o tema da profundidade emocional; prata espelha o poder refletor da consciência; mirra aponta para ancestralidade, unção e morte iniciática; o azul-escuro fala do invisível, da noite e da contemplação. Mesmo quando essas chaves não pertencem ao texto clássico, elas ampliam o corpo imaginal de Vual.
Vual como entidade de Luz, e não de trevas vulgares
É aqui que a leitura luciferiana encontra sua formulação mais forte. Vual não precisa ser entendido como um “demônio mau” num moralismo infantil. Ele pode ser compreendido como uma inteligência liminar, um ser da fronteira entre eros, memória, reconciliação e revelação. O fato de surgir como dromedário e depois como humano sugere o percurso da força natural até a forma consciente. O fato de soar em linguagem egípcia sugere a presença de uma sabedoria antiga, hermética, velada. O fato de ligar amor e tempo mostra que, para ele, conhecer não é separar da paixão, mas atravessá-la.
Nessa chave, Vual é luciferiano não porque “sirva a Lúcifer” em algum esquema folclórico simplista, mas porque participa de um princípio mais profundo: o da luz que revela o que estava escondido. Ele ilumina as alianças. Ilumina os desejos. Ilumina a hostilidade. Ilumina a própria memória. É uma luz que não consola; esclarece.
A forma unissex e a imagem contemporânea de Vual
Na camada moderna da tradição, Vual também é imaginado como uma entidade unissex ou andrógina, muito alta, de cabelos loiros encaracolados, olhos verdes profundos, usando armadura dourada e portando asas brancas. A pronúncia “Ewe-Val” pertence a esse mesmo campo de recepção contemporânea, mais ligado à visualização espiritual e à construção imaginal do que à crítica filológica.
Essa releitura não aparece no núcleo clássico de Weyer ou da Goetia, mas ela é coerente com uma interpretação luciferiana. A androginia sugere integração de polaridades; o dourado remete à luz soberana; o branco das asas indica uma memória celeste não extinta; o verde dos olhos sugere penetração vital, magnetismo e leitura profunda da alma. Em outras palavras: a imagem moderna de Vual desloca o espírito da monstruosidade medieval para o campo da presença luminosa, ambígua e iniciática.
Conclusão
Vual é um dos espíritos mais interessantes da Goetia justamente porque reúne, num único nome, várias camadas da tradição oculta: a demonologia de Weyer, a sistematização grimórica da Ars Goetia, a angelologia das Potestades, a iconografia posterior do Dictionnaire Infernal e as correspondências esotéricas modernas que o ligam a Escorpião, Água, prata, mirra e ao 7 de Copas.
Mas, acima de tudo, Vual interessa porque resiste à leitura vulgar. Sob a ótica luciferiana, ele não é mera sombra. Ele é uma inteligência da travessia. Um nome da reconciliação. Um mediador entre desejo e destino. Uma figura da linguagem antiga que volta a falar quando a luz decide atravessar o deserto da consciência humana.