Agares na Ars Goetia: Origem, História, Poderes e Significado

Quem é Agares na Ars Goetia?
Agares é o segundo espírito da Ars Goetia e aparece tradicionalmente como um Duque associado ao Leste, governando 31 legiões de espíritos.
Sua aparência é uma das mais reconhecíveis do catálogo:
um homem idoso;
de aparência relativamente benevolente;
montado sobre um crocodilo;
carregando uma ave de rapina sobre o punho.
Nas fontes tradicionais, Agares recebe atribuições relacionadas a:
idiomas;
movimento;
fugitivos;
dignidades;
e fenômenos ligados à terra.
Mas existe um detalhe que torna Agares especialmente interessante para uma investigação histórica.
Aquilo que hoje quase todos os sites descrevem simplesmente como:
“Agares causa terremotos”
não aparece exatamente dessa maneira no latim de Johann Weyer.
O texto de Weyer utiliza uma expressão que pode ser traduzida literalmente como algo próximo de:
“faz os espíritos da terra dançarem”.
Reginald Scot, ao transmitir o material para o inglês em 1584, transformou essa passagem em:
“faz terremotos”.
Depois, a Ars Goetia preservou justamente:
“cause Earthquakes”.
Temos, portanto, diante de nós um exemplo extraordinário de como:
uma tradução;
uma interpretação;
ou até uma dificuldade linguística
pode tornar-se parte permanente da identidade de uma entidade dentro de uma tradição grimorial.
Agares não é apenas um dos 72 Daemons.
Ele é também um excelente estudo de:
transmissão textual.
É isso que investigaremos.
Agares dentro dos 72 Daemons
Na sequência tradicional da Ars Goetia:
Número: 2
Nome principal: Agares
Variantes históricas: Agaros, Agaret e outras formas próximas
Hierarquia: Duque
Direção: Leste
Legiões: 31 na Pseudomonarchia e na Ars Goetia
Aparência: homem idoso montado num crocodilo, com uma ave de rapina no punho
Atribuições principais: idiomas, movimento de fugitivos, dignidades e terremotos na tradição inglesa/goética
Ordem angelical anterior atribuída: Virtudes
Agares aparece logo depois de:
Bael — nº 1
e antes de:
Vassago — nº 3.
Esse detalhe também é historicamente interessante porque:
Bael e Agares já aparecem nas duas primeiras posições em Johann Weyer.
Vassago, ao contrário, é uma das adições posteriores da Ars Goetia.
Assim, quando passamos de Agares para Vassago, veremos uma mudança importante na formação do catálogo.
Agares não nasceu na Ars Goetia
Assim como Bael, Agares possui uma história textual anterior ao Lemegeton.
Ele aparece de maneira documentada em:
Johann Weyer — Pseudomonarchia Daemonum, 1577
e:
Reginald Scot — The Discoverie of Witchcraft, 1584.
Além disso, manuscritos relacionados aos chamados Offices of Spirits preservam variantes do nome antes ou paralelamente a essa tradição impressa.
Joseph H. Peterson registra, por exemplo:
Agaros
em diferentes manuscritos;
Agaret
em outro testemunho;
e novamente:
Agaros
no material associado ao Book of Oberon.
Isso significa que Agares não deve ser tratado simplesmente como:
“um personagem inventado pelo autor da Chave Menor de Salomão.”
Quando o Lemegeton foi compilado, Agares já circulava em uma tradição demonológica anterior.
Agares no Livre des Esperitz
Existe uma testemunha particularmente importante:
Livre des Esperitz.
Uma comparação acadêmica de listas demonológicas dos séculos XV e XVI registra nesse manuscrito uma forma:
Agaret
descrita como:
Duque
e governando:
36 legiões.
Já Weyer apresenta:
Agares
com:
31 legiões.
Essa diferença é extremamente valiosa.
Mostra que:
o nome circulava;
a hierarquia permaneceu semelhante;
mas detalhes como o número de legiões ainda podiam variar.
Portanto:
31 legiões não é necessariamente um dado imutável desde a origem mais antiga conhecida da tradição.
É o número estabilizado em Weyer e preservado posteriormente na Goétia.
O que Johann Weyer diz sobre Agares?
Na Pseudomonarchia Daemonum de 1577, Agares aparece imediatamente depois de Bael.
O latim começa:
Agares Dux primus sub potestate Orientis
ou seja, aproximadamente:
“Agares, primeiro Duque sob o poder do Oriente.”
Weyer o descreve como:
um homem idoso;
de aspecto benevolente;
montado num crocodilo;
portando um falcão ou açor.
Depois apresenta suas funções.
Agares:
ensina excelentemente todas as espécies de línguas;
faz fugitivos retornarem;
faz aqueles que permanecem parados fugirem;
derruba ou remove dignidades;
possui a curiosa faculdade relacionada aos “espíritos da terra”;
pertence à ordem das Virtudes;
governa 31 legiões.
Essa entrada é a base de praticamente tudo aquilo que será repetido posteriormente.
Agares em Reginald Scot
Em 1584, Reginald Scot publicou:
The Discoverie of Witchcraft.
O material de Weyer foi transmitido para o inglês através dessa obra e tornou-se uma das principais pontes textuais para a tradição posteriormente incorporada ao Lemegeton.
Na versão inglesa, Agares aparece como:
“the first duke under the power of the east”.
Ele surge:
como um velho;
montado num crocodilo;
com um falcão no punho.
Ensina:
“all manner of tongues”
e preserva as demais funções principais.
Mas aqui aparece uma mudança muito importante.
O texto inglês afirma:
“he maketh earthquakes”.
“Ele causa terremotos.”
Essa frase se tornaria uma das atribuições mais conhecidas de Agares.
O problema dos terremotos
Precisamos voltar ao latim.
Weyer escreveu:
“tripudiare facit spiritus terræ”.
A expressão pode ser compreendida literalmente como algo próximo de:
“faz os espíritos da terra dançarem.”
Joseph Peterson chama atenção explicitamente para esse detalhe ao comparar o latim com a tradução inglesa.
Scot transmite:
“he maketh earthquakes”.
Depois o Lemegeton escreve:
“cause Earthquakes”.
Observe o processo:
Weyer
“Faz os espíritos da terra dançarem.”
↓
Scot
“Causa terremotos.”
↓
Ars Goetia
“Causa terremotos.”
Essa transformação é extremamente reveladora.
Agares realmente causa terremotos na fonte original?
Depende de qual fonte chamamos de:
“original”.
Se estamos falando da Ars Goetia:
sim.
O texto preservado em Sloane 3825 afirma explicitamente:
“cause Earthquakes”.
Se estamos falando da Pseudomonarchia de Weyer:
a situação é mais complexa.
O latim fala de:
espíritos da terra dançando.
Pode ser que Scot tenha interpretado essa imagem como movimento da própria terra.
Pode ter entendido:
“dança dos espíritos terrestres”
como:
“terremoto”.
O ponto metodológico é:
a tradição goética da faculdade dos terremotos parece depender da maneira como a passagem latina foi recebida em inglês.
Isso não elimina a atribuição.
Explica como ela se consolidou.
Por que isso importa?
Porque dezenas de sites hoje escrevem:
“Agares é o demônio dos terremotos.”
Mas raramente explicam:
de onde essa ideia veio.
Quando retornamos às fontes, conseguimos mostrar:
texto latino;
tradução;
transformação;
Goétia.
Esse tipo de investigação transforma uma lista repetida em:
história da tradição.
É exatamente esse o padrão que buscamos no Templo de Lúcifer.
Agares ensina todas as línguas
Outra atribuição extremamente estável é:
LINGUAGEM
Weyer afirma que Agares ensina:
todos os tipos de línguas.
Scot preserva essa função.
A Ars Goetia afirma que ele:
“can teach all Languages or Tongues presently”.
Essa característica atravessa a tradição com bastante estabilidade.
Portanto, diferente de correspondências modernas como:
planeta;
Tarô;
cor;
metal,
a relação de Agares com:
idiomas
possui base textual clara.
O que significa “ensinar línguas imediatamente”?
Dentro da lógica do grimório, a afirmação é apresentada como:
faculdade espiritual.
O texto não explica um processo educacional.
Não diz:
“ensina gramática durante seis meses”.
Afirma simplesmente que Agares pode transmitir:
línguas.
Uma interpretação moderna pode compreender isso de várias formas.
Mas precisamos primeiro respeitar:
o texto.
Linguagem como poder
Depois de separar a fonte histórica, podemos explorar o simbolismo.
Dominar linguagem significa muito mais do que:
traduzir palavras.
A linguagem permite:
nomear;
negociar;
persuadir;
ensinar;
compreender;
entrar em outras culturas;
interpretar documentos;
transmitir conhecimento.
Quem possui apenas um vocabulário limitado:
enxerga menos diferenças.
Quem amplia a linguagem:
amplia possibilidades de pensamento.
Essa associação torna Agares especialmente interessante dentro de uma perspectiva luciferiana voltada ao:
conhecimento.
Mas é importante escrever:
essa é nossa interpretação contemporânea.
O grimório não apresenta uma filosofia da linguística.
Agares e os fugitivos
Outra faculdade aparece de maneira muito consistente.
Agares:
faz fugitivos retornarem
e:
faz fugir aqueles que permanecem.
Essa dupla função é curiosa.
O espírito não controla apenas:
retorno.
Também controla:
movimento.
Ele pode:
trazer de volta quem partiu;
e mover quem permaneceu parado.
Isso produz uma estrutura simbólica interessante.
Movimento nas duas direções
Observe:
fugir → retornar
e:
permanecer → fugir.
Agares não representa simplesmente:
“fazer alguém voltar”.
Ele aparece como espírito relacionado à:
mudança de posição.
Aquilo que se move pode parar ou retornar.
Aquilo que permanece pode ser colocado em movimento.
Em linguagem moderna, podemos interpretar isso como:
quebra de inércia.
Mas novamente:
essa expressão é nossa.
Agares e a inércia
Existe uma forma de imobilidade física.
Mas existe também:
inércia mental.
Uma pessoa pode permanecer anos dentro de:
uma crença;
um hábito;
uma profissão;
uma relação;
uma identidade;
simplesmente porque:
já está ali.
Não houve escolha renovada.
Apenas continuidade.
Dentro de nossa leitura, Agares pode representar uma pergunta:
“Estou permanecendo porque escolhi permanecer ou porque deixei de me mover?”
Esse é um dos eixos filosóficos que desenvolveremos para o Templo.
E o retorno?
Movimento não significa apenas:
abandonar.
Às vezes a decisão consciente é:
retornar.
Retornar a:
um estudo;
um projeto;
uma responsabilidade;
uma promessa;
um objetivo abandonado.
Assim, a dupla faculdade de Agares pode ser interpretada como:
MOVIMENTO CONSCIENTE
Não movimento por impulso.
Não permanência por medo.
Mas:
capacidade de mudar de posição quando existe razão para isso.
Agares destrói dignidades
A Ars Goetia atribui ainda a Agares:
“power also to destroy dignities, both supernatural & Temporal”.
Weyer apresenta formulação equivalente em latim envolvendo:
prelazias e dignidades.
Scot também transmite a ideia de derrubar:
dignidades sobrenaturais;
e temporais.
Essa função merece atenção especial.
O que é uma dignidade?
No contexto social da época, dignidade podia representar:
cargo;
posição;
título;
honra;
autoridade;
estatuto.
“Temporal” refere-se à esfera mundana.
“Espiritual” ou “sobrenatural” relaciona-se à autoridade religiosa ou espiritual dentro da linguagem da tradição.
Portanto, Agares aparece associado não apenas a:
movimento físico
mas também a:
movimento de posição social.
Agares concede dignidades?
Aqui encontramos muita confusão moderna.
Diversos sites afirmam que Agares:
“concede títulos e dignidades”.
Mas a tradição clássica mais diretamente ligada a Weyer e à Goétia enfatiza justamente:
derrubá-las, removê-las ou destruí-las.
Isso não significa que nenhuma tradição posterior tenha atribuído a ele concessão de status.
Significa apenas:
não devemos apresentar “concede dignidades” como se fosse exatamente o que a entrada clássica diz.
A fonte principal fala de:
destroy dignities.
Essa é uma diferença importante.
A queda do título
Dentro de uma leitura contemporânea, essa faculdade pode ser particularmente fértil.
Existe diferença entre:
função
e:
identidade.
Uma pessoa pode possuir:
cargo;
título;
posição;
prestígio.
Mas quando aquilo desaparece:
quem permanece?
Se toda autoestima depende de:
status,
então o título não é apenas algo que possuímos.
Ele nos possui.
Agares pode ser lido simbolicamente como uma força que pergunta:
“Quem é você depois que retiramos o título?”
Essa interpretação não pertence ao grimório.
É nossa reflexão sobre uma atribuição textual real.
Agares pertence à Ordem das Virtudes
Tanto Weyer quanto a Ars Goetia afirmam que Agares foi:
da ordem das Virtudes.
Na Goétia:
“he was of the order of Vertues”.
A expressão remete à tradição cristã das:
hierarquias angelicais.
As Virtudes aparecem dentro de sistemas de classificação dos coros angélicos.
Quando textos demonológicos afirmam que determinado espírito:
“era da ordem das Virtudes”,
estão inserindo aquela entidade numa narrativa de:
queda angelical.
Isso prova que Agares era historicamente um anjo chamado Agares?
Não.
É necessário distinguir:
doutrina interna da demonologia
de:
história documental do nome.
O grimório apresenta Agares como pertencente anteriormente às Virtudes.
Isso faz parte:
da cosmologia do texto.
Não temos uma documentação independente de um antigo culto a um anjo chamado Agares pertencente a esse coro antes de sua demonização.
Portanto:
“Agares foi da ordem das Virtudes” é uma afirmação da tradição grimorial.
Não uma conclusão histórica independente.
Agares e o Leste
Assim como Bael, Agares possui ligação textual com:
o Leste.
Weyer chama Agares de:
primeiro Duque sob o poder do Oriente.
A Ars Goetia diz:
“he is under the power of the East”.
Joseph Peterson observa também que materiais relacionados ao Book of Oberon colocam Bael, Agares, Marbas e Amon no Leste sob o rei Oriens.
Isso oferece uma conexão textual importante.
Agares é o Duque supremo de todo o Leste?
Precisamos novamente evitar exagero.
Weyer o chama:
primeiro Duque sob o poder do Oriente.
Mas existem diferentes sistemas grimoriais de:
reis cardeais;
direções;
espíritos subordinados.
Isso não significa que Agares ocupe exatamente a mesma posição em:
todas as demonologias históricas.
Sua ligação com o Leste é:
documentada dentro dessa tradição específica.
O crocodilo
A imagem de Agares montando um crocodilo é extremamente característica.
Ela aparece em Weyer.
Passa por Scot.
Chega à Ars Goetia.
Portanto, ao contrário de muitas correspondências modernas:
o crocodilo pertence ao núcleo textual antigo da tradição de Agares.
Mas existe um problema.
As fontes descrevem:
o animal.
Não explicam:
por que é um crocodilo.
Isso cria espaço para interpretação, mas exige honestidade.
O crocodilo significa o quê?
Podemos encontrar inúmeras explicações modernas:
instinto;
antiguidade;
poder primordial;
água;
paciência;
ferocidade;
travessia.
Algumas podem ser filosoficamente interessantes.
Mas nenhuma deveria ser apresentada como:
“Weyer diz que o crocodilo simboliza X.”
Weyer não fornece essa explicação.
No Templo, podemos construir uma leitura própria.
Mas primeiro dizemos:
não sabemos por que esse animal foi escolhido na tradição original.
Essa frase possui valor.
Agares e o falcão
A segunda imagem importante é:
uma ave de rapina no punho.
Weyer utiliza:
accipiter.
Dependendo da tradução, encontramos:
falcão;
gavião;
açor;
goshawk.
Scot utiliza:
hawke.
O Lemegeton apresenta:
goshawke.
Não devemos gastar energia tentando decidir que uma única espécie moderna seja:
“a ave metafísica oficial de Agares”.
O ponto textual é:
uma ave de rapina treinável aparece sobre seu punho.
O contraste crocodilo e ave
Aqui existe uma composição visual fascinante.
Agares está:
sobre um animal associado à terra/água
enquanto controla no punho:
uma ave.
Um elemento baixo.
Outro alto.
Movimento terrestre.
Movimento aéreo.
Existe enorme possibilidade simbólica.
Mas a fonte novamente:
não fornece uma interpretação.
No Templo, podemos utilizar essa composição como imagem de:
domínio de diferentes modos de movimento.
O crocodilo:
movimento pesado;
silencioso;
próximo ao solo e à água.
A ave:
alcance;
visão;
velocidade;
altura.
Entre ambos:
o velho.
Consciência.
Mas essa leitura é:
contemporânea.
Por que Agares aparece como um homem idoso?
Weyer diz:
senioris hominis
um homem idoso.
Scot descreve:
“a faire old man”.
A Goétia preserva:
“a fair Old man”.
Também aparece a ideia de que ele surge:
mildly
de maneira branda ou afável.
Isso diferencia Agares de várias figuras goéticas descritas como:
terríveis;
furiosas;
monstruosas.
Velhice significa sabedoria?
É uma interpretação cultural possível.
Mas não devemos afirmar automaticamente:
“a Goétia diz que sua velhice representa sabedoria.”
Ela não diz.
Entretanto, numa leitura simbólica moderna:
idade pode representar:
experiência;
memória;
tempo;
paciência.
Isso combina de maneira interessante com a função linguística de Agares.
A comunicação profunda exige:
escuta;
tempo;
experiência.
Ainda assim:
essa é nossa interpretação.
Agares é um espírito de comunicação?
Essa formulação é razoável como:
classificação temática moderna.
Porque uma de suas atribuições clássicas mais claras é:
ensinar idiomas.
Mas não é necessário reduzir Agares a:
“demônio da comunicação”.
Sua entrada é muito mais ampla.
Inclui:
linguagem;
movimento;
retorno;
ruptura de posições;
terra;
hierarquia.
Talvez seja mais adequado entendê-lo como uma figura relacionada a:
transição.
Agares e mudança de posição
Se observamos suas atribuições lado a lado:
fugitivo volta;
parado foge;
língua desconhecida torna-se compreensível;
dignidade pode cair;
terra pode mover-se.
Existe uma característica comum:
AQUILO QUE PARECIA FIXO MUDA.
Esse padrão não é explicitamente nomeado pela fonte.
É nossa observação comparativa.
Mas é uma observação construída sobre:
atribuições realmente presentes.
Essa diferença metodológica importa.
O eixo de Agares: movimento
Podemos resumir simbolicamente:
pessoa → move-se
fugitivo → retorna
idioma estrangeiro → torna-se inteligível
dignidade → cai
terra → move-se
Existe um tema recorrente:
deslocamento.
Por isso, na perspectiva do Templo de Lúcifer, Agares será estudado principalmente através do conceito:
MOBILIDADE CONSCIENTE
O nome Agares: o que significa?
Aqui precisamos ser extremamente cautelosos.
A origem etimológica do nome:
Agares
não está estabelecida de maneira segura.
As fontes preservam variantes como:
Agares;
Agaros;
Agaret.
Isso já demonstra algum grau de instabilidade na transmissão.
Mas os textos não oferecem:
uma etimologia.
Agares significa “filho de Agar”?
Essa teoria circula bastante na internet.
Normalmente tenta relacionar:
Agares
a:
Agar/Hagar
personagem bíblica.
Algumas páginas chegam a apresentar como significado:
“filho de Agar”
ou:
“filho da estrangeira”.
O problema é simples:
a semelhança gráfica não demonstra derivação etimológica.
Não possuímos documentação histórica suficientemente forte mostrando que:
o nome Agares foi conscientemente criado a partir da Hagar bíblica.
Portanto, no Templo de Lúcifer:
não apresentaremos essa hipótese como fato.
Existe uma origem hebraica comprovada?
Não conhecemos uma etimologia hebraica segura e consensual para Agares.
Também não existe razão para assumir que:
todo nome da Goétia
precise ter:
uma raiz hebraica.
O catálogo possui uma longa história de:
cópias;
corrupções;
nomes de origens diferentes;
transmissão oral e escrita.
Às vezes a resposta historicamente mais rigorosa é:
origem incerta.
Agares é um desses casos.
Agares e Agaros
A forma:
Agaros
é particularmente importante porque aparece em diferentes testemunhos manuscritos comparados por Peterson.
Isso indica que a terminação:
-es
não foi necessariamente estável durante toda a transmissão.
Também encontramos:
Agaret
no Livre des Esperitz.
Portanto:
Agares;
Agaros;
Agaret
provavelmente representam uma família textual do mesmo nome dentro dos catálogos de espíritos.
Existe uma divindade antiga chamada Agares?
Até onde a documentação permite afirmar com segurança:
não possuímos uma identificação estabelecida de Agares com uma antiga divindade mesopotâmica, egípcia, cananeia, grega ou romana específica.
Isso diferencia Agares de casos como:
Baal/Bael;
Belial;
Astaroth,
nos quais existem problemas históricos anteriores muito mais claros.
Portanto, devemos resistir à tentação de fabricar:
“o deus antigo por trás de Agares”.
Talvez exista uma história anterior ainda não suficientemente reconstruída.
Talvez o nome seja resultado de transmissão textual.
Não sabemos.
E:
“não sabemos”
é uma conclusão válida.
Agares não precisa de uma origem suméria para ser importante
Existe uma tendência no esoterismo online:
quanto mais antigo algo parece,
mais legítimo parece.
Por isso, praticamente todo espírito acaba recebendo:
uma divindade egípcia;
um deus sumério;
uma raiz fenícia;
uma origem atlante.
Mas antiguidade inventada não aumenta valor.
Agares possui documentação suficiente para ser historicamente interessante a partir da tradição:
dos Offices of Spirits;
do Livre des Esperitz;
de Weyer;
de Scot;
do Lemegeton.
Não precisamos acrescentar uma origem que não conseguimos provar.
O selo de Agares
Na Ars Goetia, Agares recebe:
um selo ou caráter.
O texto determina que o caráter seja utilizado como:
lamen.
Como vimos no estudo de Bael, existe uma distinção histórica importante:
os familiares sigilos goéticos não aparecem necessariamente nas camadas mais antigas dos catálogos anteriores.
A Pseudomonarchia transmite:
nome;
posição;
aparência;
funções;
legiões.
Mas não apresenta o conhecido sigilo exatamente como a tradição do Lemegeton.
Portanto:
o nome Agares possui uma história textual mais antiga do que o conhecido sigilo goético que hoje o representa.
O selo é uma assinatura de Agares?
Algumas tradições modernas entendem dessa maneira.
Historicamente, porém, o Lemegeton trabalha com termos como:
selo;
caráter;
lamen.
A ideia de:
“assinatura pessoal deixada pela entidade”
é uma interpretação espiritual posterior.
Pode possuir valor dentro de determinada corrente.
Mas não deve ser apresentada como:
conclusão filológica.
Agares e os 31 legiões
Weyer:
31 legiões.
Scot:
Ars Goetia:
Essa é uma informação bastante estável a partir de Weyer.
Mas, como vimos:
o Livre des Esperitz preserva:
36 legiões
para Agaret.
Isso demonstra que o número também possui:
história.
Existem exatamente quantos espíritos numa legião?
A fonte não fornece uma fórmula universal segura.
Portanto:
31 legiões
não deve ser transformado automaticamente em:
“X milhões de demônios”.
Quando encontramos cálculos desse tipo, precisamos perguntar:
qual fonte definiu o tamanho dessa legião?
Sem isso:
estamos misturando tradições.
Agares e o planeta Vênus
É comum encontrar Agares associado modernamente a:
Vênus.
Outras tabelas podem atribuir:
outro planeta;
outros sistemas.
Mas a entrada de Weyer não afirma:
“planeta Vênus”.
A entrada do Sloane 3825 também não fornece essa correspondência planetária junto à descrição de Agares.
Portanto:
Vênus pertence a correspondências posteriores.
Se a utilizarmos em outro momento, precisaremos identificar:
autor;
sistema;
fonte.
Agares e Áries
Também encontramos sistemas que associam Agares a:
Áries;
graus zodiacais específicos;
datas.
Essas correspondências não pertencem ao núcleo textual de Weyer ou da entrada goética.
Logo:
não são:
“atribuições originais de Agares”.
Agares e Tarô
Cartas como:
3 de Paus;
2 de Paus;
ou outras
podem aparecer em tabelas modernas dependendo do sistema.
Novamente:
não existe Tarô na entrada de Weyer.
Nem na descrição básica de Agares no Lemegeton.
Portanto:
correspondência posterior.
Agares e cores, metais, ervas e incensos
O mesmo vale para listas dizendo:
cor de Agares;
metal de Agares;
erva de Agares;
incenso de Agares;
dia de Agares.
Alguns sistemas contemporâneos desenvolvem tabelas rituais completas.
Não há problema em estudá-las.
O problema é apresentá-las como:
consenso histórico antigo.
Daqui para frente, nosso padrão será:
“Segundo o sistema X…”
Se não conseguimos identificar o sistema:
“Correspondência moderna de origem não verificada.”
Agares e Jeliel
Outra associação encontrada modernamente relaciona Agares ao anjo:
Jeliel.
Essa relação pertence a sistemas posteriores que emparelham espíritos goéticos com os:
72 nomes do Shem HaMephorash.
A própria Ars Goetia:
não fornece Jeliel como contraparte de Agares.
Pesquisas comparativas atribuem esse tipo de emparelhamento especialmente à tradição associada a Thomas Rudd e manuscritos posteriores.
Portanto:
Agares → Jeliel
pode ser estudado dentro desse sistema.
Mas não como dado da Pseudomonarchia de 1577.
Agares era um anjo chamado Jeliel?
Não.
Esse é exatamente o tipo de fusão que precisamos evitar.
O texto diz que Agares:
era da ordem das Virtudes.
Sistemas posteriores apresentam:
Jeliel
como contraparte angelical.
As duas informações não significam:
“Agares era Jeliel antes da queda.”
Essa conclusão exigiria documentação que não possuímos.
Agares em sistemas demonolátricos
Na Demonolatria contemporânea, Agares pode receber uma interpretação muito diferente daquela existente na magia salomônica.
Em vez de:
constrangimento;
ordem;
autoridade divina,
algumas correntes trabalham com:
devoção;
respeito;
comunicação;
relacionamento espiritual.
Também podem aparecer novos atributos:
aprendizagem;
viagem;
comunicação;
mudança;
coragem;
transformação.
Esses desenvolvimentos pertencem à:
recepção moderna.
Não devem ser retroprojetados sobre Weyer.
Agares e Lucifuge Rofocale
Outro cuidado importante para o próprio site.
Em determinadas versões do Grand Grimoire e em compêndios demonológicos posteriores, Agares pode aparecer dentro de hierarquias subordinadas a:
Lucifuge Rofocale.
Mas essa é:
outra tradição textual.
A Ars Goetia não apresenta Agares simplesmente como:
“primeiro-ministro de Lucifuge”.
O Lemegeton possui sua própria estrutura.
O Grand Grimoire possui outra.
Portanto:
Agares goético
e:
Agares dentro de hierarquias posteriores
precisam ser distinguidos.
O mesmo espírito nominal pode ocupar funções diferentes em sistemas diferentes.
Agares é “primeiro-ministro de Lúcifer”?
Essa afirmação circula em dicionários demonológicos modernos.
Não pertence à entrada clássica de Weyer.
Também não é o título apresentado na Ars Goetia.
Na Goétia, Agares é:
Duque.
Associado ao:
Leste.
Portanto, se determinada obra posterior chama Agares de:
“ministro”;
“general”;
“primeiro-ministro”,
precisamos citar:
essa obra.
Não transformar o título posterior em característica universal.
Agares numa perspectiva luciferiana
A Ars Goetia:
não é originalmente uma escritura luciferiana.
Assim como Bael, Agares pode ser reinterpretado por uma corrente luciferiana contemporânea.
Mas essa releitura precisa assumir:
sua época;
sua autoria;
sua diferença em relação ao texto.
No Templo de Lúcifer, vemos três eixos particularmente férteis em Agares:
LINGUAGEM
MOVIMENTO
QUEDA DAS DIGNIDADES
Esses três eixos produzem uma leitura muito coerente com uma filosofia baseada em:
conhecimento;
autonomia;
transformação;
lucidez.
Linguagem: atravessar fronteiras mentais
Agares ensina idiomas.
Numa leitura luciferiana, isso pode representar:
expansão da capacidade de compreender aquilo que inicialmente nos é estrangeiro.
Uma língua nova não oferece apenas:
novas palavras.
Ela oferece:
outras estruturas;
outras referências;
outras maneiras de organizar experiência.
Aprender uma língua é perceber que:
aquilo que parecia natural
pode ser apenas:
uma forma cultural entre várias.
Isso é profundamente luciferiano dentro da perspectiva do Templo.
Conhecimento rompe:
limites invisíveis.
O idioma como libertação
Uma pessoa incapaz de acessar determinada língua depende:
daquilo que outros traduzem para ela.
Quando aprende:
acessa a fonte.
Essa ideia possui enorme importância para nossa própria metodologia.
Estudar:
latim;
grego;
hebraico;
francês;
inglês antigo
pode permitir consultar textos sem depender integralmente da interpretação de terceiros.
Sob essa leitura:
Agares não representa apenas comunicação. Representa acesso.
Essa formulação é nossa.
Movimento: destruir inércia
Agares:
move o parado;
faz o fugitivo retornar.
Essas duas ações parecem contraditórias.
Na verdade, mostram:
controle da direção.
Não se trata de:
mover sempre.
Nem de:
permanecer sempre.
Trata-se de reconhecer:
quando é preciso:
partir;
e quando é preciso:
retornar.
Chamaremos esse princípio de:
SOBERANIA DO MOVIMENTO
Permanecer também é uma escolha
Uma pessoa verdadeiramente livre não precisa:
mudar de caminho constantemente.
Pode examinar uma posição e decidir:
permanecer.
Mas existe diferença entre:
permanecer por decisão
e:
permanecer porque não consegue imaginar alternativa.
Agares nos oferece simbolicamente essa pergunta:
“Sua posição é uma escolha ou apenas inércia?”
Fugir também pode ser necessário
O texto utiliza:
fugitivos.
Historicamente não precisamos moralizar a expressão.
Em nossa leitura, podemos lembrar:
às vezes abandonar um lugar é:
necessário.
Sair de:
uma estrutura;
uma comunidade;
uma crença;
uma relação;
um hábito
pode ser ato de autonomia.
Em outras situações:
fugimos daquilo que deveríamos enfrentar.
A questão torna-se:
Estou me movendo em direção à liberdade ou apenas para longe do desconforto?
Essa pergunta representa nossa interpretação do eixo de Agares.
Retorno consciente
Agares também traz de volta.
Isso pode representar:
retomar conhecimento abandonado;
retornar a um objetivo;
reconectar-se com uma responsabilidade;
revisitar uma ideia rejeitada prematuramente.
Autonomia não significa:
nunca voltar atrás.
Às vezes:
corrigir a direção é exatamente uma demonstração de autonomia.
Queda das dignidades: separar valor de título
Agares também destrói:
dignidades.
Para o Templo, isso pode funcionar como crítica à:
dependência de status.
Um indivíduo possui:
nome;
cargo;
título;
graduação;
posição;
função.
Tudo isso pode ter valor.
Mas nada disso deveria impedir a pergunta:
“Existe competência real por trás do título?”
Agares simbolicamente remove:
a placa da porta.
E pergunta:
“O que permanece?”
Autoridade conquistada e autoridade decorativa
Existe uma diferença entre:
alguém possuir um título
e:
alguém possuir conhecimento.
Os dois podem coexistir.
Mas não são idênticos.
Numa comunidade espiritual, por exemplo:
Mestre;
Sacerdote;
Mago;
Iniciado;
Hierofante
podem possuir significado interno.
Mas nenhum título prova sozinho:
sabedoria;
caráter;
competência.
Isso conversa diretamente com a ética que estamos construindo no Templo.
A dignidade interior
Existe ainda outra interpretação possível.
Se Agares destrói:
dignidades externas,
podemos perguntar:
qual dignidade não pode ser retirada por decreto?
Talvez:
a dignidade construída através de:
conduta;
conhecimento;
autonomia;
responsabilidade.
Um cargo pode ser removido.
Competência não desaparece automaticamente junto dele.
O terremoto simbólico
Mesmo reconhecendo que a passagem dos “terremotos” possui uma história de tradução peculiar, a imagem tornou-se parte da tradição goética.
Por isso também podemos utilizá-la simbolicamente.
Um terremoto:
move aquilo que parecia:
absolutamente imóvel.
Estruturas rígidas descobrem que:
não eram eternas.
Isso se encaixa perfeitamente no eixo de Agares.
Não precisamos dizer:
“Agares é literalmente o arquétipo junguiano do terremoto.”
Seria invenção.
Podemos dizer:
“Dentro da leitura do Templo, o terremoto tornou-se uma imagem adequada para a ruptura de certezas rígidas.”
Agora a autoria está clara.
O crocodilo como permanência
Em nossa leitura contemporânea, o crocodilo pode representar:
antiguidade;
paciência;
sobrevivência;
força contida.
Não porque o grimório forneça essa legenda.
Mas porque a imagem nos permite refletir.
Curiosamente:
Agares, espírito do movimento,
está sentado sobre uma criatura capaz de:
permanecer imóvel durante longos períodos.
Isso cria uma tensão simbólica interessante:
quietude exterior
e:
potência de movimento.
A ave como alcance
A ave de rapina sobre seu punho pode ser lida como:
visão;
direção;
alcance;
mensagem.
Novamente:
leitura moderna.
A combinação produz:
velho;
crocodilo;
ave.
Experiência.
Terra.
Ar.
Movimento controlado.
A imagem inteira pode ser interpretada como:
mobilidade disciplinada.
O ancião como discernimento
Se desejarmos utilizar a idade simbolicamente:
Agares não aparece como:
jovem impulsivo.
Aparece:
idoso;
calmo;
benevolente.
Assim, nossa leitura do movimento não será:
agitação.
Será:
mudar quando compreendemos por que mudar.
Isso diferencia:
mobilidade
de:
instabilidade.
O princípio luciferiano de Agares
No Templo de Lúcifer, sintetizamos Agares através da expressão:
MOVIMENTO COM LUCIDEZ
Questionar não significa:
rejeitar tudo.
Mudar não significa:
mudar sempre.
Aprender não significa:
acumular informação.
Destruir um título não significa:
desprezar competência.
A questão central é:
não permitir que aquilo que deveria ser instrumento se transforme em prisão.
Idioma.
Cargo.
Lugar.
Identidade.
Tradição.
Todos podem ser:
instrumentos.
Nenhum precisa tornar-se:
cela.
Agares segundo o Método das Seis Camadas da Goétia
Camada 1 — Texto
A Ars Goetia apresenta Agares como:
segundo espírito;
Duque;
associado ao Leste;
homem idoso;
montado num crocodilo;
com ave de rapina no punho;
ensinando idiomas;
movendo fugitivos e pessoas paradas;
destruindo dignidades;
causando terremotos;
antigo membro das Virtudes;
governando 31 legiões.
Camada 2 — Transmissão
Antes do Lemegeton encontramos:
Agares em Weyer;
Agaros em manuscritos;
Agaret no Livre des Esperitz;
variação inclusive no número de legiões.
Além disso, a expressão latina de Weyer sobre:
“espíritos da terra dançando”
transforma-se em:
“terremotos”
através da transmissão inglesa.
Camada 3 — História
Não possuímos atualmente uma origem pré-cristã segura para o nome Agares.
Tentativas de ligá-lo a:
Hagar;
hebraico;
árabe;
divindades antigas
precisam ser tratadas como:
hipóteses,
salvo quando apresentarem documentação melhor.
Camada 4 — Correspondências
Planeta;
signo;
Tarô;
metal;
cor;
erva;
anjo correspondente
pertencem principalmente a sistemas posteriores.
Precisam de fonte individual.
Camada 5 — Recepção
Demonolatria;
ocultismo;
hierarquias modernas;
Luciferianismo;
cultura popular
reinterpretaram Agares além da entrada clássica.
Camada 6 — Templo de Lúcifer
Nossa leitura enfatiza:
linguagem;
mobilidade consciente;
ruptura da inércia;
queda do status vazio;
autonomia diante de posições fixas.
Quadro de confiabilidade das principais afirmações
| Afirmação | Classificação |
|---|---|
| Agares é nº 2 da Ars Goetia | Documentado |
| Agares é Duque | Documentado |
| Está relacionado ao Leste | Documentado |
| Aparece como homem idoso | Documentado |
| Monta um crocodilo | Documentado |
| Carrega uma ave de rapina | Documentado |
| Ensina idiomas | Documentado |
| Faz fugitivos retornar | Documentado |
| Faz aqueles que permanecem fugir | Documentado |
| Destrói dignidades | Documentado |
| Pertenceu à ordem das Virtudes | Afirmação da tradição grimorial |
| Governa 31 legiões | Documentado em Weyer e Goétia |
| Agaret possui 36 legiões no Livre des Esperitz | Documentado em outra testemunha |
| Agares causa terremotos | Documentado em Scot/Goétia; Weyer possui redação latina diferente |
| Agares significa “filho de Hagar” | Não demonstrado |
| Agares deriva seguramente do hebraico | Não demonstrado |
| Agares era uma antiga divindade pagã específica | Não demonstrado |
| Vênus é seu planeta original | Correspondência posterior |
| Áries é seu signo original | Correspondência posterior |
| Uma carta de Tarô específica pertence à entrada original | Correspondência posterior |
| Jeliel aparece na entrada original de Agares | Falso |
| Agares é primeiro-ministro de Lúcifer na Ars Goetia | Não é o título da fonte goética |
Mitos e erros comuns sobre Agares
Mito 1 — Agares apareceu pela primeira vez na Ars Goetia
Não.
Ele está documentado anteriormente em Weyer e possui formas relacionadas em outros catálogos de espíritos.
Mito 2 — Agares foi criado em 1563
1563 é a primeira edição de De Praestigiis Daemonum.
A Pseudomonarchia Daemonum com Agares foi acrescentada em:
1577.
Mito 3 — Sabemos exatamente o significado do nome Agares
Não.
A etimologia permanece incerta.
Mito 4 — Agares significa comprovadamente “filho de Agar”
Essa interpretação não possui sustentação suficiente para ser apresentada como fato.
Mito 5 — A fonte latina de Weyer simplesmente diz “terremotos”
Não exatamente.
Weyer escreve sobre fazer os:
espíritos da terra dançarem.
A tradução inglesa transforma isso em:
earthquakes.
Mito 6 — Agares concede títulos na Ars Goetia
A entrada clássica enfatiza:
destruição de dignidades.
Mito 7 — Agares é um antigo deus pagão identificado
Não existe atualmente uma identificação histórica segura desse tipo.
Mito 8 — Seu crocodilo possui um significado explicado pelo grimório
O animal é descrito.
Sua interpretação simbólica não é explicada pela fonte.
Mito 9 — Jeliel é citado junto com Agares na Goétia
Não.
A correspondência pertence a sistemas posteriores.
Mito 10 — Agares é originalmente primeiro-ministro de Lúcifer
Essa posição pertence a hierarquias e compêndios posteriores, não à entrada básica da Ars Goetia.
Perguntas frequentes sobre Agares
Quem é Agares?
Agares é o segundo espírito da Ars Goetia e um Duque associado ao Leste.
Qual é o número de Agares?
2.
Qual é sua hierarquia?
Duque.
Quantas legiões governa?
A Pseudomonarchia e a Ars Goetia atribuem:
31 legiões.
Uma testemunha do Livre des Esperitz preserva 36 para Agaret.
Como Agares aparece?
Como um homem idoso, montado num crocodilo e carregando uma ave de rapina sobre o punho.
Agares parece ameaçador?
As fontes utilizam linguagem que o apresenta surgindo:
de maneira relativamente benevolente ou branda.
Agares ensina idiomas?
Sim.
Essa é uma de suas atribuições mais estáveis.
Agares causa terremotos?
A Ars Goetia diz explicitamente que sim.
Entretanto, o texto latino anterior de Weyer possui a expressão “faz os espíritos da terra dançarem”, que foi transmitida em inglês como “causa terremotos”.
Agares traz fugitivos de volta?
Sim, essa atribuição aparece na tradição clássica.
Agares também faz pessoas fugirem?
Sim.
A fonte apresenta as duas funções.
Agares destrói dignidades?
Sim.
A Goétia fala em destruir dignidades:
espirituais/sobrenaturais
e:
temporais.
Agares pertencia às Virtudes?
Essa é a afirmação da tradição grimorial.
Não significa que possuímos documentação histórica independente de um antigo anjo chamado Agares.
Qual é a origem do nome Agares?
Incerta.
Agares tem relação com Hagar?
Não há evidência suficiente para apresentar essa derivação como fato.
Agares aparece em Johann Weyer?
Sim.
É a segunda entrada da Pseudomonarchia Daemonum de 1577.
Agares aparece em Reginald Scot?
Sim.
Scot transmite a tradição em inglês em 1584.
Agares aparece antes de Weyer?
Formas relacionadas aparecem em manuscritos dos Offices of Spirits, incluindo Agaret/Agaros.
O sigilo de Agares aparece em Weyer?
O familiar selo goético não acompanha a entrada da Pseudomonarchia da mesma maneira que no Lemegeton.
Qual é o planeta de Agares?
A entrada clássica não fornece planeta.
Correspondências planetárias pertencem a sistemas posteriores.
Qual é o signo de Agares?
A entrada clássica não fornece signo zodiacal.
Qual carta de Tarô corresponde a Agares?
Não existe carta de Tarô na descrição de Weyer ou da Ars Goetia. Sistemas modernos apresentam diferentes correspondências.
Jeliel é o anjo de Agares?
Alguns sistemas posteriores fazem esse emparelhamento.
A Ars Goetia original não o apresenta dessa maneira.
Agares é luciferiano?
A Ars Goetia não foi escrita como texto luciferiano.
Agares pode ser reinterpretado dentro do Luciferianismo moderno.
Qual é o significado de Agares para o Templo de Lúcifer?
Nossa leitura destaca:
linguagem, movimento consciente, ruptura de inércia e independência diante de títulos e posições fixas.
Linha do tempo de Agares
| Período | Desenvolvimento |
|---|---|
| Séculos XV–XVI | Catálogos dos Offices of Spirits preservam formas relacionadas do nome |
| Século XVI | Livre des Esperitz registra Agaret, Duque, com 36 legiões |
| 1577 | Weyer publica Agares na Pseudomonarchia Daemonum, com 31 legiões |
| 1584 | Reginald Scot transmite o material para o inglês e populariza “earthquakes” |
| Século XVII | O Lemegeton incorpora Agares como espírito nº 2 |
| Ars Goetia | Agares recebe selo/caracter e consolida-se entre os 72 |
| Séculos XIX–XX | Edições ocultistas ampliam sua circulação e acrescentam correspondências |
| Atualidade | Demonolatria, Luciferianismo e ocultismo contemporâneo continuam reinterpretando Agares |
O que torna Agares diferente de Bael?
Bael apresentou um problema central:
a relação entre um nome demonológico e Baal das religiões antigas.
Agares apresenta outro.
Seu grande problema é:
TRANSMISSÃO.
Nome variável.
Número de legiões variável numa fonte anterior.
Uma frase latina transformada em terremoto.
Correspondências posteriores adicionadas ao perfil.
Por isso, Agares nos ensina uma lição metodológica diferente.
Nem toda diferença entre fontes significa:
“segredo oculto”.
Às vezes significa:
texto sendo copiado.
tradutor tomando decisão.
manuscrito mudando.
tradição evoluindo.
A perspectiva do Templo de Lúcifer: Agares como Senhor do Movimento Consciente
Agares é uma figura aparentemente paradoxal.
Um velho calmo.
Montado num crocodilo.
Com uma ave no punho.
Ele ensina línguas.
Move fugitivos.
Move os imóveis.
Derruba posições.
E, através da tradição textual inglesa, move até:
a terra.
Tudo nele parece gravitar em torno de uma pergunta:
O que acontece quando aquilo que parecia fixo começa a se mover?
Uma língua desconhecida deixa de ser barreira.
Uma pessoa que fugiu retorna.
Uma pessoa imóvel parte.
Um título cai.
A terra treme.
No Templo de Lúcifer, chamamos essa estrutura de:
PRINCÍPIO DA MOBILIDADE CONSCIENTE.
Não movimento pelo movimento.
Mas a capacidade de:
mudar de posição;
quando permanecer deixou de ser escolha.
A maior prisão nem sempre possui paredes
Pode ser:
uma palavra que não compreendemos;
uma crença que nunca examinamos;
um cargo do qual dependemos para sentir valor;
uma comunidade que temos medo de deixar;
uma opinião que defendemos apenas porque sempre defendemos;
uma identidade que deixou de representar aquilo que somos.
Agares torna-se, nessa leitura:
força de deslocamento.
Não porque o grimório utilize essa expressão.
Mas porque conseguimos identificar uma linha simbólica coerente entre suas atribuições.
A língua como fronteira
O desconhecido frequentemente começa:
na linguagem.
Não entendemos uma palavra.
Depois:
não entendemos o argumento.
Depois:
dependemos daquele que diz traduzir para nós.
A função de Agares sobre idiomas oferece uma imagem poderosa:
quem aprende a linguagem reduz sua dependência do intérprete.
Essa ideia possui enorme importância para qualquer caminho de conhecimento.
Inclusive para estudar a própria Goétia.
Não basta repetir:
“Weyer diz”.
Podemos perguntar:
o que o latim realmente diz?
E foi exatamente isso que revelou o problema dos:
terremotos.
A própria função linguística de Agares nos ajudou a compreender:
Agares.
Existe aqui uma ironia bastante apropriada.
A queda das dignidades como teste de soberania
Agares também nos força a perguntar:
Meu valor depende do meu título?
Se amanhã alguém retirar:
cargo;
função;
posição;
status,
continua existindo:
conhecimento?
disciplina?
caráter?
competência?
Um título pode indicar:
responsabilidade real.
Mas pode também tornar-se:
ornamento.
A leitura luciferiana de Agares não exige desprezar hierarquia.
Exige distinguir:
hierarquia funcional
de:
culto à posição.
A terra que dança
Talvez a imagem original de Weyer seja ainda mais interessante simbolicamente do que o terremoto.
Os espíritos da terra dançam.
Aquilo que associamos a:
estabilidade;
peso;
fixidez
começa a:
mover-se.
A imagem resume Agares extraordinariamente bem.
Até a terra:
pode deixar de ser imóvel.
Isso nos oferece outra formulação:
nenhuma estrutura deve ser considerada eterna apenas porque parece sólida hoje.
Religiões mudam.
Estados mudam.
Culturas mudam.
Línguas mudam.
Textos mudam.
Nós mudamos.
Mas mudança também exige direção
Existe uma armadilha.
Questionar tudo pode transformar-se em:
incapacidade de construir qualquer coisa.
Mudar continuamente pode tornar-se:
instabilidade.
Por isso, nossa leitura de Agares precisa preservar:
o ancião.
Ele não corre ao lado do crocodilo.
Ele:
conduz.
O movimento precisa possuir:
discernimento.
Esse é o equilíbrio entre:
mobilidade
e:
direção.
Agares como segundo passo da biblioteca
Bael inaugurou o projeto através da:
soberania da presença.
Agares acrescenta:
mobilidade.
Podemos imaginar a sequência simbolicamente:
Bael
Aprenda a governar sua presença.
Agares
Depois:
aprenda a mover-se conscientemente.
Essas formulações não pertencem à estrutura original da Ars Goetia.
São nossa leitura editorial.
Mas podem fornecer ao leitor uma maneira coerente de acompanhar os 72 sem transformar cada espírito numa simples lista de:
“poderes”.
Conclusão: Agares e aquilo que não permanece no mesmo lugar
Agares é um excelente exemplo de por que estudar os 72 Daemons exige mais do que copiar:
nome;
posição;
poderes;
sigilo.
Se fizéssemos apenas isso, escreveríamos:
Agares.
Duque.
Leste.
31 legiões.
Velho.
Crocodilo.
Falcão.
Idiomas.
Fugitivos.
Terremotos.
E encerraríamos.
Mas quando retornamos às fontes, aparece outra história.
Descobrimos:
Agaret.
Agaros.
Agares.
Descobrimos 36 legiões numa tradição.
Depois 31.
Descobrimos Weyer escrevendo:
espíritos da terra dançando.
Scot traduzindo:
terremotos.
O Lemegeton repetindo:
terremotos.
Descobrimos que uma única escolha tradutória pode sobreviver por:
séculos.
E finalmente percebemos que o próprio Agares parece possuir como tema aquilo que aconteceu com sua história:
MOVIMENTO.
O nome move-se.
O texto move-se.
O significado move-se.
As pessoas que fogem movem-se.
As que permanecem são movidas.
As dignidades caem.
A terra dança.
Isso não prova que o compilador tenha conscientemente construído esse grande sistema filosófico.
Não precisamos afirmar isso.
A força de uma leitura contemporânea está justamente em poder dizer:
“Isto é aquilo que a fonte apresenta.”
e depois:
“Isto é aquilo que conseguimos enxergar ao colocarmos os elementos em relação.”
No Templo de Lúcifer, Agares representa exatamente essa passagem.
O conhecimento não é imóvel.
A identidade não precisa ser imóvel.
Uma posição não precisa ser eterna.
Uma crença não merece sobreviver apenas porque é antiga.
Mas movimento sem lucidez também não produz liberdade.
Por isso, nossa síntese para Agares é:
MOVA-SE POR ESCOLHA, NÃO POR INÉRCIA.
Aprenda a linguagem.
Entenda aquilo que antes parecia estrangeiro.
Questione a posição.
Reconheça quando é hora de partir.
Reconheça quando é hora de retornar.
E não confunda:
permanecer parado
com:
estar firme.
São coisas diferentes.
Agares, o segundo Daemon da Ars Goetia, torna-se assim um símbolo particularmente adequado para aquilo que toda investigação séria deveria produzir:
a capacidade de mudar de posição quando novas evidências exigem.
Não porque a verdade seja instável.
Mas porque:
nossa compreensão dela sempre pode se mover.
Navegação pela Ars Goetia
Espírito anterior:
Bael — nº 1 da Ars Goetia
Voltar ao hub:
Os 72 Daemons da Ars Goetia: Lista Completa, Hierarquia, História e Guia
Próximo espírito:
Vassago — nº 3 da Ars Goetia
Continue seus estudos
Bael na Ars Goetia: Origem, Baal, História, Poderes e Significado
Primeiro estudo individual da biblioteca e modelo para comparação entre história religiosa e demonologia.
Os 72 Daemons da Ars Goetia
Hub central com os 72 espíritos, hierarquia, história e metodologia.
Vassago na Ars Goetia
O próximo estudo e um caso especialmente importante porque Vassago não aparece no catálogo de Weyer como Bael e Agares.
Lucifuge Rofocale e Lúcifer
Para compreender hierarquias pertencentes a outra tradição grimorial sem confundi-las com o Lemegeton.
Por Onde Estudar Luciferianismo sem Cair em Desinformação
Para conhecer o Método FONTE aplicado às investigações do Templo.
Fontes e bibliografia
Weyer, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. 1577.
Fonte primária fundamental para Agares. Apresenta-o como primeiro Duque sob o poder do Oriente, homem idoso montado em crocodilo e portando uma ave de rapina, com domínio sobre línguas, movimento de fugitivos, dignidades e 31 legiões.
Sua redação latina é particularmente importante para compreender a transformação da expressão sobre os “espíritos da terra” em “terremotos”.
Scot, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584.
Fonte decisiva para a transmissão inglesa da entrada de Agares. Sua versão transforma a expressão de Weyer em “maketh earthquakes”, leitura posteriormente preservada pela Ars Goetia.
Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia.
No Sloane MS 3825, Agares ocupa a posição nº 2, recebe o título de Duque, permanece associado ao Leste, possui 31 legiões, ensina idiomas, move fugitivos, destrói dignidades e causa terremotos. Também recebe seu selo ou caráter goético.
Peterson, Joseph H. Edição digital do Lemegeton / Esoteric Archives.
Essencial para comparação entre manuscritos, Weyer, Scot e a tradição goética. Registra variantes como Agares, Agaros e Agaret e permite acompanhar a transmissão textual do catálogo.
Livre des Esperitz — tradição manuscrita francesa.
Preserva a forma Agaret como Duque e atribui-lhe 36 legiões, demonstrando que elementos do perfil ainda apresentavam variação antes da estabilização em Weyer e na Goétia. Uma comparação acadêmica das listas demonológicas dos séculos XV e XVI registra essa variante.
Davies, Owen. Grimoires: A History of Magic Books. Oxford University Press.
Referência importante para contextualizar historicamente os grimórios europeus, sua transmissão, circulação e transformação entre manuscritos e edições impressas.