Baal numero um dos 72 – origem, nome, sigilo, funções e relações
O nome Baal , numero 1, reúne duas camadas históricas muito diferentes. A primeira é a camada do Antigo Oriente Próximo, em que baʿal era um título semítico com o sentido de “senhor”, “dono” ou “mestre”, aplicado a divindades e também usado de modo mais genérico. Nessa esfera, “Baal” se ligou sobretudo ao deus da tempestade e da fertilidade conhecido como Hadad/Baʿal-Hadad, muito importante em contextos cananeus e ugaríticos. A segunda camada é a da demonologia medieval e moderna, em que o nome aparece transformado em Bael ou Baal, já não como divindade levantina, mas como um dos espíritos catalogados em grimórios europeus. Misturar essas duas camadas sem distinção gera muita confusão.

Na religião semítica antiga, Baal não era originalmente um “nome próprio exclusivo”, mas um título honorífico. Com o tempo, esse título passou a designar de forma especial o deus da tempestade associado a Hadad, ligado à chuva, ao trovão, à fertilidade agrícola e ao ciclo da vida. Em Ugarit e em outros contextos levantinos, Baal aparece como um deus guerreiro e atmosférico, associado ao touro, ao trovão e ao poder real. Por isso, as associações modernas com tempestade e fecundidade têm base histórica quando se fala do Baal antigo. Já a associação direta de Baal com fogo, do jeito que aparece em perfis ocultistas contemporâneos, não é uma definição clássica estável do Baal cananeu; ela costuma ser uma releitura esotérica posterior, às vezes por sincretismo com outras correntes mágicas.
A etimologia é uma das partes mais importantes aqui. O termo vem da raiz semítica b-ʿ-l, com o valor de “senhor”, “proprietário”, “mestre”. Em hebraico bíblico, fenício e outras línguas semíticas do noroeste, o vocábulo podia designar tanto um senhor humano quanto um deus local. Isso explica por que existem formas como Baal, Baʿal, e por que, em certas tradições, o termo não aponta para uma entidade única, mas para um título aplicado a diferentes figuras divinas. Na transmissão grega e latina, esse nome foi vertido como Báal / Baal, e mais tarde a tradição grimorial europeia consagrou a forma Bael para o espírito goético.
Na demonologia, a figura que o público costuma chamar de “Baal” aparece com mais precisão como Bael, especialmente no Ars Goetia, a primeira parte do Lemegeton ou Lesser Key of Solomon, compilado na Idade Moderna a partir de materiais mais antigos. Ali ele é descrito como o primeiro espírito principal, um rei que governa no Leste, com poder de tornar homens invisíveis e com comando sobre 66 legiões. O texto também o descreve aparecendo sob formas múltiplas: gato, sapo, homem, ou combinações dessas aparências; em versões posteriores e resumos populares, essa imagem às vezes vira a figura tríplice de cabeças combinadas.
Esse retrato goético está próximo do que aparece em Johann Weyer/Wier, na Pseudomonarchia Daemonum de 1577, um dos grandes catálogos demonológicos do período. A descrição essencial coincide: Bael/Baal é um rei, ligado ao Leste, capaz de conceder invisibilidade, e comandante de 66 legiões. Portanto, quando alguém diz que “Baal é o primeiro rei do submundo” ou “primeiro rei infernal”, essa frase não vem da religião cananeia antiga, mas sim da hierarquia grimorial cristã e renascentista.
O sigilo mostrado acima é o selo tradicional de Bael na linhagem do Ars Goetia, preservado em edições clássicas como a de Mathers/Crowley. Em termos históricos, esse sigilo não é uma relíquia da religião cananeia de Baal-Hadad; ele pertence à gramática ritual dos grimórios solomônicos europeus, em que cada espírito recebe um “caractere”, “selo” ou “lamen” para identificação e constrangimento ritual. Ou seja: o sigilo é demonológico e grimorial, não fenício-cananeu.
Sobre a nomenclatura associada, aparecem várias formas: Bael, Baal, Beal, Baall, Boal e Boall. Essas variantes surgem por cópia manuscrita, transliteração imperfeita, passagem entre latim, francês e inglês, e pela própria instabilidade ortográfica dos grimórios. Em alguns textos, “Beal” é a forma preferida; em outros, “Baal” se aproxima mais do título semítico conhecido pela Bíblia e pela historiografia das religiões. Nem sempre isso significa entidades diferentes; muitas vezes são apenas variantes textuais de uma mesma tradição demonológica.
Há também a questão da relação entre Baal, Bael e Beelzebub. Alguns demonólogos e compiladores sugeriram uma aproximação entre Bael/Baal e Baalzebub/Beelzebub, mas isso não é um consenso histórico simples. “Baal” é um título semítico antigo; “Beelzebub” deriva de uma tradição bíblica e posterior bem específica, com sua própria história textual. A associação entre os dois é comum em leituras demonológicas e polemistas, mas, do ponto de vista histórico-filológico, não se deve tratá-los automaticamente como o mesmo ser sem explicar que se trata de uma identificação posterior e debatida.
Quanto ao que Bael “faz” na demonologia, o traço mais estável é a invisibilidade. Em fontes relacionadas, aparecem acréscimos: algumas variantes dizem que ele pode revelar tesouros; outras lhe atribuem influência sobre favor, ciência ou amor. Esses atributos, porém, não têm todos o mesmo peso textual. O núcleo duro das fontes mais conhecidas é: rei oriental, voz rouca ou áspera, formas híbridas/animais, invisibilidade, 66 legiões. Já as funções ampliadas pertencem a manuscritos correlatos e tradições derivadas.
Então, para que ele é invocado, segundo os grimórios? Em linguagem puramente histórica e descritiva, Bael é invocado nesses textos sobretudo para obter invisibilidade; em tradições aparentadas, também para favorecimento social, acesso a conhecimentos e, em alguns testemunhos textuais secundários, ciências, amor e tesouros. Isso deve ser entendido como parte da literatura mágico-ritual, não como fato demonstrado empiricamente. É uma função textual atribuída ao espírito, dentro da lógica interna dos grimórios.
Sobre as legiões, o número mais famoso é 66, mantido tanto na Pseudomonarchia quanto no Ars Goetia. Mas tradições paralelas e manuscritos associados variam. Em certos ramos do Liber Officiorum Spirituum e materiais afins, aparecem números e subordinações diferentes, inclusive vínculos com os reis cardeais do ar, especialmente o soberano do Leste, chamado Oriens/Orience/Orient. Isso mostra que a demonologia manuscrita não é totalmente fixa: ela é uma tradição em movimento, com adaptações entre cópias, idiomas e escolas mágicas.
A sua frase sobre “comandar o Leste” faz sentido dentro dessa cosmologia grimorial. O Leste é uma direção de autoridade ritual em vários textos de magia cerimonial, e Bael é frequentemente descrito como rei “ruling in the East”. Em certos textos conexos, porém, o próprio Bael aparece subordinado ao grande rei oriental Oriens, o que mostra que “rei do Leste” e “espírito do Leste” nem sempre funcionam do mesmo modo em todos os manuscritos.
Quanto ao tema da fertilidade, ele exige cuidado. A fertilidade pertence com clareza ao Baal antigo, deus da tempestade e da fecundidade agrícola. Já no Bael goético, o atributo central é a invisibilidade, não a fertilidade. Quando perfis esotéricos contemporâneos dizem “Baal: tempestade, fecundidade, fogo”, geralmente estão fundindo o Baal semítico antigo com o Bael da Goetia. Essa fusão pode existir como leitura moderna, mas historicamente são camadas diferentes.
Sobre as entidades associadas, há pelo menos três níveis. Primeiro, o nível histórico-religioso: Hadad, Teshub e outras equivalências regionais do deus da tempestade em contextos do Oriente Próximo. Segundo, o nível bíblico-polêmico: a associação de “Baal” a um culto rival condenado na literatura hebraica. Terceiro, o nível demonológico europeu: Bael como espírito do Ars Goetia, às vezes aproximado por demonólogos de Baal ou até de Beelzebub, ainda que essa identificação não seja uniforme.
Quanto ao chamado “anjo de contraparte”, isso não pertence ao núcleo mais antigo das descrições de Bael. Essa ideia aparece sobretudo em uma tradição esotérica posterior associada a Thomas Rudd e à leitura dos 72 anjos do Shem HaMephorash como contrapontos ou regentes dos 72 espíritos goéticos. Nessa correspondência, o anjo ligado a Bael costuma ser Vehuiah. Mas isso precisa ser dito com precisão: não é uma informação clássica do Baal cananeu nem do texto-base mais antigo sobre Bael; é uma correspondência ocultista posterior, bastante difundida em círculos esotéricos modernos.
Em síntese, a forma mais coerente de entender Baal/Bael é esta: Baal é, em sua origem, um título semítico e o nome pelo qual ficou conhecido um deus levantino da tempestade e da fertilidade; Bael, na demonologia europeia, é um espírito goético que provavelmente herdou o peso simbólico desse nome antigo, mas foi reconfigurado em outra cosmologia, com outras funções, outro imaginário e outro aparato ritual, inclusive o sigilo. Por isso, qualquer estudo sério sobre Baal precisa separar origem religiosa antiga, polêmica bíblica, e demonologia grimorial.
Entre Baal e Bael: a transfiguração de um nome antigo
Há nomes que não atravessam os séculos intactos: atravessam-nos revestidos de temor, de reverência, de deturpação, de culto e de interdito. Baal é um desses nomes. Nas antigas línguas semíticas, seu sentido primeiro remete a senhorio, domínio, posse e soberania; porém, à medida que o mundo antigo cedeu lugar às religiões de estrutura bíblica, patrística e demonológica, esse antigo título foi sendo reinterpretado, deslocado e, por fim, reconfigurado em novas molduras espirituais. O que outrora designava majestade divina em contextos levantinos passou, em muitos círculos posteriores, a ecoar como nome de oposição, de alteridade sagrada e, mais tarde, de entidade grimorial. É nesse processo que emerge, com especial força, a forma Bael, preservada na tradição goética como o primeiro rei entre os espíritos.
A tradição ocultista posterior insiste em lembrar que ele também é conhecido como o Demônio Goético “BAEL”. Essa fórmula, embora simples, encerra uma longa história de metamorfoses simbólicas. No campo estritamente grimorial, Bael aparece como o primeiro espírito da Goétia, investido da dignidade de Rei, senhor de 66 legiões, governante do Leste, e possuidor do poder de conceder invisibilidade àquele que o evoca sob os modos rituais próprios da arte. A sua manifestação, descrita como múltipla e híbrida — ora homem, ora gato, ora sapo, ora a reunião destas formas — já não pertence ao horizonte cananeu antigo, mas ao imaginário demonológico europeu, que revestiu antigos nomes de novas máscaras, novos selos e novas hierarquias.
Importa, porém, que se diga com clareza: entre o Baal histórico e o Bael goético não há uma continuidade simples, reta e documental, mas antes uma sobrevivência transformada. O nome antigo foi herdado; o sentido, porém, foi sendo retrabalhado por séculos de polêmica religiosa, transmissão textual, imaginação ritual e sincretismo esotérico. Assim, quando correntes modernas aproximam Bael de Baal, de Baalzebub, de Beelzebuth e até de Bel, fazem-no muitas vezes em chave espiritual ou simbólica, não necessariamente em chave filológica rigorosa. Essa distinção é essencial, porque protege o leitor tanto do reducionismo acadêmico quanto da fusão indiscriminada de tradições distintas.
No universo esotérico devocional, Bael é muitas vezes descrito não apenas como entidade régia da Goétia, mas como presença solar, ígnea e soberana. Por isso, algumas correntes lhe atribuem correspondências que ultrapassam a letra dos grimórios clássicos e entram no domínio da tradição ocultista moderna. Nesse quadro, ele é associado à posição zodiacal de 0 a 4 graus de Áries, aos dias de 21 a 25 de março, e por extensão ao limiar do ciclo solar ascendente; em versões ampliadas, menciona-se ainda a faixa de 21 a 30 de março como período ampliado de influência. Sua carta é dada como o 2 de Paus — ou “2 de Barras”, em certas formulações —, sua cor ritual é o preto, sua planta é a samambaia, seu planeta é o Sol, seu metal é o ferro, com algumas variantes que indicam também o ouro, e seu elemento é o Fogo. Tudo isso reforça sua imagem como potência de comando, manifestação régia e força de afirmação.
Tais correspondências, entretanto, devem ser lidas como pertencentes ao corpo interpretativo do ocultismo posterior, e não automaticamente ao testemunho histórico mais antigo. O próprio texto do Ally e Goétia apresenta essas atribuições como parte de uma segunda camada descritiva, já inserida num ambiente satanista e sincrético, no qual Bael é aproximado de Beelzebuth, Baalzebub e Enlil, além de receber relações com tarô, astrologia, ervas, metais e planetas. Isso não lhes retira valor dentro da prática esotérica; apenas exige que se reconheça sua natureza: são correspondências rituais e doutrinais, não dados consensuais da história antiga.
É precisamente aí que Bael se torna uma figura fascinante: ele existe num ponto de encontro entre a arqueologia do sagrado e a imaginação ritual do ocultismo. De um lado, há o eco remoto de Baal como senhor da tempestade, da fertilidade, da realeza e do poder atmosférico. De outro, há o Bael goético, já entronizado como Rei, marcado por atribuições próprias da magia cerimonial e interpretado por tradições posteriores como uma inteligência ligada ao fogo, ao comando, à afirmação e ao brilho da autoridade. A associação com Áries e com o Sol, embora não pertença ao núcleo mais antigo da documentação religiosa levantina, intensifica precisamente essa leitura de Bael como potência inaugural: aquele que abre, incendeia, move e impõe presença.
A dignidade de Rei não é mero ornamento honorífico. No vocabulário goético, a realeza designa presença de alta ordem, comando sobre legiões, estabilidade hierárquica e capacidade de ação vasta. O fato de Bael ser posto em primeiro lugar na enumeração dos espíritos não é detalhe sem importância: o primeiro nome de uma lista ritual sempre recebe um peso simbólico especial. Ele inaugura a série, estabelece o tom da hierarquia e se apresenta como portal de ingresso num domínio inteiro de forças e inteligências. Se o antigo Baal significava “Senhor”, o Bael goético, por sua vez, conserva em chave demonológica esse traço fundamental de soberania.
Também sua iconografia múltipla merece leitura mais elevada do que a mera estranheza superficial. As formas compostas — homem, gato, sapo, ou a fusão destas naturezas — sugerem um ser que não cabe numa só aparência, um poder que se exprime por simultaneidade, deslizamento e ambiguidade. No imaginário mágico, aquilo que é régio e invisível raramente se manifesta em simplicidade. A forma híbrida de Bael parece antes anunciar uma soberania sobre planos diversos: o racional, o instintivo, o terreno, o noturno, o fluido. Seu poder de tornar invisível o operador, nesse sentido, não deve ser lido apenas literalmente, mas como símbolo de velamento, ocultação, trânsito e retirada do olhar profano.
Por fim, a grandeza de Bael talvez resida justamente em sua condição de nome transfigurado. Ele não é apenas o vestígio demonizado de um deus antigo, nem somente uma figura dos grimórios; ele é o resultado de séculos de memória fragmentada, temor religioso, adaptação mágica e reinvenção esotérica. No campo da história das religiões, convém separar cuidadosamente o Baal levantino do Bael goético. No campo da tradição ocultista, porém, ambos se tocam como camadas de um mesmo arquétipo de senhorio, fogo, poder atmosférico e majestade ritual. Assim, Bael permanece como figura liminar: ao mesmo tempo herdeiro de um nome antiquíssimo e rei consagrado na demonologia cerimonial.