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Luciferianismo, História e Filosofia

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Home/Biblioteca/Demonologia/72 Daemons da Ars Goetia/Bael: história, origem e tradição do 1º espírito da Ars Goetia
Templo de Lúcifer Baal
72 Daemons da Ars Goetia

Bael: história, origem e tradição do 1º espírito da Ars Goetia

By Emrys
março 29, 2026
0

Bael ocupa uma posição singular na tradição goética: ele abre a lista dos 72 espíritos da Ars Goetia e também ocupa a primeira posição na Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer, uma das principais fontes anteriores utilizadas na formação do catálogo posteriormente incorporado ao Lemegeton.

Nas fontes centrais, seu perfil é relativamente compacto. Bael é apresentado como Rei, está relacionado ao Leste, governa 66 legiões e possui como principal atribuição a capacidade de tornar uma pessoa invisível. Johann Weyer acrescenta uma descrição marcante: três cabeças, semelhantes respectivamente a um sapo, um homem e um gato, além de uma voz rouca. Na Ars Goetia, a redação muda ligeiramente e Bael pode aparecer como gato, sapo, homem ou reunindo essas formas simultaneamente.

A partir desse núcleo surgiram séculos de interpretações adicionais.

Bael passou a ser associado a liderança, autoridade, soberania, proteção, sigilo, planetas, signos, metais, cartas do Tarô, divindades antigas e diferentes sistemas contemporâneos de Demonolatria e Luciferianismo.

Algumas dessas associações possuem genealogias históricas identificáveis.

Outras são interpretações modernas.

E algumas são repetidas na internet sem fonte clara.

Existe ainda uma questão particularmente complexa: a relação entre Bael e Baal, ou Baʿal, termo semítico antigo e nome associado a importantes divindades do Levante.

Seria o primeiro espírito da Goetia simplesmente o antigo Baal cananeu transformado em demônio?

A resposta exige muito mais cuidado do que normalmente encontramos em listas de demonologia.

Este artigo reconstrói essa história separando documentação, hipótese e interpretação contemporânea.

Bael dentro da Ars Goetia

Na sequência tradicional da Ars Goetia, Bael ocupa a posição número 1.

Isso significa que ele abre o catálogo.

Não significa automaticamente que seja o espírito mais poderoso dos 72, o soberano de todos os outros ou o primeiro ser demoníaco criado.

A Goetia não fornece uma classificação geral dos espíritos baseada numa escala matemática de poder.

A posição nº 1 é, antes de tudo, uma posição editorial dentro do catálogo.

A descrição preservada no manuscrito Sloane 3825 apresenta Bael como Rei governando no Leste, possuidor de 66 legiões de espíritos inferiores e capaz de tornar pessoas invisíveis.

Sua manifestação ocorre em diferentes formas: gato, sapo e homem, ou todas simultaneamente.

Sua voz é descrita como rouca.

Esse é o núcleo goético.

É importante conhecê-lo antes de acrescentarmos qualquer correspondência posterior.

Bael é anterior à Ars Goetia

Sim.

A figura está claramente documentada antes da forma conhecida do Lemegeton.

Johann Weyer registra Baël como o primeiro espírito de sua Pseudomonarchia Daemonum, catálogo demonológico incorporado à tradição editorial de De praestigiis daemonum no século XVI.

A edição particularmente importante para essa genealogia é a de 1577.

Weyer não apresenta Bael numa posição diferente.

Ele também começa seu catálogo com essa figura.

Esse fato estabelece uma continuidade textual muito forte entre Weyer e a Ars Goetia.

Contudo, a relação histórica não termina aí.

Weyer afirma depender de materiais anteriores ligados ao chamado Liber officiorum spirituum, ou tradição dos “Ofícios dos Espíritos”.

Isso significa que ele próprio provavelmente recebeu e reorganizou materiais que já circulavam antes.

Portanto, a cadeia simplificada pode ser apresentada assim:

tradições anteriores de Offices of Spirits;

Johann Weyer e a Pseudomonarchia Daemonum;

a transmissão inglesa por Reginald Scot;

a tradição manuscrita do Lemegeton;

e finalmente as edições modernas da Ars Goetia.

Bael atravessa diferentes etapas dessa transmissão.

O que Johann Weyer diz sobre Bael

A entrada latina de Weyer começa chamando Bael de primeiro Rei, relacionado ao poder do Oriente.

Sua aparência possui três cabeças.

Uma lembra um sapo.

Outra, um homem.

A terceira, um gato.

Sua voz é rouca.

Ele possui a capacidade de tornar uma pessoa invisível e governa 66 legiões.

Existe ainda um detalhe textual importante.

O latim contém a formulação reddit hominem invisibilem & sapientem, relacionando Bael não apenas à invisibilidade, mas também a tornar alguém sábio.

Essa segunda característica não foi preservada com a mesma estabilidade na transmissão inglesa posterior.

É um excelente exemplo de por que retornar às versões anteriores é importante.

Quando dependemos exclusivamente de uma edição moderna, podemos acreditar que determinado atributo jamais esteve associado a uma figura.

Quando comparamos a transmissão textual, percebemos mudanças.

Weyer e a descrição das três cabeças

Na Pseudomonarchia, a imagem é muito específica.

Bael possui três cabeças.

Sapo.

Homem.

Gato.

Essa formulação influenciou enormemente a iconografia posterior.

Contudo, a redação da Ars Goetia preservada no Sloane 3825 é ligeiramente diferente.

Em vez de simplesmente dizer que possui três cabeças, o texto informa que Bael aparece em diversas formas: às vezes como gato, às vezes como sapo, às vezes como homem e, em certas ocasiões, em todas essas formas simultaneamente.

As duas descrições são obviamente relacionadas.

Mas não são literalmente idênticas.

Por isso, quando este site representar Bael como um ser com três cabeças, devemos saber que essa imagem corresponde especialmente à formulação de Weyer e à tradição iconográfica que se desenvolveu depois dela.

O gato, o sapo e o homem possuem significado conhecido?

As fontes descrevem essas formas.

Não fornecem uma explicação detalhada dizendo aquilo que cada uma simboliza.

Portanto, interpretações como:

gato representando independência;

sapo representando transformação;

homem representando consciência;

são construções posteriores.

Podem ser interessantes.

Podem inclusive formar parte de uma teologia contemporânea.

Mas não devem ser apresentadas como explicações dadas por Weyer ou pelo compilador da Goetia.

Esse princípio será utilizado em toda a biblioteca dos 72.

Primeiro registramos a imagem histórica.

Depois, se houver interesse, construímos interpretação.

A invisibilidade é o atributo mais estável de Bael

Se precisamos identificar uma característica central de Bael através das principais fontes, ela é invisibilidade.

Weyer a registra.

A transmissão inglesa mantém a ideia.

A Ars Goetia também.

Portanto, ao contrário de muitas atribuições contemporâneas, essa função possui continuidade textual clara.

Isso não significa que possamos demonstrar empiricamente que uma operação ritual torne uma pessoa fisicamente invisível.

O método histórico demonstra outra coisa:

os textos atribuem essa faculdade a Bael.

A diferença é fundamental.

História pode demonstrar aquilo que uma fonte afirma.

Não necessariamente aquilo que acontece metafisicamente ou fisicamente como resultado de um ritual.

A invisibilidade era simbólica para os autores?

Não temos base suficiente para afirmar que a invisibilidade fosse apenas uma metáfora psicológica.

Essa é uma correção importante.

É comum reinterpretar textos mágicos antigos dizendo que os autores “na realidade” queriam falar apenas de discrição, anonimato ou ausência de ego.

Isso pode ser uma leitura contemporânea elegante.

Mas não devemos apagar a cosmologia da própria fonte.

Dentro da lógica ritual desses textos, invisibilidade aparece como uma capacidade mágica atribuída ao espírito.

Portanto, a ordem correta é:

historicamente, a fonte atribui invisibilidade;

contemporaneamente, podemos desenvolver interpretações simbólicas da invisibilidade.

As duas camadas não precisam competir.

Uma interpretação contemporânea da invisibilidade

Dentro da perspectiva do Templo de Lúcifer, a invisibilidade de Bael pode ser reinterpretada como controle consciente da própria exposição.

Vivemos num ambiente em que exposição tornou-se quase um comportamento padrão.

Publicamos onde estamos.

Aquilo que pensamos.

O que compramos.

Com quem estamos.

Nossas opiniões.

Conflitos.

Projetos.

Conquistas.

Fracassos.

Nesse contexto, invisibilidade pode adquirir significado filosófico muito diferente de simplesmente “desaparecer”.

Pode significar compreender que nem toda informação precisa ser pública.

Nem todo projeto precisa ser anunciado.

Nem toda provocação precisa receber resposta.

Nem toda pessoa precisa possuir acesso à nossa intimidade.

Esse é um desenvolvimento contemporâneo do Templo.

Não é uma tradução da Goetia.

Invisibilidade e discrição

Discrição não é necessariamente medo.

Existe diferença entre esconder-se porque não conseguimos enfrentar o mundo e escolher conscientemente aquilo que merece exposição.

Uma pessoa pode possuir presença e ainda assim manter privacidade.

Pode exercer liderança sem narrar cada movimento.

Pode realizar trabalho relevante sem exigir reconhecimento imediato.

Pode proteger informações antes de revelar projetos.

Nesse sentido, Bael oferece uma metáfora particularmente atual:

a capacidade de determinar quando aparecer e quando permanecer fora do campo de atenção.

Soberania também inclui o direito de administrar a própria visibilidade.

Invisibilidade e segurança

A leitura torna-se ainda mais relevante no ambiente digital.

A vida contemporânea depende de informação.

Informações pessoais revelam hábitos.

Rotinas.

Relacionamentos.

Localização.

Preferências.

Finanças.

Identidade religiosa.

Uma compreensão madura da invisibilidade simbólica pode envolver princípios como minimização de exposição e preservação de privacidade.

Isso não significa desaparecer completamente da sociedade.

Significa não oferecer informação sem necessidade.

A ideia central é simples:

ser visto deve ser uma escolha sempre que possível, não uma obrigação automática.

Essa é uma interpretação filosófica contemporânea inspirada pela característica histórica de Bael.

A sabedoria na versão latina

O detalhe sapientem merece especial atenção.

Se Weyer relaciona Bael também à sabedoria, o perfil original é ligeiramente mais amplo que algumas versões posteriores sugerem.

Entretanto, precisamos atribuir pesos diferentes às informações.

Invisibilidade aparece de maneira extremamente estável na transmissão.

Sabedoria aparece explicitamente no latim de Weyer, mas não permanece com a mesma consistência no desenvolvimento posterior.

Portanto, não seria adequado colocar ambas as funções como se tivessem exatamente a mesma estabilidade documental.

Podemos classificá-las assim:

Invisibilidade: atributo central e altamente estável.

Sabedoria: atributo explicitamente presente na redação latina de Weyer, mas menos estável na transmissão posterior.

Esse tipo de classificação é muito mais informativo do que produzir apenas uma lista de “poderes”.

Bael é Rei

Bael recebe o título Rex, Rei.

Na Ars Goetia, esse é um dos principais títulos hierárquicos.

Outros espíritos também recebem dignidade real.

Entre eles estão Paimon, Beleth, Purson, Asmoday, Balam e Belial, além de figuras que acumulam o título de Rei com outra posição.

Portanto, Bael não é “o único Rei da Goétia”.

Também não existe base para dizer que seu título significa que ele governa necessariamente todos os outros 71 espíritos.

A fonte não estabelece isso.

Rei não significa necessariamente “o mais poderoso”

Hierarquias nobiliárquicas fazem parte da estrutura textual do catálogo.

Reis.

Duques.

Príncipes.

Marqueses.

Presidentes.

Condes.

Cavaleiro.

Esses títulos organizam posições.

Mas não formam uma tabela matemática de força.

Não há no texto uma fórmula do tipo:

Rei = nível 100;

Duque = nível 80;

Marquês = nível 60.

Quando perfis modernos criam rankings de “poder dos Daemons”, estamos diante de outro sistema.

A Goetia não fornece essa escala universal.

Bael e o Leste

Outra característica consistente é sua relação com o Leste.

Weyer o apresenta como pertencente ao poder do Oriente.

A Goetia o descreve como Rei governando no Leste.

Esse dado é textual.

O cuidado começa quando tentamos explicar automaticamente aquilo que o Leste significa.

Uma interpretação contemporânea pode relacionar a direção à aurora, ao início, à chegada da luz ou ao começo de uma jornada.

Essas associações possuem coerência simbólica.

Mas a entrada histórica não fornece uma longa filosofia da direção oriental.

Portanto:

Bael está historicamente relacionado ao Leste.

O significado filosófico que atribuímos ao Leste é interpretação posterior.

Bael é o grande Rei do Leste de toda a magia cerimonial?

Não necessariamente.

Outros sistemas possuem reis cardeais com nomes diferentes, como Oriens, Amaymon, Paymon e outros, dependendo da tradição.

Hierarquias de grimórios não devem ser fundidas automaticamente.

Bael ser identificado como Rei relacionado ao Leste em Weyer e na Goetia não demonstra que seja idêntico a toda figura oriental encontrada em outros sistemas.

Essa cautela evita um problema recorrente na literatura ocultista moderna:

pegar personagens de textos diferentes e uni-los apenas porque exercem funções semelhantes.

As 66 legiões

Weyer atribui 66 legiões a Bael.

A tradição posterior preserva o mesmo número.

Essa continuidade ajuda a demonstrar a relação textual entre as fontes.

Mas o que significa exatamente uma legião?

O catálogo não fornece uma definição matemática universal que permita converter cada legião em determinado número fixo de espíritos.

Portanto, afirmações como:

“Bael governa exatamente X entidades porque cada legião possui Y membros”

precisam apresentar outra fonte para justificar o cálculo.

Dentro da entrada, o número funciona principalmente como expressão de séquito e autoridade.

66 legiões tornam Bael superior aos demais?

Novamente, não existe uma escala explícita.

Um espírito possuir mais legiões que outro não significa automaticamente ser superior em todos os aspectos.

Título, função e número de legiões são elementos do perfil textual.

Não constituem sistema científico de mensuração de poder.

O selo de Bael

Na tradição da Ars Goetia, Bael recebe um caráter ou selo próprio.

Esse símbolo tornou-se uma de suas representações mais utilizadas no ocultismo contemporâneo.

Entretanto, o selo precisa ser colocado corretamente na cronologia.

O catálogo de Weyer não apresenta a série de sigilos que encontramos posteriormente no Lemegeton.

Joseph H. Peterson também observa que os selos goéticos conhecidos não aparecem nos manuscritos anteriores dos Offices of Spirits que ele examinou.

Portanto, o nome e a descrição de Bael possuem uma história documental anterior ao selo goético familiar.

Essa distinção é essencial.

O selo de Bael não vem de Ugarit

Nada na evidência atualmente utilizada permite afirmar que o selo goético de Bael tenha origem na antiga religião cananeia ou ugarítica.

Uma pessoa pode associar simbolicamente o selo moderno a Baal-Hadad se sua tradição religiosa realizar essa fusão.

Mas isso não muda a história documental do desenho.

Não encontramos o sigilo da Goetia entre os símbolos cultuais conhecidos de Ugarit.

Portanto, devemos evitar expressões como:

“antigo selo de Baal”;

“sigilo cananeu de Bael”;

ou:

“símbolo utilizado pelos sacerdotes de Baal”.

Sem documentação, essas afirmações criam uma falsa antiguidade.

Podemos explicar cada linha do selo?

Não de maneira historicamente segura.

Interpretações modernas podem atribuir significados às curvas e cruzamentos.

Algumas podem ser simbolicamente interessantes.

Mas, sem uma explicação contemporânea ao desenho estabelecendo seu significado, não podemos simplesmente afirmar:

“esta linha significa fogo”;

“esta curva representa realeza”;

“este ponto é o Sol”.

Isso seria interpretação.

Não documentação.

Bael, Baël, Baell, Beal e Baal

A transmissão preserva diferentes grafias.

Joseph H. Peterson registra variantes como:

Bael;

Baël;

Baell;

Beal;

Baall;

e Baal em materiais relacionados.

Arthur Edward Waite posteriormente preferiu Baal em sua edição, mesmo quando fontes anteriores utilizavam frequentemente Bael.

Isso é importante porque demonstra que a aproximação gráfica entre Bael e Baal não foi inventada recentemente pela internet.

A relação nominal possui história.

Ainda assim, uma variante ortográfica não resolve automaticamente a questão religiosa.

Precisamos separar:

relação do nome

e

identidade completa entre personagens religiosos de contextos diferentes.

O que significa Baal?

A palavra semítica Baʿal significa aproximadamente “senhor”, “mestre” ou “proprietário”.

Ela foi utilizada como título em diferentes contextos do antigo Levante.

Diferentes divindades podiam receber designações construídas com Baal.

Ao mesmo tempo, em determinados ambientes religiosos, especialmente nos textos de Ugarit, Baal tornou-se uma designação característica da importante divindade da tempestade identificada com Hadad.

Portanto, duas simplificações devem ser evitadas.

A primeira:

“Baal era simplesmente o nome de um único deus em toda a Antiguidade.”

Isso é amplo demais.

A segunda:

“Baal nunca foi utilizado como designação específica de uma divindade, era apenas um título.”

Também é simplificação.

O contexto determina o uso.

Quem era Baal-Hadad?

No mundo religioso do antigo Levante, Baal/Hadad ocupa papel importante como divindade ligada às tempestades.

Tempestade, chuva e fertilidade agrícola estavam intimamente relacionadas em sociedades cuja sobrevivência dependia dos ciclos ambientais.

No chamado Ciclo de Baal, preservado em textos de Ugarit, essa figura participa de conflitos envolvendo soberania, mar, morte e restauração.

Sua imagem histórica é muito diferente da descrição de Bael nos grimórios europeus modernos.

O Baal antigo não aparece como:

Rei nº 1 da Goetia;

governante de 66 legiões;

ser com cabeça de homem, gato e sapo;

ou espírito salomônico especializado em invisibilidade.

Esses elementos pertencem a outra camada histórica.

Baal antigo não era originalmente um “demônio da Goétia”

Esse ponto parece óbvio, mas precisa permanecer explícito.

Para seus adoradores antigos, Baal/Hadad era uma divindade.

Não um personagem de um grimório cristão moderno.

Posteriormente, tradições religiosas hostis a cultos considerados rivais contribuíram para reinterpretar diferentes nomes religiosos dentro de estruturas negativas ou demonológicas.

Isso faz parte de uma história longa e complexa.

Mas conhecer esse processo não autoriza assumir que cada detalhe de Bael na Goetia tenha sido simplesmente copiado do antigo Baal.

Então Bael é Baal-Hadad?

A resposta mais correta é:

existe uma relação nominal historicamente relevante que merece investigação, mas não possuímos uma cadeia documental simples demonstrando que o Bael goético seja apenas Baal-Hadad transportado sem transformação para a Ars Goetia.

Há razões para estudar a relação.

As grafias Bael e Baal aparecem na tradição.

O nome Baal já possuía séculos de recepção religiosa negativa em ambientes cristãos.

Outras figuras demonológicas realmente possuem relações com nomes religiosos anteriores.

Mas ainda precisamos separar aquilo que podemos demonstrar daquilo que inferimos.

Podemos dizer com segurança:

Bael/Baal aparecem como variantes na tradição demonológica.

Podemos dizer:

Baʿal é um termo semítico antigo e Baal/Hadad é uma importante divindade levantina.

Podemos considerar historicamente plausível que a recepção europeia de Baal tenha contribuído para o nome demonológico.

O que não devemos dizer sem evidência adicional é:

cada característica de Bael na Goetia é uma sobrevivência direta do culto ugarítico a Baal-Hadad.

O perigo de fundir os dois perfis

Imagine a seguinte ficha:

Bael;

Rei nº 1 da Goetia;

deus cananeu da tempestade;

governa 66 legiões;

traz chuva;

torna invisível;

rege fertilidade;

possui elemento fogo;

planeta Sol;

signo Áries;

carta 2 de Paus.

Ela parece extremamente completa.

Mas mistura materiais de épocas e sistemas diferentes.

A invisibilidade e as 66 legiões pertencem à tradição demonológica de Weyer e da Goetia.

Tempestade, chuva e fertilidade possuem fundamento quando discutimos Baal/Hadad antigo.

Planetas, signos e cartas do Tarô pertencem a sistemas ocultistas posteriores que precisam ser identificados individualmente.

A ficha mistura tudo e apaga a cronologia.

É exatamente esse método que nossa biblioteca pretende evitar.

Bael e tempestades

Tempestades são um atributo histórico fundamental de Baal/Hadad.

Não constituem o núcleo da entrada de Bael na Pseudomonarchia ou na Ars Goetia.

Uma corrente moderna que identifica espiritualmente Bael e Baal pode transferir esse atributo.

Isso é uma escolha religiosa ou sincrética contemporânea.

Precisa ser identificada dessa maneira.

Bael e fertilidade

A mesma distinção se aplica à fertilidade.

Chuva e produtividade da terra fazem sentido no contexto religioso de Baal/Hadad.

A entrada goética de Bael, porém, não apresenta fertilidade como um de seus ofícios principais.

Portanto, não devemos usar o perfil da divindade antiga para preencher automaticamente as lacunas do espírito goético.

Bael e guerra

Collin de Plancy, no século XIX, descreve Baël como combatente hábil, além de preservar as três cabeças, voz rouca, invisibilidade e 66 legiões.

Essa é uma etapa posterior de recepção.

Ela é historicamente relevante.

Mas também não deve ser confundida automaticamente com cada versão anterior.

O Dictionnaire Infernal pertence ao século XIX e é uma fonte importante para compreender como a demonologia foi reinterpretada e popularizada, especialmente por meio das famosas ilustrações associadas a Louis Le Breton.

A imagem de Bael no Dictionnaire Infernal

Grande parte das representações contemporâneas de Bael deriva direta ou indiretamente da iconografia popularizada pelo Dictionnaire Infernal de 1863.

Isso produz um fenômeno importante.

Uma imagem do século XIX pode tornar-se tão difundida que começa a parecer muito mais antiga.

Depois o público imagina que aquele desenho represente a aparência “original” da entidade.

Não representa.

Ele é uma interpretação artística moderna baseada numa tradição textual anterior.

Iconografia e descrição textual precisam ser estudadas separadamente.

Bael aparece no Grand Grimoire?

Collin de Plancy também relaciona Baël ao Grand Grimoire.

Na tradição do Grand Grimoire, encontramos uma hierarquia diferente daquela apresentada pela Goetia.

Bael aparece entre os espíritos subordinados dentro de uma organização em que Lucifuge Rofocale possui função ministerial.

Esse fato é particularmente interessante porque demonstra novamente que um mesmo nome pode ocupar posições diferentes conforme o sistema textual.

Na Goetia, Bael abre a lista como Rei.

No sistema do Grand Grimoire, ele é inserido numa hierarquia diferente.

Não devemos fundir essas organizações como se fossem uma única burocracia infernal universal.

Cada grimório possui sua própria estrutura.

Bael e Lucifuge Rofocale

A presença de Bael no sistema associado ao Grand Grimoire também permite um importante link interno com nosso estudo de Lucifuge.

Naquela tradição, Lucifuge comanda determinados espíritos subordinados, entre eles Bael.

Isso não significa que a Ars Goetia apresente Bael dessa forma.

Esse relacionamento pertence a outro sistema.

Quando comparamos grimórios, descobrimos justamente que títulos e posições não são universalmente estáveis.

Essa comparação é muito mais instrutiva que tentar obrigar todas as fontes a concordarem.

Bael e Beelzebub são a mesma entidade?

Não deveríamos tratá-los automaticamente como a mesma figura.

Beelzebub possui outra história textual, ligada a formas como Baal-Zebub e Beelzebul e posteriormente a uma extensa tradição demonológica cristã.

A proximidade geral com nomes construídos a partir de Baal não elimina as diferenças documentais.

Portanto, uma identificação direta exige uma tradição específica que a estabeleça.

Não deve ser presumida apenas porque os nomes parecem relacionados.

Bael é Enlil?

Não existe base histórica suficiente para apresentar essa identificação como consenso.

Comparações modernas entre figuras de diferentes tradições podem surgir por semelhança de função, posição ou interpretação.

Mas equivalência religiosa exige muito mais que semelhança.

O mesmo princípio vale para tentativas de identificar Bael automaticamente com outras divindades mesopotâmicas ou levantinas.

Comparar é legítimo.

Fundir sem evidência é outro processo.

Bael é uma antiga divindade pagã demonizada?

Essa pergunta precisa de uma resposta mais cuidadosa que simplesmente “sim” ou “não”.

Se utilizarmos “Bael” exclusivamente para o personagem demonológico de Weyer e da Goetia, sua documentação pertence à tradição europeia moderna.

Se investigarmos a forma Baal, entramos numa história religiosa antiquíssima.

Existe uma evidente aproximação nominal.

Mas dizer:

“Bael é definitivamente Baal-Hadad sem nenhuma transformação”

é mais forte do que a documentação permite.

Por isso, a melhor formulação continua sendo:

Bael goético e Baal antigo possuem uma relação nominal e uma possível história de recepção que merece estudo, mas seus perfis não devem ser simplesmente fundidos.

Correspondências astrológicas

Diversos sistemas modernos associam Bael a:

Sol;

Marte;

Áries;

determinados graus zodiacais;

dias da semana;

horas planetárias;

e outras estruturas astrológicas.

Essas correspondências não aparecem na entrada central de Weyer.

Também não formam parte da descrição básica do Sloane 3825.

Portanto, qualquer tabela desse tipo precisa informar o sistema utilizado.

Não existe fundamento para declarar uma correspondência moderna como:

“o planeta original de Bael”

sem demonstrar sua fonte.

Bael e o Sol

O Sol aparece frequentemente em sistemas modernos.

Uma possível razão simbólica é a realeza.

Outra pode surgir da fusão com tradições posteriores sobre Baal.

Mas essas explicações precisam ser investigadas segundo o autor que criou a correspondência.

A entrada clássica não diz:

“Bael é um espírito solar.”

Portanto, essa frase precisa de uma fonte posterior específica.

Bael e Áries

O mesmo cuidado vale para Áries.

Uma associação moderna entre Bael e determinados graus de Áries existe em diferentes tabelas.

Mas ela não pertence à descrição de Weyer.

O zodiacal é uma camada posterior.

Isso não impede uma tradição de utilizá-la.

Apenas define sua data e seu sistema.

Bael e o Tarô

Também encontramos correspondências com cartas como o 2 de Paus.

Novamente, a Pseudomonarchia não fornece carta de Tarô para Bael.

A entrada goética básica também não.

Essas correspondências pertencem à integração posterior entre demonologia, astrologia, Cabala e Tarô.

Quem utiliza esse sistema precisa identificá-lo.

Bael e metais

Ferro, ouro e outros metais também aparecem em tabelas modernas.

Quando diferentes fontes oferecem metais distintos, surge um sinal importante:

provavelmente não estamos diante de uma correspondência única e antiga.

Estamos diante de sistemas diferentes.

A pergunta deixa de ser:

“Qual é o verdadeiro metal de Bael?”

E passa a ser:

“Qual autor atribuiu qual metal, dentro de qual sistema?”

Essa segunda pergunta produz conhecimento.

Bael e Vehuiah

Sistemas ocultistas posteriores estabeleceram correspondências entre os 72 espíritos da Goetia e os 72 nomes ou anjos relacionados ao Shem HaMephorash.

Dentro de determinadas tabelas, Bael é colocado em relação com Vehuiah.

Essa correspondência não aparece na entrada de Weyer.

Também não é parte da descrição goética original de Bael.

Portanto, sua história pertence ao desenvolvimento posterior do ocultismo.

Isso não significa que a correspondência seja irrelevante.

Significa apenas que precisa ser estudada no sistema que a produziu.

Bael no ocultismo moderno

Com a popularização da Goetia nos séculos XIX, XX e XXI, Bael recebeu inúmeras novas atribuições.

Liderança.

Soberania.

Autoridade.

Estratégia.

Proteção.

Sigilo.

Poder pessoal.

Autonomia.

Domínio social.

Algumas possuem relação simbólica compreensível com seu título de Rei ou com sua faculdade de invisibilidade.

Mas ainda são interpretações.

Uma associação ser coerente não prova que seja antiga.

Esse princípio precisa permanecer constante ao longo de toda a biblioteca.

Bael na Demonolatria contemporânea

Correntes modernas de Demonolatria podem compreender Bael como entidade espiritual real e abordá-lo de maneira devocional, religiosa ou relacional.

Essa postura difere substancialmente do método ritual da Ars Goetia, no qual os espíritos aparecem dentro de uma estrutura de conjuração e constrangimento.

As duas tradições não devem ser tratadas como se fossem idênticas.

Uma prática moderna pode conscientemente rejeitar o método salomônico e ainda utilizar os nomes preservados pela Goetia.

Isso é desenvolvimento religioso.

Não preservação literal do ritual original.

Bael dentro do Luciferianismo

A Ars Goetia não é originalmente um texto luciferiano no sentido contemporâneo.

Portanto, Bael não precisa ser apresentado como “antigo Daemon luciferiano” para ser estudado dentro de uma tradição luciferiana moderna.

O Luciferianismo contemporâneo pode reinterpretar materiais provenientes de diversas correntes do esoterismo.

O importante é declarar a reinterpretação.

Dentro do Templo de Lúcifer, Bael pode ser estudado historicamente como figura goética e, em seguida, reinterpretado simbolicamente dentro de nossos próprios princípios.

A interpretação contemporânea do Templo de Lúcifer

Nossa leitura de Bael parte de três elementos documentados:

realeza;

Leste;

invisibilidade.

Não afirmamos que Weyer tenha unido esses elementos numa filosofia.

Essa síntese é nossa.

A realeza pode ser interpretada como autogoverno.

O Leste pode ser utilizado como imagem de início e direção.

A invisibilidade pode representar controle consciente da exposição.

Juntos, esses elementos oferecem uma reflexão sobre soberania que não depende de dominar terceiros.

Realeza como autogoverno

Uma leitura superficial de realeza concentra-se em controlar outras pessoas.

Nossa interpretação começa pelo contrário.

Antes de querer governar algo externo, uma pessoa precisa aprender a administrar aquilo que realmente pertence à sua esfera de decisão.

Seu tempo.

Seus compromissos.

Seus impulsos.

Suas informações.

Seus recursos.

Sua atenção.

Uma pessoa incapaz de administrar a si mesma pode utilizar autoridade apenas como compensação.

Nesse sentido, Bael como Rei pode simbolizar não a necessidade de possuir súditos, mas a capacidade de governar a própria esfera.

Autoridade não é dominação

Essa distinção é particularmente importante dentro de uma filosofia de soberania responsável.

Autonomia pessoal não autoriza controlar a autonomia alheia.

Uma pessoa pode desenvolver poder de decisão sobre sua própria vida e continuar respeitando limites de terceiros.

Por isso, reinterpretar Bael como soberania não significa construir uma ética de dominação.

Significa desenvolver capacidade de decisão sem transformar poder em abuso.

O Leste como começo

Historicamente, Bael está ligado ao Oriente.

Nossa interpretação pode utilizar esse dado como símbolo de começo.

O Leste é associado à direção em que observamos o nascer do Sol.

Isso permite relacioná-lo filosoficamente a:

início;

abertura;

mudança de posição;

entrada num novo ciclo.

Essa associação é simbólica e contemporânea.

Não deve ser atribuída automaticamente a Weyer.

Mas pode funcionar de maneira coerente dentro da filosofia do Templo.

Invisibilidade como controle da presença

Talvez este seja o aspecto mais fértil da figura.

Ser capaz de aparecer não significa precisar aparecer sempre.

A cultura contemporânea frequentemente confunde presença com exposição contínua.

Bael oferece uma imagem diferente.

Presença também pode ser estratégica.

Uma pessoa pode decidir quando falar.

Quando observar.

Quando divulgar.

Quando permanecer silenciosa.

Quando revelar um projeto.

Quando proteger uma informação.

Nesse sentido, invisibilidade não é inexistência.

É governança da própria presença.

Invisibilidade e ego

Existe ainda outra questão.

Conseguimos trabalhar sem que todas as pessoas saibam que estamos trabalhando?

Conseguimos construir algo antes de receber aprovação?

Conseguimos aprender sem transformar todo aprendizado em performance?

A dependência constante de reconhecimento pode tornar o indivíduo controlado pelo olhar externo.

A invisibilidade simbólica de Bael fornece um exercício interessante:

fazer algo porque possui valor, e não apenas porque será visto.

Essa é uma formulação contemporânea do Templo.

Não uma doutrina da Goetia.

As três formas numa interpretação contemporânea

Também podemos utilizar homem, gato e sapo como material simbólico, desde que fique explícito que estamos construindo uma leitura moderna.

A forma humana pode representar consciência reflexiva e linguagem.

O gato pode ser utilizado como símbolo de observação, autonomia e movimento silencioso.

O sapo pode sugerir adaptação a diferentes ambientes e transformação.

Nada disso aparece como explicação oficial de Weyer.

É interpretação.

A distinção precisa permanecer visível.

Não precisamos transformar toda imagem em código secreto

Existe uma tendência esotérica a supor que cada detalhe de um grimório esconda uma mensagem precisa.

Talvez alguns escondam.

Mas nem toda imagem precisa possuir uma chave perdida.

Às vezes o texto simplesmente descreve uma figura extraordinária.

Podemos estudar seu simbolismo cultural.

Podemos construir significado contemporâneo.

Não precisamos fingir possuir acesso à intenção exata do autor quando ela não foi preservada.

Bael e conhecimento

O termo sapientem encontrado em Weyer permite, com cautela, ampliar nossa leitura contemporânea.

Realeza sem conhecimento torna-se arbitrariedade.

Discrição sem conhecimento torna-se isolamento.

Estratégia sem conhecimento torna-se apenas tentativa.

Nesse sentido, a preservação textual de uma associação com sabedoria é particularmente interessante.

Mas continuamos distinguindo:

há um dado textual em Weyer;

e há nossa elaboração filosófica posterior.

Bael não precisa “dar poder”

Uma abordagem contemporânea madura não precisa reduzir Daemons a fornecedores de benefícios.

“Bael dá autoridade.”

“Bael dá invisibilidade.”

“Bael dá liderança.”

Essa linguagem cria uma relação quase comercial com o símbolo ou entidade.

Mesmo para quem compreende Bael espiritualmente, existe outra maneira de formular a questão.

Que aspectos da relação com autoridade precisam ser trabalhados?

Como lidamos com exposição?

Somos capazes de manter discrição?

Confundimos reconhecimento com valor?

Utilizamos poder para organizar a nós mesmos ou para dominar terceiros?

Essas perguntas produzem uma leitura muito mais profunda que uma lista de favores mágicos.

O que sabemos com razoável segurança

Podemos resumir a base documental de Bael da seguinte forma.

Bael aparece como primeiro espírito na Pseudomonarchia Daemonum de Weyer e permanece como primeiro espírito na Ars Goetia.

Recebe o título de Rei.

Está associado ao Leste.

Governa 66 legiões.

Possui voz rouca.

Weyer o descreve com três cabeças correspondentes a sapo, homem e gato.

A Goetia apresenta essas formas de maneira ligeiramente diferente, permitindo manifestações individuais ou simultâneas.

Sua principal faculdade textual é tornar pessoas invisíveis.

O latim de Weyer também inclui referência à sabedoria.

O selo conhecido pertence à tradição goética posterior e não acompanha sua entrada em Weyer.

Esse é o núcleo histórico mais sólido.

O que permanece incerto

Não sabemos com segurança a intenção original por trás das três formas.

Não sabemos que cada traço do selo possua um significado específico.

Não podemos provar que toda característica de Bael derive diretamente do antigo Baal/Hadad.

Não podemos tratar correspondências com Sol, Áries, Tarô, metais ou Vehuiah como elementos da entrada original sem identificar sistemas posteriores.

Não possuímos base para afirmar que ser nº 1 significa ser o mais poderoso dos 72.

E o método histórico não consegue decidir se Bael existe metafisicamente como entidade espiritual independente.

Essas limitações também são conhecimento.

Perguntas frequentes sobre Bael

Quem é Bael?

Bael é o primeiro espírito da Ars Goetia e aparece anteriormente como primeiro Rei da Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.

Qual é o número de Bael?

Na Ars Goetia, Bael ocupa a posição nº 1.

Bael é o espírito mais poderoso?

A posição nº 1 não constitui uma classificação matemática de poder. A fonte não fornece um ranking completo dos 72 do mais poderoso ao menos poderoso.

Qual é a hierarquia de Bael?

Rei.

Bael está ligado ao Leste?

Sim. Weyer o relaciona ao poder do Oriente e a Ars Goetia o apresenta como Rei governando no Leste.

Quantas legiões Bael governa?

66 legiões.

Qual é o principal poder atribuído a Bael?

A faculdade mais estável entre as fontes é tornar pessoas invisíveis.

Weyer também associa Bael à sabedoria?

O texto latino contém sapientem, “sábio”, embora essa característica não permaneça com a mesma estabilidade na transmissão inglesa posterior.

Como Bael aparece?

Weyer o descreve com três cabeças: sapo, homem e gato. A Ars Goetia preservada no Sloane 3825 apresenta essas formas individualmente ou reunidas.

Como é a voz de Bael?

Rouca.

Bael e Baal são o mesmo?

Existe uma relação nominal que merece investigação, e variantes como Baal aparecem na tradição demonológica. Contudo, o Bael goético não deve ser simplesmente fundido a Baal/Hadad sem reconhecer as diferenças históricas entre seus perfis.

O que significa Baal?

Baʿal significa aproximadamente senhor, mestre ou proprietário e foi utilizado como título no antigo Levante. Em determinados contextos, Baal tornou-se especialmente associado ao deus da tempestade Baal/Hadad.

Bael é Baal-Hadad?

É possível investigar uma relação de recepção histórica, mas não possuímos uma cadeia documental simples demonstrando que cada característica do Bael goético derive diretamente de Baal-Hadad.

Bael é Beelzebub?

Não deve ser automaticamente identificado com Beelzebub. A figura de Beelzebub possui uma história textual própria.

Bael aparece antes da Goetia?

Sim. É o primeiro espírito na Pseudomonarchia Daemonum de Weyer.

O selo de Bael aparece em Weyer?

Não como ocorre posteriormente na tradição do Lemegeton. O selo goético pertence a uma camada posterior da transmissão.

O selo de Bael é cananeu?

Não existe documentação suficiente para afirmar isso.

Bael é um deus das tempestades?

Essa característica possui base quando discutimos Baal/Hadad antigo. Não é um dos principais atributos da entrada goética de Bael.

Bael está ligado à fertilidade?

Novamente, fertilidade pertence de maneira muito mais clara ao contexto de Baal/Hadad que à entrada clássica de Bael na Goetia.

Qual é o planeta de Bael?

A entrada clássica não fornece um planeta. Correspondências planetárias pertencem a sistemas posteriores.

Qual é o signo de Bael?

A entrada histórica básica não fornece signo zodiacal.

Qual é a carta do Tarô de Bael?

A Pseudomonarchia e a entrada original da Goetia não fornecem carta de Tarô. Correspondências desse tipo são posteriores.

Vehuiah é a contraparte de Bael?

Essa relação aparece em sistemas ocultistas posteriores de correspondência entre os 72 espíritos e o Shem HaMephorash. Não pertence à entrada original de Weyer.

Bael é originalmente luciferiano?

Não no sentido contemporâneo. A Ars Goetia pertence à tradição salomônica. Correntes luciferianas modernas podem reinterpretar Bael.

A perspectiva do Templo de Lúcifer

Dentro da nossa abordagem, Bael é uma figura particularmente adequada para refletir sobre soberania, discrição e governo da própria presença.

Essa interpretação parte de atributos históricos, mas não se apresenta como antiga.

O título de Rei fornece matéria para pensar autogoverno.

O Leste permite refletir simbolicamente sobre início e direção.

A invisibilidade permite discutir privacidade, estratégia e controle da exposição.

A referência à sabedoria em Weyer lembra que poder sem discernimento possui pouco valor.

Assim, nossa leitura de Bael não se concentra em dominar pessoas.

Concentra-se numa pergunta anterior:

você consegue governar aquilo que realmente pertence à sua responsabilidade?

Seu tempo.

Sua atenção.

Sua informação.

Sua presença.

Suas decisões.

E existe uma segunda pergunta igualmente importante:

você consegue permanecer fora dos olhos dos outros quando a exposição não acrescenta nada àquilo que está construindo?

Numa sociedade orientada por visibilidade constante, essa é uma forma particularmente contemporânea de pensar a invisibilidade.

Não como desaparecimento.

Mas como escolha.

Conclusão

Bael é um excelente ponto de partida para a biblioteca dos 72 justamente porque sua história contém quase todos os problemas metodológicos que encontraremos novamente.

Existe uma fonte anterior à Goetia.

Existe transmissão textual.

Existem pequenas mudanças na descrição.

Há um atributo estável: invisibilidade.

Há uma característica menos estável: sabedoria.

Existe uma iconografia posterior que se tornou extremamente influente.

Há um selo cuja história é posterior à documentação inicial do nome.

Existem correspondências modernas que frequentemente são apresentadas sem data.

E existe uma possível conexão com uma tradição religiosa antiquíssima através do nome Baal, sem que isso nos autorize a fundir automaticamente todas as características das duas figuras.

Isso demonstra por que estudar os 72 exige mais que consultar uma tabela.

Precisamos perguntar de onde cada informação veio.

No caso de Bael, aquilo que podemos estabelecer com maior segurança é relativamente simples.

Ele abre a lista de Weyer.

Abre também a Ars Goetia.

É Rei.

Relaciona-se ao Leste.

Governa 66 legiões.

Possui voz rouca.

Aparece através das formas de homem, gato e sapo.

E sua faculdade central é a invisibilidade.

Sobre essa base histórica, séculos de religião, ocultismo e cultura acrescentaram novas camadas.

O trabalho do Templo de Lúcifer não será apagar essas camadas.

Será identificá-las.

Quando algo pertence a Weyer, diremos que pertence a Weyer.

Quando pertence ao Lemegeton, indicaremos.

Quando surge no século XIX, será apresentado como recepção do século XIX.

Quando é interpretação contemporânea, assumiremos sua contemporaneidade.

Isso permite algo que consideramos essencial:

desenvolver uma espiritualidade moderna sem precisar fabricar um passado para legitimá-la.

Dentro da interpretação do Templo, Bael pode representar uma soberania que começa não pelo controle dos outros, mas pelo domínio consciente da própria presença.

Saber quando aparecer.

Saber quando observar.

Saber o que revelar.

Saber o que preservar.

Saber quando agir sem plateia.

O primeiro espírito da lista, nesse sentido, oferece uma pergunta apropriada para abrir toda a biblioteca:

antes de tentar exercer poder sobre o mundo, quanto controle você possui sobre aquilo que escolhe mostrar ao mundo?

Leituras relacionadas

Para compreender o conjunto ao qual Bael pertence, leia Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.

Consulte também Focalor: história, simbolismo e tradição do 41º espírito da Ars Goetia e Amdusias: história, música e simbolismo do 67º espírito da Ars Goetia, que seguem a mesma metodologia editorial.

Para compreender a hierarquia diferente na qual Bael aparece associado a Lucifuge, consulte Lucifuge Rofocale: origem, Grand Grimoire, história e significado.

Para entender por que o Templo separa religião antiga, demonologia histórica e interpretação contemporânea, leia Como diferenciar espiritualidade séria de fantasia esotérica.

Referências e leituras para aprofundamento

WEYER, Johann. Pseudomonarchia Daemonum. Catálogo demonológico incorporado à tradição de De praestigiis daemonum no século XVI. Bael abre a lista como primeiro Rei relacionado ao Oriente, com três cabeças, voz rouca, faculdade de invisibilidade e 66 legiões.

SCOT, Reginald. The Discoverie of Witchcraft. 1584. A tradução inglesa do material de Weyer constitui uma etapa central para compreender a transmissão que posteriormente contribuiu para a formação da Ars Goetia.

PETERSON, Joseph H. (ed.). The Lesser Key of Solomon — Lemegeton Clavicula Salomonis. Edição crítica e comparação de manuscritos. Fundamental para a descrição de Bael no Sloane 3825, variantes nominais e relação da Goetia com Weyer e Scot.

COLLIN DE PLANCY, Jacques. Dictionnaire Infernal. 6ª ed. Paris, 1863. Fonte importante para a recepção do século XIX e para a iconografia moderna associada a Baël.

BOUDET, Jean-Patrice. Estudos sobre catálogos demonológicos renascentistas e seus antecedentes medievais. Fundamentais para contextualizar a tradição dos Offices of Spirits da qual Weyer constitui uma testemunha central.

DAVIES, Owen. Grimoires: A History of Magic Books. Oxford University Press, 2009. Estudo histórico amplo sobre produção, transmissão e circulação dos grimórios.

THE ORIENTAL INSTITUTE / UNIVERSITY OF CHICAGO. Materiais sobre religião cananeia e Baal/Hadad. Importantes para distinguir a antiga divindade levantina da figura demonológica posteriormente chamada Bael.

TEMPLO DE LÚCIFER. Os 72 Daemons da Ars Goetia: lista completa, história, hierarquia e guia.

TEMPLO DE LÚCIFER. Lucifuge Rofocale: origem, Grand Grimoire, história e significado.

TEMPLO DE LÚCIFER. Como diferenciar espiritualidade séria de fantasia esotérica.

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Emrys

Emrys é autor, editor e pesquisador responsável pelo Templo de Lúcifer. Seu trabalho concentra-se em Luciferianismo, história das religiões, demonologia, simbolismo, ocultismo e esoterismo, com ênfase na análise e contextualização de fontes. Conheça o autor e a metodologia editorial →

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