
Quem é Bael na Ars Goetia?
Bael é o primeiro espírito da lista tradicional dos 72 Daemons da Ars Goetia.
No Lemegeton Clavicula Salomonis, ele aparece como um Rei associado ao Leste, governando 66 legiões de espíritos e possuindo como principal faculdade a capacidade de tornar homens invisíveis.
Sua descrição tradicional apresenta um ser capaz de aparecer:
como gato;
como sapo;
como homem;
ou reunindo essas formas.
Sua voz é descrita como:
rouca.
Mas a história de Bael não começa com a versão do Lemegeton.
Décadas antes da tradição manuscrita da Ars Goetia que conhecemos, Johann Weyer já havia colocado Baël como primeiro rei de seu catálogo Pseudomonarchia Daemonum, publicado como apêndice da quinta edição de De Praestigiis Daemonum, em 1577.
E antes ainda existe um problema histórico particularmente interessante:
Bael se parece inevitavelmente com Baal.
Baal — ou Baʿal — é um termo semítico antigo que significa aproximadamente:
senhor;
mestre;
proprietário.
Ele também se tornou especialmente associado ao importante deus levantino da tempestade conhecido como Baal-Hadad.
Então surge a pergunta:
O Bael da Ars Goetia é realmente o antigo Baal cananeu transformado em demônio?
A resposta responsável é:
existe uma evidente proximidade nominal e uma longa história de demonização de nomes religiosos do antigo Levante, mas não possuímos uma cadeia documental simples demonstrando que o Bael da Goétia seja, sem transformação ou interrupção, exatamente o mesmo Baal-Hadad de Ugarit.
Precisamos estudar as duas histórias.
Primeiro:
Bael goético.
Depois:
Baal antigo.
Somente então podemos perguntar onde elas realmente se encontram.
Bael dentro dos 72 Daemons
Na organização tradicional da Ars Goetia:
Número: 1
Nome principal: Bael
Variantes: Baël, Baal, Baall, Beal e outras formas manuscritas
Hierarquia: Rei
Direção: Leste
Legiões: 66
Faculdade central: invisibilidade
Manifestação tradicional: gato, sapo, homem ou combinação dessas formas
Voz: rouca
Fonte principal deste perfil: Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia
Bael inaugura, portanto, o catálogo.
Isso não significa automaticamente que seja:
“o espírito mais poderoso da Goétia”;
“o soberano de todos os 72”;
ou:
“o primeiro demônio criado”.
A Ars Goetia não fornece uma classificação geral dos 72 do mais forte ao mais fraco.
Sua posição número 1 significa:
primeiro na ordem do catálogo.
Qualquer interpretação adicional precisa ser identificada como interpretação.
Onde Bael aparece antes da Ars Goetia?
Uma das fontes fundamentais é:
JOHANN WEYER — PSEUDOMONARCHIA DAEMONUM
Johann Weyer publicou inicialmente De Praestigiis Daemonum em 1563.
Mas existe uma correção cronológica importante.
A Pseudomonarchia Daemonum não pertence à primeira edição de 1563.
Weyer acrescentou o catálogo como apêndice à quinta edição, de 1577. Joseph H. Peterson registra também que Weyer dizia ter utilizado como fonte um material chamado Liber officiorum spirituum, indicando que o catálogo que recebeu já possuía uma história anterior.
Bael aparece imediatamente na primeira posição.
O que Weyer realmente diz sobre Bael?
Na versão latina, Bael é apresentado como:
o primeiro Rei;
ligado ao poder do Leste;
aparecendo com três cabeças;
uma semelhante a um sapo;
outra a um homem;
outra a um gato;
falando com voz rouca;
tornando o homem invisível;
e governando 66 legiões.
Existe ainda um detalhe particularmente interessante.
O latim de Weyer inclui:
“reddit hominem invisibilem & sapientem”
isto é, atribui a Bael tornar o homem:
invisível e sábio.
A tradução inglesa transmitida através de Reginald Scot não preservou essa segunda palavra com a mesma estabilidade; Joseph Peterson a restitui entre colchetes em sua edição comparativa.
Isso já demonstra por que comparar fontes é importante.
Uma única tradução pode alterar aquilo que gerações posteriores acreditam ser:
“o poder original do espírito”.
Bael em Reginald Scot
Em 1584, Reginald Scot publicou:
The Discoverie of Witchcraft.
Seu livro incluiu uma versão inglesa do material demonológico de Weyer.
Peterson identifica a tradução como a principal ponte inglesa entre a Pseudomonarchia e a tradição que mais tarde seria incorporada ao Lemegeton.
Podemos representar uma parte importante da transmissão assim:
Liber Officiorum Spirituum / tradição anterior
↓
Johann Weyer — Pseudomonarchia Daemonum, 1577
↓
Reginald Scot — The Discoverie of Witchcraft, 1584
↓
tradição manuscrita do Lemegeton
↓
Ars Goetia
Bael atravessa toda essa cadeia.
O Bael de Weyer e o Bael da Goétia são idênticos?
São extremamente próximos.
Mas não literalmente idênticos em cada palavra.
Na Ars Goetia preservada por Joseph Peterson a partir do Sloane MS 3825, encontramos:
Bael como primeiro espírito;
Rei governando no Leste;
66 legiões;
voz rouca;
poder de invisibilidade;
formas de gato, sapo e homem.
Mas existe uma diferença visual interessante.
Weyer
Bael possui explicitamente:
três cabeças.
Sapo.
Homem.
Gato.
Ars Goetia — Sloane 3825
Bael aparece em:
formas diferentes.
Às vezes:
gato;
sapo;
homem;
e às vezes:
todas essas formas de uma vez.
A diferença pode parecer pequena.
Mas historicamente importa.
A famosa imagem moderna de um Bael com:
três cabeças claramente separadas
combina mais diretamente com a descrição de Weyer do que com a redação específica do manuscrito-base utilizado por Peterson para a Goétia.
Então Bael possui três cabeças?
Podemos responder:
em Weyer, explicitamente sim.
Na Ars Goetia do Sloane 3825, a descrição é ligeiramente diferente e fala de diferentes formas ou de todas reunidas.
Portanto, num artigo rigoroso, é melhor escrever:
Weyer descreve Bael com três cabeças — sapo, homem e gato. A Ars Goetia preservada em Sloane 3825 reformula a descrição, dizendo que ele aparece como gato, sapo, homem ou todas essas formas ao mesmo tempo.
Essa formulação preserva as duas fontes.
A imagem tríplice de Bael
A combinação:
homem + gato + sapo
tornou-se uma das características mais reconhecidas do espírito.
Podemos tentar interpretá-la simbolicamente.
Mas primeiro devemos registrar:
os grimórios descrevem as formas; não fornecem uma longa explicação psicológica sobre o que cada animal “significa”.
Portanto, qualquer associação como:
gato = independência;
sapo = transformação;
homem = consciência
é:
interpretação moderna.
Pode ser utilizada.
Mas não deve ser colocada na boca de Weyer ou do compilador do Lemegeton.
O poder de invisibilidade
A faculdade mais estável de Bael nas fontes principais é:
INVISIBILIDADE
Weyer atribui a Bael tornar uma pessoa invisível.
Scot transmite essa função.
A Ars Goetia também.
Portanto, este é o atributo com maior estabilidade textual.
Isso é importante porque perfis modernos atribuem a Bael dezenas de outras funções:
riqueza;
proteção;
liderança;
tempestades;
fertilidade;
fogo;
sedução;
autoridade;
vitória;
astrologia.
Algumas podem pertencer a sistemas contemporâneos.
Mas não possuem todas o mesmo nível documental.
O núcleo goético é muito mais específico:
invisibilidade.
O que “invisibilidade” significa na fonte?
Historicamente:
o texto apresenta a faculdade como uma operação mágica.
Não oferece uma explicação psicológica.
Portanto, não devemos afirmar:
“Para os autores da Goétia, invisibilidade significava exclusivamente discrição social.”
Não temos base para isso.
Dentro da lógica interna do grimório, trata-se de uma capacidade atribuída ao espírito.
Uma interpretação simbólica da invisibilidade
Depois de reconhecer o texto histórico, podemos construir uma leitura moderna.
Invisibilidade pode simbolizar:
discrição;
capacidade de agir sem buscar reconhecimento;
proteção da intimidade;
redução da exposição;
capacidade de observar sem tornar-se imediatamente o centro da situação;
controle da própria presença.
Mas esta é:
uma interpretação contemporânea.
No Templo de Lúcifer, consideramos essa distinção essencial.
Primeiro:
o texto diz invisibilidade.
Depois:
nós perguntamos o que invisibilidade pode significar filosoficamente.
O detalhe da sabedoria em Weyer
O latim da Pseudomonarchia contém ainda:
sapientem — sábio.
Isso cria uma possibilidade interpretativa particularmente interessante.
Em Weyer, invisibilidade não aparece necessariamente sozinha.
Bael também está relacionado à:
sabedoria.
No entanto, como a transmissão inglesa e goética não conserva esse atributo da mesma maneira, ele precisa receber peso diferente.
Podemos classificá-lo assim:
Invisibilidade: núcleo textual altamente estável.
Sabedoria: presente explicitamente no latim de Weyer, mas não com a mesma estabilidade nas versões posteriores.
Essa classificação é muito mais informativa do que simplesmente criar uma lista de “poderes”.
Bael é Rei
Bael recebe o título:
Rex — King — Rei.
Na Ars Goetia, “Rei” é uma das principais dignidades da hierarquia dos espíritos.
Outros espíritos também recebem essa posição.
Entre eles:
Paimon;
Beleth;
Purson;
Asmoday;
Balam;
Belial.
Alguns acumulam títulos.
Portanto:
Bael ser Rei não significa que seja o único rei da Goétia.
Também não significa automaticamente que:
“governa todos os outros 71”.
A fonte não estabelece isso.
Bael governa o Leste?
Weyer utiliza uma formulação relacionada ao:
poder do Oriente/Leste.
A Goétia apresenta Bael como:
um Rei governando no Leste.
Esse dado possui base textual.
Mas existe outra cautela.
Em tradições de magia cerimonial aparecem também grandes reis cardeais com nomes como:
Oriens;
Amaymon;
Paymon;
Egyn
ou diferentes variantes, dependendo do sistema.
Não devemos automaticamente concluir:
“Bael e Oriens são o mesmo ser.”
ou:
“Bael é necessariamente o rei cardeal supremo do Leste em todos os grimórios.”
Catálogos diferentes utilizam hierarquias diferentes.
A formulação segura é:
Bael está associado ao Leste na Pseudomonarchia e na Ars Goetia.
As 66 legiões
Outro detalhe extremamente estável:
66 legiões.
Weyer:
Scot:
Goétia:
Esse dado ajuda a demonstrar a continuidade textual entre as versões.
Mas surge uma pergunta:
Quantos espíritos existem numa legião?
A resposta é:
a Goétia não oferece uma regra matemática universal suficientemente segura para converter as 66 legiões de Bael em um número exato de entidades subordinadas.
Existem tradições paralelas que tentam numerar legiões.
Mas não devemos converter automaticamente:
66 legiões
em:
um total numérico de espíritos
como se o texto tivesse fornecido uma planilha demográfica infernal.
No contexto do catálogo, as legiões funcionam principalmente como indicação de:
autoridade e séquito.
O que significa Bael?
Agora precisamos entrar na questão mais complexa.
Bael se aproxima diretamente de:
BAAL
ou:
BAʿAL
A palavra pertence ao universo das línguas semíticas do Noroeste.
Seu sentido básico está relacionado a:
senhor;
mestre;
proprietário.
Além de funcionar como título, Baal passou a designar de maneira particularmente importante o deus da tempestade conhecido como Baal-Hadad em contextos levantinos e ugaríticos. Fontes sobre a religião de Ugarit apresentam Baal/Hadad como divindade associada às tempestades, chuva, fertilidade agrícola e soberania.
Essa é a primeira grande diferença:
Baal antigo pertence à história das religiões do Levante.
Bael goético pertence à demonologia europeia moderna.
Baal não era originalmente “um demônio”
Quando estudamos as fontes religiosas da Antiguidade, Baal não aparece como:
um espírito infernal cristão;
um rei da Goétia;
um demônio sob autoridade de Salomão.
Ele aparece dentro de sistemas religiosos nos quais era:
divindade.
Isso parece óbvio.
Mas é necessário dizer porque séculos de tradição bíblica, cristã e demonológica alteraram profundamente a percepção cultural do nome.
Quando hoje alguém escuta:
“Baal”,
pode imaginar imediatamente:
“demônio”.
Um habitante de Ugarit não estaria utilizando a mesma estrutura religiosa.
Baal era um nome ou um título?
As duas coisas precisam ser distinguidas.
Baʿal podia funcionar como:
título — Senhor.
E diferentes divindades podiam receber construções com Baal.
Mas nos textos de Ugarit, “Baal” também funciona de maneira suficientemente específica para designar a importante divindade da tempestade associada a Hadad.
Por isso, dizer simplesmente:
“Baal nunca foi nome, era só um título.”
também simplifica demais.
A formulação melhor é:
Baʿal significa “senhor” e podia funcionar como título, mas também se tornou uma designação característica do deus da tempestade Baal/Hadad em determinados contextos religiosos levantinos.
Quem era Baal-Hadad?
Na tradição ugarítica, Baal ocupa papel central no chamado:
Ciclo de Baal.
Ele está relacionado a:
tempestade;
chuva;
soberania;
combate;
fertilidade da terra.
Um estudo clássico do material ugarítico identifica explicitamente o Baal do ciclo com Hadad, e a literatura sobre o tema destaca sua função como divindade atmosférica.
Isso ajuda a explicar por que atributos modernos como:
tempestade;
chuva;
fertilidade
podem possuir base histórica quando falamos de:
Baal-Hadad antigo.
Mas não significa que estejam automaticamente escritos no perfil de:
Bael da Ars Goetia.
O grande erro da fusão
Imagine um perfil moderno dizendo:
BAEL
Rei da Goétia
Deus cananeu da tempestade
Elemento fogo
Senhor da fertilidade
Torna invisível
Rege Áries
Planeta Sol
Metal ferro
O leitor recebe tudo como se viesse de uma única fonte.
Mas ali podem estar misturadas pelo menos:
quatro camadas diferentes.
Camada 1 — Religião antiga
Baal/Hadad.
Tempestades.
Chuva.
Fertilidade.
Camada 2 — Demonologia renascentista
Bael.
Rei.
Leste.
Invisibilidade.
66 legiões.
Camada 3 — Ocultismo moderno
Planetas.
Signos.
Metais.
Cartas.
Cores.
Camada 4 — Interpretação contemporânea
Arquétipos.
Psicologia.
Luciferianismo.
Demonolatria.
Todas podem ser interessantes.
Mas precisam possuir:
rótulo.
Podemos provar que Bael é Baal-Hadad?
Não com a simplicidade frequentemente apresentada online.
Temos elementos fortes para investigar uma relação:
o nome;
variantes manuscritas como Baal;
a longa demonização cristã de divindades pagãs;
a presença de outros nomes antigos transformados em tradições demonológicas.
Peterson registra variantes do espírito como:
Baël;
Baal;
Beal;
Baall,
inclusive Baal em outros materiais e em Trithemius.
Isso demonstra que a proximidade de:
Bael
e:
Baal
não é invenção recente.
Mas ainda falta uma cadeia documental dizendo:
“Pegamos especificamente Baal-Hadad de Ugarit e transformamos essa divindade neste espírito com gato, sapo, homem e 66 legiões.”
Essa documentação não existe de forma simples.
Portanto, nossa classificação será:
Bem documentado
Bael/Baal aparecem como variantes do nome dentro da tradição demonológica.
Bem documentado
Baʿal é um termo semítico antigo e designa, entre outros usos, a importante divindade Baal-Hadad.
Historicamente plausível
O nome goético pode refletir a longa recepção e demonização europeia de Baal.
Não demonstrado
Que cada característica do Bael goético derive diretamente do culto antigo de Baal-Hadad.
Essa distinção é fundamental.
Demonização de antigas divindades
A transformação de antigas figuras religiosas em entidades negativas não é um fenômeno exclusivo de Baal.
Quando religiões mudam, divindades de tradições concorrentes podem ser:
reinterpretadas;
ridicularizadas;
subordinadas;
demonizadas.
Isso ocorreu em diferentes contextos históricos.
No universo bíblico, cultos associados a Baal são frequentemente apresentados como:
rivais;
proibidos;
idolátricos.
Na cultura cristã posterior, o nome adquiriu associações cada vez mais demonológicas.
Mas esse processo não significa que exista uma linha perfeitamente reta:
Ugarit → Bíblia → Weyer → Goétia
sem transformações intermediárias.
A história religiosa raramente funciona dessa maneira.
Baal na Bíblia
“Baal” aparece repetidamente nos textos bíblicos dentro de conflitos religiosos entre o culto israelita de Yahweh e cultos considerados concorrentes.
Esses textos tiveram enorme influência sobre a percepção posterior do nome.
Para leitores cristãos durante séculos:
Baal tornou-se associado a:
idolatria;
falsos deuses;
oposição ao Deus bíblico.
Essa memória cultural ajudou a criar condições para que nomes ligados a Baal circulassem posteriormente em:
demonologia.
Mas novamente:
contexto bíblico não é ainda Ars Goetia.
Entre os dois existe uma longa história.
Bael e Beelzebub são a mesma entidade?
Não devemos tratá-los automaticamente como idênticos.
Beelzebub/Beelzebul possui sua própria história textual.
O nome está ligado à figura bíblica de Baal-Zebub, divindade de Ekron mencionada em 2 Reis, e desenvolve-se posteriormente no Novo Testamento como nome ou título associado ao chefe dos demônios.
A própria etimologia de:
Beelzebub;
Beelzebul
é discutida, com propostas relacionadas a “senhor das moscas”, “senhor da morada” ou títulos de senhorio/principado.
Portanto:
Baal → título/divindade antiga
Baal-Zebub/Beelzebub → tradição específica ligada a Ekron e desenvolvimento bíblico posterior
Bael → espírito de Weyer/Goétia
Existem relações culturais e linguísticas.
Não devemos apagar as diferenças.
Bael é Beelzebub?
Determinados sistemas demonológicos e esotéricos posteriores podem aproximá-los.
Mas a Ars Goetia apresenta:
Bael
como espírito específico número 1.
Ela não diz simplesmente:
“Bael é Beelzebub.”
Portanto, qualquer identificação precisa ser acompanhada de:
qual autor?
qual sistema?
qual época?
Sem isso, estamos fundindo tradições.
Bael é Bel?
Outro problema semelhante.
Bel é uma forma relacionada ao acadiano bēlu, “senhor”, e aparece historicamente como título associado especialmente a divindades mesopotâmicas, incluindo Marduk em determinados períodos.
A semelhança entre:
Baal;
Bel;
Bael
possui explicações linguísticas e culturais interessantes.
Mas não autoriza concluir que:
todas essas formas designam uma única entidade eterna e imutável.
Esse tipo de fusão costuma ocorrer em sistemas ocultistas modernos.
Pode existir como:
teologia moderna.
Não deve ser apresentado como consenso da história das religiões.
Bael e Enlil
Algumas listas contemporâneas chegam a identificar:
Bael = Baal = Bel = Enlil.
Essa equação é ainda mais problemática.
Existiram processos históricos de sincretismo no antigo Oriente Próximo.
Mas:
sem fonte específica, não devemos simplesmente transformar diferentes divindades mesopotâmicas e levantinas numa única entidade.
Se determinada tradição moderna faz essa associação, escreveremos:
“Segundo a tradição X…”
Não:
“Historicamente são o mesmo ser.”
O sigilo de Bael
A Ars Goetia associa Bael a um:
caráter ou selo.
Na edição baseada em Sloane 3825, depois da descrição do espírito, o texto determina que seu caráter seja usado como um lamen por aquele que o chama.
Esse símbolo tornou-se:
o sigilo goético de Bael.
Mas existe uma distinção histórica fundamental:
o sigilo não é um símbolo cananeu antigo de Baal-Hadad.
Não foi encontrado numa tabuleta de Ugarit como “selo original de Baal”.
Ele pertence à:
tradição grimorial do Lemegeton.
Weyer apresenta o mesmo sigilo?
A Pseudomonarchia Daemonum transmite o nome, aparência, funções e legiões de Bael, mas não apresenta junto a essa entrada o familiar sigilo que encontramos na Ars Goetia.
Isso significa que:
o catálogo demonológico do nome é anterior à forma goética do selo que hoje o acompanha.
E isso gera uma regra importante para todos os nossos futuros artigos:
a história do nome e a história do sigilo não precisam ser exatamente a mesma.
O sigilo é uma “assinatura espiritual”?
Algumas tradições contemporâneas interpretam os sigilos dessa maneira.
Historicamente, porém, o Lemegeton fala em:
character;
seal;
lamen.
Ou seja:
o símbolo possui função ritual dentro do sistema grimorial.
Dizer que é literalmente:
“a assinatura pessoal deixada por Bael”
já pertence a uma interpretação espiritual específica.
Pode ser uma crença.
Não deve ser confundida com aquilo que a história documental consegue demonstrar.
O Leste como simbolismo moderno
Depois de registrar que Bael está textualmente ligado ao Leste, podemos também perguntar:
o que o Leste representa?
Em muitas culturas e sistemas simbólicos, o Leste é associado a:
nascer do Sol;
começo;
aurora;
manifestação;
início.
É tentador aplicar automaticamente todos esses sentidos a Bael.
Mas novamente precisamos distinguir.
A Ars Goetia não fornece uma longa explicação dizendo:
“Bael governa o Leste porque simboliza o nascer do Sol e novos começos.”
Essa é uma:
interpretação posterior possível.
Não a explicação explícita do grimório.
Bael e o Sol
O artigo anterior atribuía a Bael:
Sol.
Isso aparece em sistemas modernos de correspondências.
Mas não pertence à descrição básica de Weyer ou da Ars Goetia.
A fonte histórica principal diz:
Rei;
Leste;
invisibilidade;
formas;
voz;
66 legiões.
Não:
“planeta Sol”.
Portanto, daqui para frente, quando apresentarmos uma correspondência planetária, ela virá assim:
Correspondência moderna segundo sistema X: Sol.
Nunca simplesmente:
Planeta de Bael: Sol.
sem fonte.
Bael e Áries
O mesmo vale para:
Áries;
0°–4° de Áries;
21–25 de março;
21–30 de março.
Essas correspondências aparecem em sistemas ocultistas modernos que distribuem espíritos por:
decanatos;
graus zodiacais;
anjos;
datas.
Elas não pertencem à descrição do Bael de Weyer.
Também não aparecem na entrada básica do Sloane 3825.
Portanto:
não são “dados originais da Goétia”.
Podem ser incluídas num estudo posterior de correspondências.
Mas precisam de autoria.
Bael e o 2 de Paus
Novamente:
não está na entrada clássica da Pseudomonarchia.
Não está na descrição básica da Ars Goetia.
É:
correspondência esotérica posterior.
O mesmo vale para diferentes cartas de Tarô atribuídas aos 72 espíritos.
Bael e o ferro
Também encontramos modernamente:
ferro;
ouro;
outros metais.
Essas tabelas variam.
Sem identificar:
autor;
sistema;
edição,
não existe motivo para declarar um deles:
“o metal verdadeiro de Bael”.
Bael e a cor preta
Também pertence principalmente a:
sistemas ritualísticos modernos.
Não ao núcleo textual que estamos utilizando.
Bael e a samambaia
Atribuições botânicas semelhantes precisam ser tratadas da mesma maneira.
Pergunta:
Quem associou?
Quando?
Em qual sistema?
Se não conseguimos responder, classificamos como:
correspondência moderna não verificada.
Essa metodologia talvez pareça rígida.
Mas impede que o site transforme tabelas copiadas da internet em:
“tradição antiga”.
Bael e o fogo
Aqui existe um excelente exemplo de fusão.
Baal antigo
Divindade principalmente atmosférica:
tempestade;
chuva;
fertilidade.
Bael goético
Invisibilidade;
rei;
Leste;
66 legiões.
Ocultismo moderno
Pode receber:
fogo;
Sol;
Áries.
Então alguém reúne tudo e escreve:
“Bael é antigo deus do fogo e tempestade.”
O problema:
as fontes não dizem exatamente isso.
O Baal antigo está muito mais claramente ligado a:
tempestade e chuva
do que a uma identidade clássica estável como:
“deus do fogo”.
Assim, se utilizarmos fogo:
será como correspondência moderna.
Bael e fertilidade
Situação semelhante.
Fertilidade possui boa fundamentação quando estamos falando da esfera religiosa de Baal-Hadad, especialmente por sua associação à chuva necessária à agricultura.
Mas a entrada goética de Bael:
não lista fertilidade como seu poder principal.
Portanto:
Baal antigo → fertilidade possui contexto histórico.
Bael goético → fertilidade não pertence ao núcleo da entrada clássica.
Essa diferença precisa permanecer.
Bael e tempestades
Mesma regra.
Tempestade é central para:
Baal-Hadad.
Não para:
a entrada clássica de Bael na Goétia.
Uma corrente que identifica espiritualmente os dois pode transferir essa característica.
Mas isso é:
sincretismo contemporâneo.
A contraparte angelical de Bael
Outro assunto frequente é:
Vehuiah.
Muitos sistemas contemporâneos associam os 72 espíritos goéticos aos:
72 nomes ou anjos do Shem HaMephorash.
Dentro de determinadas tabelas, Bael é colocado em relação com:
Vehuiah.
Mas essa correspondência não aparece na entrada de Weyer.
Nem no núcleo original da descrição goética de Bael.
Ela pertence à:
história posterior das correspondências ocultistas.
Portanto, quando fizermos um estudo completo sobre:
Goétia e Shem HaMephorash,
poderemos aprofundar:
quem organizou;
como;
qual metodologia;
quais variantes.
Aqui basta registrar:
Vehuiah é uma contraparte apresentada por sistemas ocultistas posteriores, não uma informação do catálogo original de Bael.
Bael no ocultismo moderno
Com o crescimento da popularidade da Goétia nos séculos XIX, XX e XXI, Bael passou a receber uma quantidade enorme de novas interpretações.
Entre elas:
liderança;
soberania;
presença;
controle social;
proteção;
sigilo;
conhecimento;
autoridade;
autonomia;
poder pessoal.
Algumas dialogam de maneira interessante com:
o título de Rei;
o poder da invisibilidade;
a associação ao Leste.
Mas continuam sendo:
desenvolvimentos interpretativos.
Bael na Demonolatria contemporânea
Em tradições demonólatras modernas, Bael pode deixar de ser tratado como:
espírito a ser constrangido
e passar a ser compreendido como:
entidade reverenciada;
inteligência espiritual;
divindade;
Daemon.
Isso representa uma mudança radical em relação à cosmologia ritual da Goétia.
A Ars Goetia utiliza uma estrutura de:
conjuração;
autoridade salomônica;
nomes divinos;
constrangimento ritual.
A Demonolatria pode trabalhar com:
respeito;
devoção;
relacionamento.
Não devemos fingir que:
essas duas abordagens sempre foram iguais.
Bael numa perspectiva luciferiana
O mesmo princípio vale para o Luciferianismo.
A Ars Goetia:
não foi originalmente escrita como texto luciferiano.
Entretanto, correntes luciferianas contemporâneas podem reinterpretar Bael dentro de um universo que valoriza:
conhecimento;
autonomia;
soberania;
transformação;
autodomínio.
No Templo de Lúcifer, qualquer aproximação será declarada como:
leitura contemporânea.
A perspectiva do Templo de Lúcifer sobre Bael
Depois de separar todas as camadas históricas, podemos finalmente apresentar nossa própria interpretação.
Para o Templo de Lúcifer, três elementos de Bael são especialmente férteis filosoficamente:
Realeza.
Leste.
Invisibilidade.
Não porque o grimório diga que esses três conceitos formam uma filosofia.
Ele não diz.
Somos nós que os colocamos em relação.
REALEZA — governo de si
Bael é:
Rei.
Uma interpretação superficial de realeza seria:
“controlar outras pessoas.”
Nossa leitura começa em outro lugar:
ser capaz de governar aquilo que pertence à própria esfera de decisão.
Tempo.
Impulsos.
Compromissos.
Informação.
Exposição.
Objetivos.
Um indivíduo que precisa controlar todos ao seu redor porque não consegue administrar a si mesmo pode possuir:
dominação.
Mas não necessariamente:
soberania.
Nesse sentido, a coroa de Bael pode ser lida como:
autogoverno.
LESTE — capacidade de começar
Bael está associado ao:
Leste.
Historicamente, registramos apenas essa associação.
Filosoficamente, podemos relacionar o Leste à:
aurora;
início;
aparecimento.
Isso produz uma pergunta:
O que começa quando finalmente consigo governar minha própria presença?
O Leste deixa de ser apenas direção.
Torna-se:
limiar.
Novamente:
essa é nossa leitura.
INVISIBILIDADE — domínio da exposição
Talvez aqui esteja a interpretação mais interessante.
Vivemos numa época na qual existe pressão constante para:
mostrar;
publicar;
exibir;
opinar;
responder;
ser percebido.
A invisibilidade de Bael pode ser relida como:
direito de não estar permanentemente disponível ao olhar dos outros.
Nem todo plano precisa ser anunciado.
Nem todo conhecimento precisa ser publicado imediatamente.
Nem todo conflito merece resposta.
Nem toda conquista precisa ser exibida.
Existe poder em:
escolher quando aparecer.
Invisibilidade não é covardia
Ocultar-se por medo de existir é uma coisa.
Escolher conscientemente o nível de exposição é outra.
Nossa interpretação de Bael não celebra:
desaparecimento compulsivo.
Celebra:
controle da visibilidade.
Isso possui grande relevância contemporânea.
Privacidade digital.
Segurança.
Estratégia.
Limites.
Discrição.
Uma pessoa soberana decide:
quem precisa saber o quê.
Invisibilidade e segurança
Nesse sentido, o símbolo também possui aplicação particularmente concreta.
Na vida digital:
informação pessoal é recurso.
Exposição possui consequências.
A capacidade de limitar:
dados;
rastros;
informações;
acesso
é uma forma real de:
autonomia.
Não afirmamos que o grimório estava falando de:
segurança digital.
Obviamente não.
Estamos construindo uma interpretação contemporânea a partir do conceito tradicional de invisibilidade.
É exatamente assim que uma releitura transparente deve funcionar.
Invisibilidade e ego
Existe ainda outra pergunta.
Você consegue construir alguma coisa sem precisar que todos vejam que está construindo?
Se não:
talvez exista dependência de reconhecimento.
A invisibilidade simbólica de Bael pode ser utilizada para observar:
necessidade de aprovação;
necessidade de plateia;
necessidade de validação.
O Rei não deixa de ser Rei porque ninguém está olhando.
Essa é uma formulação:
do Templo de Lúcifer.
Não do Lemegeton.
As três formas numa interpretação contemporânea
Podemos também utilizar:
homem;
gato;
sapo
como um exercício simbólico.
Mas deixamos claro:
Lévi, Weyer ou o compilador da Goétia não forneceram a interpretação abaixo.
Homem
Pode representar:
consciência;
linguagem;
razão.
Gato
Pode ser utilizado modernamente como símbolo de:
independência;
observação;
movimento silencioso.
Sapo
Pode representar:
transição;
adaptação;
passagem entre ambientes.
Juntas:
podem sugerir uma inteligência capaz de:
mudar de modo conforme a situação.
Não se mostrar sempre da mesma maneira.
Mas essa leitura é:
construção contemporânea do Templo.
Bael como arquétipo de presença seletiva
Podemos resumir nossa interpretação em uma expressão:
PRESENÇA SELETIVA
Saber:
quando aparecer;
quando observar;
quando falar;
quando permanecer silencioso;
quando revelar;
quando preservar.
Essa leitura nasce do encontro entre:
realeza
e:
invisibilidade.
Poder sem exposição compulsória.
O que não consideramos historicamente demonstrado sobre Bael
Não consideramos demonstrado que:
Bael seja literalmente e sem distinção Baal-Hadad;
Bael seja automaticamente Beelzebub;
Bael seja Enlil;
Bael seja um antigo deus do fogo;
seu planeta original seja o Sol;
seu signo original seja Áries;
o 2 de Paus pertença à entrada clássica;
preto seja sua cor universal;
ferro seja seu metal universal;
samambaia seja sua planta universal;
Vehuiah seja citado como contraparte na Pseudomonarchia;
o sigilo goético tenha sido utilizado no antigo culto cananeu.
Algumas dessas ideias podem existir em:
tradições modernas.
Mas não devem ser apresentadas como se Weyer ou um sacerdote de Ugarit tivessem escrito uma mesma tabela.
O que podemos afirmar com segurança
Fonte antiga levantina
Baʿal significa aproximadamente:
senhor
e aparece como título/designação religiosa; Baal-Hadad ocupa papel importante como divindade da tempestade e chuva em Ugarit e outros contextos levantinos.
Weyer, 1577
Bael é:
primeiro Rei;
relacionado ao Leste;
com três cabeças;
sapo, homem e gato;
voz rouca;
invisibilidade;
sabedoria no latim;
66 legiões.
Scot, 1584
Transmite para o inglês o catálogo baseado em Weyer e participa da linhagem textual que influenciou a Goétia.
Ars Goetia
Bael é:
espírito nº 1;
Rei no Leste;
66 legiões;
voz rouca;
formas de gato, sapo, homem ou combinadas;
poder de invisibilidade;
e recebe um selo/caracter.
Continuidade Baal → Bael
Historicamente:
plausível como processo de recepção e transformação do nome.
Mas não documentada de maneira simples o suficiente para declarar:
identidade absoluta sem ressalvas.
Bael segundo o Método das Seis Camadas da Goétia
Agora podemos aplicar o método criado no hub principal.
Camada 1 — Texto
O que a Ars Goetia diz:
Rei;
Leste;
invisibilidade;
66 legiões;
formas de gato, sapo, homem;
voz rouca;
selo.
Camada 2 — Transmissão
Weyer apresenta:
Bael/Baëll;
três cabeças;
sabedoria além da invisibilidade.
Scot transmite o catálogo.
Manuscritos apresentam variantes como:
Baal;
Beal;
Baall.
Camada 3 — História
Baal possui longa história religiosa anterior.
O nome semítico está relacionado a:
senhorio
e a:
Baal-Hadad.
Mas a exata transformação histórica Baal-Hadad → Bael goético permanece parcialmente reconstruída.
Camada 4 — Correspondências
Sol;
Áries;
Tarô;
metal;
cor;
plantas;
anjos correspondentes
pertencem principalmente a:
sistemas posteriores.
Devem vir sempre acompanhados da fonte.
Camada 5 — Recepção
Demonolatria;
ocultismo;
Satanismo;
Luciferianismo;
cultura popular
reinterpretaram Bael de maneiras diferentes.
Camada 6 — Templo de Lúcifer
Nossa leitura enfatiza:
soberania;
presença seletiva;
autogoverno;
discrição;
domínio consciente da exposição.
Esses conceitos são nossos.
Bael e a cultura popular
Como ocorre com vários espíritos goéticos, Bael também aparece hoje em:
jogos;
animações;
romances;
música;
arte;
conteúdo digital.
Essas representações podem transformar radicalmente:
aparência;
personalidade;
história;
poderes.
Por isso:
personagem inspirado em Bael ≠ fonte histórica sobre Bael.
Cultura popular pode ser objeto de estudo de recepção.
Não deve ser utilizada para reconstruir o grimório.
Mitos e erros comuns sobre Bael
Mito 1 — Bael é comprovadamente o mesmo Baal-Hadad
Não podemos afirmar isso de maneira absoluta.
A relação nominal e cultural é importante, mas a cadeia documental não é simples.
Mito 2 — Bael sempre foi um demônio
Não.
Bael goético pertence à demonologia europeia.
Baal antigo pertence a religiões que o tratavam como divindade.
Mito 3 — Bael é originalmente deus do fogo
Baal-Hadad está principalmente associado a tempestade, chuva e fertilidade.
Fogo pertence sobretudo a correspondências e releituras posteriores.
Mito 4 — Bael possui três cabeças em todas as fontes
Weyer diz explicitamente três cabeças.
O Sloane 3825 utilizado na edição da Goétia de Peterson fala em diferentes formas e todas simultaneamente.
Mito 5 — Bael só concede invisibilidade
Invisibilidade é sua função central e estável.
O latim de Weyer também inclui sabedoria.
Outras atribuições precisam ser avaliadas segundo a fonte.
Mito 6 — O sigilo de Bael vem de Ugarit
Não.
O selo familiar pertence à tradição goética moderna.
Mito 7 — Bael é Beelzebub
Existem aproximações posteriores, mas são figuras com histórias textuais distintas.
Mito 8 — Bael é Enlil
Não existe base para apresentar essa equação como consenso histórico.
Mito 9 — O Sol é o planeta original de Bael
A entrada clássica da Ars Goetia não fornece essa correspondência.
Mito 10 — Áries aparece na Pseudomonarchia
Não.
Essa organização zodiacal pertence a sistemas posteriores.
Mito 11 — Vehuiah aparece como anjo oposto na entrada de Weyer
Não.
Essa correspondência pertence ao desenvolvimento posterior das relações entre Goétia e Shem HaMephorash.
Mito 12 — Ser o número 1 significa ser o espírito mais poderoso
O texto não cria um ranking completo de poder baseado na numeração.
Perguntas frequentes sobre Bael
Quem é Bael?
Bael é o primeiro espírito da Ars Goetia e aparece anteriormente como primeiro rei da Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer.
Qual é o número de Bael na Goétia?
1.
Qual é a hierarquia de Bael?
Rei.
Quantas legiões Bael governa?
66, segundo Weyer e a Ars Goetia.
Qual é o principal poder de Bael?
A faculdade mais estável nas fontes é:
tornar homens invisíveis.
Weyer também associa Bael à sabedoria?
Sim.
O latim da Pseudomonarchia contém sapientem, “sábio”.
Como Bael aparece?
Weyer o descreve com três cabeças:
sapo;
homem;
gato.
A Goétia do Sloane 3825 diz que aparece nessas diferentes formas ou em todas juntas.
Como é a voz de Bael?
Rouca.
Bael governa o Leste?
As fontes principais relacionam sua realeza ao Leste.
Bael e Baal são a mesma coisa?
Existem razões históricas para estudar uma relação entre os nomes, mas não devemos apagar a diferença entre o Baal religioso antigo e o Bael demonológico moderno.
O que significa Baal?
Aproximadamente:
senhor;
mestre;
proprietário.
Baal era um deus?
“Baal” podia funcionar como título, mas tornou-se especialmente associado a uma importante divindade levantina da tempestade, Baal-Hadad.
Bael é Baal-Hadad?
É uma hipótese de continuidade ou transformação plausível, mas não uma identidade documentalmente demonstrada em todos os seus detalhes.
Bael é Beelzebub?
Não automaticamente.
Beelzebub possui outra história textual ligada a Baal-Zebub/Beelzebul.
Bael aparece na Pseudomonarchia Daemonum?
Sim.
É o primeiro espírito da lista.
Em que ano?
A Pseudomonarchia Daemonum foi acrescentada à quinta edição de Weyer em:
1577.
Bael aparece em Reginald Scot?
Sim.
O material de Weyer foi transmitido em inglês em The Discoverie of Witchcraft, de 1584.
O sigilo de Bael aparece em Weyer?
O familiar selo goético não acompanha a entrada de Bael na Pseudomonarchia como ocorre posteriormente no Lemegeton.
Bael é um deus do fogo?
Não devemos apresentar isso como característica histórica universal.
Qual é o planeta de Bael?
A Ars Goetia não fornece um planeta na descrição clássica de Bael. Sistemas posteriores apresentam correspondências diferentes.
Qual é o signo de Bael?
A entrada clássica não apresenta signo zodiacal.
Qual é a carta de Tarô de Bael?
Não existe carta de Tarô na descrição original da Pseudomonarchia ou da Ars Goetia. Correspondências desse tipo são posteriores.
Bael é luciferiano?
A Ars Goetia não é originalmente um texto luciferiano. Bael pode ser reinterpretado dentro de correntes luciferianas contemporâneas.
Qual é o significado de Bael para o Templo de Lúcifer?
Em nossa leitura:
soberania, autogoverno, discrição e controle consciente da própria exposição.
Linha do tempo resumida
| Período | Desenvolvimento |
|---|---|
| Antiguidade | Baʿal funciona como “senhor” e aparece em contextos religiosos levantinos; Baal/Hadad possui destaque como divindade da tempestade |
| Tradição bíblica | Cultos de Baal são apresentados polemicamente como rivais da religião israelita |
| 1508 | Trithemius já cataloga um Liber Officiorum Spirituum, mostrando que materiais relacionados à tradição são anteriores a Weyer |
| 1577 | Weyer acrescenta a Pseudomonarchia Daemonum e coloca Bael como primeiro Rei |
| 1584 | Reginald Scot transmite material baseado em Weyer em inglês |
| Século XVII | A tradição manuscrita do Lemegeton reorganiza e amplia os catálogos anteriores |
| Ars Goetia | Bael torna-se oficialmente a entrada nº 1 do catálogo dos 72 |
| Séculos XIX–XX | Edições e sistemas ocultistas ampliam correspondências e interpretações |
| Atualidade | Demonolatria, Luciferianismo, ocultismo e cultura popular continuam reinterpretando Bael |
Quadro de confiabilidade das principais afirmações
| Afirmação | Classificação |
|---|---|
| Bael é nº 1 da Ars Goetia | Documentado |
| Bael é Rei | Documentado |
| Bael está ligado ao Leste | Documentado |
| Governa 66 legiões | Documentado |
| Concede invisibilidade | Documentado |
| Weyer fala em três cabeças | Documentado |
| Weyer também menciona sabedoria | Documentado |
| Baal significa aproximadamente “senhor” | Bem estabelecido |
| Baal-Hadad é divindade da tempestade | Bem documentado |
| Bael é diretamente Baal-Hadad | Plausível como transformação nominal, mas não demonstrado de forma simples |
| Bael é Beelzebub | Identificação posterior/disputada |
| Bael = Enlil | Não demonstrado como identidade histórica |
| Sol é seu planeta original | Correspondência moderna |
| Áries é seu signo original | Correspondência moderna |
| 2 de Paus é sua carta original | Correspondência moderna |
| Vehuiah é citado por Weyer | Falso |
| Sigilo goético vem do culto cananeu | Não sustentado |
Esse quadro resume exatamente o padrão que utilizaremos nos 72 artigos.
Uma leitura contemporânea: Bael e a soberania daquilo que não precisa ser visto
Existe uma contradição interessante em Bael.
Ele é:
Rei.
Mas sua principal faculdade é:
invisibilidade.
Culturalmente, costumamos associar poder a:
exibição.
Trono.
Coroa.
Reconhecimento.
Plateia.
Bael permite imaginar outro tipo de poder.
O poder de não precisar ser percebido permanentemente para continuar existindo.
No Templo de Lúcifer, chamamos essa possibilidade de:
SOBERANIA DA PRESENÇA
O indivíduo soberano decide:
quando aparecer;
quando falar;
o que revelar;
o que preservar;
quem terá acesso.
Não porque teme o mundo.
Mas porque compreende que:
visibilidade também possui custo.
Essa é uma releitura contemporânea.
Mas nasce diretamente de uma característica textual real:
invisibilidade.
O Rei Invisível
A expressão:
Rei Invisível
não é um título histórico que atribuímos falsamente a Weyer.
É nossa síntese simbólica.
Rei:
governo.
Invisível:
controle da exposição.
Juntos:
governar a própria presença antes de tentar governar o ambiente.
Essa talvez seja uma das maneiras mais produtivas de inserir Bael numa filosofia luciferiana contemporânea sem inventar uma história antiga que as fontes não fornecem.
Bael como primeiro estudo
Existe também uma razão editorial para Bael possuir importância especial nesta biblioteca.
Ele é:
o número 1.
Por isso também será:
o padrão metodológico.
Daqui para frente, nenhum dos 72 deverá receber automaticamente:
origem antiga;
planeta;
signo;
anjo;
Tarô;
metal;
planta;
psicologia
como se tudo viesse da Ars Goetia.
Cada artigo perguntará:
De onde veio?
Se sabemos:
indicamos.
Se é moderno:
dizemos.
Se é nossa interpretação:
assumimos.
Se não sabemos:
não inventamos.
Bael inaugura, portanto, não apenas a lista.
Inaugura:
o método.
Conclusão: Bael é um nome entre dois mundos
Bael ocupa uma posição particularmente fascinante dentro da Demonologia.
De um lado:
um nome que inevitavelmente nos leva ao antigo Oriente Próximo.
Baʿal.
Senhor.
Tempestade.
Chuva.
Baal-Hadad.
Ugarit.
Conflitos religiosos preservados na Bíblia.
De outro:
uma personagem da demonologia europeia.
Bael.
Primeiro Rei.
Leste.
Gato.
Sapo.
Homem.
Voz rouca.
Invisibilidade.
66 legiões.
É extremamente tentador unir tudo e afirmar:
“É a mesma entidade, sem nenhuma transformação.”
Mas pesquisa histórica exige algo mais difícil.
Reconhecer:
continuidade
e:
mudança.
O nome atravessou mundos religiosos.
E quando chegou à demonologia renascentista, já estava inserido em:
outra cosmologia;
outra hierarquia;
outra linguagem;
outra prática.
Talvez tenha carregado consigo a memória de:
senhorio.
Talvez o próprio título antigo tenha ajudado a tornar natural sua transformação em:
Rei.
Essa é uma hipótese atraente.
Mas uma hipótese atraente continua precisando de documentação.
Por isso, no Templo de Lúcifer, não diremos:
“Bael certamente é Baal-Hadad.”
Diremos algo historicamente mais forte:
Bael pertence a uma tradição demonológica na qual formas do nome Baal aparecem de maneira documentada, enquanto Baal possui uma história religiosa muito anterior. A relação entre ambas é real como problema histórico, mas não simples o suficiente para apagar as transformações ocorridas entre elas.
Essa formulação permite enxergar mais.
Não menos.
Também permite preservar aquilo que torna Bael singular dentro da Goétia.
Sua invisibilidade.
Sua realeza.
Sua posição inicial.
Sua multiplicidade de formas.
E, dentro da interpretação deste Templo:
a soberania sobre a própria presença.
O primeiro Daemon da Goétia nos oferece, então, uma primeira lição metodológica.
Antes de perguntar:
“Que poder Bael possui?”
precisamos perguntar:
“Qual Bael?”
O de Weyer?
O de Scot?
O do Lemegeton?
O Baal de Ugarit?
O Bael da Demonolatria moderna?
O Bael de uma corrente luciferiana?
Somente quando identificamos a camada conseguimos responder corretamente.
Essa pergunta acompanhará todos os próximos 71 estudos.
Porque nomes antigos não chegam até nós intactos.
Eles:
mudam;
atravessam idiomas;
entram em conflitos religiosos;
são copiados;
reinterpretados;
demonizados;
recuperados.
Bael é um exemplo perfeito desse processo.
E talvez por isso seja um começo apropriado para toda a biblioteca.
Navegação pela Ars Goetia
Voltar ao hub:
Os 72 Daemons da Ars Goetia: Lista Completa, Hierarquia, História e Guia
Próximo espírito:
Agares — nº 2 da Ars Goetia
Continue seus estudos
Os 72 Daemons da Ars Goetia
Para consultar a lista completa e navegar pelos 72 estudos.
Agares na Ars Goetia
Segundo espírito da sequência e próximo estudo desta biblioteca.
Astaroth na Ars Goetia
Importante para comparar outro caso em que um nome demonológico possui possíveis relações com tradições religiosas mais antigas.
Belial na Ars Goetia
Exemplo particularmente importante de um nome cuja história textual é muito anterior ao Lemegeton.
Baphomet: Origem do Termo
Para compreender por que Baphomet não pertence aos 72 e como um nome pode adquirir significados completamente novos ao longo dos séculos.
Por Onde Estudar Luciferianismo sem Cair em Desinformação
Para conhecer o Método FONTE utilizado na avaliação de afirmações históricas.
Fontes e bibliografia
Lemegeton Clavicula Salomonis — Ars Goetia.
Fonte central para a descrição de Bael como primeiro espírito do catálogo dos 72. A edição digital de Joseph H. Peterson, baseada principalmente no British Library Sloane MS 3825, registra Bael como Rei do Leste, governante de 66 legiões, associado à invisibilidade e às formas de gato, sapo e homem.
Weyer, Johann. — Pseudomonarchia Daemonum. 1577.
Fonte indispensável para a tradição anterior da descrição de Bael. A entrada apresenta explicitamente três cabeças — sapo, homem e gato —, voz rouca, invisibilidade, sabedoria no latim e 66 legiões.
Scot, Reginald. — The Discoverie of Witchcraft. 1584.
Fundamental para compreender a transmissão inglesa do material de Weyer que posteriormente influenciaria a tradição goética.
Peterson, Joseph H. — Lemegeton / Twilit Grotto Esoteric Archives.
Particularmente importante para comparar manuscritos e variantes como Baal, Beal e Baall e para compreender a dependência textual entre Weyer, Scot e o Lemegeton.
Cross, Frank Moore. — Canaanite Myth and Hebrew Epic.
Obra fundamental para compreender o ambiente religioso cananeu e ugarítico e a relação entre a religião israelita e tradições religiosas do Levante.
Estudos sobre o Ciclo de Baal e religião ugarítica.
Fontes acadêmicas sobre os textos de Ras Shamra/Ugarit confirmam o papel de Baal/Hadad dentro da mitologia da tempestade e das relações sazonais e agrícolas.