Agares
O segundo dos 72 daemons em uma leitura luciferiana
Nota de leitura Este texto adota uma perspectiva luciferiana e esotérica. Ele organiza fontes grimoriais, correspondências simbólicas e releituras contemporâneas, sem pretender impor uma verdade histórica, religiosa ou teológica universal.
“Agares não é apenas um espírito que ensina idiomas; ele é uma inteligência do deslocamento, da queda das máscaras e da palavra que devolve movimento ao que estava estagnado.”
1. Quem é Agares nas fontes tradicionais?
Nas listas clássicas da Ars Goetia, Agares surge como o segundo espírito do catálogo. Ele aparece “sob a potência do Leste”, é descrito como um duque e assume a figura de um homem velho, de presença serena, montado sobre um crocodilo e com uma ave de rapina pousada no punho. A descrição grimorial clássica atribui-lhe três núcleos de poder: o domínio das línguas, a capacidade de forçar o retorno dos que fogem e o abalo das dignidades espirituais e temporais.
Além disso, Agares é associado a terremotos, à ruptura de posições estabelecidas e à reversão de movimentos. Nas tradições renascentistas relacionadas, ele também é dito originário da ordem das Virtudes e governante de 31 legiões. Essa combinação — linguagem, deslocamento, hierarquia e tremor — faz de Agares uma figura muito mais complexa do que um simples “demônio do conhecimento”.
Síntese tradicional Agares ensina línguas, traz de volta os fugitivos, desestabiliza títulos e honras, provoca tremores e governa sob o signo do Leste. Em termos simbólicos, trata-se de uma inteligência do movimento, da palavra e da desestruturação da autoridade rígida.
2. Agares em chave luciferiana
Em uma leitura luciferiana, Agares pode ser compreendido menos como um “espírito do medo” e mais como uma potência da iluminação estratégica. O nome Lucifer, em sua origem clássica, está ligado à estrela da manhã e ao imaginário do portador da luz; por isso, diversas correntes luciferianas tomam a luz não como submissão, mas como consciência, autonomia e esclarecimento. Dentro desse horizonte, Agares representa a palavra que rasga a ignorância e a mobilidade que impede a alma de apodrecer na inércia.
Ensinar todas as línguas, nessa chave, não significa apenas oferecer vocabulário estrangeiro. Significa abrir passagens entre mundos: língua ritual, língua política, língua do desejo, língua do comando, língua interior. Agares é o daimon que torna inteligível aquilo que estava cifrado. Ele faz a pessoa entender como o poder fala, como a multidão fala, como o inimigo fala e, sobretudo, como o próprio praticante fala consigo mesmo.
Sua função de “trazer de volta os fugitivos” pode ser lida como o retorno das partes dissociadas do eu. Tudo o que o sujeito exilou por medo, vergonha, culpa ou conveniência social pode ser trazido novamente ao centro. Sob esse aspecto, Agares age como um restaurador da integridade psíquica: ele devolve o que fugiu e também põe em marcha aquilo que ficou petrificado.
Já o poder de destruir dignidades temporais e espirituais possui, para o luciferiano, um caráter iniciático. Agares não destrói a dignidade autêntica; ele derruba dignidades falsas, cargos vazios, reputações sustentadas pela aparência, moralismos que pretendem falar em nome do sagrado, bem como títulos sociais que ocultam mediocridade. Seu terremoto é uma crítica viva à autoridade sem substância.
3. Iconografia: crocodilo, ave, Leste e terremoto
Cada elemento imagético de Agares sugere uma camada simbólica. O crocodilo aponta para a força primordial, antiga, anfíbia e paciente — um poder que se move entre superfície e profundidade. Em termos luciferianos, ele remete ao domínio dos instintos ancestrais, não como regressão, mas como base de soberania interior. Montar o crocodilo significa governar a energia bruta sem ser engolido por ela.
A ave de rapina no punho indica visão, velocidade, precisão e comando à distância. Enquanto o crocodilo representa potência profunda, a ave representa discernimento e alcance mental. Agares, portanto, reúne duas competências essenciais do caminho luciferiano: descer às raízes e elevar a percepção.
O Leste é igualmente decisivo. Sendo o lugar do nascer do sol, o Oriente aparece como direção simbólica da emergência da luz. Agares, duque do Leste, torna-se então um agente do instante liminar em que a noite não foi totalmente vencida, mas a claridade já começou a impor sua presença. Ele governa o momento da passagem, da transição e do despertar.
O terremoto, por sua vez, é a assinatura do abalo. Agares rompe estruturas fixas, solta o chão sob crenças cristalizadas e exige reposicionamento. Na senda luciferiana, esse tremor não é mero caos: é o colapso necessário de uma ordem interior envelhecida, para que um novo eixo de vontade seja instaurado.
4. Correspondências esotéricas e sua leitura operativa
O texto-base fornecido para este dossiê acrescenta um conjunto de correspondências modernas: Áries, 2 de Barras, vela vermelha, cravos, Marte, Mercúrio, cobre, Ar e Fogo, além do tigre como animal simbólico. Essas associações não pertencem necessariamente ao núcleo renascentista mais antigo, mas funcionam como linguagem operativa para escolas esotéricas posteriores.
| Chave simbólica | Atribuição |
| Títulos e variantes | Agreas, Agares, Agaros |
| Posição tradicional | Segundo espírito da Goetia; Grão-Duque sob a potência do Leste |
| Forma clássica | Homem velho e suave, montado sobre crocodilo e portando ave de rapina no punho |
| Funções centrais | Ensino de línguas, retorno dos fugitivos, abalo de dignidades, terremotos, movimento |
| Ordem anterior | Virtudes |
| Legiões | 31 |
| Zodíaco | 5–9 graus de Áries (25–29 de março, segundo a tradição moderna indicada no texto-base) |
| Carta do Tarô | 2 de Paus / 2 de Barras |
| Vela | Vermelha |
| Planta | Cravos |
| Planetas | Marte / Mercúrio |
| Metal | Cobre |
| Elementos | Ar e Fogo |
| Animal | Tigre (atribuição moderna do texto-base) |
A combinação Marte-Mercúrio é particularmente coerente para uma leitura luciferiana de Agares: Marte oferece ímpeto, afirmação, ataque e ruptura; Mercúrio oferece linguagem, inteligência, tradução e trânsito entre estados. Áries reforça o caráter inaugural, ofensivo e pioneiro, enquanto o 2 de Barras descreve poder orientado, planejamento, horizonte e vontade lançada para fora.
5. Agares como princípio de fala soberana
Poucos espíritos da Goetia condensam tão bem a relação entre linguagem e poder. Agares ensina línguas não apenas para comunicar, mas para ampliar alcance, eliminar dependências e romper cercas culturais. Na perspectiva luciferiana, aprender a falar é aprender a existir com mais precisão. O sujeito que domina linguagem domina negociação, sedução, discurso, comando, resistência e interpretação. Por isso Agares pode ser entendido como patrono da fala soberana. Sua lição não é tagarelice; é formulação correta. Ele rege a frase que desloca, a palavra que restitui posição, o discurso que expõe a
fraude, a voz que convoca, a ordem que faz mover. Quando o luciferiano busca claridade mental e poder de expressão, Agares se torna um arquétipo da eloquência afiada e da inteligência estratégica.
6. A leitura feminina de Agares
O material enviado pelo solicitante também apresenta Agares como “demônio feminino”, associando-a a uma presença magra, bela, alada e amistosa. Esse retrato se afasta da forma clássica do velho montado no crocodilo, mas dialoga com um fenômeno comum no ocultismo contemporâneo: a gnose pessoal ou revelação subjetiva. Muitas correntes modernas não tratam tais visões como erro, e sim como manifestação dinâmica da inteligência espiritual diante da sensibilidade do praticante.
Em chave luciferiana, essa releitura feminina é plenamente compreensível. Luciferianismo não depende de uma iconografia fixa; ele privilegia experiência, individuação, confronto com a sombra e iluminação pela prática. Assim, Agares pode mostrar-se como duque severo, velha inteligência do Leste, ou como figura feminina radiante e cortante, desde que a função essencial permaneça: mover, ensinar, desestabilizar ilusões e restaurar potência.
7. O sigilo de Agares
O sigilo tradicional de Agares ocupa lugar central na imaginação goética. Mais do que “enfeite”, ele funciona como assinatura gráfica da inteligência evocada. Em uma leitura luciferiana, o sigilo serve como foco de atenção, condensador simbólico e espelho da vontade. Ele não é adorado; é contemplado, estudado, interiorizado e utilizado como selo de conexão mental com a corrente atribuída ao espírito.

O desenho concentra equilíbrio entre círculo, contenção, eixo vertical e curvas descendentes, sugerindo ao mesmo tempo fixação, comando e movimento em ondas. Mesmo quando o praticante não realiza trabalho ritual, o estudo do sigilo ajuda a consolidar uma imagem interior coerente do arquétipo de Agares.
8. Formulação final: por que Agares importa no caminho luciferiano?
Porque Agares reúne quatro forças decisivas: palavra, deslocamento, queda da falsa autoridade e poder de reposicionamento. Ele ensina que iluminação não é delicadeza abstrata; é capacidade de ler o mundo, nomeá-lo corretamente e abalar aquilo que finge ser eterno. Onde há rigidez mental, ele introduz movimento. Onde há fuga de si, ele exige retorno. Onde há honra vazia, ele traz o terremoto.
Sob a ótica luciferiana, Agares não é apenas um ser “infernal” a ser temido. Ele é uma inteligência liminar, oriental, mercurial e marcial, capaz de transformar ignorância em discurso, dispersão em eixo e obediência cega em vontade desperta. Seu ensinamento profundo é simples e severo: falar com verdade, mover-se com consciência e derrubar tudo o que usurpa o lugar da soberania interior.
9. Apêndice: texto-base incorporado
Este dossiê incorporou o núcleo do texto-base anexado pelo solicitante: Agares como segundo espírito, duque do Leste, mestre de línguas, destruidor de dignidades temporais e espirituais, causador de terremotos, pertencente outrora à ordem das Virtudes e governante de 31 legiões. Também foram considerados: a faixa zodiacal de Áries, a carta 2 de Barras, a vela vermelha, os cravos, Marte/Mercúrio, cobre, Ar e Fogo, o tigre e a experiência atribuída a “High Priestess Maxine”.
Bibliografia de apoio
PETERSEN, Joseph H. (ed.). Lemegeton Clavicula Salomonis / Ars Goetia. Descrição tradicional de Agares como o segundo espírito, ligado ao Leste, às línguas e aos terremotos.
WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo demonológico renascentista que também descreve Agares e suas funções.
Wikimedia Commons. “02-Agares seal.png”. Reprodução em domínio público do selo publicado em The Book of the Goetia of Solomon the King (1904).
Britannica. “Lucifer” e “Enlightenment”. Referências úteis para o valor clássico de “lucifer” como estrela da manhã e para o sentido filosófico de iluminação intelectual.
Texto-base fornecido pelo solicitante, incluindo correspondências modernas, leitura feminina de Agares e a experiência atribuída a “High Priestess Maxine”.